Dicas de Roteiro

01/10/2011

É Tudo Fácil Demais Para O Seu Protagonista?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:01
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Este texto é de autoria do professor de roteirismo da NYU, D.B. Gilles, e foi publicado no site Hollywoodlitsales:

calvinchatice

Recentemente eu li um roteiro com um enredo bastante sólido. O personagem principal queria desesperadamente ganhar um prêmio importante. O tipo de prêmio que iria catapultar significativamente a sua carreira em sua área de atuação. A apresentação foi excelente, assim como foi o desenvolvimento até o Fim do Ato Um, onde ele começou a tomar medidas sérias em relação à sua meta.

Ao longo do caminho havia um bom subenredo romântico com uma mulher que também estava competindo pelo mesmo prêmio. E havia a clássica figura do mentor para o personagem principal, que também tinha interesse em ganhar o prêmio.

Aqui está o problema: ao chegarmos ao Fim do Ato Dois não houve nenhuma surpresa. Nenhuma reviravolta. Nenhuma revelação importante. E conforme ele prosseguia tranquilamente para o Ato Três, não houve nenhuma traição por parte de ninguém. O cara só se arrastava, lidando com obstáculos menores, e no final da história ele não venceu por um par de razões previsíveis. E perdeu a garota. E ele basicamente seguiu em frente com sua vida.

O problema com o roteiro foi que todas as portas pelas quais ele tinha que passar se abriram com muita facilidade. Às vezes, ele batia e alguém abria. Algumas vezes, ele tocava a campainha duas ou três vezes e alguém abria. Às vezes, a porta estava destrancada e ele apenas entrava direto.

Se o autor tivesse tornado aquelas portas difíceis ou quase impossíveis de abrir, ele teria tido uma história muito mais atraente.

Eu já disse isso antes: não torne as coisas fáceis demais para o seu personagem principal. É simplesmente chato.

tira695

Boa escrita pra você! =D

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Por que o Segundo e o Terceiro Atos Não Funcionam

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este é o primeiro de alguns textos curtos tirados do site Hollywoodlitsales e de autoria do roteirista de cinema e TV, professor e autor de livros de roteirismo, D.B. Gilles, que publicaremos hoje:

obstacle

Você tem o seu Evento Instigante ou Incidente Incitante (como quer que você o chame) e a sua Questão Dramática Principal é apresentada e você está avançando muito bem para o final do Ato Um. Você está se sentindo bem e confiante, e secretamente acha que vai terminar este aqui em duas semanas.

Então você entra no Ato Dois e fica emperrado. Aqui está algo para aliviar a dor.

Certifique-se de que as complicações dramáticas surjam da situação que você apresentou no Ato Um.

Soa muito simples e básico, mas aqui é onde a maioria dos roteiristas sai dos trilhos. Simplesmente, eles não criaram complicações e obstáculos suficientes para ficar no caminho de seus protagonistas. Ou aqueles que eles chegaram a criar não eram muito difíceis.

Veja isso deste modo: torne a vida miserável para o seu personagem principal. Precisamos sentir pena dele/dela para que torçamos por ele/ela. Como estou cansado de dizer ele/ela, vou apenas dizer ele. Faça com que tudo no caminho dele não aconteça de acordo com seus planos. Ele tem que ultrapassar ativamente cada obstáculo. Alguns podem ser fáceis, mas quanto mais longe no roteiro, mais difíceis eles devem ser, com o mais difícil surgindo perto do fim.

Bem simples, certo? Mas muito difícil de fazer.

baratasobstaculos

Boa escrita pra você hoje! =D

15/07/2010

Oito Semanas Para Um Roteiro – Parte 4

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 09:12
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Hoje estamos de volta com a continuação de nosso artigo (já chegamos à metade!). Lembrando novamente que ele foi escrito por Richie Solomon e tirado do site Story Link.

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SEMANA QUATRO – ATO DOIS

Um Dia de Fúria

Um Dia de Fúria, escrito por Ebbe Roe Smith

Ah, o temido Ato Dois. Este geralmente é o lugar onde os escritores têm mais problemas. É onde a sua história fica empacada ou adiada até ao ponto de nunca se mover novamente. É o ponto em que você é tentado a desistir, e muitos o fazem.

Mas nós não vamos deixar isso acontecer conosco. Assim como o herói da nossa história, vamos enfrentar corajosamente todo e qualquer obstáculo em nosso trajeto e forjar um caminho para o nosso objetivo final.

Não é de se admirar que as pessoas tenham uma dificuldade maior com o Ato Dois. É  duas vezes mais longo do que os demais atos e é geralmente onde colocamos menos pensamento.

O Ato Um e o Ato Três são divertidos de se escrever. É como a nossa história começou, em primeiro lugar. Nós tivemos uma ótima idéia para colocar o nosso herói em encrenca, e um jeito fantástico para ele sair dela. Nós apenas não temos certeza quanto a todo o resto no meio.

Conflito é história e Ato Dois é conflito, então o Ato Dois na verdade é a nossa história.

Se você está tendo problemas com o Ato Dois, você pode estar tendo problemas com a sua história. Talvez o seu conflito não seja grande o suficiente. Ele pode ser fácil demais de se superar. A maioria das histórias mais fortes têm conflitos internos, assim como os externos mais óbvios.

O protagonista precisa resolver seus demônios interiores, a fim de resolver seu conflito externo. É isto que é o arco do personagem.

A tarefa aparentemente simples de pular no mar para salvar uma menina de afogamento assumiria um significado totalmente novo se o candidato a salva-vidas tivesse um medo irracional de tubarões. E se realmente houvesse tubarões na água? E se eles estivessem rodeando a menina? E se a menina fosse a filha do herói? Você pode ver como é fácil aumentar os riscos.

O seu personagem principal tem um conflito interno? Como isso afeta os conflitos externos dele?

No Ato Dois você quer constantemente elevar o conflito. Continue empurrando o seu herói para o ponto sem volta. Justamente quando parece que vai ficar mais fácil – Bam! – Ele topa com um desafio ainda maior. Até ele enfrentar seus medos interiores, ele nunca vai resolver os seus exteriores.

Pense em sua história. Como você pode aumentar o conflito? Como você pode aumentá-lo novamente? As suas cenas estão apenas repetindo os mesmos problemas para o seu herói ou estão criando problemas novos, mais difíceis? Existe algo emocional que o seu personagem precise superar? Como ele pode finalmente enfrentá-lo para resolver seus conflitos, tanto internos quanto externos?

Escreva o seu rascunho do Ato Dois. Ele deve ter de 30 a 60 páginas.

Na próxima semana nós finalmente iremos deixar o seu herói resolver seus problemas, quando mergulharmos no Ato Três.

Horizon_Wallpaper_por_hameed Boa escrita hoje e até amanhã!

17/06/2010

Dicas Gerais de Roteiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:50
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O texto de hoje foi tirado do site Movie Staff. Ele mostra um panorama geral de como escrever um roteiro, resumido em dicas curtas e diretas. Muita coisa aqui faz parte da chamada “fórmula americana”, ou “receita de bolo” para escrever roteiros. Não significa que devemos sempre seguir tudo ao pé da letra, mas existem coisas muito legais para se aprender com ela. É importante informar-se porque, como dizem, é necessário conhecer as regras para poder quebrá-las. Só evite quebrar regras por quebrar, use sua intuição e bom senso, para não acabar criando um roteiro-Frankenstein! 😀 😉

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Use os Cenários Criativamente

O uso criativo dos cenários pode tornar um roteiro emocionante e memorável. Mudar o local da ação para um cenário incomum pode tornar a história extremamente dinâmica.

O filme Outland – Comando Titânio é essencialmente um filme de faroeste no espaço sideral. Neste filme, o ator Sean Connery representa um delegado de polícia federal tentando manter a lei e a ordem em um posto avançado de mineração em uma das luas de Júpiter.

O filme Guerra Nas Estrelas se passa no futuro [N.T.: Na realidade, acontece “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante”] e está situado no espaço sideral, mas contém muitas semelhanças com a Segunda Guerra Mundial. O antagonista, Darth Vader, pode ser comparado a Adolf Hitler. A aparência e o comportamento de Vader são semelhantes aos de Hitler. Vader até usa um capacete que tem o mesmo formato dos capacetes usados pelos soldados nazistas de Hitler. E, assim como Hitler tentou exterminar os seus inimigos em campos de concentração, Vader tenta aniquilar a Aliança Rebelde usando a Estrela da Morte como arma.

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NEGAÇÃO

Porque se ele não for realmente o seu pai, você pode continuar transando com a sua irmã.

Para escrever um roteiro usando um cenário criativo, pergunte a si mesmo várias questões:

1. Quem é o protagonista da sua história? Quem é o antagonista?

2. Qual é o objetivo do protagonista? Que tipo de conflito está impedindo-o de alcançar o seu objetivo?

3. Quando a sua história se passa? Qual é o período histórico? Se ela se passa nos dias de hoje, você é capaz de ambientá-la no futuro ou no passado?

4. Onde acontece o conflito principal de sua história? Ocorre na Terra? Podem os conflitos acontecerem em um planeta distante ou em um ambiente primitivo?

5. Por que o seu protagonista é capaz de resolver o conflito principal da história nesse cenário? Ele tem uma habilidade ou aptidão única que o ajuda a triunfar? Se sim, descreva esta habilidade ou aptidão.

Use uma estrutura de três atos. Com uma Crise ou um Ponto de Virada na história, no final do Ato I e do Ato II.

Faça os Atos I e III com a mesma extensão, e o Ato II com cerca de duas vezes o tamanho do Ato I.
[Atribuição típica de páginas para um roteiro de 120 páginas: I = 30; II = 60; III = 30.] Roteiros são contínuos – não rotule os Atos. Eles são o seu segredo, embora os profissionais saibam onde procurar.

Conte a sua história visualmente, com diálogo suficiente apenas para preencher os vazios. Lembre-se dessa diferença: O filme é uma seqüência de imagens visuais; o teatro é uma seqüência de imagens verbais. Procure no nosso site por seminários sobre esse negócio de Narrativa Visual versus Narrativa Verbal.

Mantenha as suas falas de diálogo curtas. Mesmo nos filmes mais parecidos com peças de teatro, o diálogo é extremamente breve.

Filmes americanos são sobre o que acontece em seguida. A tecnologia de cortar de uma imagem para a próxima tem muito a ver com isso. O cinema europeu é o único mercado para estudos de caráter semelhante a peças de teatro.

Estabeleça um forte Enredo de Suspense. Mesmo numa comédia romântica. Filmes não lidam bem com os enredos de suspense leves que funcionam bem em peças teatrais.

Coloque o Gancho [em termos teatrais, o Incidente Detonador] nas primeiras duas páginas. Se você é um roteirista que não tem nenhum roteiro produzido, coloque o gancho na página 1.

Mantenha as suas cenas curtas. Três páginas é uma boa máxima absoluta antes de cortar para uma nova locação; de meia página a uma página é o mais típico.

Use menos Subtexto. No cinema, o Subtexto flutua para a superfície do diálogo com muito mais frequência, principalmente porque Hollywood tende a ter uma visão muito obtusa da inteligência de seu público.

Coloque um Padrão Emocional na Cena Obrigatória. Essas coisas são feitas sob medida para filmes.

Planeje um Final Feliz. É a norma.

Mantenha o manuscrito com menos de 120 páginas no formato de roteiro.
A maioria das empresas de produção não vai olhar para um primeiro roteiro freelance que esteja acima deste número mágico. Um máximo de 100 páginas os deixaria mais felizes. A regra antes de você ser famoso: Qualquer coisa além de 120 páginas é a morte.

Faça um resumo detalhado das cenas antes de escrever o roteiro.
À parte a atitude de Steve Tesich em relação a detalhar as cenas, a maioria dos roteiristas faz isso. O próximo passo é muitas vezes um Argumento [uma narrativa da história, entre 20 a 50 páginas]. E então, finalmente, o roteiro vem em terceiro lugar.

Pratique responder à pergunta: "Então me diga, sobre o quê isso se trata?" em uma frase, e faça uma comparação com outro filme de Hollywood recente [e bem sucedido financeiramente]. Se você não puder fazer isso facilmente, ou se a mera idéia de fazê-lo lhe irrita, volte para a dramaturgia.

Você está tendo problemas com a sua história? Tente colocar as suas cenas em cartões ou fichas, uma ficha para cada cena. Em seguida, coloque as fichas no chão à sua frente, e organize as cenas do começo ao fim. É um velho truque de roteiro, mas ajuda a muitos escritores a planejar suas histórias.

Lutar contra a dor. Ser um escritor pode ser desencorajador, porque sempre parece ter mais trabalho a se fazer. Há também aqueles dias em que você acredita que tudo que você escreveu é um desastre, e você não sabe por que começou a escrever, para começo de conversa. Paciência é uma virtude por uma razão. Você apenas tem que esperar isso passar, e continuar a escrever, tanto quanto possível. Se serve de consolo, todos passamos por isso.

Uma dica importante sobre personagens
Às vezes, quando estamos escrevendo um roteiro, nos esquecemos de que nossos personagens são pessoas reais com DEFEITOS REAIS. É fácil cair nessa armadilha, especialmente se o seu personagem principal tem que defender algo ou lutar por uma causa. Não faça-os bonzinhos demais, ou você vai perder o leitor. Dar aos seus personagens, especialmente aos heróis, defeitos reais é uma maneira certeira de torná-los mais humanos e, desse modo, as pessoas vão se identificar mais facilmente com eles.

Conclua. Parece elementar, mas não é. Ao longo da História, muitas pessoas tiveram grandes idéias, mas quantas as levaram adiante até o fim? Certifique-se de não deixar as armadilhas e o bloqueio de escritor ocasional impedirem-no de criar a sua obra-prima.

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Para quem deseja mais detalhes sobre essas técnicas de roteiro básicas (divisão em atos, crises, pontos de virada etc), consulte o livro Roteiro – Os Fundamentos do Roteirismo, de Syd Field, e o Story – Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro, de Robert McKee. Ambos são bíblias de roteirismo – indispensáveis.

Boa escrita pra você hoje!

21/04/2010

5 Lembretes Básicos Para Evitar Atolar no Ato II

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:28
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O artigo de hoje foi tirado do site ScriptXRay, e foi escrito por Christopher:

Atolado atolado e fumante

Como o maior ato de uma história de três atos, o segundo ato frequentemente se torna uma tarefa intimidadora para o escritor novato. Atolar ao escrever o segundo ato é um problema comum para a maioria dos escritores principiantes, então eu pensei que nós deveríamos dar uma olhada em apenas algumas das coisas que um escritor pode fazer para evitar ficar paralisado.

1. O primeiro ponto de virada

Embora isto possa parecer um lembrete super-básico, é algo que eu vejo ignorado pelos escritores o tempo todo.

Começar com o pé direito é importante quando se trata da narrativa para as telas, então tenha certeza de pôr os seus personagens em movimento em sua aventura com um firme ponto de virada.

Apesar de isto não ter de ser partindo num barco ou deixando a vila, o primeiro ponto de virada deveria revelar claramente que o seu personagem está se afastando de seu mundo de origem, tal como foi estabelecido no primeiro ato.

Para exemplos disto, confira Guerra Nas Estrelas: Episódio IV – Uma Nova Esperança, Matrix, e Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida.

Romance

2. Apresente o interesse amoroso

Uma vez tendo mudado para o segundo ato, você provavelmente estará se perguntando o que vem a seguir – e a beleza do roteirismo é que não existe nenhuma resposta certa ou errada.

Isto dito, muitos contadores de histórias acham que apresentar um interesse amoroso neste momento se encaixa na necessidade do público de mudança.

cavemans

3. Explore o novo mundo

Quer você tenha definido uma jornada física ou uma interior, agora é uma boa hora (especialmente durante a primeira metade do segundo ato) para explorar o mundo da história.

Reflita sobre Alice no País das Maravilhas e todas as coisas com que ela se depara neste ponto da história.

4. Aliados

Um tipo de personagem que o protagonista frequentemente encontra durante o segundo ato é o aliado – o Espantalho, o Homem de Lata, e o Leão são exemplos excepcionais disto. Apesar deles serem um pouco óbvios, eles servem à história de O Mágico de Oz de forma excepcional.

Aliados aparecem em todos os tipos e tamanhos, então não há limites para o que um aliado possa ser, ou a que propósito ele irá servir.

A chave para criar grandes aliados é criar personagens que ajudem o protagonista ao longo da jornada, ao contrário de soltarem frases engraçadas aqui e cometerem erros estúpidos ali, só para fazer o protagonista parecer bem. Pense nos aliados de Guerra Nas Estrelas.

wizard-of-oz

“OK, então onde fica a coragem?”

5. Inimigos

Onde você tem aliados, muito provavelmente terá inimigos – e nem todos eles estarão relacionados ao seu antagonista. O conflito é o que mantém o público interessado, então tenha certeza de que os seus inimigos tenham mais peso do que os seus aliados.

A ideia geral é manter a história avançando – quanto mais elementos da história você utilizar durante o segundo ato, serão menos probabilidades de você ficar sem combustível e paralisado.

Dito isto, estes elementos não são para serem plugados em sua história – considere-os mais como conchas que você deve preencher com cada história. Se o objetivo é manter a história avançando, então você terá de decidir quais elementos, se não todos, são certos para você e a sua história.

Darth Vader

Boa escrita pra você hoje!!

24/02/2010

Ato 2 – Conflito! Conflito! Conflito!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:17
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O artigo de hoje chama-se Ato 2 – É Conflito!, escrito por William C. Martell, do site Script Secrets. Os filmes analisados hoje são o Duro de Matar (Die Hard, 1988), estrelado por Bruce Willis; O Confronto (The One, 2001), com Jet Li; e Constantine (Idem, 2005), com Keanu Reeves.

(Nota: O artigo foi reescrito, portanto a versão que eu imprimi a alguns anos atrás tem um texto meio diferente do atual. Eu juntei as duas versões numa só).

Todo mundo parece ter dificuldade com o Ato 2, mas eu aprendi que a solução para todos os problemas deste ato é simplesmente lembrar para que ele está lá…

A estrutura em 3 Atos tem estado por aí durante uns 2.350 anos (ela não foi inventada por Syd Field) — Aristóteles percebeu que toda história que funcionava seguia um padrão simples:

Ato 1 – Você faz o seu herói subir numa árvore.

Ato 2 – Você joga pedras nele.

Ato 3 – Você o faz descer da árvore.

(Foi assim que o cineasta Billy Wilder descreveu a estrutura em 3 Atos… e o último filme de Wilder foi feito quase uma década antes do livro de Field).

Então…

Ato 1 – Apresenta o conflito.

Ato 2 – É o conflito.

Ato 3 – Resolve o conflito.

O Ato 2 não pode começar até que o conflito envolva totalmente o seu protagonista. Geralmente, num roteiro de ação, o herói atrapalha os planos do vilão. O Ato 2 começa quando o vilão tenta remover o herói do seu caminho — esse é o conflito. O herói e o vilão se enrolam durante o Ato 2, o vilão tentando resolver o seu problema apesar do herói — mas o herói simplesmente continua a ficar em seu caminho.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  COMEÇO DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««


Em Duro de Matar, o Ato 2 começa quando McClane (Bruce Willis) mata o seu primeiro terrorista… e acaba ficando com os detonadores. Hans (Alan Rickman) PRECISA dos detonadores. Os seus planos serão arruinados se ele não conseguir aqueles detonadores de volta. Então McClane passou de um convidado desgarrado da festa para um PROBLEMA MAIOR para Hans. McClane está bem no caminho dos planos de Hans — não há nenhum modo de escapar — é como se fosse um trem de carga correndo direto em sua direção a 145 km/h. Agora Hans manda os caras saírem para encontrar McClane e pegarem os detonadores de volta.

O Ato 2 é um perigoso jogo de esconde-esconde, com duelos de metralhadoras quando McClane e os bandidos se cruzam no caminho. Conflito, conflito, conflito!

Em O Confronto, Jet Li se defende de… Jet Li, em uma luta até a morte. Apenas um pode sobreviver. O Ato Dois é sobre uma versão de Li tentando se proteger, e à sua esposa, de uma versão insana, em ação para se tornar um deus ao assassinar todas as versões alternativas de si mesmo. Ambos estão presos aqui em nosso mundo. Sem escapatória! Conflito! Conflito! Conflito!

Keanu Reeves é o cara mais sortudo de Hollywood… ou o mais esperto. Enquanto outras estrelas decidem não fazer filmes carregados de efeitos especiais em favor de um material mais realista ou mais dramático, Reeves acabou estrelando em filmes-pipoca de ação como Velocidade Máxima (Speed, 1994), Matrix (The Matrix, 1999) e Constantine. Este último é baseado nas graphic novels HellBlazer, sobre o caçador de demônios John Constantine — rejeitado tanto pelo céu quanto pelo inferno — fadado a vagar pelas ruas de (Londres ou) Los Angeles, mantendo o equilíbrio entre o bem e o mal. Quando a série de filmes Matrix estava caminhando para o fim, a Warner Bros. começou a procurar por uma nova franquia para Keanu. Oras, até eu fui chamado para tentar vender as minhas idéias. Constantine era a resposta — um filme noir sobrenatural arrojado que parecia ter todos os elementos… mas ainda assim parecia ficar desinteressante no meio.

O filme abre com uma cena bacana de exorcismo, onde Constantine (Keanu) captura o demônio em um espelho, e então quebra o espelho (e o demônio) em um milhão de pedaços. Nós então somos apresentados à história — uma mulher com poderes psíquicos salta do telhado de um hospital. A sua irmã gêmea — uma detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles (Rachel Weisz — que também sempre acaba em filmes pipoca de sucesso), acha que a sua irmã foi assassinada. A Detetive Dodson e Constantine têm sempre os seus caminhos se cruzando — na cena do crime, no escritório do Cardeal (ela está tentando dar à sua irmã um enterro católico; ele tem um encontro com o anjo Gabriel), e em outra cena de crime, onde o companheiro exorcista e alcoólatra de Constantine é morto. Eventualmente ela decide ir até Constantine pedir a sua ajuda… e ele recusa. Em algum momento ele decide ajudá-la, e ela admite que era médium quando criança, mas reprimiu este dom quando viu quanta dor isto trouxe à sua irmã gêmea. Num certo momento ela decide que precisa ver os demônios que andam entre nós, e Constantine realiza a cerimônia. Enquanto isso, coisas estranhas estão acontecendo — demônios estão zanzando pela Rua Figueroua, o céu está enegrecido por demônios voando, e um cara é morto em uma pista de boliche. Apesar de a maior parte disso ser bem normal em Los Angeles, Constantine acha que tem algo de errado a nível cósmico. Alguns demônios estão quebrando as regras. Eventualmente ocorre uma grande batalha entre Constantine e o poder mais alto por trás de tudo isso… mas esta batalha só acontece no finalzinho do filme.

Até lá, temos um montão de ótimos efeitos especiais, niilismo (N.T.: “Total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu”) e noir… mas pouco conflito real. Claro, o exorcista alcoólatra é assassinado, e tem o cara na pista de boliche… mas estes conflitos não envolvem o Constantine num nível físico. Coisas ruins acontecem com os seus amigos, coisas ruins acontecem com a Detetive… mas Constantine ainda é um espectador da história. Não há nenhuma luta de fato no Ato 2… e é por isso que o filme parece se arrastar. Tudo o que acontece é periférico a Constantine. Ainda estão apresentando o conflito entre Constantine e o antagonista… e as coisas que apresentam o conflito são material do ATO UM. O ATO DOIS é a luta — o conflito — entre o protagonista e o antagonista (ou a força antagonista). Mas o conflito não envolve Constantine até o final do filme — no ATO TRÊS. Então o meio do filme parece um pouco frio e não-envolvente. É ótimo de se olhar, mas na maior parte não é tão excitante quanto deveria ser.

O Ato Dois não pode começar até que o protagonista esteja PRESO no conflito com o antagonista. O Ato Dois é o ato do conflito — é todo luta. O protagonista e o antagonista aprisionados no conflito. O Ato Dois é o conflito… e Constantine não fica realmente preso no conflito antes do final. Tudo o que acontece até aí é Ato Um.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  FIM DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Eu sugiro que você pegue os seus 3 filmes favoritos. Assista-os e tome notas. Use o relógio do seu aparelho de DVD para conferir o momento em que as coisas acontecem.

Em algum lugar deste site (Script Secrets.net) eu tenho alguns filmes divididos em segmentos de 5 minutos — eu digo o que acontece em cada 5 minutos. Eu acho que eu tenho O Exterminador do Futuro 2 (Terminator 2: Judgment Day, 1991) e 48 Horas (48 Hours, 1982). Com o tempo eu colocarei mais alguns. Eu desmembro os filmes desse modo para ver como eles funcionam — para dar uma olhada no ritmo e na estrutura. Se você fizer isso com filmes semelhantes ao que você está escrevendo, poderá ver como outros escritores lidaram com os seus segundos atos e como esses Ato 2 funcionaram.

Lembre-se — o Ato 2 é CONFLITO. Se o protagonista não está totalmente envolvido no conflito, você ainda não está no Ato 2. Eu já li roteiros que só chegaram no Ato 2 na página 70! Você deve chegar no conflito por volta da página 30. Talvez na 25, ou na 35… mas não na página 70!

Por hoje é só. Desejo uma escrita cheia de conflitos para você (só nas suas histórias, claro! ;-)). Inté!!

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