Dicas de Roteiro

05/01/2013

Proibido Para Menores

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 07:00
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Oi, pessoal! Este artigo foi tirado da DGA Quaterly (outono de 2005), a revista do Sindicato dos Diretores dos EUA (Directors Guild of America) e escrito pelo diretor Wayne Kramer. O título original do artigo é algo como “R de Retórica”. Note que “R-rated”, ou classificação R, é o filme classificado, nos EUA, como apropriado para jovens menores de 17 anos somente quando acompanhados de um adulto. Para conhecer todos os tipos de classificação indicativa da Motion Picture Association of America [Associação que representa os seis principais estúdios de cinema dos Estados Unidos: Walt Disney Studios, Paramount Pictures, Sony Pictures, 20th Century Fox, Universal Pictures, Warner Bros.], veja esta página: http://en.wikipedia.org/wiki/Motion_Picture_Association_of_America_film_rating_system

Para conhecer a classificação indicativa brasileira, veja este manual: http://www.mpaal.org.br/pdf/manual_nova_classificacao_indicativa.pdf

warning R-Rated

Quando os cineastas deste país perderam o direito de fazer filmes de classificação R? Quando a classificação R se tornou uma glorificada classificação PG-13 [Filme impróprio para menores de 13 anos]? Quando é que parou de ser correto um filme de classificação R ter um assunto maduro, controverso e sexual? Quando a classificação R se tornou a classificação em que os adultos deveriam se sentir confortáveis levando os seus adolescentes, como se o filme em questão não fosse designado R para começo de conversa?

Eu faço essas perguntas com muita sinceridade e com a mais profunda frustração. Se quisermos ter qualquer tipo de voz adulta no cinema americano, então eu acredito que precisamos examinar cuidadosamente as práticas e políticas arbitrárias do sistema de classificação da MPAA, porque não há nenhuma dúvida em minha mente de que a censura está viva e bem na indústria cinematográfica. Meu primeiro encontro com o conselho foi sobre a classificação NC-17 [proibido para menores de 18 anos] que eles infligiram ao meu filme The Cooler – Quebrando a Banca, por conteúdo sexual. Aliás, a versão sem cortes do filme foi classificada para maiores de 14 anos em praticamente todos os outros países estrangeiros, incluindo: o Reino Unido, França, Alemanha, Austrália, África do Sul e Finlândia. Por mais frustrante que essa experiência tenha sido, a minha briga mais recente com o conselho confirma que há algo de errado com o sistema.

Eu enviei o meu novo filme, No Rastro da Bala, ao conselho de classificação indicativa da MPAA várias vezes, com base em suas "preocupações" com o conteúdo, antes que o longa finalmente recebesse a sua classificação R. Para ser justo e honesto, o meu filme é provocativo. Ele apresenta uma cena de sexo um pouco picante e uma boa quantidade de violência da máfia. Há dois tiroteios viscerais entre personagens da máfia. Vemos inúmeros buracos de bala e, em dois momentos distintos, os personagens levam um tiro na cabeça. Eu queria que os momentos parecessem reais – eu não quero descrever os efeitos de uma espingarda na cabeça como sendo legal e sexy. Mas, ao mesmo tempo, ambos os disparos acontecem muito rapidamente, o fator sangue estando em um par de quadros cada. Ainda mais importante do que os tiroteios em si, são as reações de outros personagens – novamente, a violência com as consequências.

Isto é material classificável como R? Pode apostar. É NC-17? Não, em minha opinião. De jeito nenhum. A versão NC-17 daquela cena seria um personagem levando um tiro na cabeça e, em seguida, o público vendo metade de seu rosto pendurado por um período prolongado de tempo. Eu poderia recitar os nomes de pelo menos 50 filmes classificados como R ao longo dos últimos 20 anos que têm conteúdo igual a No Rastro da Bala, se não forem mais fortes.

Eu conheço dezenas de cineastas que têm de passar por duas, três… cinco rodadas de subministrações ao conselho de classificação indicativa antes de poderem receber uma classificação R para as cenas mais inócuas. O conselho de classificação indicativa está literalmente sugerindo aos cineastas: "façam um corte aqui e mostrem menos sangue e tripas ali… ou menos pelos pubianos naquela cena… ou menos um ou dois giros sexuais…" Estes pequenos "aparos" (trade-offs*, se você me perguntar) sugeridos pelo conselho são tão arbitrários, que se você fosse revisar as classificações R que eles distribuíram ao longo dos últimos cinco anos, você coçaria a cabeça tentando descobrir por que alguém tendo sua cabeça estourada em um filme era permitido, enquanto a outro cineasta foi dito para moderar a violência de sua cena. Você poderia perguntar por que o sexo oral simulado estava bem em um filme, e por que outro filme foi ameaçado de ser classificado como NC-17 se uma cena semelhante não fosse cortada.

*[Trade-off ou tradeoff é uma expressão que define uma situação em que há conflito de escolha. Ela se caracteriza em uma ação econômica que visa à resolução de um problema mas acarreta outro, obrigando uma escolha. Ocorre quando se abre mão de algum bem ou serviço para se obter outro bem ou serviço distinto. Academicamente, o trade-off clássico é aquele entre armas e manteiga. Quanto mais se gasta em armas (Defesa Nacional), menos se pode gastar em manteiga (bens de consumo), mas há a necessidade de se gastar com armas para proteger a produção de manteiga.]

De alguma forma, é admissível que alguns cineastas tenham um alto quociente de sangue e tripas e passem pelo conselho de classificação indicativa com a classificação R apropriada – como a Uma Thurman arrancando o globo ocular de Daryl Hannah em Kill Bill – Volume 2 e espremendo-o sob seu pé até que ele seja nada mais do que uma poça de gosma gelatinosa. Ou o que dizer de qualquer uma das cenas de tortura e mutilação em Sin City – A Cidade do Pecado? Como essas cenas não são mais fortes do que qualquer coisa que eu tenha em No Rastro da Bala? Eu não estou certo de que o próprio conselho de classificação indicativa possa explicar a resposta desta pergunta. Pessoalmente, eu acho que o filme de Tarantino foi devidamente classificado. Eu só quero jogar igual sob as mesmas "diretrizes" da classificação indicativa.

Todos nós sabemos que a classificação NC-17 é um mito, na maioria das vezes. Nenhum estúdio vai botar um filme em produção sabendo que ele vai acabar com um NC-17, e nenhum grande estúdio com perspectivas comerciais para um filme vai apoiar uma classificação NC-17. Já que o NC-17 existe apenas na mente da MPAA, ao resto de nós, cineastas, sobra lutar, argumentando e recortando nossos filmes para angariar um R, ou aquilo que é por vezes referido como uma classificação “R apertada”. Eu sempre tive a impressão de que para obter uma classificação X [proibido para menores de 18 anos, segundo uma classificação antiga] ou NC-17, seu filme precisava ser demasiado extremo. Eu estou falando de penetração e/ou o contato oral-genital "visível" em cenas de sexo, ou tripas e sangue excessivos, de revirar o estômago. Quando é que a MPAA começou a distribuir a NC-17 por "tom" e momentos sugestivos?

Mais uma vez, eis a questão irônica: não se considera um filme de classificação R como um filme adulto neste país [nos EUA]? Não esperamos o estilo de violência de Família Soprano e a sexualidade picante de The L Word  em um filme classificado de R? Não somos nós, como sociedade, maduros o suficiente e confortáveis o suficiente para ver esse tipo de conteúdo em um filme indicado para adultos? Ou não há nenhuma classificação de adultos em nosso cinema?

E aqui está uma outra questão profundamente frustrante: Quem a MPAA acha que está protegendo ao tacar uma classificação NC-17 nos filmes? Esses mesmos filmes são lançados em DVD na versão sem censura do diretor numa questão de meses – ainda mais acessíveis aos adolescentes impressionáveis. Muitos deles estão disponíveis na TV a cabo na versão do diretor durante um pequeno intervalo de lançamento de um filme. Então, qual é exatamente o propósito de forçar um cineasta a alterar o seu filme para o lançamento nos cinemas, quando a visão do diretor está disponível para visualização na privacidade de sua casa? O que a MPAA teme que vá acontecer durante uma sessão coletiva de um filme apropriadamente classificado como “R apertado”? Eles estão preocupados com o nosso próprio desconforto ou com o desconforto de nossos filhos? Bem, eu tenho novidades para eles: a classificação R não foi indicada para a experiência de PG [classificação de filme no qual algum material pode não ser aconselhável para crianças pequenas, e onde sugere-se a orientação e decisão dos pais].

Se a MPAA tivesse classificado filmes nos anos 70 e 80 com a mesma mentalidade paroquial com a qual eles fazem hoje, eu estou disposto a apostar em moeda forte que dezenas de filmes aclamados – de Inverno de Sangue em Veneza a Meu Ódio Será Sua Herança, Veludo Azul e até mesmo ícones da cultura pop como Os Embalos de Sábado à Noite, não teriam passado pelo sistema de classificação ilesos. A maioria deles seria considerada NC-17 pelos padrões atuais. Eu acho que chegou a hora do DGA [Sindicato dos Diretores dos EUA] organizar e levantar sua voz coletiva contra a apropriação indevida da MPAA da classificação R.

de-olhos-bem-fechados-peq

Boa escrita pra você hoje! =)

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2 Comentários

  1. Ola Valeria, tudo bem!? Muito interessante esse post sobre classificação indicativa, muito elucidante. Eu tenho uma duvida, porem não é a respeito do assunto do post. Se eu uso em meu roteiro, filme, um Templo dos 4 elementos, isso poderia ser considerado plagio de outros filmes que também tem esse ícone, como o 5º elemento ou O ultimo mestre do ar, ou não se as finalidade forem diferentes não é plagio é apenas inspiração.
    ME desculpe lhe importunar com essas perguntas de iniciante!^^

    Comentário por Marcos Raphael — 05/01/2013 @ 16:24

    • Oi, Marcos Raphael!

      Não precisa se desculpar por nada, absolutamente, é um prazer respondê-lo! Eu é que tenho que pedir desculpas, ando com muito trabalho acumulado, e acabo atrasando nas respostas aqui no blog também.

      Quanto à sua dúvida, este caso, para mim, não é plágio. Afinal de contas, existem várias religiões ditas pagãs que se baseiam em magias com os quatro elementos. Um templo dos 4 elementos é algo plausível se formos nos basear nas tais religiões (e não nos filmes citados). Acho que você pode escrever sem medo, isso não é algo que poderia levar a um processo por plágio, a não ser que você pegasse muitos outros elementos da história de tais filmes, teria que ter muitas semelhanças mesmo para se arriscar a isso. Se não fosse assim, a gente não veria as inúmeras versões classe B, C, ou até Z de filmes de sucesso que vemos a torto e a direito, todo mundo evitaria fazer essas “homenagens” [cópias] por medo de ser processado.

      Boa sorte com o seu roteiro, Marcos, e muito sucesso! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 01/02/2013 @ 11:50


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