Dicas de Roteiro

05/05/2013

Tudo Sobre Flashbacks

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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O artigo a seguir é do autor, roteirista, palestrante e consultor de roteiros, David Trottier, e foi tirado do site dele, Keep Writing:

flashback1

Apesar de você ouvir com frequência o conselho para evitar flashbacks, eles são perfeitamente legítimos, se usados corretamente.

Algumas orientações básicas incluem: Não conte ao leitor sobre o passado até que ele se importe com o futuro; um flashback não deve parar um filme só para apresentar uma explicação; e um flashback deve mover a história adiante. Você executa esta última diretriz fazendo o público querer saber o que aconteceu antes do flashback e, em seguida, escrevendo o flashback de uma forma que os faz querer saber o que vai acontecer a seguir.

Flashbacks podem ser complicados de formatar, e muitos escritores deixam os leitores confusos quanto ao que acabaram de ler. Existem numerosos métodos corretos de formatar flashbacks, mas o princípio primordial é ser claro.

Método 1 – Um flashback dentro de uma cena

No exemplo abaixo, nós rotulamos o flashback como se fosse uma montagem.

FLASHBACK – ACIDENTE DE TREM

Barry vê o trem em alta velocidade vindo em direção a ele e salta dos trilhos, mas seu pé fica preso numa braçadeira do trilho.

DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS

O método acima é projetado para flashbacks curtos que acontecem dentro de uma cena.

Para flashbacks mais longos, ou seja, flashbacks que incluem uma cena inteira, considere um dos seguintes métodos:

Método 2 – Um flashback que é em si uma cena completa

FLASHBACK – EXT. TRILHOS DO TREM – DIA

Método 3 – Método alternativo para quando o flashback é uma cena completa

EXT. TRILHOS DO TREM – DIA – FLASHBACK

Ou

EXT. TRILHOS DO TREM – DIA (FLASHBACK)

Se você usar qualquer uma das notações acima, então o próximo cabeçalho de cena seguirá o mesmo padrão e ficará assim:

INT. HOSPITAL – DIA – DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS

Ou

INT. HOSPITAL – DIA (DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS)

Você também pode usar qualquer uma das notações acima do DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS para o Método 2 também.

Se desejar, você pode reduzir a extensão, como segue:

INT. HOSPITAL – DIA – DIAS ATUAIS

Ou

INT. HOSPITAL – DIA (DIAS ATUAIS)

Finais de flashback alternativos para os Métodos 2 e 3

No final de um flashback, você pode usar um dos seguintes métodos alternativos para terminar o flashback.

FIM DO FLASHBACK

INT. HOSPITAL – DIA

Também seria correto colocar a frase FIM DO FLASHBACK rente à margem direita, seguida de um ponto, como segue:

FIM DO FLASHBACK.

INT. HOSPITAL – DIA

Método 4 – Flashbacks com mais de uma cena

Se um flashback tem mais do que uma cena de duração, você vai usar o método 2 ou o 3 para o seu primeiro cabeçalho de cena de flashback. Cabeçalhos de cena subsequentes serão escritos como cabeçalhos de cena normais, sem a palavra FLASHBACK. O leitor irá supor que cada cena que se segue àquela primeira cena de flashback é parte do flashback, até ele ver FIM DO FLASHBACK ou DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS de alguma forma. Aqui está um exemplo:

EXT. TRILHOS DO TREM – DIA – FLASHBACK

Barry vê o trem em alta velocidade vindo em direção a ele e salta dos trilhos, mas seu pé fica preso numa braçadeira do trilho.

INT. HOSPITAL – DIA

Barry está deitado em uma maca. Um médico puxa um lençol sobre sua cabeça.

INT. ESCRITÓRIO – DIA – DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS

Ou:

INT. ESCRITÓRIO – DIA – DIAS ATUAIS

Se você desejar, está perfeitamente correto rotular cada cabeçalho de cena de uma sequência de flashback. Por exemplo:

EXT. TRILHOS DO TREM – DIA – FLASHBACK

Barry vê o trem em alta velocidade em direção a ele e saltos das pistas, mas seu pé pega um empate ferroviário.

INT. HOSPITAL – DIA – CONT. DO FLASHBACK

Barry está deitado em uma maca. Um médico puxa um lençol sobre sua cabeça.

INT. ESCRITÓRIO – DIA – DIAS ATUAIS

Método 5 – Sequências de flashback

Um método alternativo é rotular o flashback inteiro, constituído por mais de uma cena, como uma sequência de flashback.

COMEÇO DA SEQUÊNCIA DE FLASHBACK

EXT. TRILHOS DO TREM – DIA

E, então, escreva todas as cenas em ordem, assim como você normalmente escreveria as cenas, e, em seguida, termine a sequência com isto:

FIM DA SEQUÊNCIA DE FLASHBACK

INT. ESCRITÓRIO – DIA

Método 6 – Uma série de flashbacks e montagens de flashback

Suponhamos que você tenha uma situação onde o seu personagem se lembra de diferentes cenas do passado, algumas das quais contêm diálogos, conforme ele junta as peças do quebra-cabeça. Como se formata isso?

Na maioria das situações de formatação, há mais de uma solução possível de formatação que é "correta". Neste caso, você pode usar uma SÉRIE DE TOMADAS, SÉRIE DE FLASHBACKS, ou uma MONTAGEM. Em qualquer um dos três meios acima é perfeitamente aceitável incluir diálogos.

Eu sugiro uma MONTAGEM DE FLASHBACK, onde você identifica a localização de cada FLASHBACK para ajudar o leitor a lembrar junto com o personagem. Poderíamos chamar isso de FLASHES RÁPIDOS DE LEMBRANÇAS, se você desejar uma rápida sucessão de imagens. Por exemplo:

MONTAGEM – FLASHES RÁPIDOS DE LEMBRANÇAS DE JIM

No entanto, neste caso em particular, parece que você deseja inserir cenas inteiras em sucessão. Eu suspeito que será melhor se você mostrar essas cenas do passado o menos possível, apenas o momento-chave de cada uma para lembrar o leitor. Isso foi feito com grande efeito no final de O Sexto Sentido.

No exemplo abaixo, eu criei o conteúdo apenas para ilustrar uma possível solução de formatação para o seu problema:

MONTAGEM DE FLASHBACK – JIM SE RECORDA

— QUARTO DA SUZY — Jim vê uma garrafa de sangue falso sobre a cômoda de Suzy. Suzy ri disso.

SUZY
Ah, a peça da minha sobrinha.

— RESTAURANTE — O sorriso de Suzy desaparece momentaneamente.

SUZY
A natureza chama.

Ela sai da mesa com sua bolsa. Jim observa ela seguir uma loira platinada entrando no banheiro feminino.

— PRAIA — Jim percebe a loira platinada observando-o do píer acima dele. Ela vira a cabeça. Jim dá de ombros.

…E assim por diante. Se desejar, você pode substituir as locações EM MAIÚSCULAS acima por cabeçalhos de cena principais completos; por exemplo: INT. QUARTO DE SUZY – DIA. Isto estaria perfeitamente bom. Você também pode usar uma versão em minúsculas, por exemplo: No quarto de Suzy, Jim vê uma garrafa…

Finalmente, você pode usar uma expressão diferente para identificar a natureza da MONTAGEM DE FLASHBACK, dependendo do seu objetivo dramático. Por exemplo:

MONTAGEM DE FLASHBACK – JIM LIGA OS PONTOS.

Naturalmente, se esta MONTAGEM se passar dentro de uma cena, então, no final, você estaria DE VOLTA À CENA.

Método 7 – Flashbacks muito rápidos

Se você quiser lançar alguns flashes rápidos para o seu público, use o formato de montagem, como segue:

FLASHES RÁPIDOS – LEMBRANÇAS DE BEISEBOL DE DUKE

— Duke desliza para a base e faz ponto. Companheiros de time exultantes se amontoam para parabenizá-lo.

— Duke, entre a segunda e a terceira base, pega rapidamente uma bola rolante, e faz o cara ficar fora de primeira.

— Duque rebate uma bola rápida e a observa voar sobre a cerca do lado esquerdo do campo.

DE VOLTA À CENA

Se você tiver apenas um flashback rápido, use o seguinte formato:

FLASHBACK RÁPIDO

Duke lança três bolas que não são rebatidas.

DE VOLTA À CENA

Aqui está uma pergunta interessante que recebi de um cliente: "Eu tenho uma série de flashbacks rápidos no final de um roteiro de curta-metragem que se referem às lembranças que um personagem tem de três pessoas diferentes. Eu crio três cabeçalhos de flashback, um para cada flashback?"

Você poderia, mas eu recomendo que use a minha resposta para a Situação nº 1 acima como seu guia, e crie uma série de FLASHES RÁPIDOS.

Método 8 – Flashforwards

Flashforwards são raros, mas eles são usados ​​ocasionalmente, como em Quem Quer Ser Um Milionário, por exemplo. Trate-os como se fossem flashbacks.

E continue escrevendo!

Dr. Format Tells All

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Uma ótima escrita pra você!

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3 Comentários

  1. Xii, Valeria, desculpe se eu fico usando seu blog para despejar meus desvaneios, já que não tenho blog próprio. Licença solicitada, vamos lá!

    O flashback como cena, como recurso, deveria gozar do mesmo status e não ser discriminado como acontece frequentemente.

    Como cena, como recurso só precisa ser bem criado, utilizado, articulado, fundamentado, feito com maestria e não de modo inepto.

    Eu sou daquelas que continuam vendo um largo uso de flashback como cimento-e-tijolo mesmo das histórias, no intuito de, por exemplo, instituir mistério, criar suspense, injetar duvidas, iludir a audiência, e utilidades mil – senão ilimitadas.

    No exemplo que criei ontem para comentar outro artigo (https://dicasderoteiro.com/2013/05/04/como-escrever-transicoes-no-roteiro/#comments), por coincidência criei um flashback que foge ao receituário simplório que prescreve o uso de flashback ou para revelar carater ou para fazer avançar história.

    A personagem estaria sendo confrontada com a pergunta se ela é assassina do próprio filho, e ela responde com um sorriso que “flashback” para outro riso de dentes de onde escorrem sangue e revela-se um berço e, dentro, o bebê morto, e na volta do flashback a personagem continua sorrindo – a audiência presume que sim, ela matou o próprio filho e sim, vimos a satisfação com que restou depois de um possivel canibalismo, que é a mesma satisfação ”presente no presente”.

    Essa presunção foi promovida pelo uso do flashback que sugeria que aquela era a verdade dos fatos e a audiência não teria porque duvidar das vias da narração pois que habitualmente flashbacks motivados psicologicamente tendem a ter um alto grau de veracidade (em contraste com as sequências de sonhos, usadas comumente em cenas de ludíbrio).

    Mas uma audiência mais cinéfila desconfiaria cedo porque estaria melhor familiarizada com o fato de que flashbacks são característicos ainda da narrativa do cinema artístico como recurso de manipulação temporal, e também para induzir a conclusões precipitadas e erro, fórmulas que costumam render boas emoções, surpresas, bons filmes.

    Naquele exemplo meu, eu como roteirista posso perfeitamente continuar a edificar novas cenas para revelar no final que a personagem é vitima e não assassina, e que aquele flashback não significava nada do que parecia. Posso inventar mil modos de revelar o que o sorriso, o sangue, o berço, o bebê morto significam, e se duvidarem, posso até reverter ou anular a morte do bebê pois nem o céu consegue ser o limite na arte de criação.

    Assim, o flashback assim não estaria ali para fazer avançar a história nem revelar traços do personagem. De fato ele criava a história, como faria qualquer outra cena em qualquer outro tempo, por qualquer outro recurso.
    Eu queria que certos filmes tivessem posto fim à onda de críticas infundadas ao uso de FLASHBACK. Filmes como MEMENTO, que são deliberadamente ambíguos e confrontadores em termos da organização narrativa, e intencionalmente enfrentam as normas da narrativa estritamente linear, coisa que muitos cineastas tendem a querer evitar por conta das complexas reorganizações temporais e se desculpam de o fazê-lo a titulo de não confundir a audiência.

    Procurei na internet por uma razão para gostarmos tanto de flashbacks, e achei este sujeito L.B. Gale defendendo que “flashbacks, quando escritos por mãos capazes, são a maior convenção literária da era da escrita moderna. Porque? Porque superar um problema ao retroceder do presente enquanto simultaneamente avança do passado é uma discutível (sic!) maneira pela qual a maioria de nós analiza a nossa própria narrativa cotidiana” pois estaríamos atrelados “em conectar nossa situação presente a aquelas que se conectam a nosso passado. Que este é o modo de dar sentido a quem somos, o que éramos, e o que vamos nos tornar: os três principais componentes básicos de qualquer narrativa.” “Flashbacks não são modismo, nem estão fora de moda. Eles não estão gastos. Eles não complicam intrinsecamente as coisas. Eles são componentes dos tijolos da arte de contar história, e eles estão aqui para ficar”. (em tradução livre from http://www.lbgale.com/2011/08/21/in-defense-of-flashbacks/)

    Bem, não vamos radicalizar geral e passar a achar que flashback virou pau-pra-toda-obra, ainda mais porque o L.B.Gale não está trazendo a medida de uso desta convenção supimpa e nem trazendo dados empíricos para comprovar o seu teste comprobatório de “ser a maior”. Só não penso que deveríamos seguir às cegas o papai Syd Field, para quem a questão básica do quando ser apropriado usar flashback prescreve-os somente para o propósito de avançar a história ou revelar informação acerca do personagem!

    Em suma, use flashbacks, ainda que você não queira antecipar seu grito de emancipação das prescrições fieldianas!

    Bjs

    Régia

    Importa não só a história, mas o modo em que ela é contada.

    Comentário por Regia — 05/05/2013 @ 16:44

    • Adorei tanto o artigo da Valéria quanto seu devaneio Regia! 😀
      Bjs!

      Comentário por Marcia Fr. ▲ — 18/05/2013 @ 01:25

  2. Odeio meus erros:-)
    mesmo status (de outras cenas)
    o fazê-lo= o fazer
    Porque? Porque = Por que? Porque
    para quem a questão = que na questão

    Comentário por Regia — 05/05/2013 @ 16:55


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