Dicas de Roteiro

02/04/2010

Chico Xavier e a Montagem

Filed under: Direção,Documentário,Fotografia,Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 09:55
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Olá! Hoje é um dia especial, dia do lançamento do filme de Daniel Filho, Chico Xavier, este grande homem que hoje completaria 100 anos. Chico foi um raríssimo exemplo de abnegação, humildade e altruísmo. Se o mundo tivesse mais pessoas como ele, certamente este seria um planeta muito diferente, muito melhor.

chicoxavier_1

Eis uma pequena história do livro de Marcel Souto Maior, As Vidas de Chico Xavier:

“Muitos, impressionados com os poderes do protegido de Emmanuel [está referindo-se ao Chico Xavier], chegavam a oferecer dinheiro ao rapaz pobre como prova de gratidão. Ele recusava:

– Ajude o primeiro necessitado que encontrar.

Outros lhe entregavam presentes. Chico se livrava deles com pressa e discrição. Numa noite, ganhou um relógio de ouro suíço. Na tarde seguinte, visitou uma doente, Glória Macedo. Pobre, ela costumava perder a hora de tomar os remédios receitados pelo Dr. Bezerra por falta de relógio. Chico deixou o presente da véspera sobre a mesa da ‘paciente’.”

vidas_chico As lições de Chico Xavier Por Trás do Véu de Ísis Livros de Marcel Souto Maior sobre Chico Xavier

No site do YouTube há o making of do filme, dividido em três partes. Assistam-no, é muito interessante. Os links estão a seguir:

Making of Chico Xavier – Parte 1

Making of Chico Xavier – Parte 2

Making of Chico Xavier – Parte 3

Tem também o site oficial do filme, clique aqui para entrar nele.

Numa cena da primeira parte do making of vemos o elenco reunido para ler o roteiro, e é mostrado um detalhe dele. Eu tirei um screenshot para vocês verem:

Making of _ Chico Xavier

Detalhe do roteiro de Chico Xavier – O Filme

Note que o roteiro é encadernado com espirais, diferentemente dos roteiros americanos. Esta é a versão para filmagem, mas acho que no Brasil até as versões anteriores costumam ser encadernadas deste modo.

Repare também que as cenas são numeradas, uma das características de roteiros de filmagem. E veja que esta é uma cena de montagem.

Uma cena de montagem de um roteiro normal é diferente da que estamos vendo, porque quando o diretor adapta o roteiro para rodá-lo ele precisa dividir uma montagem em mais cenas, de acordo com as locações e com as necessidades da direção. Como escrever uma cena de montagem então?

Denny Martin Flinn explica isso muito bem em seu livro Como Não Escrever Um Roteiro (How Not To Write a Screenplay), editado pela Lone Eagle em 1999. Um excelente livro. Se você lê em inglês e tem a oportunidade de comprá-lo, não hesite. Infelizmente o frete da Amazon.com anda muito caro. A maioria dos meus livros eu comprei quando o dólar e o real estavam páreo a páreo, 1 dólar valendo 1 real. Como os livros americanos são mais baratos do que os brasileiros (mas também costumam ter uma qualidade de papel inferior), custando em média 10 a 15 dólares, eu conseguia comprar uns 15 livros com duzentos reais, frete incluído. Na última vez que visitei o site para pesquisar os preços, 2 livros de 15 dólares (no total, cerca de 60 reais) tinham um frete de 70 dólares (aproximadamente 140 reais!). Duzentos reais para dois livros simplezinhos?! Eu acabei desistindo. É uma pena. Talvez isso se resolva quando eu tiver o meu iPad (suspiro!!) e puder comprar apenas a versão virtual dos livros (que também custam cerca de 10 a 12 dólares cada, mas não há necessidade do frete).

Ai, ai… nono2

Bem, voltando ao assunto, eis o trecho do livro que fala sobre montagem:

How Not To Write a Screenplay

A Montagem

CORTA PARA: Uma série de cortes rápidos envolvendo Rebecca e Michael. Trilha sonora. Michael saindo cedo do escritório, para a inveja de seus colegas. Michael fazendo compras em feiras de rua. Michael cozinhando, queimando seus dedos, bebericando vinho na casa de Rebecca, então cumprimentando Rebecca vestido de avental, com uma bebida na mão tipo Donna Reed. Michael levando Rebecca para o sofá após o jantar. Michael e Rebecca fazendo amor.

Michael e Rebecca deitados nus (ambos usando óculos) na cama, com o jornal e um café, brigando por um dos cadernos do jornal e então se beijando. Michael e Rebecca andando pela costa no conversível Healey, com o oceano como pano de fundo. Tomando um café da manhã tardio na água, andando na praia. Escondendo-se sob o píer para descolar um baseado com os surfistas, dando risadinhas excitadas feito adolescentes. Assistindo o sol mergulhar com um jato de luz sobre a água. Correndo na praia, com Rebecca correndo facilmente e Michael ofegante em seu encalço. Fazendo amor novamente.

Isto soa como um ótimo fim de semana para mim, mas quanto à escrita do roteiro, é muito ruim porque não há nada remotamente original nisto, e porque o leitor se perde quando você apresenta ideias demais juntas. Eu já estava na metade do exemplo acima quando fui perceber que o escritor queria uma montagem. Aqui está um jeito muito melhor de formatar a mesma coisa:

MONTAGEM:

Michael saindo cedo do escritório, para a inveja de seus colegas.

Michael fazendo compras em feiras de rua.

Michael cozinhando, queimando seus dedos.

Bebericando vinho na casa de Rebecca.

Cumprimentando Rebecca vestido de avental, com uma bebida na mão tipo Donna Reed.

Michael levando Rebecca para o sofá após o jantar.

Michael e Rebecca fazendo amor.

— ou —

Uma série de cortes rápidos envolvendo Rebecca e Michael.

…Michael saindo cedo do escritório, para a inveja de seus colegas.

…Michael fazendo compras em feiras de rua.

…Michael cozinhando, queimando seus dedos, bebericando vinho na casa de Rebecca, então cumprimentando Rebecca vestido de avental, com uma bebida na mão tipo Donna Reed.

…Michael levando Rebecca para o sofá após o jantar.

…Michael e Rebecca fazendo amor.

Eu já vi escrita mais genérica, tal como:

UMA SÉRIE DE CORTES RÁPIDOS

indicam que Michael vai para casa cedo, compra mantimentos, cozinha o jantar para Rebecca e, mais tarde, leva-a para o sofá onde fazem amor.

Mas isso é um pouco sovina demais. Talvez um meio-termo seja o melhor, já que esta última versão deixa coisas demais para o diretor imaginar. Apenas tenha em mente que você precisa deixar o leitor saber que se trata de uma montagem de algum tipo.

É isso aí. Até que é simples, não? Ah, antes que eu me esqueça, já saiu um livro contando os bastidores do filme do Chico Xavier. É bem legal, um complemento ao making of, vale a pena, apesar dele ter mais fotos do que texto (eu queria saber mais!!). Puxa, como eu queria ser um mosquitinho para poder ter acompanhado in loco o passo a passo da produção toda deste filme de 11 milhões de reais (parece ser bem caprichada)!

Daniel Filho dirigindo

Daniel Filho dirigindo Chico Xavier – O Filme. Essa energia toda e ele tem 72 anos! Acreditam?!

Agora o mais incrível de tudo: eles levaram cinco anos para escrever o roteiro. 5 ANOS!! Baseado num livro cujo autor já tinha feito a maior parte da pesquisa pesada antes! É claro que o roteirista teve de fazer uma pesquisa por fora, mas… cinco anos, gente! UM roteiro!! Pensem bem, é bastante tempo! Também, dizem que todo mundo sai do cinema aos prantos. Estou doida para assistí-lo! Se vocês o assistirem também, mandem-me as suas opiniões, os seus comentários, vou adorar saber o que acharam (mesmo que tenham odiado, não importa). Só tomem cuidado com spoilers, para não tirar a graça do pessoal que ainda não o assistiu.

fim 

Uma ótima escrita para todos hoje, um ótimo filme, e até amanhã!

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27/03/2010

Escola de Cinema Em 10 Minutos de Robert Rodriguez – Parte 3

Aqui vai a última parte do capítulo do livro Rebel Withou a Crew, de Robert Rodriguez:

Robert Rodriguez

Montando o Seu Filme

Geralmente, ao editar em vídeo você transfere o filme para uma fita digital, ou 1” , e então faz um dub [N.T.: Cópia de um meio eletrônico para outro. Pode ser um som ou uma imagem de vídeo. → Retirado do livro Direção de Cinema – Técnicas e Estética, de Michael Rabiger, Editora Campus; uma excelente fonte de informações para quem quer fazer seu próprio filme] para uma ¾” e faz uma edição off-line. [N.T.: Edição de vídeo manual, não computadorizada]. Mais tarde, você conforma [N.T.: corta o negativo, ou o original na versão final do longa] a fita de 1” usando os números SMPTE correspondentes impressos na fita de vídeo. Isso é ótimo se você for rico, caso contrário, você pode fazer algo como o que eu fiz em Mariachi, mesmo não sendo a melhor opção. Eu simplesmente montei off-line em ¾”, sem números. Eu fiz sem números porque nunca esperei conformar nada. Eu ia direto para o mercado de vídeo, vender a minha fita ¾” editada off-line como fita master [N.T.: fita de onde se originarão todas as demais cópias].

Direção de Cinema

Mas o que isto fará é lhe dar um copião barato de seu filme para mostrar por aí, onde talvez um distribuidor de filmes ou vídeos interessado possa comprar o seu filme e pagar pelos custos de finalização. Veja, isto é diferente do que as faculdades e os livros de cinema lhe ensinariam. Todos eles iriam lhe dizer para pegar os seus rolos de filme de 16mm, editar num copião (work print), conformá-lo, fazer as primeiras cópias (answer prints) e então arranjar exibições para distribuidores, ou mandar as primeiras cópias para festivais. O que não é uma má ideia se você for milionário. Para o resto de nós existem modos mais inteligentes e muito mais baratos de alcançar os mesmos resultados. Fazer uma primeira cópia a partir de um negativo conformado para o Mariachi teria me custado pelo menos outros 20.000 dólares. E o que teria acontecido? Eu teria mostrado ele para um estúdio ou distribuidor e eles teriam-no comprado e pago por uma ampliação para 35mm e mixagem de som estéreo a fim de que os cinemas pudessem exibi-lo. Esse é o trabalho deles. Então por que mostrar a eles uma cópia cara do filme quando você pode mostrar-lhes o filme copiado num vídeo barato? Eles ainda teriam de ampliá-lo para 35mm de qualquer jeito. Deixe-os arcar com os custos; é o trabalho deles fazer isso. Tire vantagem das novas tecnologias, e também repense e questione todos os velhos métodos. Existem maneiras melhores de fazer as coisas e você pode descobri-las.

Algumas pessoas dizem que cortar no próprio filme ao invés de no vídeo ou no computador dá ao cineasta uma relação muito mais íntima com ele por permitir a manipulação manual das imagens, ao invés de apertar botões eletrônicos para montar o seu filme. Se você gosta desta ideia, faça a si mesmo um favor e leve à noite algum filme para casa e afague-o o quanto quiser. Mas quando chegar a hora de montar o seu longa, use um vídeo ou um sistema computadorizado. Em minha opinião, cortar em filme é o modo mais lento e absurdo de se montar um longa. Montar numa droga de sistema de vídeo off-line é mais rápido e isso já é bem incômodo. Quando você está cortando o seu próprio filme, aquele pelo qual você tem vivido e respirado desde sempre, as ideias que você tem ao montá-lo vêm tão rápido que cortar em filme apenas atrasaria aquele impulso – a espera e o tempo consumido lhe matam criativamente. Me mata, de qualquer modo. Eu descobri que editar em vídeo é muito mais condizente com o modo que você pensa, e você pode cortar uma cena quase tão rápido quanto você a vê passando em sua cabeça.

El_mariachi

Eu não mencionei o som. Eu rodei o meu filme mudo, gravando todo o som na locação sem controle, e então sincronizando-o mais tarde à mão. Veja, eles nunca teriam lhe ensinado como fazer isto na faculdade de cinema porque é trabalhoso demais. Eles prefeririam lhe ensinar como fazer isso do modo correto. Que é o modo mais caro. A conclusão é que não existe um modo único de se fazer as coisas. Invente o que quer que funcione para você. Após terminar o Mariachi eu ouvi alguns jovens falando sobre um filme que eles estavam rodando com uma câmera sem som, e apesar deles não terem um Nagra [N.T.: Gravador de som direto mais utilizado no Brasil e no mundo inteiro e que, por ser equipado com motor de quartzo, opera na mesma velocidade da câmera (quando equipada com o mesmo tipo de motor), permitindo o sincronismo total na hora de gravar a imagem e o som → Retirado do livro O Filme Publicitário, de Leighton D. Gage e Cláudio Meyer, Ed. Atlas, 1991. Hoje em dia os mais usados são os gravadores digitais, que são muito mais fáceis de se trabalhar e onde não há perda de qualidade ao se fazer cópias], eles gravaram todo o som digitalmente usando uma câmera Hi-8. Ideia legal. O Hi-8 tem som digital. Eles podem transferi-lo mais tarde e ter um ótimo som. Outros que eu encontrei estavam gravando o som diretamente no disco rígido (HD) de seus computadores e editando-o digitalmente, usando programas de edição de som como o Protools [N.T.: Aqui no Brasil são muito usados o Cubase e o Sonar]. Elabore o seu próprio jeito.

Então por que a maioria dos filmes custa tanto? Um dos motivos principais é que eles levam tempo demais para rodá-los. Existe uma falta de tomada de decisão perante um filme. As pessoas levam cinco meses para rodar alguma coisa que vai durar cerca de uma hora e meia na tela. Na maior parte dos filmes eu não vejo por que alguém precisaria de mais do que catorze dias para rodá-los. Quando você está gastando no mínimo cinquenta mil dólares por dia, pensaria que um diretor consciente dos custos conseguiria o máximo que ele pudesse num dia.

Toda vez que alguém fala sobre rodar filmes, eles não falam a mesma coisa? Eles dizem: “É a espera… a espera.” Todo mundo espera. Eu estou lhe dizendo, esperar é ruim. A espera é sua inimiga. Esperar irá matar a sua criatividade, e irá matar a sua energia.

Então, como você filma rapidamente? Ensaie até que você ache que está bom, rode-o e então esqueça-o. Siga em frente. Tenha em mente que o seu filme será feito de muitas partes, e incutir um monte de detalhes e refilmagens dolorosas de cada pequenino instante é um desperdício de seu tempo e dinheiro. É o efeito geral que você está procurando. Acostume-se com a ideia de que você terá de viver com a primeira ou a segunda tomada, e fazê-la funcionar mais tarde na sala de edição. Se você planejou as suas tomadas cuidadosamente, descobrirá que terá tudo o que precisa quando chegar à fase de montagem. Novamente, siga os seus instintos. A melhor coisa de operar a sua própria câmera é que você sabe quando conseguiu a tomada. Ao olhar através das lentes enquanto a ação está acontecendo, você vê como o seu filme irá aparentar na tela. Você não consegue esta percepção com um monitor de vídeo ou qualquer outra coisa.

Chega de ensinar. Saia daí e faça um filme. Porque eu estou lhe dizendo, Hollywood está pronta para ser tomada. Existem tantas pessoas criativas aí fora se coçando para fazer alguma coisa, mas elas são negativas demais ao pensar que nunca chegarão a lugar algum, ou que o que desejam nunca irá acontecer. Eu sei tudo isso porque eu acreditei na mesma coisa por tempo demais. Então vá em frente com isso e me ligue quando tiver terminado. Você faz o filme e eu levo a pipoca. Até lá… tudo de bom.

Trabalhe duro e seja assustador.

Robert Rodriguez

El mariachi

Acaba aqui o capítulo. A seguir estão mais alguns links interessantes…

Aulas de culinária de Robert Rodriguez:

10 Minute Cooking School – Puerco Pibil

10 Minute Cooking School – Breakfast Tacos

Palestra em que Robert Rodriguez explica porque agora só usa High Definition (e nem liga mais para o fotômetro):

Film is dead – Parte 1

Film is dead – Parte 2

Paródias deste capítulo:

Robert Rodriguez Five Minute Film School

Robbie Rodriguez’s 1-1/2 Minute Film School

E mais o seguinte texto:

Cinco filmes que custaram menos de US$ 100 mil e viraram hits

Espero que tenham gostado. Boa escrita e boas energias para o seu filme. Até!

26/03/2010

Escola de Cinema Em 10 Minutos de Robert Rodriguez – Parte 2

Oi! Voltamos com a continuação do capítulo do livro Rebel Without a Crew, de Robert Rodriguez:

Robert_Rodriguez1

Seja o seu próprio Diretor de Fotografia

Como você começa a rodar um filme? De quais equipamentos você precisa? Eu comecei com uma câmera de 16mm emprestada sobre a qual não sabia nada, mas em poucos minutos eu aprendi tudo o que precisava saber simplesmente fazendo algumas ligações para companhias que lidavam com apetrechos de câmeras usadas.

Escolha a sua arma, seja ela vídeo, 16mm, Super 16, 35mm, Super-8, Hi-8. Nenhuma é melhor do que a outra. Do que se trata o seu projeto e o que você espera alcançar são o que determinarão o que você vai utilizar. Você pode também depender do que está mais facilmente disponível para você. Eu falo com aspirantes a cineasta que desperdiçam tanto tempo perguntando às pessoas com que tipo de câmera ou formato eles deveriam rodar e blá-blá-blá. Pegue a câmera na qual você puder pôr as mãos mais rápido e comece a rodar com ela. Todo o resto irá se encaixar. De outro modo você nunca começará, e este é o passo mais importante para se alcançar qualquer coisa: O primeiro. Então dê esse passo e vá em frente.

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Três modelos diferentes de fotômetros Sekonic

Eu tinha o meu velho e confiável fotômetro Sekonic que havia comprado alguns anos atrás na loja de fotografia onde eu costumava trabalhar. Ele ainda estava em ótima forma. Então, para leituras de luz, tudo o que você faz é determinar a velocidade do seu filme no mostrador. Se estiver filmando em externas, você irá usar um filme para externas com uma ASA baixa, 64 talvez. [N.T.: “ASA = Iniciais de American Standard Association, um organismo americano para estabelecimentos de normas que estudou e, posteriormente, codificou a sensibilidade dos filmes. Os índices de exposição ASA são dispostos em progressão aritmética. Por exemplo: um filme de 100 ASA é duas vezes mais rápido do que um de 50 ASA e quatro vezes mais vagaroso do que um de 400 ASA” → Retirado do livro O Cinema Amador em 10 Lições, de Claude Tarnaud e Guy Fournié, Ed. Hachette, 1976. A sensibilidade do filme também pode chamar-se ISO = International Standards Organization. Os números são iguais, só muda o nome. Geralmente os dois aparecem na embalagem]. Então você marca 64, segura o fotômetro de frente para o rosto do seu ator, e mira o pequeno domo branco em direção à câmera. Agora aperte o botão do fotômetro e leia o número que ele lhe dá. Legal. Agora, rode aquele número nas lentes da íris de sua câmera e você terá o seu Número-f. [N.T.: “Número-f, ou F-stop = Ajuste de abertura. O número é a distância focal da objetiva dividida pelo diâmetro da abertura. Por esse motivo, os maiores Números-f representam os menores tamanhos de abertura.” → Retirado do livro O Novo Manual de Fotografia, de John Hedgecoe, Ed. Senac São Paulo – um excelente livro de fotografia para iniciantes e iniciados]. O que é um Número-f? Quem liga para o que seja um Número-f? Não se preocupe com o Número-f. Eu nunca me preocupei. Apenas faça o que o fotômetro lhe manda; o fotômetro é seu amigo. Apenas pegue aquele número mágico que o fotômetro assopra em seu ouvido e ajuste as lentes naquele número. Bingo! Você acabou de se tornar o seu próprio diretor de fotografia. Parabéns. Coloque o seu nome nos créditos como tal. Eu fiz isso. Se você superexpor um pouco o seu negativo, não se preocupe. Você terá um negativo mais denso, com os tons pretos mais vivos e as cores mais saturadas. Você está salvo.

Links para sites de fotografia com mais detalhes sobre Número-f e Abertura:

Número Guia

Abertura

photoflood photoflood1 Photoflood azul Photoflood reflector 

Exemplos de luminárias e lâmpadas photoflood

Falando em fotômetros, e quanto à iluminação de internas? Eu decidi iluminar todos os meus interiores com práticos bulbos de luz ou photofloods [N.T.: Lâmpadas de facho, para proporcionar iluminação ao fotografar], e usar um filme de velocidade mais alta. Estes são bulbos de luz de tamanhos normais, que se encaixam em bocais de lâmpadas normais, mas eles emitem luz a 3.200º Kelvin, então é registrada como luz branca. Isto dará ao seu filme uma sensação natural, granulada. Por um longo tempo, antes que o conceito de longa-metragem sem orçamento entrasse em prática, aspirantes a cineastas fariam filmes de curta-metragem ou simplesmente trailers para seus roteiros de modo a atrair atenção. Eles despejariam um monte de dinheiro nesses curtas e tentariam fazê-los parecer o máximo possível com um filme hollywoodiano de primeira linha, a fim de mostrar que eles poderiam ser competitivos. Esta não é uma boa ideia. Não importa o quanto eles tentassem, com os seus fundo limitados eles nunca poderiam fazer os seus filmes de demonstração tão bacanas quanto os de Hollywood. Eles iriam ficar parecendo imitações baratas. Então vá para o lado oposto. Por que tentar fazer um filme com aparência bacana quando você não tem nenhum dinheiro? Nem tente. Faça um filme que Hollywood jamais poderia fazer não importa quanto dinheiro eles tenham. Conte uma história que eles jamais arriscariam, ou faça um filme que vá direto na jugular de um jeito que eles nunca fariam porque eles são mainstream demais. Preencha o seu filme com ótimas ideias, que eles não podem igualar não importa quanto dinheiro eles tenham. Eles não podem fazer os seus filmes mais criativos com dinheiro. Apenas mais caros. A pessoa criativa com imaginação ilimitada e sem dinheiro nenhum pode, todas as vezes, fazer um filme melhor do que o magnata sem talento com o talão de cheques ilimitado. Tire vantagem de suas desvantagens, destaque os poucos recursos que você deve ter e trabalhe com mais afinco do que qualquer outra pessoa à sua volta. Quando dada uma oportunidade, entregue excelência, e nunca desista.

OK. De volta à filmagem de seu longa. Segure a câmera e olhe para o seu ator através de suas lentes. Não tem suporte para a câmera? Bom. Não há nada pior do que ter um suporte de câmera decente quando for rodar um filme de baixo orçamento. Porque um suporte de câmera decente não lhe levará a lugar nenhum. Um ótimo apoio de câmera provavelmente irá realizar milagres. Eu não sei, eu nunca usei um. Mas eu sei o que um suporte de câmera decente irá fazer por você: nada. Ele fará você querer prender a câmera, de modo que acabará com um filme de aparência formal que parece morto.

A resposta? Um suporte de câmera de bosta. O que eu tinha em Mariachi não era nem para câmeras de cinema. Era um tripé de câmera fotográfica, um daqueles fracos. Sem cabeça giratória, sem nada. Eu coloquei a minha câmera de cinema nele e ele mal aguentou. O meu quebrou no final das filmagens. Eu usei-o para os close-ups durante as cenas de diálogos. Todas as minhas cenas de diálogos foram rodadas com a câmera imóvel. Você não precisa de um tripé caro para isso. E já que o suporte era tão inútil para fazer panorâmicas ou tilts, isto na verdade me liberou para tirar a câmera do apoio e correr em volta com ela na mão, e filmar em estilo documentário. Isto deu ao filme mais energia.

Então ponha alguma energia em seu filme! Energia é boa, energia acrescenta valor de produção, faz o seu filme parecer mais caro. Você não acredita no número de pessoas, profissionais e não-profissionais, que me disseram o quão caro o meu filme aparentava só porque a câmera estava constantemente se movendo. É claro, eu estava movendo a câmera! Se eu tentasse ficar parado com a câmera e tentasse segurá-la firme com os meus braços, ela ainda iria se mover um pouco enquanto eu respirava. Então se ela vai se mover um pouco de qualquer modo, por que não mover muito? Faça de modo a parecer que você tinha um carrinho (dolly), um Steadicam, ou uma grua, alguma coisa cara.

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Dois carrinhos dollies com câmeras num set de filmagens externo (e com guarda-chuvas!)

Steadicam1 Grua

Steadicam (à esquerda) e grua, ambos equipados com câmera

OK, então você está olhando para o seu ator através de sua câmera. Você não está preso a um suporte, então você está numa ótima posição para conseguir uma ótima tomada porque… o que você vê? Você é o público agora, olhando através das lentes para o ator. Este é o ângulo mais interessante de onde assistir este filme? Mova a câmera e veja como a cena aparenta agora se você se agachar e filmar de um ângulo mais baixo, olhando para cima em direção ao seu ator. Mova mais para perto, você realmente precisa ver a falta de design de produção (N.T.: Também conhecido como Direção de Arte) de sua locação? Mova para mais perto e preencha o quadro com um ator de aparência interessante. O humano interessante irá sempre superar o cenário desinteressante. Como está este ângulo? Está interessante mas não dispersivo demais? Bom. Lembrando novamente, este é apenas um modo de fazer isto. Questione tudo e encontre o que é melhor para você.

Agora, antes de filmar qualquer coisa, você realmente deveria assistir o seu filme na sua cabeça. Exiba-o na sua cabeça, assistindo-o enquanto imagina os atores e os ângulos que você escolheu. Imagine a cena. Veja quais cortes você faria se estivesse montando-o. Você ficaria com um ator o tempo todo, ou você iria cortar no meio da cena para alguma outra coisa? Assista ao filme na sua cabeça; então quando achar que viu algo interessante, pegue um pedaço de papel e faça a sua lista de tomadas. Liste cada tomada que você precisa fazer para a cena funcionar. Não exagere, apenas siga os seus instintos. Num tipo de filme de baixo orçamento, filmado no improviso, os seus instintos são tudo o que você tem, então comece a aprender a confiar neles. Confie nos seus instintos e no seu fotômetro. Eu não era esperto o suficiente para descobrir como fazer tudo o que eu precisava fazer em El Mariachi. Então eu não tive escolha a não ser confiar nos meus instintos, e eles me serviram bem.

Após você ter feito a sua lista de tomadas, leia-a do começo ao fim. Leia as tomadas que você escreveu e assista-as em sua cabeça, como se fosse um filme montado. Você está sentindo falta de quais tomadas? Assista novamente. Quais tomadas você vê no filme que está assistindo em sua cabeça que não estão escritas? Escreva-as. Mantenha essa lista de tomadas à mão porque com ela você pode se concentrar em uma tomada de cada vez. Tudo o que você tem de fazer agora é conseguir cada tomada e cortá-la da lista. Quando a sua lista estiver completamente riscada, você terá terminado. Parabéns.

Nota: Se parecer que eu estou supersimplificando até mesmo estes aspectos de cinematografia, eu não estou! Eu acho que é melhor não concentrar a sua energia em todos os detalhes chatos que não são tão importantes a esta altura de sua carreira. Eu estou lhe dizendo o que você precisa saber para se virar, para que você possa ficar livre para se concentrar no que é realmente importante: o ritmo, os personagens, a história. Ninguém jamais irá ligar para o fato do seu filme ter excelentes Números-f. A história é convincente? Os personagens são interessantes? Quando tudo estiver acabado, estas são as únicas coisas que realmente irão importar. E todo o resto será perdoado.

mariachi

Você deveria aprender todos os aspectos do processo de produção de um filme, não importa em qual área de cinema você pense em entrar. Se você fizer cada trabalho sozinho, terá uma percepção melhor do que realmente quer fazer. Mais tarde, se você estiver dirigindo um filme, saberá as necessidades do engenheiro de som, do operador de câmera etc., porque você já terá feito tudo aquilo antes.

Em um filme que eu estava rodando com uma equipe de cinema, nós estávamos constantemente conseguindo um determinado número de tomadas por um  dia de 12 horas de trabalho. Num dia nós conseguimos setenta e oito tomadas em um dia de 13 horas com uma única câmera. Bem, eu nunca poderia forçar a equipe a conseguir tantas tomadas sentando numa cadeira de diretor e latindo “Mais rápido, mais rápido!” para eles. Eles iriam me mandar cair fora. Mas o que eu fiz foi simplesmente pegar a câmera e começar a rodar a minha lista de tomadas, tão rapidamente quanto eu senti que poderia de modo a conseguir as tomadas corretamente. A minha equipe me viu com a câmera fazendo as tomadas e foram trabalhar bem ao meu lado. Se eu tivesse pedido a eles para fazerem sozinhos, eles teriam me chamado de louco, e partido. O fato de eu estar filmando tornou mais fácil arranjar cooperação e trabalhar em conjunto, porque eles sabiam que se eu podia fazer, eles também podiam. Então, sem qualquer reclamação nem ninguém caindo morto, nós fomos capazes de nos movermos rápido e arranjar tudo rapidamente. Os atores se divertiram muito porque eles estavam constantemente atuando, e nós filmamos tantas cenas naquele dia que eles nunca ficaram presos numa rotina repetindo as mesmas falas cinco tomadas. Eles realmente tiveram que passar correndo por suas cenas, mantendo uma energia e espontaneidade que eles nunca poderiam mostrar se o filme fosse rodado num ritmo mais lento por mais dias de filmagem. A energia teria sido destruída.

Por que quando você vê filmes num cinema hoje em dia eles parecem, na maior parte, grandiosos e sem vida? O motivo é que a energia foi destruída antes mesmo das câmeras rodarem. Ao se mover lentamente, você suga a energia e o ímpeto não só dos atores, mas do filme também. O filme irá durar apenas cerca de uma hora e meia de qualquer modo. Por que levar três meses para filmar algo que irá durar 90 minutos? Quanto mais rápido você se mover, menos o seu filme irá custar. E o ambiente de filmagem será mais condutor de criatividade e imaginação, sem mencionar o fato de que o seu filme terá um nível de energia que uma produção grande, gorda e lenta de Hollywood nunca poderia igualar, não importa quanto dinheiro eles gastem.

Então não pense que para fazer filmes você precisa fazê-los no estilo-Hollywood. O jeito deles é tão lento e caro que você se encontrará caindo no sono no set de filmagem e se esquecendo de dizer “ação”.

Com os avanços na tecnologia cinematográfica, você pode rodar o seu filme inteiramente com a luz disponível, com uns poucos objetos úteis. Foi isso o que eu usei em El Mariachi.

robertrodriguez

A seguir estão os links de mais alguns extras dos DVDs dos filmes do Robert Rodriguez:

15 Minute Flic School – Parte 1 [de Sin City – A Cidade do Pecado (Sin City, 2005)]

15 Minute Flic School – Parte 2

10 Minute Film School – Parte 1 [de Planeta Terror (Planet Terror, 2007)]

10 Minute Film School – Parte 2

E este vídeo a seguir nos leva para dentro do estúdio de Rodriguez. Nada mal para quem começou com El Mariachi, não?

Inside Troublemaker Studios – Parte 1 (legendado em espanhol)

Inside Troublemaker Studios – Parte 2

Por hoje é só. Amanhã teremos a terceira e última parte deste capítulo (que também é a mais curtinha).

Boa escrita (e inspiração para fazer seus filmes!) e até lá! positivo2

25/03/2010

Escola de Cinema Em 10 Minutos de Robert Rodriguez – Parte 1

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Olá, pessoal! Esta é a surpresa, o “doce” que eu havia prometido no último post. Existe um texto em inglês que rola há um certo tempo na Internet com este título. O diretor, roteirista, editor, compositor, cinegrafista, editor de som, cameraman, ator, produtor e… enfim, o orgasmo múltiplo em pessoa, Robert Rodriguez, explica em dez minutos como fazer um filme. Na verdade, esse texto é uma versão resumida de um capítulo do livro Rebel Without a Crew que, infelizmente, não foi publicado em português (eu não entendo o motivo, essas editoras deixam passar cada livro ótimo!). Ele foi editado em 1996 pela Editora Plume, então de lá para cá muita coisa mudou em relação à tecnologia cinematográfica, mas a ideia geral continua válida e atual.

Aviso, antes de mais nada, que esta (como aliás todas as outras deste blog) é uma tradução livre. Não sou tradutora profissional e faço o meu melhor de acordo com minhas limitações linguísticas. No caso deste livro, o autor tem um estilo de escrever um tanto divagante, mais perto da língua falada do que da escrita. Ele gosta de fazer frases muito longas que começam com um assunto e terminam em outro, quase sem vírgulas e pontuação, o que dificulta muito na compreensão do texto. Por isso, eu o adaptei da melhor forma que pude para a nossa língua, quebrando as frases em outras menores quando dava, reformulando a pontuação para o texto ficar mais claro, sempre tentando ser o mais fiel possível ao original. Foi difícil, mas espero que tenha ficado a contento.

P.S.: Descobri posteriormente a causa do estilo de escrita dele: este capítulo é uma transcrição de um trecho da palestra-seminário que ele apresentou há vários anos, chamada “Guerrilla Filmmaking”. Ou seja, o texto realmente vem de uma linguagem falada.

Rebel Without a Crew “Rebelde Sem Uma Equipe – Como Um Cineasta de 23 Anos Tornou-se Um Artista Hollywoodiano”

Eu traduzi o capítulo completo em três partes, porque ele é meio longo. Procurei na Internet e não encontrei nenhuma versão em nossa língua, vocês estão pegando em primeiríssima mão!!

Obs.: Como eu sempre digo quando traduzo algum capítulo de um livro americano, se e quando este livro for editado em nosso idioma, eu retirarei imediatamente estes posts do ar, ok?

Então vamos aprender em 10 minutos a fazer filmes: 😀

robert rodriguez directs

Companheiro Cineasta:

Então você quer ser um cineasta? O primeiro passo para se tornar um cineasta é parar de dizer que você quer ser um cineasta. Eu levei uma eternidade para ser capaz de falar com uma expressão honesta no rosto que eu era um cineasta, até estar bem avançado em minha carreira. Mas a verdade é que eu tenho sido um cineasta já desde o dia em que fechei os meus olhos e me imaginei fazendo filmes. O resto era inevitável. Então, você não quer ser um cineasta, você é um cineasta. Vá fazer um cartão de visita para si. Próximo!

Bem, e em relação a todo o conhecimento técnico básico que você precisa para realmente fazer um filme? Eu acho que algum cineasta famoso disse uma vez que todas as coisas técnicas que você precisa saber para fazer filmes podem ser aprendidas em uma semana. Ele estava sendo generoso.

Você pode aprender isso em dez minutos.

Com a informação a seguir você pode embarcar na elaboração de seus próprios ótimos filmes, tudo por si só, sem uma equipe de filmagem (e, confie em mim, existem benefícios enormes em ser capaz de entrar neste ramo sendo completamente auto-suficiente. Isto assusta as pessoas. Seja assustador).

É bom ser auto-suficiente em um negócio onde as pessoas estão acostumadas a contar com as outras para conseguir que qualquer coisa seja feita. Porque daí percebem que você pode se mandar e fazer o seu próprio ótimo filme sem elas, então elas deixam você fazer do seu jeito. É por isso que você precisa ser educado em todas as áreas de produção. Se não por outro motivo, para que ninguém tire vantagem de você ou lhe dê informações falsas.

Eu sabia muito menos do que isto aqui quando comecei a rodar El Mariachi (Idem, 1992) e me saí bem, então você deve se sair melhor ainda. A maior parte disto eu aprendi de fato enquanto estava filmando. Mas estou lhe entregando isto agora, um presente meu por você ter comprado o meu livro.

Aqui vamos nós…

O Curso de Cinema em 10 Minutos de Robert Rodriguez

A primeira lição nesta escola de pensamento cinematográfico é que não é a sua carteira de dinheiro que faz um filme, não importa o que lhe digam em sua escola ou em Hollywood. Pense nisso. Qualquer macaco pode se esgotar financeiramente ao fazer um filme. A ideia é se esgotar criativamente primeiro.

De qualquer forma, o que é um filme? É simplesmente um empreendimento criativo. Quanto mais criatividade você empregar para resolver os seus problemas, melhor o filme poderá ser. Problemas surgem o tempo todo, não importa o quão grande seja o seu orçamento. Mas em um filme de grande orçamento, um problema surge e, já que os bolsos do estúdio são profundos, o dinheiro é prontamente disponibilizado. Então o problema geralmente não é resolvido criativamente; ao invés disso ele é rapidamente lavado para longe com a mangueira do dinheiro.

Porém, quando você não tem dinheiro e está trabalhando por conta própria as suas habilidades de resolução de problemas são desafiadas, a sua criatividade tem de trabalhar, e você conserta o problema criativamente. E isso pode fazer toda a diferença entre algo novo e diferente e algo industrializado e antiquado.

A coisa mais importante e útil que você precisa para ser um cineasta é de “experiência em filmes”, em oposição a “experiência de filmes” [N.T.: O autor fez um trocadilho entre “experience in movies” e “movie experience”. Esta foi a melhor tradução que encontrei]. Existe uma diferença. Eles sempre lhe dizem na faculdade de cinema e em Hollywood que, para se tornar um cineasta, você precisa arranjar “experiência de filmes” para que você possa trabalhar e ir subindo na hierarquia do negócio. O raciocínio é que, trabalhando em outros filmes, mesmo que seja como um assistente de produção, você consegue ver em primeira mão como os outros fazem filmes. Bem, esse é exatamente o tipo de experiência de que você não precisa. Você não quer aprender como outras pessoas fazem filmes, especialmente filmes hollywoodianos de verdade, porque nove em cada dez dos métodos usados são perdulários e ineficazes. Você não precisa aprender isso!

“Experiência em filmes”, por outro lado, é onde você mesmo arranja uma câmera de vídeo ou outro aparelho de gravação emprestado e grava imagens, para então manipulá-las em algum tipo de ambiente de edição. Não importa se você for usar os velhos sistemas de edição de vídeo ¾’’, VCR para VCR, ou mesmo edição no computador. Qualquer coisa que você possa arranjar. A ideia é experimentar criar as suas próprias imagens ou histórias, não importa o quão brutas elas sejam, e então manipulá-las através da edição.

Eu acho que todo mundo tem mais ou menos uma dúzia de filmes ruins dentro delas; quanto mais cedo você tirá-los de si, em melhor situação você estará. É melhor fazê-los numa plataforma barata como vídeo, deste modo você não se quebra financeiramente após se ensinar. E assim você poderá produzir tanto quanto puder, o mais rapidamente que puder. Não existe nada melhor do que entrar numa rotina criativa. Se você puder começar e terminar um projeto em vídeo em uma semana por ser barato, então faça isso. É melhor do que prolongar a produção de um filme em algo mais caro como 16mm, que você só pode trabalhar em semanas ou meses alternados porque se esgotou financeiramente. A prática de fazer os seus próprios experimentos do seu jeito irá lhe dar a confiança e a experiência necessárias antes de encarar o seu projeto dos sonhos. E se você fizer tudo isso sozinho, ficará ainda mais confiante, porque não há nada que dê uma sensação melhor do que saber que você é completamente auto-suficiente, e que não tem de perder o seu tempo tentando convencer um bando de pessoas a lhe ajudar.

Durante a minha curta experiência na faculdade de cinema eu vi o que acontecia com os alunos que não arranjavam a “experiência em filmes” de que estou falando. Quando alguns de nós entramos no curso de cinema, já tínhamos brincado por aí com câmeras de vídeo emprestadas e editando filmes de curta-metragem inexpressivos. Entretanto, a maioria dos outros estudantes não tinha feito isso. Eles imaginavam que tudo o que precisavam aprender eles aprenderiam com o professor, mas estavam errados. Não existe nenhum modo de você ir para uma aula e esperar aprender todos os aspectos técnicos de se fazer um filme, além de aprender como contar uma história e, mais tarde, montar efetivamente essa história através da edição. Tem muita coisa para se aprender. Você precisa se introduzir nisso sozinho, em seu próprio ritmo, de seu próprio jeito, antecipadamente. Pense nisso como pesquisar e estudar antes do grande teste. Se você entrar um dia na sala para fazer um teste e não tiver feito algum dever de casa ou estudado por conta própria, você vai se dar mal. Por mais que isso faça sentido, muitos estudantes ainda não tinham feito nada. Então, compreensivelmente, eles fizeram os seus primeiros filmes durante a aula e gastaram cerca de 1.000 dólares em seus projetos, já que eram em 16mm, e os projetos saíram capengas porque eles estavam tentando aprender tudo de uma vez. E esperavam que os resultados fossem melhores. Eu falei com alguns desses estudantes que estiveram falando o semestre inteiro sobre o quanto queriam ser diretores. Eles fizeram os seus filmes e estes foram menos do que esperavam. Eles sentiram-se desencorajados. Eles desistiram e disseram: “Eu não quero mais ser um diretor, eu não acho que esta seja a minha praia. O que eu realmente quero fazer é produzir!”.

Está vendo? Em primeiro lugar, é daí que surgem os produtores. Em segundo, eles não teriam ficado tão desencorajados e desistido tão facilmente se tivessem simplesmente continuado. Os meus primeiros 15 ou 20 curtas em vídeo eram ‘inassistíveis’, mas eu aprendi muito com eles e continuei fazendo-os porque eu me divertia mais com o processo do que com o resultado. Em terceiro lugar, quanto mais experiência você se permitir, melhor preparado você estará para o próximo projeto. Se quiser ser uma estrela do rock, você irá para uma escola de rock e esperará sair como Jimi Hendrix após umas poucas aulas curtas? É claro que não. Não seja preguiçoso, você sabe o procedimento. Você tem de se trancar em sua garagem e praticar até que os seus dedos sangrem.

E na verdade é melhor se você aprender a fazer filmes por conta própria, sem treinamento formal – de outro modo os seus filmes serão formais demais. Agora, você pode ouvir o tempo todo que você precisa aprender as regras para que possa quebrá-las. Não se importe com isso. Eu descobri que é mais eficaz ignorar tudo e questionar tudo. Porque tudo isso pode ser repensado e melhorado, e no final das contas as únicas técnicas que vale conhecer são aquelas que você mesmo inventa.

A teoria de que hoje em dia você pode aprender a fazer filmes gravando vídeos caseiros deixa um monte de cineastas nervosos. É claro, porque isto sugere que qualquer pessoa criativa aí fora pode agora mesmo fazer ótimos filmes imaginativos, significando que poderia haver mais competição em um mercado já competitivo. Mas é verdade. E eles deveriam ter medo. Deveriam ter muito medo.

el_mariachi

ESCREVENDO O ROTEIRO

Quando for aprender a escrever roteiros, é melhor começar com material original, ao invés de adaptar o trabalho de outra pessoa. Você também deveria tentar aprender sem pegar um parceiro ou parceiros de escrita. A experiência é muito mais recompensadora e você aprenderá muito mais. É mais assustador, é claro, porque se você fracassar não poderá culpar mais ninguém. Além disso a carga de trabalho é enorme e a única pessoa que tem para lançar ideias é você mesmo. Mas o que você quer é ser tão auto-suficiente quanto possível. Porque não importa quantas pessoas você arraste com você para criar aquela sensação de segurança grupal que você procura ao formar a equipe, em algum ponto tudo dependerá de você e você precisa estar preparado para isto.

Eu acho que o mesmo pode ser aplicado à produção de filmes. Apesar do cinema ser conhecido como uma arte colaborativa, ele não precisa ser. Certamente não há nenhuma regra que diga que tem de ser, e se houver, então sem dúvida, quebre-a. Porque a experiência e o nível de confiança que você vai ter após lidar com o filme sozinho será maior do que qualquer colaboração que você possa conseguir. Como está nos estágios iniciais, você não quer parceiros demais. Se o seu filme for bom, você irá ficar pensando se foram as outras pessoas que o fizeram ser bom; e se for ruim, é fácil demais usar os seus parceiros como bodes expiatórios, e você nunca aprenderá coisa alguma desse jeito.

Se você estiver pensando que talvez ainda precise ir para a faculdade de cinema para aprender um pouco mais… Esqueça a faculdade de cinema! Pegue aqueles 20.000 dólares ou mais que estava planejando gastar na UCLA ou na Faculdade de Cinema da Universidade de Nova York, e ponha-os de volta no seu bolso. Não podem lhe ensinar como contar uma história na faculdade de cinema, e mesmo que pudessem, você não iria querer aprender com eles de qualquer forma. Eles também não lhe ensinarão como fazer um bom filme de baixo orçamento todo sozinho, com muito pouco dinheiro. Ensinam como fazer grandes filmes, com uma equipe grande, para que quando você se formar após gastar 20.000 dólares ou mais em seu diploma, você possa ir para Hollywood e arranjar um emprego puxando cabos no grande filme de alguma outra pessoa.

O maior erro que você pode cometer é tentar fazer um filme de baixo orçamento usando as técnicas de filmes de grande orçamento que lhe são ensinadas na faculdade. Quando você tiver um grande orçamento e muitos equipamentos, descobrirá que uma equipe de cinema vem bem a calhar. Mas até então, eles são peso morto.

A vantagem de filmar no estilo-Mariachi é que nunca haverá nenhum problema de orçamento, porque não há orçamento! Não haverá motins da equipe ou problemas com bufês porque não há equipe e nenhuma comida para alimentá-los!! Não há nenhum problema com equipamento ou luz, porque a quantidade de equipamentos e luzes são mínimas. Mas também você não precisa filmar em estilo-Mariachi para fazer um filme de baixo orçamento altamente criativo. Questione tudo, faça o seu próprio livro de regras e invente os seus próprios métodos. Eu falei com pessoas que estão fazendo os seus próprios filmes sem orçamento, e suas inventividades são inspiradoras. Existe um milhão de modos diferentes de alcançar o mesmo resultado, então descubra o que funciona para você e faça isso.

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Faremos uma pausa aqui. Além deste texto, Robert Rodriguez lançou essa Escola de Cinema em 10 Minutos em vídeo, como extras dos DVDs de seus filmes. Infelizmente estão todos em inglês, sem legendas. A seguir estão metade dos links que encontrei com esses vídeos. A outra metade eu passarei nos próximos posts, junto com o resto do capítulo.

claquete de cinema

P.S.: É muito engraçado os atores mostrando o número da cena com os dedos, pois eles não tinham claquete! Não precisavam chegar a tanto, no curta que fiz num curso de vídeo, nós mostramos a informação da claquete escrita em papel mesmo. Contar nos dedos já é pobreza demais! Também é interessante notar que ele fazia as mudanças de ângulos numa mesma tomada, já prevendo os cortes da edição, economizando deste modo bastante filme.

Divirtam-se com os making ofs!

The Robert Rodriguez 10 Minute Film School – Parte 1 (de El Mariachi)

The Robert Rodriguez 10 Minute Film School – Parte 2

10 More Minutes – Parte 1 [de A Balado do Pistoleiro (Desperado, 1995)]

10 More Minutes – Parte 2

10 Minute Flick School [de Era Uma Vez no México (Once Upon A Time In Mexico, 2003)]

Boa escrita y hasta mañana!

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