Dicas de Roteiro

17/04/2015

Autores de Terror: Como Assustar Seus Leitores

Filed under: Escrita Literária — valeriaolivetti @ 17:00
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Este artigo é de autoria de Philip Athans e foi publicado originalmente no site The Write Life:

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Se você estiver escrevendo terror, fantasia sombria, mistério ou qualquer outra coisa que requeira suspense, um bom susto ou qualquer coisa que possa aterrorizar os seus leitores, você provavelmente já sabe que a palavra escrita pode enchê-lo de pavor, e até mesmo sobressaltar você. Esses sentimentos não estão reservados aos filmes.

Mas quanto estudo você dedicou ao modo como os seus autores de terror favoritos se empenharam para assustar você com a palavra escrita?

Filmes dependem de edição, de pistas de música, de performance, de efeitos especiais visuais e de maquiagem… todo um desfile de ferramentas cinematográficas. Mas em prosa, tudo o que nós temos com que trabalhar são palavras, e a imaginação dos nossos leitores. A boa notícia é que essas são ferramentas poderosas.

Embora você possa não ter muito controle sobre a imaginação de cada leitor, ou sobre a interpretação que ele fará de seu trabalho, as maneiras de organizar as palavras em frases e as sentenças em parágrafos podem ativar a psique dos seus leitores de formas que você pode não ter imaginado serem possíveis.

Tudo se resume à respiração

Mesmo quando lemos silenciosamente, nós tendemos a respirar acompanhando o que estamos lendo, como se estivéssemos lendo em voz alta. É impossível para nós desligarmos certas partes do nosso cérebro, e quando algo nos leva a começar a respirar de forma diferente, isso nos força a entrar em diferentes estados. Quando está num pânico cego, você tende a hiperventilar, respirando em arfadas rápidas e superficiais. Quando está nervoso ou ansioso com alguma coisa (a sensação de suspense), você tende a prender a respiração, e respirar mais devagar.

A boa notícia para os autores de terror e suspense é que esses processos também funcionam no sentido inverso. Se você puder forçar esse estado de respiração (ou, mais precisamente, uma versão menor, menos fisicamente traumática desse estado) em seus leitores, você vai provocar a resposta psicológica necessária.

Evocando suspense e ansiedade

Quando você está construindo suspense, evocando uma sensação de morte iminente ou o medo terrível do desconhecido, faça o seu leitor prender a respiração. Impeça-o de fazer sua próxima respiração por mais tempo do que o normal. E embora possa parecer impossível realizar isso com palavras em uma página, lembre-se do que eu disse sobre como nós inconscientemente respiramos como se estivéssemos lendo em voz alta, mesmo quando não estamos.

Uma das razões pelas quais as frases são finitas é que o ponto no final nos permite uma respiração. Os parágrafos nos dão uma chance de respirar mais fundo. Então, se você quiser que o seu leitor desacelere a respiração e comece a se sentir nervoso, ansioso ou com medo, mantenha suas frases longas, e seus parágrafos mais longos ainda.

Bem no início do clássico livro de Shirley Jackson, The Haunting of Hill House [N.T.: Editado no Brasil em 1983 com o título A Assombração da Casa da Colina pela Editora Francisco Alves, já esgotado] a protagonista, Eleanor, está a caminho de encontrar seus colegas investigadores paranormais em uma casa que é conhecida por ser assombrada. Embora animada por ser parte de algo potencialmente importante, e por ficar longe de sua vida monótona na cidade, Eleanor tem pavor do que vai encontrar lá, e não apenas por causa dos fantasmas, mas como resultado do que nós agora nos referimos como ansiedade social. Quanto mais perto da casa ela chega, mais ansiosa ela fica.

Jackson transmite essa ansiedade com um único parágrafo, em que Eleanor faz uma parada em uma pequena cidade ao longo do caminho e toma uma xícara de café. É uma cena inócua, mas contada num tenso POV [ponto de vista], é incrivelmente estressante. Este único parágrafo é composto por dez frases. A primeira dessas frases é a mais curta, com 28 palavras. A última é a mais longa, com 52 palavras. [N.T.: Contando as palavras do original, em inglês.]

Tente lembrar da última vez em que você leu, que dirá escreveu, uma frase que tivesse 52 palavras.

Ao final deste parágrafo monstro, Shirley Jackson deixou seus leitores com falta de ar, e ajudou a solidificar The Haunting of Hill House como um dos clássicos incontestáveis ​​do gênero.

Em outro clássico conto de casa mal-assombrada, Hell House [N.T.: Publicado no Brasil em 2009 com o título Hell House – A Casa Infernal pela Editora Novo Século, também já esgotado], o autor Richard Matheson evoca esse sentimento de pânico em uma cena de nove parágrafos, cada um com no máximo duas frases curtas. Leitores estão acostumados a fazer uma respiração completa depois de cada parágrafo, então as respirações virão rápidas e furiosas através de:

Ela parou com um sobressalto e olhou para a mesa espanhola.

O telefone estava tocando.

Não pode, ela pensou. Não tem funcionado em mais de trinta anos.

Ela não iria atender. Ela sabia quem era.

Ele continuou a tocar, os sons estridentes apunhalando os seus tímpanos, o seu cérebro.

Ela não deve atender. Ela não faria isso.

O telefone continuou tocando.

“Não”, ela disse.

Tocando. Tocando. Tocando. Tocando.

Eu sei — tecnicamente, este último parágrafo tem quatro frases, mas vamos considerar o empilhamento em staccato do “Tocando” como uma frase com respirações parciais entre cada palavra.

Em vez de um único parágrafo de dez frases, temos parágrafos de uma ou duas frases, com a frase/parágrafo mais longo contando com 14 palavras, ou precisamente metade do tamanho da frase mais curta de Shirley Jackson.

Após esta cena, há um par de parágrafos um pouco mais longos, conforme a protagonista tenta assumir o controle da situação, mas isso é rapidamente descartado por mais ataques de staccato sobre os sentidos. E, assim como The Haunting of Hill House , o sucesso contínuo de Hell House é a prova da sua eficácia.

Colocando esta técnica em prática

Essa ideia de controlar a respiração dos seus leitores não é tudo em escrita de terror, mas com alguma prática isso vai funcionar para você.

E estar ciente de quando usar melhor essa estratégia também irá evitar o uso excessivo dela; e faça a maior parte de sua prosa de forma legível, acessível e confortável — até que você queira que as coisas comecem a ficar assustadoras novamente.

Você escreve terror? Já experimentou esta técnica para controlar a respiração do seu leitor?

***

The Haunting of Hill House  Hell House  the-legend-of-hell-house-426197l

Observações da tradutora:

– O livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson, já está totalmente esgotado no Brasil (os dois únicos volumes disponíveis no site da Estante Virtual estão custando 110 e 120 reais, o que é um roubo). Porém, uma alma caridosa disponibilizou a obra em PDF. Já o livro Hell House – A Casa Infernal, de Richard Matheson, está custando R$ 59,90 na Estante Virtual, mas só tem uma cópia disponível. Eu não li o livro da Shirley Jackson, mas ouvi o audiobook de Hell House em inglês e o narrador conseguiu passar o suspense da obra (no caso de um audiolivro, o ritmo das frases vai depender primariamente (além da qualidade da escrita) da qualidade da direção e da narração. Alguns audiolivros que escutei tinham bons narradores, mas uma péssima direção, que claramente obrigou os leitores a acelerar a leitura (provavelmente para manter a duração total do áudio curta), o que afetou tremendamente o resultado final, pois uma leitura rápida acaba ficando superficial, deixando a desejar em entonação e ritmo (sem falar em interpretação teatral), o que empobrece a experiência de absorver a obra. Achei que a história prendeu a atenção do começo ao fim, sempre com aquela atmosfera enervante e angustiante de que as coisas podem piorar a qualquer instante. Leiam a resenha do Flávio Assunção Filho, ele resumiu bem os sentimentos que tive ao escutar esta obra. Vale a pena a leitura para quem gosta do gênero. Existe uma adaptação cinematográfica feita em 1973 chamada A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House, no original), com o ótimo Roddy McDowall no elenco, mas pessoalmente eu achei o livro com mais suspense e terror (ao lermos uma obra minimamente bem escrita, as cenas que nossa imaginação cria são sempre mais vivas e impactantes do que qualquer imagem cinematográfica, por mais efeitos visuais e sonoros que tenha, por isso adaptar uma obra literária costuma ser tão complicado e gerar tantas polêmicas e ânimos exaltados dos fãs do livro).

Uma boa escrita e uma leitura aterrorizante pra você hoje! Smiley piscando Smiley de boca aberta

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10 Comentários

  1. Adorei esse artigo, já escrevi algumas histórias de terror, portanto, esse post vai me enriquecer bastante no aspecto criativo.

    Comentário por Januária — 17/04/2015 @ 23:37

    • Legal, Januária, tomara que ajude bastante! Eu também gosto de escrever terror mas nunca tinha pensado nesse aspecto da respiração, achei essa dica diferente.

      Comentário por valeriaolivetti — 18/04/2015 @ 08:08

  2. Bem, o primeiro exemplo funciona em livro porque o leitor tem a oportunidade de acompanhar o ritmo do parágrafo que lê. Em roteiro de cinema ia ficar complicado um paragrafo de 28 ou 52 palavras. Já o segundo exemplo funcionaria bem até em roteiro de cinema não somente porque são frases curtas como requer a narrativa de roteiro, mas sobretudo porque há uma alternância de p.o.v. que permite a câmera a criar a ilusão de “movimento”.

    Um diretor teria opções, uma delas poderia ser:

    (medium shot para enquadrar a personagem e outro enquadramento para cobrir a mesa, podendo manter o enquadramento aberto ou fechar em direção a um close-up do telefone) Ela parou com um sobressalto e olhou para a mesa espanhola.

    (nova tomada para re-enquadrar o telefone isolado, ou optar apenas por som em OFF) O telefone estava tocando.

    ( atuação do ator. Talvez recorrer a um monólogo para que o espectador saiba que são trinta os anos que aquele telefone não toca – se não tiver sido esclarecido em cena anterior) Não pode, ela pensou. Não tem funcionado em mais de trinta anos.

    (atuação do ator. Resistência em agir. Ou atitude de quem não vai atender. Talvez V.O. ou monólogo para informar ao público que se sabia de quem se tratava. Talvez apenas a recusa de atender e deixar de “cobrir” a segunda parte do enunciado) Ela não iria atender. Ela sabia quem era.

    (som em OFF, som aumentado, close-up do ator, atuação de desespero) Ele continuou a tocar, os sons estridentes apunhalando os seus tímpanos, o seu cérebro.

    (atuação do ator. Transmissão da exasperação) Ela não deve atender. Ela não faria isso.

    (enquadramento do telefone, ou somente o som em OFF, insistente) O telefone continuou tocando.

    (diálogo) “Não”, ela disse.

    (enquadramento do telefone ou somente som em off insistente, ou volume crescente/ou descrescente) Tocando. Tocando. Tocando. Tocando.

    Focar o ator, focar o telefone, não focar um ou outro, aumentar ou diminuir o volume do som do telefone que toca, alternar o som com a reação do ator, explorar a performance do ator, tudo isto são possibilidades fílmicas que as frases curtas, em que a câmera troca o sujeito/objeto focado, contribuem para gerar o estado de tensão que a cena requer.

    Por isto é importante que o roteirista escreva seu texto em “tomadas”. Frases curtas. Linhas singulares. Novas linhas.

    As sentenças do roteiro de cinema, longe de ter 52 ou 28 palavras, devem ser minimalistas e centradas na ação (no que acontece) alterando o pov (de subjetivo para objetivo e de volta ao subjetivo e trocando para o objetivo, etc)

    Tal modulação não seria possível se você escrever num roteiro de cinema parágrafos do tipo do primeiro parágrafo do livro A Assombração da Casa da Colina,

    Cheers

    Comentário por Regia — 18/04/2015 @ 17:15

    • Oi, Regia! Obrigada pela visita, o seu comentário foi importante para me alertar de que devo organizar melhor os posts, separando melhor a parte de escrita literária da de roteiros para o pessoal não se confundir e encontrar melhor o que procura. Valeu! Cheers! 😀 😉

      Comentário por valeriaolivetti — 26/04/2015 @ 08:33

  3. Achei muito interessante a técnica da respiração. Principalmente que terror é o meu tema preferido, tanto em livros quanto no audiovisual. É hora de fazer revisão no meu livro de terror e pôr em prática agora 🙂

    Comentário por Marcinho Zachariadhes — 20/04/2015 @ 11:34

    • Oi, Marcinho!
      Que legal, também adoro terror! E também não conhecia essa técnica, eu também vou ter que revisar meu livro, tamos juntos nessa! Rsrs! 😀
      Eu gosto de muitos estilos de histórias de terror, mas sou especialmente fã de zumbis, fantasmas, alienígenas, paranormal e essas coisas. Já que você gosta do assunto, eu vou sugerir uma leitura: Apocalipse Z, de Manel Loureiro (é uma trilogia). Eu gostei bastante dos livros desse autor espanhol, e ele lançou recentemente outro que parece ser sobre navio-fantasma, e que eu comecei a ler agora: O Último Passageiro. O interessante é que o autor é jornalista e começou a escrever o primeiro livro dele (o Apocalipse Z) como um blog. Na verdade, é o personagem principal (que não tem nome!) que escreve, em primeira pessoa, o blog sobre o avanço do apocalipse zumbi que o mundo está vivendo (é assim que começa a história). O troço fez tanto sucesso que logo foi publicado e traduzido para diversas línguas, inclusive o inglês. A história é cheia de ação e os personagens são bem desenvolvidos e divertidos. Eu gostei mais desses livros do que os do Max Brooks. Eu espero que você também goste!
      Ah, e acabou de ser editado em português um livro imprescindível para quem quer escrever terror: Sobre a Escrita, de Stephen King. É meio autobiografia, meio dicas de escrita, demorou um tempão para ser traduzido, o original é de 2000! Vale ter na biblioteca de casa.
      Um grande abraço, Marcinho, e obrigadão pela visita! 🙂
      Valéria

      Comentário por valeriaolivetti — 26/04/2015 @ 09:06

      • Ótimas dicas Valéria, já marquei no meu skoob como “quero ler”, e olhando os comentários dos leitores, parecem ser mesmo bons livros. Esse O Último Passageiro, achei que eles não quiseram falar muito na sinopse com medo de entregar a trama do livro, pois achei meio confusa, mas a forma como os leitores descreveram me lembrou muito um autor que gosto muito (Dean R. Koontz).
        Nunca li os livros do Max Brooks, acho que porque eu via os zumbis como “monstros secundários” antes de The Walking Dead – fruto dos filmes que mesmo sem querer, transformaram os zumbi em comédias.
        E já fiquei na vontade de ir na rua comprar o Sobre a Escrita do King!!! rsrs
        Abração Valéria, Até mais 🙂

        Comentário por zachariadhes — 26/04/2015 @ 11:42

        • Oi, zachariadhes!
          Pois é, eu também não faço ideia do que se trata O Último Passageiro, ainda mais porque evito ler sinopses na contracapa e nas orelhas dos livros de ficção; geralmente eu leio os livros que as pessoas me recomendam, ou outras obras de autores que eu já li e gostei. Já li uma orelha de livro que contava a história toda, só deixou o terço final pra gente descobrir. Eu fiquei o livro inteiro fumegando de raiva e só esperando para ver quando é que iria acontecer alguma coisa que eu ainda não sabia. O pessoal de marketing das editoras quer atrair o público de qualquer jeito e acaba apelando, contando o clímax da história. Dar spoilers assim deveria ser crime! E o pior é que esse não foi um caso isolado, isso me aconteceu umas duas ou três vezes (!!!), então eu passei a ler os livros de ficção sem saber quase nada sobre eles (exceto o que as capas sugerem, e o gênero do livro). Já dos livros de não-ficção, eu adoooooro ler as orelhas e contracapas, muitas vezes eu aprendo curiosidades interessantes só aí, o que abre o meu apetite para ler o livro todo.
          Quanto à série Apocalipse Z, é mais ação e drama, apesar de ter humor nele também. Mas acho que você não irá achar ridículo (espero! :D).
          E leia mesmo o livro do King, vale super a pena!
          Um abração, zachariadhes, e obrigada pela visita! 🙂
          Valéria

          Comentário por valeriaolivetti — 02/05/2015 @ 08:51

  4. Legal, Valéria!
    Gosto de terror, embora não saque nada desse gênero.
    Voltou com tudo.

    Comentário por Paulo Henrique — 22/04/2015 @ 16:46

    • Oi, Paulo Henrique! 🙂
      Antes de tudo, obrigada pela força, sua amizade é muito importante pra mim! 🙂 🙂
      E eu também gosto muito de terror (quando bem feito, claro, apesar de que também há uma certa diversão no humor involuntário dos filmes classe “Z” de terror, mas acho que não é o sonho de carreira de ninguém fazer humor involuntário, não é mesmo? 😀 ). E, pra falar a verdade, tirando o fato de ter assistido filmes de terror desde pequena e lido alguns livros e roteiros, também não sou expert no assunto, tecnicamente falando. Mas eu adoro criar histórias de terror, suspense paranormal, fantasia sombria e coisas afins (hoje em dia tem tantos subgêneros que tá difícil de acompanhar e saber o que é que a gente tá escrevendo! Rsrs! 🙂 😉 )
      Espero encontrar mais dicas interessantes sobre o assunto, se eu achar, pode deixar que eu postarei aqui.
      Um abração, Paulo, e obrigada pela visita!
      Valéria

      Comentário por valeriaolivetti — 26/04/2015 @ 08:49


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