Dicas de Roteiro

24/07/2012

Atualização de post e links para artigos de roteiro em português

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:11
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Oi, pessoal! O Gabriel, um colega nosso, nos ajudou tirando uma dúvida que me encafifava há tempos: O que é Leapfrog em roteiro? Bem, a resposta ele encontrou no site Revista Xenite, onde há uma série de artigos interessantes sobre como escrever roteiros. O post onde eu originalmente coloquei esta dúvida foi atualizado, eis o link: https://dicasderoteiro.com/2010/07/11/tipos-de-estrutura-de-roteiro/

LEAPFROG

E aqui vão todos os links da série de artigos “Curso de Estrutura de Roteiros”, do site Revista Xenite:

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiros/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiros-2/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiro-capitulo-3/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiro-capitulo-4/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiros-aprendendo-linguagem-cinematografica-com-xena/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiros-aula-6/

http://www.revistaxenite.com/curso-de-estrutura-de-roteiros-3/

São 7 aulas até o momento, e vale a pena dar uma estudada.

Boa escrita pra você hoje! =)

03/03/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 6

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:00
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Oi, pessoal! Esta é a parte final desta série com a fórmula de escrita criada pelo roteirista Dan Harmon, e publicada originalmente no site Channel 101 Wiki:

Nota: Uma parte deste texto já havia sido publicada no post Estrutura de História – Por Dan Harmon.

Eu terminei o meu último "tutorial" dizendo que, a seguir, nós começaríamos a examinar alguns dos vídeos do Channel 101. Mas se passou tanto tempo desde então, que eu pensei em recomeçar primeiro com uma revisão total – com ênfase no limite de tempo de 5 minutos.

Quando eu falo de "estrutura da história", estou falando de algo muito científico, como a "geometria". A sua história poderia ter uma estrutura "perfeita", na medida em que ela toca em todos os pontos de ressonância almejados pela mente do público, mas isso não irá torná-la uma obra de entretenimento perfeita. Exemplo:

Era uma vez, um homem com sede sentado em um sofá. Ele se levantou do sofá, foi até a cozinha, procurou em sua geladeira, encontrou um refrigerante, bebeu-o, e retornou ao seu sofá, a sede saciada.

Essa foi uma "estrutura de história perfeita". Por outro lado, a história foi uma droga.

Aqui está um exemplo inverso:

Era uma vez, um carro que explodiu. Um Seal da Marinha americana matou um lobisomem. Duas lindas mulheres nuas fizeram sexo uma com a outra, e então um robô atirou na lua com um laser energizado por Jesus. O mundo tornou-se superpovoado por zumbis. Fim.

Um monte de coisas criativas e excitantes acontecendo, mas muito pouca estrutura. Novamente, búu, mas a cena lésbica me deixou com tesão.

O que você quer? Você quer ambos. Você quer ser legal, mas você vai ser mais legal se a estrutura estiver lá. Coisas legais sem estrutura nenhuma são como aquela cena perfeita que você gravou quando esqueceu a tampa na lente. "Acho que você tinha que estar lá." Mostre-me um exército de zumbis, e eu poderia dizer: "zumbis legais", mas eu não vou "estar lá".

Você também quer ter a certeza de que tudo está bem iluminado, e que o áudio está claro, e que a edição está bem-cronometrada, e seria ótimo se você tivesse atores fantásticos, e um maquiador, e um milhão de outros ingredientes. Mas nós não estamos falando de maquiagem agora, ou iluminação, atuação, edição, ou como ter ideias legais. Nós estamos nos focando em um aspecto muito particular de um vídeo: Sua estrutura, a geometria de sua história. Um pouco, ajuda um pouco; muita, ajuda MUITO; não ter nenhuma, pode lhe prejudicar.

Sobre o Channel 101, a coisa que torna muito fácil analisar a estrutura em ação é: O limite de tempo de cinco minutos. Isso são 300 segundos, 75 segundos por quarto de história, 37,5 por etapa. E quais são essas etapas? Turma?

1 – Você
2 – Necessidade
3 – Ir
4 – Procurar
5 – Encontrar
6 – Pegar
7 – Retornar
8 – Mudar

Como eu já disse, a maneira mais fácil de visualizar estes passos é desenhar um círculo, dividindo-o em 4 partes iguais, e escrevendo os números em torno dele no sentido horário, com (1) e (5) nos "polos" norte e sul do círculo, (3) e (7) nos polos leste e oeste.

1. "Você" – quem somos nós? Um esquilo? O sol? Um glóbulo vermelho? Os Estados Unidos? Até o final dos primeiros 37 segundos, nós realmente gostaríamos de saber.

2. "Necessidade" – algo está errado, o mundo está fora de equilíbrio. Esta é a razão pela qual a história vai acontecer. O "você" do (1) é um alcoólatra. Há um corpo morto no chão. Uma gangue de motoqueiros roda pela cidade. Frases de Campbell: Chamado à Aventura, Recusa do Chamado, Ajuda Sobrenatural.

3. "Ir" – Pelo (1) e o (2), o "você" estava em uma determinada situação, e agora essa situação muda. Um andarilho entra na floresta. Pearl Harbor foi bombardeada. Um chefe da máfia entra na terapia. Frase de Campbell: Travessia do Umbral. Frase de Syd Field: Ponto de Virada 1.

4. "Procurar" – adaptar, experimentar, juntar as coisas, ser analisado. Um detetive interroga suspeitos. Um cowboy reúne seu grupo. Uma cheerleader leva um nerd às compras. Frases de Campbell: Barriga da Baleia, Estrada de Provas. Frase de Christopher Vogler: Amigos, Inimigos e Aliados.

5. "Encontrar" – fosse esse o objetivo direto e consciente, ou não, a "necessidade" do (2) está cumprida. Encontramos a princesa. O suspeito dá a localização do laboratório de metanfetamina. O nerd conquista a popularidade. Frase de Campbell: Encontro com a Deusa. Frase de Syd Field: ponto central. Frase de Vogler: Aproximação da Caverna Oculta.

6. "Pegar" – A parte mais difícil (tanto para os personagens quanto para quem tenta descrevê-la). Por um lado, o preço da viagem. O tubarão come o barco. Jesus é crucificado. O bom homem velho tem um derrame. Por outro lado, um objetivo alcançado que nós nunca sequer sabíamos que tínhamos. O tubarão agora tem um tanque de oxigênio em sua boca. Jesus está morto – ah, eu entendi, a carne não importa. O bom homem velho teve um derrame, mas antes de morrer, ele queria que você ficasse com esta fivela de cinto. Agora vá ganhar aquele rodeio. Frases de Campbell: Sintonia com o Pai, Morte e Ressurreição, Apoteose. Frase de Syd Field: ponto de virada 2.

7. "Retornar" – Isso não é uma jornada se você nunca mais voltar. A perseguição de carros. O grande resgate. Voltar para casa, para a sua namorada, com uma rosa. Pular do telhado enquanto o arranha-céu explode. Frases de Campbell: Voo Mágico, Resgate de Dentro, Travessia do Limiar.

8. "Mudar" – O "você" do (1) está no comando de sua situação novamente, mas agora tornou-se alguém que muda situações. A vida nunca mais será a mesma. A Estrela da Morte foi explodida. O casal está apaixonado. O Cinto do Tempo do Dr. Bloom está pronto. Lorraine Bracco entra na selva com Sean Connery para "encontrar algumas daquelas formigas". Frases de Campbell: Senhor de Dois Mundos, Liberdade para Viver.

 

NOVAMENTE, DITO DE OUTRA FORMA: Se supormos que você vai usar os seus 5 minutos inteiros, então você tem 1 minuto e 15 segundos para estes 3 passos:

– Fazer o público se identificar com alguém ou alguma coisa – Dar àquele alguém ou algo algum tipo de necessidade – e começar a mudar as circunstâncias.

Você tem então outro 1:15 minuto para:

– Fazer aquele alguém ou algo lidar com as novas circunstâncias – e encontrar a coisa que era necessária.

Você tem mais 1:15 minuto para:

– Fazer aquele alguém ou algo pagar o preço da descoberta – e começar a voltar para as circunstâncias originais.

E 1:15 minuto final para:

– Mostrar como aquelas circunstâncias originais mudaram, como resultado.

Em TV (incluindo o Channel 101), aquele último quarto é um bom momento para deixar bem claro para o público que você tem uma série em mente. Mais pode acontecer. Como um "transformador de situação", o seu protagonista estará em mais jornadas (episódios), criando uma série viável ou "franquia".

Você quer dar uma louca? Pense em cada uma das 8 etapas como composta por 8 subetapas microcósmicas. Porque o ato de:

(1) Estabelecer um protagonista

poderia ser feito mostrando um cara em um sofá durante 4 segundos, mostrando um close de seu rosto parecendo sedento por 4 segundos, e assim por diante, até você ter gasto 37,5 segundos contando a "história do cara que bebeu um refrigerante". Então você poderia continuar até

(2) Estabelecer uma necessidade

Contando a história de 37,5 segundos do "cara cujo refrigerante acabou por conter veneno":

  • (2,1) O cara [você]
  • (2,2) Faz uma careta [necessidade]
  • (2,3) Começa a examinar a lata de refrigerante [ir]
  • (2,4) Corre o dedo sobre os ingredientes [procurar]
  • (2,5) Descobre "veneno" nos ingredientes [encontrar]
  • (2,6) Sufoca [pegar]
  • (2,7) Cai [retornar]
  • (2,8) Morto [mudar]

Isso tudo está no contexto da etapa 2, mas circulando através de um mini-círculo. Daí você poderia contar a história de 37,5 segundos dele indo para o céu, seguida da história dele procurando por toda parte por Deus, a história dele encontrando Deus, a história de Deus dizendo que ele só pode voltar para a Terra se concordar em ser um cão etc.

Eu não estou recomendando que você se sente aí com uma bússola e uma calculadora, dividindo a sua história até o ponto onde cada fala de diálogo de 4 segundos consista de 8 sílabas e conte a história de uma frase, mas isso é possível, e às vezes "ir lá" pode ajudá-lo a tomar decisões ou se desbloquear.

Por outro lado, você também pode simplesmente fazer isso de um modo mais casual. E se você tiver que gastar uns 11 segundos extras fazendo com que o público ame o seu personagem principal, ao preço de algum tempo das outras seções da história? Então, e se, no mundo de hoje, nós realmente não precisamos gastar uma quantidade proporcional de tempo dizendo "felizes para sempre", à custa de menos caratê? Ninguém vai notar. Um círculo desenhado à mão com confiança, vagamente em forma de ovo, pode ser circular o suficiente.

Você não vai ganhar nenhum prêmio por ser o Phillip Glass da estrutura de história, especialmente se ela começar a comprometer a sua criatividade. Siga a sua felicidade. Se você souber o que fazer, faça. Isso se chama criatividade. Se você não souber o que fazer, DAÍ ouça um cara como eu dizendo o que você TEM que fazer.

Ok, essa é a revisão do meu modelo de história. E aqui estão algumas dúvidas que ele às vezes levanta:

 

DÚVIDAS MAIS FREQUENTES:

Pergunta: Porque as histórias têm de seguir essa estrutura?

Resposta: Não é que as histórias têm de seguir essa estrutura, é que, sem alguma semelhança com esta estrutura, ela não é reconhecida como uma história.

Eu aprendi sobre "iconografia" ao trabalhar com Rob Schrab por vários anos. Em desenhos animados, você tem que desenhar uma certa combinação de linhas antes do público reconhecer universalmente o que você desenhou.

Se eu desenhar um cilindro, posso dizer que é uma banana, mas não posso fazer você pensar em "banana" por conta própria, a menos que eu o faça amarelo, afunile as extremidades e lhe dê alguma curvatura. Para ampliar ainda mais esta metáfora: Às vezes as bananas são verdes na vida real. Se eu fizer um cilindro verde, afunilado e curvado, ele se parece com uma banana? Parece uma pimenta. Você pode bater o pé e gritar que acabou de desenhar uma banana perfeitamente boa, porque ela se parece tanto com uma banana real quanto uma amarela (cineasta estudante), mas eu estou te dizendo, cara, é a porra de uma pimenta, ATÉ você dedicar mais tempo e energia em dar-lhe OUTRAS qualidades reconhecíveis de banana – por exemplo, desenhando-a meio descascada. Ok, agora é uma banana verde. Você fundiu a minha mente.

Da mesma forma, eu estou dizendo que há 8 passos para "desenhar" uma história universalmente reconhecível. Você pode pular algumas delas? Sim. Eu faço isso o tempo todo. A "estrada de provas" de Call me Cobra é um cara sentado à uma mesa. Se eu tivesse uns 30 segundos extras, teria escrito que Steve experimenta diferentes trajes e personas, dizendo "Eu sou a Cobra" em frente a um espelho, antes de decidir por seu terno preto e ir ao seu encontro com a deusa. Mas eu pulei isso. Está implícito. O tempo era necessário em outro lugar.

 

Pergunta: Sim, mas por que um ser humano reconheceria certas coisas como histórias? Quero dizer, com uma banana, nós precisamos saber que é uma banana para que saibamos que podemos comê-la. Nós não "comemos" histórias.

Resposta: Sim, comemos, e a nossa sobrevivência como indivíduos e como comunidades depende de reconhecermos as comestíveis, nutritivas. Informação pode ser "calorias vazias", como uma lista telefônica, ou pode ser simplesmente "venenosa", como um programa de intervalo do Superbowl, um vídeo da Madonna ou imagens de um homem estourando os miolos. Os tipos certos de veneno podem te dar um barato e ajudá-lo a se divertir, mas ele está te dando um barato porque está fodendo com você, ele está te matando, e se ocasionalmente você não comer verdadeiro alimento de história – um jogo dramático de futebol onde o seu time favorito vence, uma conversa significativa com amigos de confiança, um bom livro, um bom filme, um bom programa de TV, testemunhar uma vida sendo salva na piscina pública – você vai murchar e morrer, psicologicamente, espiritualmente e socialmente falando.

 

Pergunta: Mas eu estou enjoado e cansado de histórias pré-moldadas sobre mocinhos salvando o dia contra os bandidos. Alguns dos meus filmes favoritos desafiam o seu modelo de história.

Resposta: Se for realmente o seu filme favorito, eu lhe garanto com certeza que ele está estruturado pelo menos um pouco de acordo com este modelo. Você está ouvindo "mocinhos e bandidos", mas eu não estou dizendo isso. Eu estou dizendo "protagonista descendo e retornando".

O próprio fato de que você ESTÁ cansado de filmes ordinários é a evidência de que vivemos e respiramos essa estrutura. Se você é um anarquista punk rock subversivo com um espeto atravessando o seu nariz, e odeia Shrek porque é um pedaço de merda corporativa, você está ansiando por uma descida rumo ao desconhecido. "Você" está expressando uma "necessidade" de "ir" até uma obscura revista de cinema, "procurar" por algo único, "encontrar" um sangrento filme de terror japonês, "pegá-lo", "retornar" para o seu apartamento com ele, e usá-lo para "mudar" as mentes de seus amigos sobre cinema. E eu acho que você vai descobrir que o seu festival japonês de sangue "favorito" é aquele com um protagonista reconhecível necessitando comer carne humana, indo para uma orgia, comendo todo mundo lá, estuprando uma mulher, matando os policiais e pulando pela janela, antes de dirigir noite adentro.

Schrab tem esse vídeo que nós assistimos o tempo todo: É um vídeo de orientação desenvolvido para ensinar meninas com deficiência mental sobre o seu período menstrual. A protagonista é uma garota retardada. Ela começa a fazer perguntas sobre períodos menstruais. Ela é levada para dentro de um banheiro por sua irmã mais velha, e depois de uma estrada de provas muito desconfortável, as coisas tomam um rumo para o bizarro. Eu não vou entrar em detalhes. Não só a protagonista está indo numa jornada, como o público também.

Eu fiz um grande esforço para evitar qualquer posicionamento ético em minhas observações de estrutura. Histórias não são necessariamente sobre o amor conquistando tudo, elas não são sobre alcançar o equilíbrio espiritual, não são sobre "aprender lições valiosas da vida", e não são sobre manter a ordem. Elas são sobre mudança. Subversão da ordem. Por falar nisso, Shrek não tinha uma estrutura tão boa.

Boa estrutura é a melhor arma que podemos usar na luta contra o lixo corporativo, porque a boa estrutura não custa nada, é instintiva para o indivíduo, e importante para o público. Com todo o seu dinheiro, computadores e atores famosos, a fábrica de Hollywood está constantemente sendo desafiada, e frequentemente sendo enterrada por pessoas como você, pessoas que começaram a perceber que estavam fartas da merda que estavam vendo, e escreveram uma boa história a partir do nível mais profundo de suas mentes inconscientes. Eu estou tentando mostrar-lhe como fazer a sua própria pólvora. Você pode usá-la para fazer belos fogos de artifício, ou pode usá-la para explodir um edifício cheio de bebês inocentes, isso não é comigo.

 

Pergunta: Se este negócio é instintivo, por que ele tem de ser "ensinado?"

Resposta: Porque nós não vivemos mais no mundo real. Nós não estamos em sintonia com os nossos instintos. Os bebês sabem nadar quando nascem, mas alguns adultos afundam como uma pedra até que outro adulto lhes mostre alguns movimentos.

 

Pergunta: Se você é tão incrível, por que não escreveu nada de bom?

Resposta: Isso não é sempre assim? Eu não sou um grande escritor. Sou apenas um cara que tem estado obcecado por estrutura de história pelos últimos sete anos, sem parar. Como eu disse no início, estrutura perfeita não é sinônimo de "bom programa". Isto se trata do que o público reconhece como histórias, e não de como ser um bom escritor.

 

Pergunta: Eu discordo do seu modelo, não acho que todas as histórias são obrigadas a fazer isto ou aquilo.

Resposta: Prove que estou errado. Seria um ótimo exercício. Não tenha um protagonista. Ou tenha um, mas não dê a [ele] uma necessidade. Ou tenha um protagonista com uma necessidade, cujas circunstâncias nunca mudam. Ou tenha um protagonista com uma necessidade entrando numa nova série de circunstâncias, fracassando em  se adaptar e nunca encontrando o que precisava. Ou mande-o fazer tudo, exceto retornar. A primeira lição que você vai aprender é que é muito difícil desafiar ativamente esse modelo história. Assim que você se concentrar e estiver escrevendo algo que está lhe fazendo feliz, você vai perceber com horror que acidentalmente acertou um dos passos da história exatamente no momento certo.

Hero's Journey Cycle

Boa escrita pra você hoje! =)

26/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é a penúltima parte desta série escrita pelo roteirista Dan Harmon, e originalmente publicada no site Channel 101 Wiki:

Tênis Converse

Estrutura de História 5: Como a TV é Diferente

A televisão realmente não é diferente, exceto em um sentido muito prático:

O trabalho de um filme de longa-metragem é te mandar para fora do cinema em euforia, em 90 minutos. O trabalho da TV é manter você colado à televisão por toda a sua vida.

Isto não implica fazer histórias menos circulares (os círculos de TV são tão circulares que às vezes são irritantemente previsíveis). Significa apenas que o foco da etapa (8) é menos agitar-as-coisas e mais botar-as-coisas-de-volta-aonde-começaram.

Os filmes podem se dar ao luxo de explodir a Estrela da Morte no final. Em uma versão-sitcom de Star Wars, todavia, o protagonista seria um recepcionista trabalhando no hangar do quartel general Rebelde. Em uma série dramática, ele seria um piloto de X-Wing constantemente fazendo incursões sobre a Estrela da Morte. Mas note que, tanto na versão de sitcom quanto na versão dramática televisiva de Star Wars, a Estrela da Morte continua. Senão, o programa terminaria.

O episódio piloto de um programa de TV geralmente conta a história de uma pessoa entrando em uma situação nova. Emprego novo, casamento novo, divórcio, acabou de sair da faculdade, adotou uma pessoa negra etc. Eu sou muito ruim de exemplos, porque a única TV que assisto é o programa do qual o meu amigo participa, "Happy Family". No piloto desse programa, marido e esposa baby boomers percebem, pela primeira vez, que não importa quão velhos os seus filhos fiquem, eles nunca deixam de ser seus filhos. A situação "nova" pode ser simples assim, uma percepção, um tema, a coisa sobre a qual é o seu programa.

Em um âmbito mais amplo, um piloto de TV está nos dando (1), (2) e (3), e então, incentivando-nos a sintonizar e assistir (4) pelo resto do tempo. Mas isso é ver a exibição inteira do programa como uma única história. Dentro do âmbito de um episódio individual, piloto ou não, você ainda tem que percorrer um círculo completo:

  1. Eu
  2. noto um pequeno problema,
  3. e tomo uma decisão importante.
  4. Isso muda as coisas
  5. para alguma satisfação, mas
  6. há consequências
  7. que devem ser desfeitas,
  8. e eu devo admitir a inutilidade da mudança.

Desanimador? Sim, mas a alegria da TV está no momento. A TV não está vendendo revolução, está vendendo uma substituição higiênica e relacionável ​​para a sua própria humanidade imunda e invendável. As histórias estão só matando o tempo enquanto as vozes e os rostos se imprimem em seu cérebro através da repetição, e os comerciais fazem o seu trabalho duro, duro.

Mas note como, sendo necessário prender a nossa atenção, eles têm que fazer isso com essa estrutura circular. Se nós não obtemos esse círculo, vamos virar para o próximo canal.

Os personagens devem começar na situação normal, descer para uma nova situação, adaptar-se a ela, tornar-se inatos a ela, pagar o preço e então migrar de volta ao básico, tendo "mudado".

O truque que a TV desempenha é que ela exclui qualquer verdade significativa e, portanto, potencialmente subversiva para a televisão, com a eterna "verdade" básica de que a mudança é desnecessária. "O que você aprendeu hoje, Beaver?" Bem, basicamente, Pai, eu aprendi a nunca fazer nada. "Bom menino."

Não há nada de sinistro nesta intenção, a intenção é apenas para poupar dinheiro em cenários e manter os roteiros relativamente modulares. Você é quem queria uma sociedade capitalista. Bem-vindo às técnicas de narração de histórias por dinheiro, com redução de gastos e maximização de lucros.

É aí que entra o Channel 101. Nós não estamos tão sobrecarregados financeiramente. Nós somos o próximo estágio na evolução do entretenimento.

televisão (1)

Boa escrita pra você hoje! ~O-O~

25/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4C

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:00
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Aqui está o final da quarta parte desta série com a fórmula de escrita criada pelo roteirista Dan Harmon, e tirada do site Channel 101 Wiki.

NOTA:spoilers dos filmes O MÁGICO DE OZ, DURO DE MATAR, ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, e MATRIX.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

7 – “Retorna.” – TRAZENDO-O PARA CASA

Para alguns personagens, isso é tão fácil quanto dar um abraço de despedida no espantalho e acordar. Para outros, este é o lugar onde a equipe de extração finalmente aparece e tira-os dali – o que Campbell chama de "Resgate de Dentro". Em uma anedota sobre ter que mudar um pneu furado na chuva, isto poderia ser o personagem voltando para seu carro.

Para outros, não é tão fácil, razão pela qual Campbell também fala sobre "O Voo Mágico".

Os habitantes das profundezas não podem ter pessoas passeando do lado de fora do porão mais do que as pessoas do andar de cima queriam que você descesse lá em primeiro lugar. Os nativos do mundo consciente e do mundo inconsciente justificam suas ações como quiserem, mas no esquema maior, o objetivo deles é manter os dois mundos separados, o que inclui evitar que as pessoas vejam um deles e vivam para contar sobre isso.

Este é um ótimo lugar para uma perseguição de carros. Ou, em uma história de amor, tendo percebido o que é importante, o herói sai intempestivamente de seu apartamento para a calçada. O avião de sua amada parte para a Antártica em DEZ MINUTOS! John McClane, que na etapa (1) tinha medo de voar, agora enrosca uma mangueira de incêndio ao redor de sua cintura e salta de um edifício explodindo, e então atira numa janela gigante para que ele possa atravessá-la chutando-a com seus pés sangrentos.

Estranhamente, ele vai logo encontrar-se de novo na mesma sala onde a festa de Natal estava sendo realizada.

8 – “Muda.” – SENHOR DE DOIS MUNDOS

Em um filme de ação, você tem um confronto garantido aqui. Em um drama de tribunal, aqui vem o interrogatório perturbador, enfurecido, que acaba com o assassino numa confissão chorosa. Em uma história de amor, o homem atravessa a pista, para o avião que está taxiando, sobe a bordo e diz à sua amada:

"Quando te conheci, eu pensei que você fosse perfeita. E então eu me acostumei a você ser perfeita, e tudo estava perfeito, mas depois eu descobri que você não era perfeita, e nós terminamos, e então eu percebi, eu também não sou perfeito. Ninguém é perfeito, e eu não quero uma pessoa perfeita, eu só quero você. Vamos morar juntos. Eu dormirei no lugar molhado. Você pode manter o seu gato, eu vou tomar remédio de alergia. E quando você estiver com cem anos de idade, eu vou limpar a merda de sua fralda."

E então, é claro, a velha e/ou o negro grandão sentado ao lado do objeto da paixão do protagonista olha para ela, e diz: "Bem, o que você está esperando? Corra para ele!"

Por que essa estranha reação de mulheres velhas e homens negros grandões? Porque o protagonista, em qualquer escala que seja, agora é um ninja-transformador-de-mundo. Ele esteve no lugar estranho, adaptou-se a ele, descobriu o verdadeiro poder e agora ele está de volta aonde começou, mudado para sempre e para sempre capaz de criar mudança. Em uma história de amor, ele é capaz de amar. Em uma história de Kung Fu, ele é capaz de Kung todo o Fu. Em um filme de terror, agora ele pode assassinar o assassino.

Um truque realmente legal é lembrar ao público que o motivo do protagonista ser capaz de tal comportamento é por causa do que aconteceu lá em baixo. Quando em dúvida, olhe para o lado oposto do círculo. Surpresa, surpresa, o oposto de (8) é (4), a estrada de provas, onde o herói estava botando suas coisas em ordem. Lembra-se daquele isqueiro zippo que o mendigo lhe deu? Ele bloqueou a bala! Isso é banal, mas é banal porque já funcionou mil vezes. Agarre-o, desconstrua-o, e crie a sua própria versão. Você não pareceu ter um problema com essa fórmula, quando o cara gago (4) recitou um monólogo perfeito (8) em Shakespeare Apaixonado. É tudo a mesma coisa. Lembra-se daquela tribo de índios loucos, de alívio cômico, com quem fizemos amizade (4) ao chutar o seu maior lutador nas bolas? É agora, no (8), quando estamos quase vencidos pelo bandido, que aqueles filhos da puta loucos cavalgam pela colina e nos salvam. Por que isto não é Deus Ex Machina? Porque nós fizemos por merecer (4).

Todo mundo pensa que Matrix foi um sucesso por causa de novos efeitos especiais americanos combinados com o velho estilo de Hong Kong pirateado. Essas coisas não atrapalharam, mas, para um exemplo do quanto elas valem por si sós, assista a porra da sequência. Admita, ela é uma porcaria. Os escritores de Matrix dizem em entrevistas que eles organizaram esse longa a partir de elementos de seus filmes favoritos. Eles tentaram fazer o filme que sempre quiseram assistir. Ta-rá. Eles se renderam aos seus instintos, ao que eles sabiam que funcionava, e, como resultado, eles fizeram o que os seres humanos fazem instintivamente: Contaram uma história instintivamente satisfatória sobre um cara comum (1) que recebe um telefonema estranho (2) e, ao segui-lo, percebe que a realidade era uma ilusão (3). Ele aprende como as coisas funcionam (4), conversa com o oráculo (5), perde seu mentor (6), volta (7) e salva a porra do dia (8). Não é perfeito, especialmente no terceiro ato, mas tente identificar as etapas em Matrix Reloaded. Arranje uma régua. E uma xícara de café. Vai ser uma ralação longa e árdua.

Em Duro de Matar, tendo matado todos os terroristas – a cada vez largando mais e mais bagagem neurótica, McClane está agora desarmado, quase nu, frente à sua esposa. Há apenas um problema. Hans Gruber, a versão-sombra do inconsciente de John ("Hans" é "John" em alemão?), também está aqui, tendo "seguido-o" até o mundo comum, como as sombras têm propensão a fazer. Ele tem uma arma apontada para a cabeça dela. E ele tem mais um capanga – você sabe, o cara que interpretou "Nick, o Gostosão" em A Última Festa de Solteiro (quem teria imaginado que ele duraria mais tempo?).

Às vezes o Chefe Hogg não para na fronteira do condado. Às vezes o alien entra escondido a bordo de sua cápsula de fuga, ou o T-Rex começa a andar pelos quintais das pessoas. Isto é especialmente passível de acontecer em histórias de vida ou morte mais orientadas para a ação, onde a travessia do limiar na volta foi bruta e descuidada. As coisas podem ficar bagunçadas. Você pode arrastar um pouco mais de caos através do portal do que você queria. Mundos podem colidir. Como Ulysses, voltando para casa para encontrar 50 caras tentando transar com sua esposa, é hora de limpar a casa.

Felizmente, o verdadeiro John passou o tempo de sua história aprendendo novos comportamentos, enquanto o John-Sombra passou seu tempo tentando segurar o seu ego que estava desmoronando. O verdadeiro John aprendeu, em particular, que às vezes o seu melhor ataque é a rendição. Ele virou a esquina com sua submetralhadora de outro mundo, e foi ordenado a largá-la. Agora o John-Sombra, em (8) acha que tem o que era tão desesperadamente necessário para ter o John Real em (1): Controle. Ele tem a esposa de John como uma refém relutante. E, claro, como um bom vilão, Hans nunca sonharia em jogar fora a oportunidade de tripudiar, de modo que ele aponta sua arma para o John.

Mas a submetralhadora de John estava vazia. Ele tinha colocado suas duas últimas balas do mundo inconsciente de volta na sua velha e consciente pistola-pênis de Nova York, a que ele tinha no avião, a que agora está presa em suas costas com… (ruborize) fita adesiva de Natal. Ok, olhe, é um roteiro muito bom até esse ponto. De qualquer forma, John puxa a arma escondida, atira no John-Sombra no seu intransigente coração negro alemão, atira no Nick, o Gostosão na testa, e, no momento em que sua esposa e Hans quase despencam juntos através da janela quebrada, John é capaz de libertar seu amor de uma vez por todas, liberando a fivela do Rolex dado a ela por um yuppy drogado de Los Angeles. O relógio, e Hans, tombam pelo ar, e o ator que interpreta o diretor em Clube dos Cinco diz: "Eu espero que esse não seja um refém"; e assim termina o maior filme de ação do século 20.

Bem, não exatamente. O motorista negro cheio de conversa fiada, adequado, submisso, de alívio cômico, tem que nocautear o hacker de computador negro hiper-inteligente, impróprio, arrogante, tornando a escravidão mais heroica do que o terrorismo, e restabelecendo a segurança para a sociedade caucasiana. Além disso, o policial de Los Angeles, assassino de criança e com medo de usar a arma, tem que atirar para matar o recém-ressuscitado terrorista Louro, reacostumando-se com o fato de que, às vezes, matar o tipo certo de pessoa pode ser um ato de afirmação da vida.

Enquanto isso, o nosso herói trocador de pneu liga seu carro e vai para casa, com uma história para contar à sua esposa.

Uma boa história? Digna de TV ou filmes? Claro que não. Mas a história da troca de pneus usa os mínimos mais básicos. Contraste-a com uma em que, depois do homem dirigir seu carro para o acostamento da estrada, um lobisomem abre a porta e o come. Fim. Agora você tem uma sequência com um lobisomem e uma sem. Qual conta uma história? Não importa o quão legal você ache que lobisomens sejam, você sabe a resposta instintivamente.

Você sabe tudo isso instintivamente. Você é um contador de histórias. Você nasceu assim.

Lobisomem

Boa escrita pra você hoje! (.V.)

22/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4B

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:30
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Aqui está a continuação da quarta parte da estrutura de escrita formulada pelo roteirista Dan Harmon, tirada do site Channel 101 Wiki:

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

5 – “Encontra.” – Encontro com a Deusa

A função da estrada de provas é preparar o seu protagonista para este encontro. Como uma única célula espermatozoide chegando ao óvulo, o seu herói-em-formação acabou de encontrar o que ele estava procurando, mesmo que não seja bem o que ele sabia que estava procurando.

Eu estou usando a frase "encontro com a deusa" porque o Joseph Campbell pensou sobre essas coisas por mais tempo e mais a fundo do que eu. Syd Field chama isso de "o ponto central". Fácil de lembrar. Robert McKee provavelmente o chama de "nexo de inclinação", ou algo assim. Se não me engano, os afro-americanos o chamam de Kwanza.

Não importa como você o chame, este é um ponto de articulação muito, muito especial. Se você olhar para o círculo, verá que eu coloquei a deusa embaixo, bem no centro. Imagine que o seu protagonista começou no topo e tombou por todo o caminho até aqui. Este é o lugar onde a tendência natural do universo de puxar o seu protagonista para baixo tem feito seu trabalho, e por uma quantidade X de tempo, nós experimentamos leveza. Qualquer coisa vai para baixo aqui. Este é um momento de grandes revelações, e de vulnerabilidade total. Se você estiver escrevendo um suspense com um enredo cheio de reviravoltas, faça uma reviravolta aqui, e das maiores.

Reviravolta ou não, este também é outro limiar, em que tudo para além deste ponto terá um sentido diferente (ou seja, PARA CIMA), mas note que o indivíduo não é arrastado, chutando e gritando através dessas cortinas. Ele paira aqui. Ele fará uma escolha, e então ascenderá.

Imagine que você está em pé num cais (1). Você vê um brilho dentro d’água e se pergunta o que é (2). Ao se inclinar para ver, você cai do cais (3). Você afunda cada vez mais (4) até chegar ao chão do lago e ver o que estava captando os raios do sol.

(5) É um crânio humano.
(5) É um colar.
(5) É uma pequenina nave espacial antiga.
(5) É uma moeda. Patrimônio líquido: 25 centavos.

Poderia ser qualquer coisa, boa ou ruim. Muitas vezes, é uma dose saudável de ambas. Em uma história de detetive durão, ou numa aventura de James Bond, este poderia ser um "encontro" mais literal e íntimo, se você entende o que quero dizer, com uma poderosa e misteriosa personagem do sexo feminino. Este é um ótimo momento para o sexo, ou para dar uns amassos na garota gostosa, especialmente se o seu protagonista kung-fuzou todo mundo que ele encontrou na última meia hora (ou, no caso do Channel 101, nos últimos 60 segundos).

Mas a deusa não tem que ser uma femme fatale ou uma donzela angelical. Em um jogo totalmente masculino ou totalmente feminino que se realiza em torno de uma mesa de pôquer, a "deusa" poderia ser a confissão de um personagem de que ele perdeu seu emprego. A deusa pode ser um gesto, uma ideia, uma arma, um diamante, um destino, ou apenas um momento de liberdade daquele monstro que não vai parar de perseguir você.

Em Duro de Matar, John McClane, depois de ter corrido sobre vidro quebrado, está sentado em um banheiro, lavando seus pés sangrentos na pia. É nesse momento que ele finalmente percebe a verdadeira extensão de seu amor por sua esposa, e o que ele está fazendo de errado em seu casamento. Ele (1) tem sido teimoso demais (2). Ele usa seu walkie-talkie, adquirido na etapa (4), para mandar uma mensagem para sua esposa através de seu interlocutor benevolente, bem casado e que odeia tiros: "Ela já me ouviu dizer ‘eu te amo’ umas mil vezes… mas nunca me ouviu dizer que sinto muito."

Não é suficiente picar e retalhar para abrir seu caminho através de símbolo após símbolo neurótico. O picar e o retalhar era um processo, esse processo terminou, mesmo que apenas temporariamente, e chegamos a uma segunda grande reviravolta.

A definição de "grande", é claro, tem relação com o diâmetro do seu círculo. O nosso motorista encalhado e encharcado de chuva acabou de esvaziar o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada. Ele vê o estepe e solta um som muito leve e muito rápido de alívio. Isto é tudo. Esta é uma história sobre um homem mudando um pneu. Essa é toda a deusa de que precisamos.

Você deve ter notado que, assim como (3), a travessia do limiar, é o oposto de (7), o retorno, (5), o encontro com a deusa, é o oposto de (1), a zona de conforto do protagonista. Pense em (1) como sendo os braços da mãe, por mais disfuncional que ela possa ser. (5) é uma nova forma de mãe, uma versão inconsciente, e frequentemente há a tentação de ficar bem aqui. Como na casa daquele elfo em O Senhor dos Anéis.

Isto é muito, muito importante. O movimento para além de (5) torna-se a vontade do protagonista. A água onde as sereias cantavam a sua canção sedutora estava repleta de navios naufragados. A deusa pode ser a ruína, ou a pacificação permanente, dos não-heróis. Está tudo muito bem e tranquilo para o James Bond mergulhar seu biscoito, mas ele não pode ficar por aqui o dia todo. A Electropussy poderia matá-lo com seu batom lança-chamas, ou algo assim.

Em (1), nós estávamos nos braços da mãe, mas fomos removidos por (2), o puxão do pai. A necessidade, a saudade, a falta de conclusão, seja vinda de dentro ou de fora, chamou-nos para (3), e nós fomos puxados através de um limiar, para o desconhecido. Fomos, então, transformados (4) em (5), o oposto de um filhinho da mamãe: um mulherengo.

Para reiterar, isto não se aplica apenas a histórias sobre homens fazendo sexo. Se esta é a história de uma pobre menina (1) que sonhava em ser rica (2) e foi adotada por um milionário (3), depois de ter se acostumado ao seu novo estilo de vida, (4), ela pode agora ser um tanto afetada (5). Mostre isso com um momento definidor. Este pode ser um bom ponto para ela passar pelo orfanato em sua limusine.

6 – “Pega.” – CONHEÇA SEU CRIADOR

Como você poderia esperar de um modelo circular como este, há um monte de simetria acontecendo, e na viagem de volta para cima, nós estaremos fazendo um monte de referências à viagem para baixo.

Assim como (1) e (5) são momentos muito maternos, femininos e vulneráveis, (2) e (6) são momentos muito paternos, masculinos e ativos, independentemente do sexo do protagonista.

Pense no que realmente aconteceu em (2). As coisas estavam "bem" em (1), mas elas simplesmente não eram boas o suficiente. É assim que entramos nessa confusão toda, para começo de conversa.

Em Academia de Gênios (eu estou realmente me aproveitando dos clássicos, agora), o garoto desajeitado (1) é recrutado por um programa especial da faculdade que está trabalhando em um poderoso laser (2). Ele se torna o companheiro de quarto de um gênio rebelde, que vai se formar em como-festejaaarr (3). O Homem-festa ensina o Desajeitado como relaxar, enquanto o Desajeitado ensina o Homem-festa como se concentrar (4) e, como resultado, eles são capazes de aperfeiçoar seu laser (5) e obter os seus prêmios de prestígio. Mas agora há um segundo e mais honesto chamado à aventura, vindo de um super-nerd que vive nos túneis subterrâneos da universidade: Para quê serve o laser? Por que eles tinham que construí-lo com as especificações determinadas? O que aquele assustador professor que odeia pipoca tem em mente? Claro, eles poderiam ficar aqui nesta pizzaria, mamando na teta de sua própria prosperidade. Mas, novamente, eles não chegaram tão longe sendo irresponsáveis. É hora de começar a voltar ao mundo real e fazer as coisas direito, ao estilo Gênio.

Há consequências grandes e importantes dessa decisão. De fato, em um bom filme de ação, esse é o momento onde o nosso cara simplesmente tem a sua bunda chutada. Robocop, armado com a confissão de Clarence Boddiker (5), marcha para o escritório de Dick Jones, CEO da empresa que o construiu. Ele tenta prender o homem que é dono dele, só para descobrir que não consegue. É contra a sua programação. O Alex Murphy amável e humano (2) poderia ter sido capaz de conseguir isso, mas o Robocop à prova de balas, feito de fábrica, não pode. Irônico, considerando que o desejo inconsciente de Murphy (2) era ser um herói à prova de balas ("TJ Laser"). Entre o seu irmão puramente mecânico, o ED-209, e os seus irmãos puramente humanos, a polícia mal informada, sendo incitada a atacá-lo, Robocop mal consegue sair do castelo do pai em um único pedaço.

Antes que você pense que momentos como este estão reservados para filmes de ação, vamos dar uma olhada numa cena quase idêntica, que se passa em Rede de Intrigas, que pode ser o filme mais bem escrito já feito. Nesta fase da história, Howard Beale, âncora de notícias que virou profeta, é conduzido a uma sala de diretoria, onde ele fica cara a cara com o seu criador: o CEO da empresa que é dona da rede, Arthur Jensen (interpretado por Ned Beatty). Num dos monólogos mais bem escritos e interpretados do século 20, Jensen revela a Beale que o capitalismo é Deus, Deus é o capitalismo e, por ter fodido com Deus, Beale agora deve sofrer as consequências.

Nada de robôs, nada de explosões, mesma estrutura.

Isso porque esta metade do círculo tem seu próprio caminho de testes – a estrada de volta para cima. A estrada para baixo prepara você para a cama da deusa, e a estrada para cima lhe prepara para reingressar no mundo comum.

Tendo ficado em paz (5) em relação ao seu casamento, John McClane agora se pergunta por que Hans Gruber, o terrorista-chefe, estava tão desesperado por aqueles detonadores. Ele volta para o telhado e descobre que toda a porção superior do arranha-céu está armada para explodir. Com esta percepção, vem a consequência (6): O gigante terrorista loiro – o ED-209 para o Robocop de McClane – cai sobre ele e os dois agora vão lutar até a morte. Liquidar o Lourinho é apenas o primeiro passo. Os testes nesta estrada surgem rápidos e furiosos. No momento em que o protagonista chega ao (7), os fragmentos remanescentes do seu ego terão desaparecido, e ele terá realizado o que Campbell chama de "Sintonia com o Pai" – O pai sendo este universo totalmente não-pessoal e sem raiva, geralmente incorporado, nos filmes de ação, pelo bandido (o qual muitas vezes ouvimos dizer, nesses filmes mais maliciosos: "Nada pessoal. Apenas negócios.")

Em uma história de amor, esta é a parte onde eles terminam. Agora vem a barba por fazer, e os pratos sujos, e os tons fechados. A depressão profunda, profunda e suicida. A relação entediante com um(a) parceiro(a) supostamente melhor. E, finalmente, a percepção de que nada nunca foi mais importante do que ele ou ela.

Ao perceber que algo é importante, realmente importante, a ponto de ser mais importante do que VOCÊ, você ganha controle total sobre o seu destino. Na primeira metade do círculo, você estava reagindo às forças do universo, se adaptando, mudando, buscando. Agora você TORNOU-SE o universo. Você tornou-se aquele que faz as coisas acontecerem. Você tornou-se um Deus vivo.

Dependendo do escopo de sua história, um "Deus vivo" pode ser um cara que consegue terminar de trocar um pneu na chuva. Ou, no caso de Duro de Matar, pode ser um cara que consegue aparecer no telhado, liquidar terroristas com facilidade e levar 50 reféns à segurança, enquanto se esquiva dos tiros de um helicóptero do FBI.

Shannon-changing-tire

Por falta de tempo, acabei tendo de dividir este texto em três partes, pessoal. Mas amanhã devo conseguir postar a última.

Uma ótima escrita pra todos vocês!

21/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4A

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:20
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Aqui está outro capítulo da fórmula desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon, tirado do site Channel 101 Wiki. Como é meio grande, eu o dividi em duas partes.

StoryStructure04

Joseph Campbell era um mitólogo comparativo, não um guru de roteiro banal. No entanto, aqui é onde eu, Dan Harmon,

sinto que os capítulos do famoso "monomito" ou "jornada do herói" de Campbell cairiam, se você os forçasse para dentro de meu círculo.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

Ok, aqui está aquela parte onde o auto-nomeado guru lhe diz exatamente o que deve acontecer e quando.

Eu espero ter deixado claro para você antes de fazer isso, que a estrutura REAL de qualquer boa história é simplesmente circular – uma descida ao desconhecido e o eventual retorno – e que quaisquer descrições específicas desse processo são específicos para você e sua história.

Aqui está a minha descrição detalhada dos passos no círculo. Eu vou ser chegar a ser bastante específico, e não vou incomodar, dizendo: "há algumas exceções disto", várias e várias vezes. Existem algumas exceções para tudo, mas isso é chamado de estilo, não estrutura.

  1. Você (um personagem está em uma zona de conforto)
  2. Necessita (mas ele quer algo)
  3. Vai (ele entra em uma situação não-familiar)
  4. Procura (adapta-se a ela)
  5. Encontra (encontra o que queria)
  6. Pega (paga o seu preço)
  7. Retorna (e volta para onde ele começou)
  8. Muda (agora capaz de mudar)

1 – “Você.” – ESTABELEÇA UM PROTAGONISTA

O público está flutuando livremente, como um fantasma, até você dar-lhe um lugar para pousar.

Este efeito de livre flutuação pode ser explorado por um tempo – dando um close sobre o planeta Terra; fazendo uma panorâmica através de um barracão sujo. Quem nós vamos ser? Mas, cedo ou tarde, nós precisamos ser alguém, porque se não estivermos dentro de um personagem, então não estamos dentro da história.

Como você coloca o público em um personagem? Fácil. Mostre um. Você teria que sair do seu caminho para evitar do público se imprimir nele. Pode ser um guaxinim, um homem sem-teto, ou o Presidente. Simplesmente abra o quadro nele, e nós somos ele até que tenhamos uma melhor opção.

Se houver opções, os espectadores escolhem alguém com quem eles se relacionam. Quando em dúvida, eles seguem sua compaixão. Abra o quadro em um guaxinim que está sendo perseguido por um urso, e somos o guaxinim. Abra o quadro em uma sala cheia de embaixadores. O Presidente entra e tropeça no tapete. Nós somos o Presidente. Quando sente pena de alguém, você está usando a mesma parte de seu cérebro que usa para se identificar com eles.

Muitas histórias modernas nos fazem saltar de personagem para personagem no início, até que finalmente nos acomodamos em alguns sapatos confortáveis. Esse saltar pode ser eficaz, mas se isso está continuando por mais de 25% de sua história total, você vai perder o público. Como qualquer coisa adesiva, o nosso senso de identidade se enfraquece um pouco a cada vez que é trocado ou testado. Quanto mais tempo ele tem estado grudado em algo, mais chocante vai ser arrancá-lo e colá-lo em outra pessoa.

Eu não foderia com isso, se eu fosse você. A coisa mais fácil a fazer é abrir o quadro em um personagem que sempre faz o que o público faria. Ele pode ser um assassino, um guaxinim, pode ser um parasita vivendo no fígado do guaxinim, mas que ele faça o que o público faria se estivesse na mesma situação. Em Duro de Matar, o quadro se abre em John McClane, um passageiro em um avião, que não gosta de voar.

2 – “Necessita.” – ALGO NÃO ESTÁ CERTO

E agora o carrinho da montanha-russa sobe a primeira colina. Click, click, click…

Aqui é onde nós demonstramos que algo está fora de equilíbrio no universo, não importa o quão grande ou pequeno o universo seja. Se esta for uma história sobre uma guerra entre a Terra e Marte, este é um bom momento para mostrar aquelas naves marcianas rumando em direção ao nosso pacífico planeta. Por outro lado, se esta for uma comédia romântica, talvez a nossa heroína esteja jantando em um encontro às cegas ruim.

Estamos sendo apresentados à ideia de que as coisas não estão perfeitas. Elas poderiam estar melhores. Aqui é onde um personagem poderia se perguntar em voz alta, ou com expressões faciais, por que ele não pode ser mais bacana, ou mais rico, ou mais rápido, ou um melhor amante. Este desejo será concedido de formas que o personagem não poderia ter esperado.

Aqui também é onde um "Chamado à aventura" mais literal e exterior poderia entrar em jogo, nas mãos de um mensageiro misterioso que explica para um tintureiro que ele acabou de ser destacado pela CIA.

Frequentemente, o protagonista "recusa o chamado". Ele não quer ir para a etapa 3. Ele é feliz como tintureiro (pelo menos ele pensa que é). A "recusa ao chamado" não é um ingrediente necessário, é apenas outro truque muito usado para nos manter presos a uma identidade. Todos nós temos medo da mudança.

Lembre-se: Os chamados à aventura não têm de vir de um mensageiro de fato, e os desejos não têm de ser feitos em voz alta.

Abra o quadro em um homem de aparência gentil dirigindo um carro. Está chovendo. Bum. Pneu furado. Ele luta para evitar que o carro derrape. Ele puxa-o para o lado da estrada e para. Ele tem medo em seu rosto. Ele olha pela janela do carro para a chuva batendo…

Ou, para continuar com Duro de Matar: Nós percebemos agora que o casamento de John está abalado. Sua esposa tem um bom trabalho em Los Angeles, e ele se recusou a vir para cá com ela. Agora ele a está visitando para o Natal. Ela está usando seu nome de solteira no diretório corporativo. Eles estão brigando. As coisas não estão bem, e se você pudesse ler a mente do protagonista, poderia encontrá-lo desejando que houvesse algo que ele pudesse fazer para salvar seu casamento…

3 – “Vai.” – ATRAVESSANDO O LIMIAR

Sobre o quê é a sua história? Se é sobre uma mulher fugindo de um ciborgue assassino, então, até agora, ela não esteve fugindo de um ciborgue assassino. Agora ela vai começar. Se a sua história é sobre uma paixão, esse pode ser o ponto onde o nosso herói masculino põe os olhos sobre o objeto de seu desejo pela primeira vez. Então, novamente, se a nossa protagonista é objeto de uma perigosa obsessão, a paixão poderia ter sido o passo 2, e este poderia ser o ponto onde o cara diz algo realmente, realmente assustador para ela no corredor do escritório. Se é uma história sobre amadurecimento, este poderia ser um primeiro beijo, ou a descoberta de um pelo na axila. Se é um filme de terror, este é o primeiro assassinato, ou a descoberta de um cadáver.

A chave é, descubra qual é o seu "cartaz do filme". O que você anunciaria às pessoas, se quisesse que elas viessem ouvir a sua história? Um tubarão assassino? O espaço sideral? A Máfia? O verdadeiro amor? Tudo com cor cinza naquele círculo, a metade inferior, é o "mundo especial" onde aquele pôster do filme começa a ser transmitido, e tudo acima desta linha é o "mundo comum". Etapa 1, você é o xerife de uma pequena cidade. Etapa 2, mordidas estranhas no corpo de uma vítima de assassinato. Etapa 3, puta merda, é um lobisomem.

Lembre-se do tutorial 2, de que o que realmente está acontecendo aqui é uma jornada para dentro de nossa própria mente inconsciente, onde podemos conseguir resolver nossas coisas. Um garoto acorda, e agora ele é Tom Hanks. O seu desejo de ser "grande" foi concedido. Terroristas atacam a festa de Natal, e agora John McClane tem sua chance de literalmente salvar seu casamento abalado. Neo acorda em um tanque de gosma em um mundo dominado pelas máquinas. Seu desejo do mundo comum de ser um hacker, de lutar contra o sistema, vai ser posto à prova. Um menino suicida começa a ver um terapeuta. Vamos descobrir por que ele tentou se matar.

Não importa o quão pequeno ou grande seja o âmbito da sua história, o que importa é a quantidade de contraste entre esses mundos. Em nossa história sobre o homem trocando o pneu na chuva, até agora, ele não estava mudando um pneu. Ele estava dentro de um carro seco. Agora, ele abre a porta do carro e sai para a chuva. A aventura, independentemente de seu tamanho ou sutileza, já começou.

4 – “Procura.” – ESTRADA DE PROVAS

Christopher Vogler chama esta fase de um roteiro de longa-metragem de "amigos, inimigos e aliados". Produtores mercenários a chamam de "fase de treinamento". Eu prefiro ficar com o título de Joseph Campbell, "A Estrada de Provas", porque é menos específico. Eu tenho visto filmes demais onde o nosso tempo é desperdiçado assistindo a um herói literalmente "treinar" em uma clareira na floresta porque alguém teve a ideia de que esse era um ingrediente necessário. O ponto desta parte do círculo é: o nosso protagonista foi jogado na água, e agora é afundar ou nadar.

Em O Herói de Mil Faces, Campbell efetivamente evoca a imagem de um aparelho digestivo, desmembrando o herói, despindo-o de neuroses, despojando-o de medo e desejo. Não há espaço para besteiras no porão do inconsciente. Inaladores de asma, óculos, cartões de crédito, namorados da fraternidade, promoções, perucas e telefones celulares não podem salvá-lo aqui. O propósito aqui tornou-se revigorantemente – e assustadoramente – simples.

Em Tudo Por Uma Esmeralda, Michael Douglas corta fora os saltos dos caros sapatos da Kathleen Turner com um facão. Em seguida, ele joga a mala dela num penhasco. Se ela vai continuar a sobreviver nesta selva, ela literalmente precisa largar o excesso de bagagem e perder as calças chiques.

Em Duro de Matar, John McClane é aconselhado por um terrorista a quem ele mostrou misericórdia mais cedo: "Na próxima vez que você tiver a chance de matar alguém, não hesite." John atira nele várias vezes e agradece a seu cadáver pelo conselho. O policial começou a desaparecer, pedaço por pedaço, revelando o seu caubói interior.

O homem na chuva abre seu porta-malas, revelando uma pilha de roupa suja e lixo de fast food. Ele tenta mover aquilo de um lado para outro, mas finalmente a sua frustração toma conta e ele começa a jogar as coisas por cima do ombro, esvaziando o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada.

Estamos nos dirigindo para o nível mais profundo da mente inconsciente, e não podemos alcançá-lo sobrecarregados com toda aquela porcaria que costumávamos pensar que era importante.

Die-Hard

Boa terça-feira gorda de carnaval pra você!

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