Dicas de Roteiro

10/04/2015

5 Dicas de Escrita de Tana French

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 13:00
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Oi, pessoal! Depois de quase dois anos de afastamento, estou de volta! Infelizmente, não poderei publicar posts diariamente como antes, mas apenas um ou dois por semana. Entretanto, espero que esses poucos artigos sejam de alguma valia e que sirvam de inspiração.

Essas dicas da romancista Tana French foram tiradas do site Publishers Weekly (originalmente publicadas em 20/julho/2012):

Tana French

Eu ainda estou muito na fase aprendiz da escrita. Eu li em algum lugar que você precisa escrever um milhão de palavras antes que saiba o que está fazendo – então eu estou me dirigindo para lá, mas estou longe de chegar. Mas, se valem algo, aqui estão algumas das coisas que aprendi ao longo do caminho.

1. Está tudo bem em estragar tudo. Para mim, esta foi a grande revelação quando eu estava escrevendo o meu primeiro livro, No Bosque da Memória (In the Woods): Eu poderia fazê-lo errado quantas vezes eu precisasse. Eu vim do teatro, onde você precisa acertar todas as noites, porque aquele público provavelmente nunca vai ver o espetáculo de novo; levei um tempo para perceber que, até que o livro vá para a impressão, é ainda um ensaio, onde você pode tentar tudo o que você precisa experimentar. Se você reescrever um parágrafo cinquenta vezes e quarenta e nove delas são terríveis, tudo bem; você só precisa acertar uma vez.

2. Seu personagem tem sempre razão. Nenhuma pessoa de verdade acha que está sendo estúpida, ou equivocada, ou intolerante, ou má, ou simplesmente errada – então os seus personagens não podem achar isso, tampouco. Se você estiver escrevendo uma cena de um personagem com o qual você discorda em todos os sentidos, você ainda precisa mostrar como esse personagem está completamente justificado em sua própria mente, ou a cena vai dar a impressão de ser sobre as opiniões do autor, em vez de sobre o personagem. Você não pode fazer o julgamento de que seu personagem está errado; deixe os leitores fazerem isso por si mesmos.

3. Não há tal coisa como ‘homens’ ou ‘mulheres’. Há apenas o personagem individual que você está escrevendo. Um cara me mandou um email me perguntando como escrever mulheres, e eu não pude responder, porque eu não tinha ideia de que tipo de mulher que ele quis dizer: eu? Eleanor da Aquitânia? Lady Gaga? Se você está pensando em “homens” ou “mulheres” como um grupo monolítico definido principalmente por seu sexo, então você não está pensando deles como indivíduos; por isso, seu personagem não vai sair como um indivíduo, mas como uma coleção de estereótipos. Claro, existem diferenças entre homens e mulheres, em média – mas você está escrevendo um indivíduo, e não uma média. Se o seu personagem individual é tagarela ao telefone, ou se recusa a pedir informações de ruas, isso precisa ser por causa de quem ele ou ela é, e não por causa do que ele ou ela é. Escreva a pessoa, e não a genitália.

4. Mate a sequência de sonho. O meu marido, que é o meu primeiro leitor e que tem um olho demoníaco para desleixo, diz que uma sequência de sonho é quase sempre, ou uma repetição de algo que já foi feito dentro da ação, ou uma forma preguiçosa de fazer alguma coisa que deveria ser feita dentro da ação. Eu acho que ele me deixou escapar com um sonho em quatro livros. A essa altura, eu simplesmente nos poupo tempo e mato-os antes que ele chegue a eles. Você pode muito bem precisar escrever a sequência de sonho para ajudá-lo em direção a uma compreensão de algo no livro, mas é muito improvável que alguém precise ler.

5. Não tenha medo de ‘disse’. Os escritores às vezes vão à procura de alternativas, porque eles temem que ‘ele disse’ e ‘ela disse’ vai parecer repetitivo se forem usados ​​o tempo todo, mas eu juro, eles não vão. ‘Disse’ é o fechamento de um diálogo padrão; os leitores nem sequer notam-no, o olho apenas desliza sobre ele. Qualquer outra coisa, por outro lado, realmente se destaca. Eu li um livro onde os personagens nunca diziam nada; em vez disso, eles passaram todo o seu tempo grunhindo, e balindo, e silvando, e arrulhando, e rosnando, e chilreando e… Era como um zoológico lá dentro. Depois de um tempo, eu não estava nem assimilando o resto do livro, porque isso era tudo o que eu conseguia ver: os arremates dos diálogos. A menos que o seu personagem esteja realmente fazendo algo específico que se precise apontar – gritar a fala, digamos, ou sussurrá-la – é quase sempre uma boa ideia permanecer com ‘disse’.

No bosque da Memoria - Tana French  Dentro do espelho - Tana French  Porto Inseguro - Tana French  O Passado e um Lugar - Tana French

Observações da tradutora:

– Quanto à dica nº 5, considero-a válida, mas no Brasil costuma-se ensinar exatamente o oposto em livros e cursos de escrita criativa. Vários autores consideram pobre um texto com apenas “ele disse, ela disse” arrematando os diálogos. Creio que o segredo é não exagerar nem de um lado, nem de outro. Ultimamente, eu tenho feito uma experiência de leitura: eu ouço o audiolivro em inglês enquanto acompanho lendo o livro físico ou o ebook da mesma obra traduzida para o português. E acabei me surpreendendo com algumas coisas. O que mais se destacou foi exatamente esse aspecto dos fechamentos de diálogo. Nos livros clássicos, da chamada “Literatura” com L maiúsculo, os autores têm um vocabulário muito rico e variam muito nos verbos, e a tradução costuma ser bem fiel aos originais. Mas quanto aos recentes livros infanto-juvenis, e/ou para jovens adultos, os autores americanos costumam se ater demais ao “Fulano disse, Sicrano disse”, só que os tradutores brasileiros não seguem o original, eles mudam/adaptam os verbos de fechamento de diálogo da obra inteira. Exemplos de verbos utilizados no lugar de “dizer”: ironizar, explicar, sugerir, perguntar, sondar, instigar, contemporizar, interceder, complementar, interromper, apressar, exigir, criticar, se impressionar, se ofender, discordar, concordar, acrescentar, supor, implicar, provocar, entre tantos outros. Comparando os dois, eu acabei preferindo a adaptação brasileira, para mim o texto ficou mais rico e “colorido”. O estilo americano ganha pontos pela simplicidade, pois como a própria autora do artigo explicou, os excessos podem complicar a absorção do texto, mas eu achei que o estilo brasileiro envolve mais o leitor nas emoções dos personagens e no clima da cena em geral. É mais saboroso, se bem usado. Note que não coloquei nos exemplos acima nenhum verbo de reação física, pois a autora já tinha sugerido isso no texto: gritar, sussurrar, gemer, cantarolar, gaguejar, engasgar etc. Enfim, as possibilidades são múltiplas, e cada autor deve refletir bem na melhor solução para cada uma de suas obras.

Uma ótima escrita pra você hoje!

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