Dicas de Roteiro

14/07/2010

Oito Semanas Para Um Roteiro – Parte 3

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:50
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Olá, pessoal! Desculpe a demora, é que eu peguei uma gripezinha com essa virada de tempo. Mas estou de volta com a continuação de nossa série. Lembrando que o texto foi escrito por Richie Solomon e tirado do site Story Link.

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SEMANA TRÊS – ATO UM

Forrester

Encontrando Forrester, escrito por Mike Rich

Quando você constrói uma casa, não começa edificando uma única parede, instalando suas janelas e portas, rebocando e pintando-a até ter a parede perfeita antes de passar para a parede seguinte. Você constrói uma casa primeiro assentando a sua fundação, e então levantando a estrutura inteira, viga por viga. E é exatamente assim que se escreve um roteiro.

Você já tem a fundação da sua história (o argumento) e agora iremos esboçar a sua estrutura (o rascunho).

Um professor de escrita criativa me disse uma vez: "Se vale a pena ser escrito, vale a pena ser mal escrito". O que ele quis dizer é que se você quer escrever algo, então apenas comece a escrever.

Afinal de contas, roteiros não são escritos, são reescritos.

Todo mundo quer escrever o melhor que pode, mas gente demais tenta trabalhar suas palavras na cabeça antes mesmo de colocá-las no papel. Eles se censuram à procura da prosa perfeita.

Com demasiada freqüência, suas mentes giram em círculos até eles esquecerem o que estavam tentando dizer em primeiro lugar. Eles desistem antes mesmo de começarem. Eles se convencem de que não podem ser escritores antes mesmo de efetivamente escreverem.

Não se preocupe em fazer tudo certo; apenas escreva.

Quando eu escrevo o meu rascunho, tudo o que eu quero fazer é botar o fluxo básico da minha história no papel. Eu não estou preocupado em escrever as descrições perfeitas ou em encontrar o diálogo certo. Se acontecer da inspiração bater, ótimo, eu irei escrever isso. Mas tudo o que eu quero agora é expandir o meu argumento no formato de roteiro.

Aqui está um exemplo do meu argumento atual:

Descrição1

O meu rascunho fica assim:

Cena1

Pterodátilo

Nada demais, eu sei. Eu estou apenas botando o fluxo básico no papel. Eu terei muito tempo para levá-lo exatamente para onde eu quero durante a fase de reescrita.

Esta versão é somente para os meus olhos, por isso que eu nunca deixo ninguém ler os meus rascunhos. Quando eu quero obter um feedback da minha história, eu posso dar a alguém um argumento detalhado ou apenas descrever verbalmente a minha história. Não importa o quanto você explique que o seu rascunho é apenas isso, as pessoas sempre irão lê-lo como se ele devesse ser algo mais, como você provavelmente fez quando leu o meu exemplo. Eu reescrevo pelo menos umas duas ou três vezes antes de deixar qualquer pessoa ler o meu roteiro.

Mais sobre isso depois. Por enquanto, vamos nos concentrar em escrever a nossa estrutura básica. Certamente qualquer um pode escrever tão mal quanto o meu exemplo. Então vamos começar a trabalhar no seu rascunho.

Esta semana nós vamos nos concentrar no Ato Um, apresentando o conflito. Tenha em mente que você escreve um roteiro para o leitor e não para o público do filme. Uma pessoa irá agüentar sentada algumas cenas chatas para chegar à parte boa. Afinal de contas, ela acabou de gastar 10 dólares em sua entrada e quer obter o valor do seu dinheiro em troca.

Um leitor está apenas procurando uma desculpa para não virar a página. Ele ou ela tem pilhas de roteiros para ler, portanto, por que perder tempo com algo que é chato? Então, como você evita ser chato?

Você começa abrindo a sua história com uma cena que prenda o leitor. Ela deve representar o que a história tem reservado para ele ou ela. Pense em James Bond. Ela não tem que necessariamente apresentar o seu protagonista. Ela só precisa levar o leitor a querer ler mais.

Nas próximas cinco a 10 páginas ou mais depois disso, existem algumas coisas que você quer estabelecer:

  • Você quer apresentar o(a) seu(sua) protagonista.
  • Você quer determinar qual é o conflito dele(a).
  • Você quer estabelecer claramente o gênero de sua história.

Basicamente, o leitor deve ter uma boa idéia do que ele ou ela terá pela frente, e deve querer pegar uma carona no passeio.

Você tem que mostrar tudo isso em apenas 10 páginas? Não, sinta-se à vontade para botar isso tudo na primeira. Não, de verdade, pare de rir. Alguns comerciais contam sua história inteira na metade desse tempo, que então por que nós não poderíamos, pelo menos, apresentar a nossa?

Aqui está um exemplo de The Longest Night, de Eric Heisserer:

The Longest Night

[N.T.: Como a língua inglesa é muito sucinta em relação ao português, uma página desse roteiro equivale aqui a uma página e um quarto. Até que poderíamos dizer em português a mesma coisa com menos palavras, mas neste caso a nossa fidelidade foi ao conteúdo do texto, e não ao tamanho dele.]

Uau! Não é nenhuma surpresa que ela tenha ganho o Concurso de Roteiro Página Um de 2001.

No entanto, é um pouco injusto compará-la com o que nós estamos fazendo agora. Isso é de uma versão final polida. O rascunho não é nada parecido com isso, mas ele contém as mesmas informações básicas.

A partir da página de abertura de Eric, o leitor sabe claramente o que esperar. Ele ou ela sabe o gênero da história, alguns dos personagens que ele ou ela irá defrontar, qual será o conflito, como essa história é diferente de outras semelhantes anteriores, e, o mais importante de tudo, faz com que ele ou ela queira virar a página.

Cada uma de suas cenas deixa o leitor querendo virar a página?

Termine de escrever o seu rascunho do Ato Um. Não adie a sua escrita tentando encontrar as palavras perfeitas. Apenas escreva a sua história. Eu lhe prometo que teremos bastante tempo para reescrever o seu roteiro mais tarde.

Comece com grandiosidade. Fisgue o leitor. Lá pela página 10 devemos saber o que teremos pela frente. Nas próximas 10 a 20 páginas devemos ter conhecido os personagens principais e saber quais são seus conflitos. Devemos também aumentar a pressão e prepará-los para a sua viagem através do Ato Dois.

Na próxima semana mergulharemos no Ato Dois.

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Boa escrita para você hoje, e até a quarta parte!

17/06/2010

Dicas Gerais de Roteiro

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:50
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O texto de hoje foi tirado do site Movie Staff. Ele mostra um panorama geral de como escrever um roteiro, resumido em dicas curtas e diretas. Muita coisa aqui faz parte da chamada “fórmula americana”, ou “receita de bolo” para escrever roteiros. Não significa que devemos sempre seguir tudo ao pé da letra, mas existem coisas muito legais para se aprender com ela. É importante informar-se porque, como dizem, é necessário conhecer as regras para poder quebrá-las. Só evite quebrar regras por quebrar, use sua intuição e bom senso, para não acabar criando um roteiro-Frankenstein! 😀 😉

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Use os Cenários Criativamente

O uso criativo dos cenários pode tornar um roteiro emocionante e memorável. Mudar o local da ação para um cenário incomum pode tornar a história extremamente dinâmica.

O filme Outland – Comando Titânio é essencialmente um filme de faroeste no espaço sideral. Neste filme, o ator Sean Connery representa um delegado de polícia federal tentando manter a lei e a ordem em um posto avançado de mineração em uma das luas de Júpiter.

O filme Guerra Nas Estrelas se passa no futuro [N.T.: Na realidade, acontece “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante”] e está situado no espaço sideral, mas contém muitas semelhanças com a Segunda Guerra Mundial. O antagonista, Darth Vader, pode ser comparado a Adolf Hitler. A aparência e o comportamento de Vader são semelhantes aos de Hitler. Vader até usa um capacete que tem o mesmo formato dos capacetes usados pelos soldados nazistas de Hitler. E, assim como Hitler tentou exterminar os seus inimigos em campos de concentração, Vader tenta aniquilar a Aliança Rebelde usando a Estrela da Morte como arma.

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NEGAÇÃO

Porque se ele não for realmente o seu pai, você pode continuar transando com a sua irmã.

Para escrever um roteiro usando um cenário criativo, pergunte a si mesmo várias questões:

1. Quem é o protagonista da sua história? Quem é o antagonista?

2. Qual é o objetivo do protagonista? Que tipo de conflito está impedindo-o de alcançar o seu objetivo?

3. Quando a sua história se passa? Qual é o período histórico? Se ela se passa nos dias de hoje, você é capaz de ambientá-la no futuro ou no passado?

4. Onde acontece o conflito principal de sua história? Ocorre na Terra? Podem os conflitos acontecerem em um planeta distante ou em um ambiente primitivo?

5. Por que o seu protagonista é capaz de resolver o conflito principal da história nesse cenário? Ele tem uma habilidade ou aptidão única que o ajuda a triunfar? Se sim, descreva esta habilidade ou aptidão.

Use uma estrutura de três atos. Com uma Crise ou um Ponto de Virada na história, no final do Ato I e do Ato II.

Faça os Atos I e III com a mesma extensão, e o Ato II com cerca de duas vezes o tamanho do Ato I.
[Atribuição típica de páginas para um roteiro de 120 páginas: I = 30; II = 60; III = 30.] Roteiros são contínuos – não rotule os Atos. Eles são o seu segredo, embora os profissionais saibam onde procurar.

Conte a sua história visualmente, com diálogo suficiente apenas para preencher os vazios. Lembre-se dessa diferença: O filme é uma seqüência de imagens visuais; o teatro é uma seqüência de imagens verbais. Procure no nosso site por seminários sobre esse negócio de Narrativa Visual versus Narrativa Verbal.

Mantenha as suas falas de diálogo curtas. Mesmo nos filmes mais parecidos com peças de teatro, o diálogo é extremamente breve.

Filmes americanos são sobre o que acontece em seguida. A tecnologia de cortar de uma imagem para a próxima tem muito a ver com isso. O cinema europeu é o único mercado para estudos de caráter semelhante a peças de teatro.

Estabeleça um forte Enredo de Suspense. Mesmo numa comédia romântica. Filmes não lidam bem com os enredos de suspense leves que funcionam bem em peças teatrais.

Coloque o Gancho [em termos teatrais, o Incidente Detonador] nas primeiras duas páginas. Se você é um roteirista que não tem nenhum roteiro produzido, coloque o gancho na página 1.

Mantenha as suas cenas curtas. Três páginas é uma boa máxima absoluta antes de cortar para uma nova locação; de meia página a uma página é o mais típico.

Use menos Subtexto. No cinema, o Subtexto flutua para a superfície do diálogo com muito mais frequência, principalmente porque Hollywood tende a ter uma visão muito obtusa da inteligência de seu público.

Coloque um Padrão Emocional na Cena Obrigatória. Essas coisas são feitas sob medida para filmes.

Planeje um Final Feliz. É a norma.

Mantenha o manuscrito com menos de 120 páginas no formato de roteiro.
A maioria das empresas de produção não vai olhar para um primeiro roteiro freelance que esteja acima deste número mágico. Um máximo de 100 páginas os deixaria mais felizes. A regra antes de você ser famoso: Qualquer coisa além de 120 páginas é a morte.

Faça um resumo detalhado das cenas antes de escrever o roteiro.
À parte a atitude de Steve Tesich em relação a detalhar as cenas, a maioria dos roteiristas faz isso. O próximo passo é muitas vezes um Argumento [uma narrativa da história, entre 20 a 50 páginas]. E então, finalmente, o roteiro vem em terceiro lugar.

Pratique responder à pergunta: "Então me diga, sobre o quê isso se trata?" em uma frase, e faça uma comparação com outro filme de Hollywood recente [e bem sucedido financeiramente]. Se você não puder fazer isso facilmente, ou se a mera idéia de fazê-lo lhe irrita, volte para a dramaturgia.

Você está tendo problemas com a sua história? Tente colocar as suas cenas em cartões ou fichas, uma ficha para cada cena. Em seguida, coloque as fichas no chão à sua frente, e organize as cenas do começo ao fim. É um velho truque de roteiro, mas ajuda a muitos escritores a planejar suas histórias.

Lutar contra a dor. Ser um escritor pode ser desencorajador, porque sempre parece ter mais trabalho a se fazer. Há também aqueles dias em que você acredita que tudo que você escreveu é um desastre, e você não sabe por que começou a escrever, para começo de conversa. Paciência é uma virtude por uma razão. Você apenas tem que esperar isso passar, e continuar a escrever, tanto quanto possível. Se serve de consolo, todos passamos por isso.

Uma dica importante sobre personagens
Às vezes, quando estamos escrevendo um roteiro, nos esquecemos de que nossos personagens são pessoas reais com DEFEITOS REAIS. É fácil cair nessa armadilha, especialmente se o seu personagem principal tem que defender algo ou lutar por uma causa. Não faça-os bonzinhos demais, ou você vai perder o leitor. Dar aos seus personagens, especialmente aos heróis, defeitos reais é uma maneira certeira de torná-los mais humanos e, desse modo, as pessoas vão se identificar mais facilmente com eles.

Conclua. Parece elementar, mas não é. Ao longo da História, muitas pessoas tiveram grandes idéias, mas quantas as levaram adiante até o fim? Certifique-se de não deixar as armadilhas e o bloqueio de escritor ocasional impedirem-no de criar a sua obra-prima.

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Para quem deseja mais detalhes sobre essas técnicas de roteiro básicas (divisão em atos, crises, pontos de virada etc), consulte o livro Roteiro – Os Fundamentos do Roteirismo, de Syd Field, e o Story – Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro, de Robert McKee. Ambos são bíblias de roteirismo – indispensáveis.

Boa escrita pra você hoje!

20/03/2010

Começando

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:55
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Este é mais um artigo de Brad Mirman, retirado do site dele, The Screenwriters Homepage, que não está mais no ar. O título do artigo é o mesmo do post.

O escritor, jornalista, poeta e humorista americano Don Marquis (1878-1937)

“Se você quiser ficar rico escrevendo, escreva o tipo de coisa que é lido por pessoas que movem seus lábios enquanto lêem para si mesmas.” – Don Maquis

Okey, então você decidiu que quer ser um roteirista. Você tem um computador, uma impressora, um programa de processamento de texto e está pronto para começar. Agora tudo o que você precisa fazer é descobrir um modo de botar a história que tem estado zunindo em sua cabeça no papel.

A primeira coisa que você precisa se perguntar é: Eu realmente tenho uma história? Eu não posso dizer quantos escritores já me contaram as suas ideias para um filme. Geralmente é algo que aconteceu com eles, ou com a família ou um amigo deles… ou um amigo de um amigo… ou um amigo da família que tem um amigo… Bem, você entendeu.

“A sua história de vida?… por que não, o mundo

está precisando de umas boas risadas!”

Eles dirão: Um cara está trabalhando numa loja com o seu amigo e entra um assaltante. Ele mata o amigo, pega o dinheiro e parte… e o amigo que sobrevive vai atrás dele por vingança. Olha, se você estivesse tentando vender esta ideia para um produtor ou executivo de estúdio, a primeira coisa que ele provavelmente diria é: “Só isso?”. AGORA, ANTES DE CONTINUAR LENDO, PERGUNTE A SI MESMO SE VOCÊ SABE POR QUE ELE DIRIA ISTO.

Ele diria isto porque o enredo acima não é uma ideia para um filme. É a ideia para os primeiros cinco minutos de um filme. Eu descobri que este é o problema de muitos escritores principiantes. Já que eles nunca escreveram um roteiro antes, é difícil para eles terem um senso do que é necessário para sustentar um roteiro por 120 páginas. Mesmo agora, eu conheço muitos escritores profissionais (eu inclusive) que começam a escrever um roteiro só para descobrir que ele acaba morrendo em algum lugar do segundo ato.

Então, como você sabe quando tem uma ideia que pode carregar um filme? Algumas vezes você não sabe. Às vezes isto só fica claro escrevendo. Por exemplo, digamos que você é um produtor ou executivo de estúdio. Qual dos dois enredos você seria capaz de instantaneamente ver como um filme viável?

(1) Jane Campion entra em seu escritório e conta uma história sobre uma mulher muda que se muda para a Nova Zelândia com a filha, onde ela entra num casamento sem amor e encontra conforto tocando o seu piano.

(2) Bob Gale e Robert Zemeckis lhe contam sobre um adolescente de ensino médio que viaja para trás no tempo, onde ele encontra os seus pais, e a sua mãe começa a se apaixonar por ele.

Okey, De Volta Para O Futuro (Back To The Future, 1985) é ‘high concept’ (o que significa que você capta a ideia toda de um filme em uma frase) e O Piano (The Piano, 1993), não é. Ambos são ótimos filmes, mas um é muito mais fácil de ver como um filme do que o outro. Então, como você vai saber? A primeira coisa que você precisa é fazer perguntas a si mesmo. Muitas e muitas perguntas.

Vamos usar o enredo do assaltante acima. Eu sei que é fraco, mas ei, você não acha que eu vou lhe dar uma boa ideia, acha? Então um Ladrão entra e atira no amigo. Por quê? É um acidente ou há algum motivo mais profundo? Se houver uma razão mais profunda (o que eu espero que haja, se eu for ficar sentado lá assistindo por mais 115 minutos), qual é ela? Quem é o nosso protagonista? Por que nós gostamos dele? O que ele tem de interessante o suficiente para nos prender durante o filme todo? Por que nós nos importamos com ele?

Se você disse “porque o melhor amigo dele foi morto” – ERRADO. O melhor amigo dele esteve no filme por 3 minutos. Nós não nos importamos com ele… ele foi forragem para a história. Nós temos de nos importar com o nosso personagem principal. É aí que a maioria dos escritores se atrapalha. Eles tentam deixar a história carregar o roteiro. A história é importante, mas ela tem de trabalhar em conjunto com os personagens.

Agora, (e isto é algo que eu acabei de pensar)… e se o nosso balconista fosse de algum modo considerado culpado pelo assassinato de seu amigo? E se ele escapasse e tentasse encontrar a pessoa responsável? E se ele tivesse que ir para o mundo do crime, das ruas… forçado a sair de seu mundo, isolado? E se os seus amigos virassem as costas para ele? De repente, um homem que vivia uma vida de trabalhador comum, normal, é jogado nas sombras…

O que eu estou fazendo aqui é o que eu faço quando eu tenho uma ideia. Eu exploro todos os caminhos para ver onde eles me levarão. Eu sei que se ele fosse falsamente acusado de assassinato, nós torceríamos para que ele se saísse bem. Eu sei que se ele fosse forçado a viver num mundo que ele não conhecesse nem um pouco, onde um movimento errado poderia significar o fim de sua vida, nós nos importaríamos com ele. Eu não estou dizendo que as ideias acima são boas… Estou apenas tentando mostrar-lhe como cada pensamento se ramifica em outros. Pense sobre todos eles e você ficará surpreso ao ver onde eles lhe levarão.

Brad Mirman dirigindo Claire Forlani em De Encontro Com o Amor (The Shadow Dancer, 2005)

Então, como você sabe se a sua ideia pode durar por duas horas? Escrevendo-a. Muitos escritores usam fichas de 3×5 polegadas para projetar as sequências de seus roteiros. Eu costumava fazer isto quando eu comecei, mas agora eu meio que vivo com a ideia por semanas e semanas. É um tipo de escrita Zen. Eu componho cada personagem e cada cena em minha mente e então começo a escrever. Se você nunca escreveu um roteiro antes, então eu sugiro que você tente usar as fichas 3×5. Isto lhe dará uma boa indicação para ver se a sua história irá se sustentar ou não. Você não tem de escrever todas as cenas, todos os movimentos – apenas as ações maiores que movem a sua história para frente.

Agora, antes que comecemos a entrar de fato na estrutura da escrita de um roteiro, eu gostaria de me desviar do assunto por um momento. Uma coisa que eu descobri sobre escritores principiantes é que eles se preocupam demais com coisas que não são importantes. Ao dar uma olhada em alguns sites e ler algumas das discussões, eu fiquei assombrado (realmente assombrado) com quanto tempo é gasto em tópicos como: Quantas ‘bailarinas’ eu devo usar? Eu preciso de uma capa? Que cor ela deve ter?

Para aqueles de vocês que são obcecados com isto, deixe-me dizer o seguinte: Gaste um pouco mais de tempo se preocupando com o que está dentro de seu roteiro, e menos na embalagem. Ninguém vai lhe dizer, “Sr. X, você escreveu um roteiro maravilhoso, mas eu odeio capas vermelhas e você só usou duas ‘bailarinas’. Se você não tivesse feito isso, nós o teríamos comprado.” Acredite em mim, quando você envia um roteiro para um produtor ou para um estúdio, eles querem gostar dele. É o trabalho deles encontrar e produzir um novo produto. A única situação que eu conheço em que você tem de se preocupar com a apresentação é quando você registra o seu roteiro no WGA (Writer’s Guild of America)… e eles não aceitam capa, nem ‘bailarinas’. Bem, eu não estou dizendo que em algum lugar por aí não haja um produtor imbecil que apenas leia roteiros com três ‘bailarinas’ e capas brancas – e se você topar com ele, então faça do jeito dele. Em geral, ISTO NÃO IMPORTA… duas ‘bailarinas’ ou três, com capa ou sem capa. Okey?

O motivo de eu estar gastando tanto tempo no assunto de ‘bailarinas’ e capas é que eu sinto que isto está relacionado a um outro problema. E este não se aplica somente a escritores principiantes: Procrastinação. Eu realmente sinto que parte do motivo de eu ter me tornado um escritor bem-sucedido foi a minha determinação de vencer. Quando eu comecei a escrever, comecei com várias outras pessoas que eu conhecia que também queriam ser escritoras. Algumas delas tinham um grande talento para a palavra escrita… outras não tinham.

Por que eu fui bem-sucedido enquanto os outros que também tinham talento não foram? Bem, sorte e estar no lugar certo e na hora certa têm algo a ver com isto. Mas a única diferença maior que eu consigo ver ao olhar para trás é que o meu empenho foi maior que o deles. Quando eles terminaram o roteiro e estavam contemplando quais cores de capa e quantas ‘bailarinas’ usar, eu já tinha enviado o meu e estava planejando o próximo. Enquanto eles estavam sentados por aí, esperando saber como os seus roteiros foram recebidos, eu já estava escrevendo o seguinte. Enquanto eles estavam se preocupando em ser rejeitados, eu já estava enviando o meu novo roteiro. Em resumo, eu percebi bem cedo em minha carreira que se você quer ser um escritor… então escreva. É realmente simples assim. Como diz a propaganda: Just do it (N.T.: “Apenas faça” ou “Simplesmente faça” é o slogan da marca de tênis Nike). Faça-o malfeito no começo se for preciso… mas faça. Mais do que qualquer coisa que você for ler ou ouvir de alguma outra pessoa, fazer é a melhor experiência de aprendizado que existe.

OBSERVAÇÃO: Quando eu digo para fazer malfeito se for preciso, eu não quero dizer para fazer malfeito… saber que é ruim e enviá-lo assim mesmo. Se você estiver apenas começando e tiver a sorte de conseguir que um produtor ou executivo de estúdio leia algum dos seus roteiros, é melhor que ele seja bom… porque se ele não for, o próximo irá direto para a lixeira. Quando eu digo bom, não estou querendo dizer que ele deva ser comprado. De fato, eu ainda uso um roteiro que nunca vendi como um modelo de escrita quando vou a negociações de desenvolvimento e reescritas.

Ao reler alguns dos últimos parágrafos eu percebi que alguns de vocês podem sentir que eu adotei uma postura muito dura em relação a isto. O que eu estou tentando fazer ao escrever estas linhas é mostrar-lhe a realidade de ser um escritor na ativa. E uma dessas realidades é que é melhor você ter uma casca dura… porque existem pessoas lá fora que querem lhe comer no café da manhã… do leitor do estúdio que é um escritor frustrado – ao produtor que vai pegar o seu roteiro e transformá-lo na visão dele. Esta é a realidade de Hollywood.

Se você quer ser um roteirista, então esteja preparado para comprometer, a si mesmo e o seu trabalho, porque fazer filmes trata-se de um monte de gente reunindo-se (escritores, produtores, executivos de estúdio, diretores, atores) e cada um deles está tentando trazer a sua própria interpretação do roteiro para as telas. Ah, por falar nisso, após vender o roteiro, adivinha o voto de quem conta menos? Você disse que é o do escritor? Certo você está. Uma vez tendo escrito FADE OUT e entregado o roteiro, a sua contribuição está basicamente terminada.

Então, se você quer escrever e quer conservar alguma aparência de controle sobre o seu trabalho, então eu sugiro que você escreva livros. Por que fazer isto então? Fácil. Porque você não consegue se imaginar fazendo nenhuma outra coisa. Um escritor não é algo que você queira ser – um escritor é algo que você é. PONTO. Você nasceu com isto. Está em seu sangue.

Okey, eu vou sair do meu púlpito agora e voltar aos trilhos. Digamos que você tem uma história e sente que ela é boa. Você começa organizando as suas fichas 3×5. Antes de tudo, qual é a abertura? Por abertura eu quero dizer, o que irá acontecer nos primeiros dez minutos (que são as primeiras dez páginas) que farão o leitor querer continuar? E acredite em mim quando eu lhe digo que um escritor principiante não consegue muito mais do que dez páginas. Se a esta altura você ainda não prendeu a pessoa que está lendo o seu roteiro, ele vai acabar como papel para rascunho ou forrando o fundo da gaiola de passarinho deles. E quando eu digo “prender a pessoa que está lendo”, eu não estou falando de sua mãe ou do seu namorado(a). Eu estou falando de Agentes, Produtores e Executivos de Estúdio.

“Caro Senhor, eu acabei de ler a sua carta de rejeição e devo dizer

que ela não está à altura do padrão que eu esperava”

As pessoas neste negócio que não lhe conhecem, não se impressionam pelo fato de que você realmente se sentou e escreveu um roteiro. Produtores e agentes têm grandes pilhas de roteiros em suas mesas, e se eles não virem rapidamente algo que lhes interesse, está tudo acabado.

Então, usando o nosso enredo acima, a abertura seria o amigo do nosso protagonista sendo morto, e ele sendo culpado pelo assassinato. Okey, este é um gancho. Talvez não seja um dos grandes, mas é um gancho. Então agora nós temos as nossas primeiras dez páginas.

PARE! Você descobriu por que ele foi preso por assassinato? O que faz a polícia suspeitar dele? Os dois tiveram uma briga na noite anterior e ameaçaram matar um ao outro? Obviamente não existem câmeras de vigilância na loja, caso contrário ele poderia provar a sua inocência. Certo? Não necessariamente. Você consegue pensar num jeito de colocar uma fita adulterada no sistema de segurança para incriminá-lo falsamente?

Você está vendo o que eu quero dizer? Pense em todas as possibilidades. Podem não lhe levar a lugar algum… que é o que geralmente acontece… mas de vez em quando você topa com um filão. Mesmo agora, após todos esses anos, eu fico constantemente impressionado com o ofício da escrita… como uma coisa leva a outra. Nunca houve um roteiro que eu tenha escrito onde não tenha aprendido algo novo sobre escrita.

O enredo que o cara criou não é ruim, só não é original. Este foi basicamente o enredo do filme O Fugitivo (The Fugitive, 1993 – adaptação para o cinema da série televisiva de mesmo nome, de 1963), lembra?

Boa escrita para você hoje! 😀

18/03/2010

Apresentando Os Seus Personagens

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:51
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O artigo de hoje, cujo título é o mesmo do post, também é do site The Screenwriters Homepage, escrito por Brad Mirman. Eu já estou acabando de traduzir este finado site, assim ele terá uma sobrevida, pelo menos em português. E eis a foto de Brad aí em baixo! Essa é a primeira vez que eu vejo a cara dele!

Na primeira vez em que os seus personagens são apresentados o leitor deveria imediatamente ser capaz de ter uma percepção do tipo de pessoa que você está criando. Isto não é feito apenas na descrição, mas nas próximas poucas cenas que seguem à apresentação deles.

Se lemos 10 páginas e não conseguimos compreender a que os personagens vieram, então o escritor não fez bem o seu trabalho. Isto é feito através da primeira apresentação narrativa e do diálogo que vem em seguida.

Em minha própria escrita eu sempre tento dar aos leitores tanta informação quanto eu puder, para que eles tenham uma ideia do personagem. Para ter um exemplo disso, você pode ler as apresentações de Rebbeca Carlson, Sattler — Frank e Sharon Dulaney do filme Corpo Em Evidência (Body of Evidence, 1993).

Brad é o autor do roteiro deste filme. O link lhe levará ao roteiro original, em inglês. Se você preferir, pode ir no site Roteiro de Cinema e ler alguns dos muitos roteiros em português que têm em sua Biblioteca. Ou pode procurar em seu excelente mecanismo de busca por qualquer outro filme que você quiser. Este exercício vale com qualquer roteiro: basta ler as dez primeiras páginas do máximo de roteiros que você puder para ter uma ideia de como os roteiristas apresentam (bem ou mal) os seus personagens. A gente aprende tanto com os acertos, quanto com os erros dos outros.

Boa escrita pra você hoje!

21/02/2010

Comece Quando a História Começar

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 15:43
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Um dos sites que mais me inspiraram a escrever roteiros e a fazer este blog foi o Script Secrets, de William C. Martell, juntamente com o Wordplayer de Terry Rossio (porém este último está há algum tempo inacessível para nós, brasileiros. É necessário usar um proxy estadunidense para conseguir entrar nele).

Hoje eu traduzirei um artigo de Martell chamado Comece Quando a História Começar. Os artigos de Martell têm uma característica interessante: ele sempre exemplifica as suas dicas com filmes. Por um lado, isto é ótimo, pois nos faz visualizar e entender os mecanismos de escrita de roteiro aplicados na prática. Por outro lado, ele às vezes conta demais sobre os filmes, supondo que já os tenhamos assistido. Eu, pessoalmente, não me importo, aprendo muito, mesmo com os exemplos de filmes a que ainda não assisti. Mas, para não ser estraga-prazeres, eu avisarei no começo de cada artigo dele que eu postar, quais serão os filmes analisados por ele. E no próprio corpo do artigo eu colocarei os seguintes avisos: Começo dos Spoilers // Fim dos Spoilers. Deste modo, quem preferir pode pular os exemplos e ler apenas a teoria, voltando para ler o resto após assistir aos filmes.

No artigo de hoje ele analisará os primeiros 10 minutos do filme de Alfred Hitchcock, Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955). O roteiro é de autoria de John Michael Hayes, baseado no livro de David Dodge.

OK, avisos dados, vamos logo ao que nos interessa:

Nas primeiras dez páginas de um roteiro, você precisa contar:

1) Quem será o personagem principal.

2) Sobre o que se trata a história.

3) Qual será o conflito externo do roteiro (o enredo).

4) Qual será o problema emocional do personagem principal.

5) E também apresentar o conceito central do filme.

Você tem de ter o seu personagem principal já em ação antes da página dez. Isto significa que você precisa apresentá-lo e envolvê-lo em algum tipo de conflito… e você precisa engajar os espectadores nos problemas de seu protagonista, para que eles se importem se o personagem vai conseguir resolvê-los ou não.

Você não odeia o modo como a MTV mudou os filmes para pior? Nós não temos mais o tempo apropriado para conhecer os personagens como antigamente. Tudo é tão acelerado hoje em dia! Os filmes eram melhores nos velhos tempos porque eles não tinham tanta pressa de começar…

Ei, vamos dar uma olhada em um desses bons filmes antigos! O elegante Cary Grant, e a epítome de mulher com classe, Grace Kelly, estrelaram no suspense romântico Ladrão de Casaca, lá no ano de 1955. A maioria de vocês ainda não tinha nascido em 1955, e alguns podem declarar que nem os seus PAIS tinham nascido quando este filme foi feito. Ladrão de Casaca tem aquele ritmo lento dos anos de 1950, que permitia ao público realmente conhecer os personagens. Aqui está o que acontece nos dez primeiros minutos de abertura de Ladrão de Casaca:

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O filme abre com uma mulher gritando. As suas jóias foram roubadas.

De 0:12 a 1:00 (minutos) nós temos cortes entre cenas de gatos em telhados, e mulheres gritando que foram roubadas.

Em 1:00 há uma reunião entre policiais, terminando com 5 deles sendo enviados para prender John Robie (Cary Grant).

Em 1:30 nós vemos a empregada de Robie fazendo a faxina… e o gato preto.

Em 2:00 Robie ouve o carro de polícia correndo em direção à sua casa de campo. Após ver o carro policial, ele corre para dentro. Em 2:50 os policiais param o carro, cercando a entrada da propriedade.

Em 3:25 Robie carrega a sua espingarda e a esconde.

Em 3:50 Robie fala com a polícia — eles estão lá para prendê-lo. Ele diz que é inocente — eles não acreditam. Ele pergunta se pode se trocar…

Em 4:30 Robie vai para o quarto… e a espingarda dispara! A polícia corre para a porta (trancada).

Em 5:00 a polícia arromba a porta — o quarto está vazio.

Em 5:10 a polícia ouve um carro disparar com os motores roncando, e eles correm para fora do quarto — a perseguição começou!

De 5:10 a 7:20 há uma perseguição de carro — a polícia persegue o carro de Robie através de curvas fechadíssimas. Há um obstáculo de ovelhas no caminho também. Quando eles alcançam o carro — ele está sendo dirigido pela empregada de Robin! A polícia dá a volta e retorna à vila.

Em 7:20 Robin faz sinal para um ônibus e vai até a cidade.

Em quase 8:00 Robie chega ao restaurante. Todos ali o odeiam — um cara joga um ovo nele. O quadro de funcionários do restaurante é formado por ex-criminosos que lutaram na resistência junto com Robie. Eles temem que a polícia os prendam pelos crimes recentes de Robie.

Em 9:30 Robie conta ao dono do restaurante que ele não rouba uma peça de jóia há 15 anos — ele é INOCENTE, foi acusado injustamente.

Em 10:00 um dos caras quebra um prato — pronto para atacar Robie com o caco afiado.

Eu acho que isso cobre tudo o que você precisa fazer nas dez páginas de abertura de um filme feito nos anos de 1950… ou nos de hoje! Além do mais, é uma abertura excitante. Nós temos uma perseguição de carros, quase temos uma luta, temos uma esperta escapada da polícia… e ainda aprendemos sobre Robin, apresentamos o conflito do enredo de uma forma excitante; e eu quero saber como ele irá convercer a polícia de que é inocente, quando até mesmo os seus amigos pensam que ele é culpado… e se viraram contra ele.

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»  FIM DOS SPOILERS  ««««««««««««««««««««««««««««««««««

Se você pegar os seus 10 filmes clássicos favoritos, descobrirá que a maioria deles começa quando a história começa.

Eu já disse em dicas anteriores (N.T.: conferir em Script Secrets.net) que uma boa cena faz várias coisas de uma vez — você precisa ter cenas que funcionem em mais de um nível: que exponha ou estabeleça o personagem, que mova a história para frente, que contenha informação sobre o enredo, e que sejam divertidas e excitantes. As suas primeiras 10 páginas precisam fazer todas essas coisas a fim de prender o leitor e o público — você não pode começar a história na página 11 se o roteiro começa na página 1!

Por hoje é só isso! Amanhã teremos mais dicas de roteiro e de como fazer filmes! Boa escrita para você, um bom finalzinho de semana, e inté!

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