Dicas de Roteiro

03/09/2012

A Popularidade do 3-D Está Afetando o Modo Como os Roteiros São Escritos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este artigo tirado do site do jornal Los Angeles Times é o primeiro de alguns que postarei sobre o assunto. A autoria deste texto é de Steven Zeitchik, e ele foi publicado originalmente em 25/abril/2010:

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Alguns cineastas temem que a tecnologia acabará por ditar quais filmes receberão sinal verde

Quando Matt Pitts, um escritor de Fringe e um ex-assistente de J.J. Abrams, recentemente começou a tentar vender o seu primeiro roteiro de filme para os estúdios de cinema, ele sabia que tinha uma ideia comercializável em suas mãos. O título de seu roteiro, afinal de contas, era "Cruzeiro Zumbi de Feriado de Primavera" e o seu enredo seguia, bem, isso mesmo.

Mas a perspectiva de criaturas comedoras de carne humana perseguindo belos corpos jovens não era o gancho principal de seu roteiro. O elemento a chamar a atenção de um magnata do estúdio? Um plano de filmar o projeto em 3-D. "Na minha mente, isso apenas acrescentou aquela dose extra de diversão", diz Pitts.

Quer se trate de jovens escritores tentando vender o seu primeiro filme, ou de cineastas já estabelecidos tentando fazer o seu 10º, não há jogada mais esperta hoje em dia do que empacotar o seu projeto como um filme em 3-D. Os estúdios de cinema, ainda mais do que nas duas eras de 3-D anteriores, ficaram loucos pelo formato, que nos últimos meses impulsionou significativamente as suas arrecadações de bilheteria. Se você acha que já foi inundado pelo 3-D com Avatar (que foi filmado em 3-D) e Fúria de Titãs (que foi convertido mais tarde), prepare-se para um dilúvio completo: quase todos os filmes de férias de grande orçamento do próximo ano serão em 3-D, assim como futuros filmes tão diversos como O Espetacular Homem-Aranha, a comédia de ação de Taylor Lautner, Stretch Armstrong, e a adaptação de Martin Scorsese do livro infantil A Invenção de Hugo Cabret.

Mas mesmo no momento em que Hollywood fica louca pela terceira dimensão, muitos diretores e escritores estão questionando a debandada. Enquanto eles expressam um entusiasmo geral pelo formato, dizem que os executivos nem sempre captam todas as complexidades de acrescentar essa dimensão extra. Conforme a tempestade 3-D continua a se acumular, eles assinalam que o 3-D vai afetar muito mais do que o fato de um espectador pegar um par de óculos: Ele vai mudar quais filmes são feitos, e até mesmo a própria natureza da narrativa cinematográfica.

"Você constrói sequências de maneira diferente quando sabe que as coisas têm de saltar e pular em você", diz Kieran Mulroney, que, com sua esposa Michele, está escrevendo a sequência de Sherlock Holmes, que tem sido assunto de várias conversas sobre 3-D no estúdio da Warner Bros. "Eu temo que, se todo filme se tornar um espetáculo pelo espetáculo, onde fica a conversa íntima sobre a mesa do jantar?"

Alguns cineastas de alto perfil têm estado notoriamente preocupados com a conversão, que pega as imagens que foram rodadas em 2-D e as transforma em 3-D. Quando a New Line iniciou várias conversas sobre converter A Hora do Pesadelo em 3-D, "nós repelimos", diz o diretor Samuel Bayer. "Este foi filmado em 2-D e concebido para ser mostrado em 2-D". Ele acrescentou: "Assim como eu não quero ver um monte de grandes filmes sendo refeitos," – aludindo à outra moda de Hollywood – "eu não quero ver um monte deles em 3-D".

Michael Bay, cuja companhia produziu A Hora do Pesadelo, também tem estado hesitante em relação ao processo de conversão, expressando ceticismo quanto a usá-lo em seu próximo filme dos Transformers. "Os bons filmes em 3-D serão aqueles que são construídos dessa maneira, em primeiro lugar", diz o parceiro de produção de Bay, Brad Fuller. (Em um roteiro de uma potencial sequência de Sexta-Feira 13, por exemplo, uma cena de matança foi escrita envolvendo um corpo em uma tirolesa, porque a ideia de um corpo deslizando em velocidade total em direção ao público foi considerada particularmente eficaz em 3-D.)

Mas as preocupações vão além da conversão. Há muita coisa que é tecnicamente complicada em relação a filmar em 3-D, incluindo o tamanho desajeitado das câmeras, o que pode tornar a filmagem em pequenos espaços difícil. Esse é o tipo de aspecto que os diretores – mesmo aqueles rodando em 3-D – se preocupam de que os estúdios não estejam compreendendo. "Uma boa parte da comunidade cinematográfica está subestimando o quão difícil isso é", diz Neil Marshall, diretor do aclamado sucesso de terror de 2005, Abismo do Medo, que agora está dirigindo o seu primeiro filme em 3-D, Burst, que será produzido por Sam Raimi e pela Lionsgate. "Isso não é simplesmente um chamariz que você pode lançar para vender mais algumas entradas."

Mesmo se isso puder ser levado a cabo, o pessoal de criação sabe que o público vai ver o seu trabalho de forma diferente. Assistir a um longa em 3-D é experimentar um filme em um tom mais alto, com objetos e pessoas voando para fora da tela. Mesmo entre os gêneros que se prestam a 3-D, como o terror, os cineastas se preocupam com os sub-gêneros que são mais resistentes ao 3-D, como uma história de fantasmas sutil. Em uma era enlouquecida pelo 3-D, eles temem que esses filmes vão ser feitos de forma errada, ou nem ser feitos.

"O 3-D continua a indicar a eliminação dos criativamente medianos", diz Justin Marks, o escritor do antigo projeto de 20.000 Léguas Submarinas da Disney e do filme de ação da Sony, Shadow of the Colossus. "Se você não tiver um carro-chefe de ação que possa ser pensado de uma maneira concebível em 3-D, é melhor você fazer pequenos filmes independentes, porque os estúdios não vão estar tão interessados".

Enquanto isso, até mesmo os filmes adequados à imersão em 3-D podem acabar agredindo os espectadores, em vez de os envolverem prazerosamente. "Eu sou um pouco desconfiado do que está por vir", diz Marcus Dunstan, que, com o parceiro Patrick Melton, escreveu o últimos três filmes da franquia de Jogos Mortais e está escrevendo o próximo – que, é claro, será em 3-D. "Ver alguém levar um soco no olho repetidamente vai ser nauseante em 3-D." (E quando um criador de Jogos Mortais está preocupado com náuseas, você sabe que isso pode realmente virar o seu estômago.)

Dunstan, que trabalhou em um dos primeiros filmes modernos em 3-D, a refilmagem de 2009 do Dia dos Namorados Macabro, também está preocupado que uma série de filmes inferiores sejam feitos simplesmente porque eles podem acomodar algumas tomadas em 3-D. "Quando Pulp Fiction saiu, de repente nós vimos todos aqueles filmes com narrativas fragmentadas. Vimos pálidas imitações. E eu temo que veremos isso com o 3-D."

Dunstan e outros permanecem, em geral, entusiasmados com as novas possibilidades que o 3-D abre. Pelo menos, eles estão dispostos a dar-lhe uma chance – poucos cineastas hoje em dia vão fazer cerimônia se um estúdio estiver preparado para dar o sinal verde para seu filme. Como Mark diz, "o 3-D pode gerar entusiasmo por um projeto ao qual, de outra maneira, os estúdios poderiam não prestar muita atenção."

É, claro, compreensível que os estúdios estejam obcecados com o 3-D. Como as telas de televisão ficam maiores e os lançamentos dos estúdios chegam ao DVD e ao vídeo sob demanda mais cedo, os executivos acreditam que seja imperativo manter a experiência nas salas das cinema um passo à frente (mesmo enquanto o arrasa-quarteirão em 3-D, Avatar, pretende elevar a experiência de se assistir em casa, com o lançamento de seu Blu-Ray na última quinta-feira). Eles são atraídos pela ideia de um filme que coloca o espectador praticamente dentro da tela.

E criar oportunidades para a imersão está rapidamente se tornando uma segunda natureza para alguns roteiristas. "Assim como um escritor de sitcom tenta ter três gargalhadas por página, eu tentei ter um momento em 3-D a cada 8 a 10 páginas", diz Pitts sobre o seu método para escrever o filme Spring Break.

Esses momentos em 3-D podem ser ainda mais complicados de se obter em outros gêneros, mas isto não impediu alguns de comtemplar isso. Pelo menos um grande estúdio disse privadamente que consideraria fazer uma comédia romântica em 3-D. Isso representa uma espécie de desagradável dimensionalidade que preocupa particularmente alguns diretores, que dizem que filmes de muitos gêneros são melhor assistidos a uma certa distância. "Eu não quero assistir Preciosa em 3-D", diz o diretor Marshall. "Esse é um filme que já é difícil o suficiente de assistir em 2-D."

avatar 3d

Boa escrita pra você hoje! =)

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