Dicas de Roteiro

01/09/2012

Discurso do Publicitário Nizan Guanaes

Filed under: Sem categoria — valeriaolivetti @ 10:47

Este inspirado discurso de formatura foi feito pelo publicitário Nizan Guanaes como paraninfo de uma turma da FAAP:

nizan-guanaes

Dizem que conselho só se dá a quem pede.

E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns.

Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos.

Não paute sua vida nem sua carreira pelo dinheiro.

Ame seu ofício com todo o coração.

Persiga fazer o melhor.

Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência.

Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha.

Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro.

Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro.

Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.

E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar.

E tudo que fica pronto na vida foi antes construído na alma.

A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano.

O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo". E ela responde: "Eu também não, filho".

Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário.

Digo apenas que pensar e realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.

Meu segundo conselho: pense no seu país.

Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal, é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega a viver como homem. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu.

Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: "Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito".

É exatamente isso que está escrito na carta de Laudicéia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão; o fracasso, ao tédio; o escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso.

Colabore com seu biógrafo: faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido.

Tenho consciência que cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma evolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, caminhando sempre com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.

Não use Rider: não dê férias a seus pés. Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: "Eu não disse? Eu sabia!"

Toda família tem um tio batalhador e bem de vida que, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que faria, se fizesse alguma coisa.

Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta à noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. Das 8 às 12, das 12 às 8, e mais, se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios.

O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas que trabalham de sol a sol construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta, enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.

Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas; mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama "sucesso".

Nizan Guanaes é publicitário e empresário, ex-dono da agência DM9 e atualmente controlador do Grupo ABC de Comunicação, o 20º maior grupo de comunicação de marketing do mundo (Agency Report 2010 – Advertising Age). Nizan dedica boa parte do seu tempo a causas sociais, especialmente no campo da educação.

nizan

Boa escrita pra você hoje! E muito sucesso!! =)

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6 Comentários

  1. Esse artigo foi SHOOOW DE BOLA, me fez olhar p mim msma e me deu um Up legal aqi!!!!!!!!!!!!!
    OBG

    Comentário por ' Carol — 01/09/2012 @ 12:28

  2. Gente

    O discurso do publicitrio, achei oportuno e inteligente. Muito bacana mesmo! Gostei!

    Marcos

    Comentário por Marcos Silva Oliveira — 01/09/2012 @ 13:43

  3. Sensacional. Um discurso que deveríamos imprimir e emoldurar na parede do quarto.

    Comentário por Gabriel Ornelas — 01/09/2012 @ 15:54

  4. Oi, Carol, Marcos e Gabriel!

    Que bom que vocês gostaram! Eu também acho que é daqueles textos pra emoldurar, ou pelo menos imprimir e tacar na agenda, pra gente nunca esquecer. Se conseguirmos fazer “só” isso que ele diz, nossa vida será impressionante!

    Um abraço grande, obrigadão pela visita, e um ótimo domingo pra vocês! =)
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 02/09/2012 @ 10:09

  5. Olha Valeria, eu lamento ser uma da poucas pessoa a discordar do teor do discurso do Senhor Nizan.

    A começar pelos maus exemplos citados, Napoleão e Hitler, um invasor e um exterminador, para dizer que fizeram barbaries mas não pelo dinheiro!

    O Odorico Paraguassu diga-se de passagem tinha seus fãs, entre eles as três velhas cajazeiras, então não vamos meter no mesmo saco tudo que é popular para rotular como cafonice nem declarar brega tudo que é entretenimento da elite. Daqui a pouco estaríamos nós como policia ideológica para definir o que é requintado, refinado, cultural!!!

    A australiana Gina Rinehart pensa exatamente como o Senhor Nizan, que as mazelas do mundo é culpa dos passam tempo bebendo e brincando, e que para a solução de tudo bastava que todos trabalhassem mais. A estes dois baluartes na luta contra o homem trabalhador, o sagrado direito ao ócio e os poetas não publicados, transcrevo as belas palavras de Coração Civil de nosso Milton Nascimento:

    São José da Costa Rica, coração civil
    Me inspire no meu sonho de amor Brasil
    Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
    Bom sonhar coisas boas que o homem faz
    E esperar pelos frutos no quintal
    Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ?
    Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter
    Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
    Eu viver bem melhor
    Doido pra ver o meu sonho teimoso,um dia se realizar.

    A razão de meu comentário é para alertar aos que agora iniciam suas vidas literárias a não se deixarem encantarem pelo som das flautas daqueles que por cima da carne seca olham para os que estão por baixo e gritam: estão aí porque não fizeram o que nós fizemos para estarem aqui! Pois existe uma coisa que só uma boa leitura do Das Kapital faz entender: que se tem alguém por cima, é porque tem alguém por baixo, é que se existe encima/embaixo é porque existem condições materiais, isto é, econômicas, sociais, politicas, historicas que explicam bem mais a realidade do que culpar o indivíduo e o subjetivismo individual pelas penúrias brasileiras.

    Porque os únicos que não devem estar trabalhando de sol-a-sol no Brasil quiçá possam ser os herdeiros do senhor Nizan, caso os tenha.

    No mais o Brasil nunca foi nem é um país de malandros e espertos e muito menos somos uma impotência do trabalho. Somos admirados no mundo todo por sermos uma nação que, apesar de darmos duro, ainda temos fôlego para os carnavais. Somente uma burguesia cretina que não gosta de admitir que somos um país de trabalhadores e de lumpen proletariado, por força.

    Para tais burgueses, indico a poesia de nosso Cazuza – com quem eu tenho uma dívida por não ter tido sensibilidade para ouví-lo a um tempo – mas hoje faço minhas suas palavras, capitalizo e incluo o destinatário para remetê-las ao publicitário, se um dia as ler, um dia em que o tempo lhe terá tirado a razão e feito envelhecer as palavras emolduradas nos quartos do Gabriel e da Valéria!

    Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
    Transformam o país inteiro num puteiro
    POIS ASSIM SE GANHA MAIS DINHEIRO
    A tua piscina tá cheia de ratos
    Tuas ideias, NIZAN, não correspondem aos fatos
    O tempo não para…

    Ciao, Valéria, da Itália.

    P.S. E saia de férias e retorne ao bar da semana anterior, porque o turismo e o entertenimento são indústrias üteis tanto quanto a petrolífera e a agrícola ou qualquer outra que movem as rodas do progresso e do sucesso.

    Comentário por Regia Mendonca — 02/09/2012 @ 22:10

    • Oi Regia,

      Eu não acho que o Nizan estava usando Napoleão e Hitler como exemplos positivos, ele se referia a não conseguir ser nem um grande bandido, nem um grande canalha quem só pensa em dinheiro. Mas eu também acho que você tem razão em vários pontos que você comentou. O Brasil tem de fato um povo muito trabalhador e bastante gente competente, penso que o que nos falta realmente é uma administração política decente, uma educação e saúde de qualidade, o dinheiro do povo sendo usado para o povo, para que mais pessoas possam ter a qualidade de vida que merecem. O que me fez gostar deste texto é que já vi muita gente passar por aqui pensando em ganhar milhões em Hollywood sem mexer uma palha (ou muito pouco) para isso. Não recrimino essas pessoas, porque quando eu era adolescente, e até nos meus vinte e poucos anos, e estava dando meus primeiros passos nessa área, pensava e sentia o mesmo. Mas a vida não é assim. Pode ter um em milhões que ganhe na loteria, mas a grande maioria (dos roteiristas, pelo menos) rala mais horas por dia do que muito trabalhador por aí, apenas para poder pagar suas contas. A ilusão e o desejo por dinheiro fácil é o que desanima muita gente quando descobre que as coisas não são bem como imaginavam. O Nizan estava discursando para uma turma de formandos, gente que devia estar nesta mesma situação de desinformação e esperança mal-colocada. Por isso ainda acho que o texto é válido. Sem desmerecer o Brasil e os brasileiros, sem achar que só o trabalho enriquece ou necessariamente gera obras magníficas, afinal o sonho (e, portanto, o ócio criativo) é também uma grande parte de nosso trabalho (aliás, o Nizan também destacou a importância de sonhar). Mas para criarmos algo de valor necessariamente devemos lutar para realizá-lo. Os frutos não nascerão no quintal se não plantarmos suas sementes, se ficarmos apenas sonhando e olhando para o céu esperando que os passarinhos as tragam para nós (quem sabe até eles as tragam, mas não se pode depois reclamar que eles trouxeram limão quando queríamos goiaba!).

      Eu agradeço muito a sua contribuição, Regia, toda discussão de ideias nos enriquece, mesmo que discordemos delas (ou principalmente por isso), pois aí conseguimos ver a vida também pelos olhos das outras pessoas. Como já dizia o nosso polêmico Nelson Rodrigues, “Toda unanimidade é burra”.

      Um grande abraço, Regia.
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/09/2012 @ 20:27


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