Dicas de Roteiro

20/07/2012

As 4 Regras de Escrita de Comédia Para Roteiristas

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Oi, pessoal! Estamos de volta com um artigo do autor, professor universitário e consultor de roteiros, D. B. Gilles, e tirado do site Movieoutline:

cachorro-engracado

Ausência total de humor torna a vida impossível.
Colette

Como diz o ditado: "Faz rir, é dinheiro." A pessoa que consegue escrever comicamente tem uma nítida vantagem sobre a pessoa que acha isso difícil.

Então, se você tem deficiência em humor quando se trata de diálogo, o que você pode fazer quanto a isso?

Na minha experiência, escrever diálogos engraçados e originais vem naturalmente, tão espontaneamente quanto observações improvisadas engraçadas e inteligentes. Ou você consegue fazê-lo, ou não consegue.

Eu gostaria de poder dizer: "Faça um curso de redação de comédia" ou "Leia um livro sobre como escrever coisas engraçadas" ou oferecer-lhe algumas palavras inspiradoras de sabedoria sobre como encontrar o seu comediante de comédia em pé interior.

O que posso lhe oferecer é algo que Tim Allen disse em uma entrevista ao TV Guide ao ser questionado sobre o seu senso de humor, especificamente a sua capacidade de ser engraçado. "Ser (grifo meu) engraçado é um dom para mim. Eu não sei de onde vem. É mágico e é maravilhoso, e eu tenho pavor de que tudo isso vá desaparecer."

De onde é que isso vem? Quem sabe? De onde é que o talento atlético natural e superior vem? Por que um garoto de dois metros de altura que joga como atacante em seu time do ensino médio é melhor do que outros cinquenta atacantes de dois metros de altura em outros times do ensino médio? Para cada Lebron James, há 10 mil crianças que não são boas o suficiente.

A Primeira Regra de Escrita Cômica:

• Só porque você consegue dizer coisas engraçadas não significa que você consegue escrever coisas engraçadas

Escrever comicamente é diferente de dizer ou fazer coisas engraçadas. Muitos homens e mulheres que fazem os seus amigos e colegas de trabalho morrerem de rir são incapazes de escrever diálogos engraçados. Os rapazes adolescentes que não conseguem ter a atenção das meninas pela excelência nos esportes, por sua aparência ou inteligência apelam para palhaçadas bobas, sejam físicas ou verbais. Mas isso tem limites e não dura muito. O menino cujo talento é enfiar uma fatia de pizza em seu nariz vai ser superado pelo garoto que descobriu que as meninas se cansam rapidamente de bobagens e preferem alguém que possa diverti-las com inteligência.

Este garoto engraçado provavelmente desabrochará em um homem engraçado, e achará que seu dom vai ser uma grande vantagem em sua vida social.

E isso virá a calhar especialmente se ele pensar em ser roteirista.

Na vida real, a maioria das pessoas não consegue contar uma piada ou uma história, especialmente uma engraçada. Elas perdem o foco, entregam o final da piada cedo demais, saem pela tangente, deixam de fora um detalhe importante ou se afundam numa confusão sem destino. Elas perderam o seu público. Como autor de um roteiro que é uma comédia, o seu público é muito mais duro e implacável: agentes, produtores, pessoal de desenvolvimento, executivos de criação e empresários.

Você tem que manter esse agente rindo desde a primeira página – especialmente a primeira página –, porque se ele está se divertindo, ao chegar no final, ele definitivamente vai virar para a página dois. E se você manter as risadas surgindo pelas próximas dez páginas e pelo resto do Primeiro Ato, você pode se sentir bastante confiante de que ele vai terminar o resto do roteiro – desde que você tenha uma história interessante.

O que nos leva à Segunda Regra de Escrita Cômica:

• Uma história forte, sem um monte de risadas, é preferível a uma história fraca, com três piadas por página

Muitas comédias vacilam por causa de uma trama fraca ou idiota. Em última análise, não importa quantas risadas tem um roteiro, se a história não for absorvente o suficiente para alguém mergulhar nela, ele não vai ser lido até o Fade Out final. Como estamos rindo de coisas que os seus personagens estão dizendo e fazendo, nós devemos nos importar com eles e torcer para que eles consigam tudo o que querem (não importa o quão pateta seja). Se esse desejo não está lá, nós não estamos indo junto nesse passeio, não importa o quão divertido ele possa ser.

Há uma velha máxima do beisebol: "Eu prefiro ter sorte do que talento." Quando se trata de um roteiro de comédia, eu prefiro ter uma história sólida do que muitas risadas. Risadas podem ser acrescentadas. Talvez não por você, mas se for uma ótima história, a sua chance de conseguir um agente ou um acordo acaba de chegar mais perto da linha do gol. Se você tem um roteiro de 103 páginas com muitas risadas, mas uma história medíocre, bem, é muito mais difícil melhorar um enredo.

A Terceira Regra de Escrita Cômica:

• Duas cabeças podem ser melhores do que uma

Digamos que você seja um roteirista sério e de confiança, com um entendimento claro não só da estrutura de 3-Atos, mas das estruturas de 5 e de 7-Atos também. Você sabe que os personagens devem ser tridimensionais, ter conflitos internos e externos e ser devidamente motivados.

Você mergulhou em Joseph Campbell e Christopher Vogler de modo que conhece os 12 Estágios da Jornada do Herói do avesso. Você já leu todos os livros de roteiros (especialmente o meu The Screenwriter Within), foi aos importantes seminários, estudou, analisou ​​e desconstruiu filmes, leu as biografias e autobiografias-chaves de roteiristas (Adventures In The Screen Trade, The Devil’s Guide To Hollywood, Bambi Vs. Godzilla, para citar alguns) e assinou as melhores revistas de roteiro.

Há apenas um problema: você é incapaz de escrever uma fala de diálogo engraçada. Infelizmente, todas as ideias que você tem são demasiado sérias e sombrias (como aquela biografia cinematográfica de Damien, o Leproso, que você está remoendo por três anos).

Você precisa se juntar com um certo tipo de pessoa. O hilariante, o rápido no gatilho, a alegria da festa, o palhaço da turma crescido que tem a capacidade de escrever piadas, ótimas cenas e falas engraçadas, e é hilário 24 horas por dia, 7 dias por semana, mas se sua vida dependesse disso, ele não conseguiria criar uma história e escrever um roteiro.

É a convergência perfeita de talento.

Verifique os créditos das sitcoms. Você vai encontrar pelo menos uma e, muitas vezes, duas equipes de escrita em cada programa. O mesmo com roteiros de cinema. É justo supor que a maioria dessas equipes se juntaram porque cada um trouxe sua força para a mesa.

Encontrar a sua alma gêmea de escrita não é fácil. É como encontrar alguém para casar. Você tem que procurar por aí, ver se vocês se relacionam bem e esperar que isso funcione.

Se funcionar, vocês dois estarão em uma posição muito melhor do que seguindo sozinhos.

A Quarta Regra de Escrita Cômica:

• Encontre o seu gênero

Quando vamos a um filme dos Irmãos Farrelly, nós esperamos um certo tipo de produto. Muito humor asqueroso e em grande parte irreal, enredos de alto conceito com um punhado de falas e momentos verdadeiramente inspirados. Os filmes de Woody Allen, especialmente seus esforços iniciais e do meio da carreira, ofereciam uma visão espirituosa e neurótica da condição humana, especialmente do romance. Seus fãs sabem que íamos ver um tipo intelectual único de criatividade e inteligência. Se o nome de Judd Apatow está num filme, seja ele o escritor, o produtor ou o diretor, sabemos que vai ser algo de alto conceito com uma abundância de piadas de sexo, mas com um tom de doçura.

A coisa é, dependendo do tipo de comédia que você está escrevendo, você pode não precisar ser tão engraçado quanto esses caras.

Comédias românticas precisam de risadas, mas não de milhares delas. Pegue dois filmes de Reese Witherspoon. Doce Lar não tinha uma risada por minuto. Nem Legalmente Loira, mas esse foi mais engraçado e teve um conceito mais elevado. Ambos tinham histórias interessantes.

As comédias masculinas (ou comédias de amigos) precisam de mais risadas do que uma comédia romântica. Pense em Eu Te Amo, Cara, Penetras Bons de Bico, Ricky Bobby – A Toda Velocidade, Segurando as Pontas ou Faça o Que Eu Digo, Não Faça o Que Eu Faço.

Vejamos a televisão. Eu costumava ouvir as pessoas se referirem a Sex and The City como uma sitcom. Não era. Era um drama com risadas ocasionais. Ninguém assistia Sex and The City pelo humor (e ninguém foi para a versão cinematográfica esperando gargalhar por duas horas), ao contrário de Seinfeld, Uma Família da Pesada ou 30 Rock. O mesmo com o Entourage. É uma sitcom? Na verdade, não. Partes de cada episódio são hilariantes. Mas, é na verdade um drama com risadas que surgem dos personagens.

Os escritores de sitcom têm uma expressão para as partes de um roteiro onde intencionalmente não há nenhuma fala engraçada: tubulação fixa [laying pipe]. Informação crucial para o enredo é dada. Roteiros cinematográficos de comédia são autorizados a ter algumas seções de tubulação fixa, mas não muitas. E não deve haver uma nas primeiras 15 páginas. Você tem que manter as risadas vindo.

Então, se você quer escrever uma comédia grande e ampla (Trovão Tropical, Com a Bola Toda, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy, Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros) é melhor o seu roteiro ser engraçado para danar, da primeira à última página.

Então, se você quer escrever uma comédia romântica ou algo sério/cômico (assunto sério com risadas) ou uma comédia/drama (história alegre com uma virada séria ou sentimental), você não tem que ter necessariamente de 3 a 6 risadas por página. Mais uma vez, aqui é onde uma história sólida vai suplantar muitas risadas.

Em conclusão, alguém pode ser ensinado a escrever comédia? Sim. Assim como alguém pode ser ensinado a cozinhar. Se você tiver aulas de culinária, ler um monte de livros de culinária, assistir programas televisivos de culinária e gastar bastante tempo na cozinha testando receitas, você vai ser capaz de preparar uma refeição da qual não vai se envergonhar.

Aprender a escrever comédia é praticamente o mesmo. Você pode encontrar um curso ou um curso de extensão acadêmica sobre escrita de sitcom, improvisação e comédia em pé. Você pode ler livros sobre escrita de comédia (Writing The Romantic Comedy é muito bom, assim como What Are You Laughing At?: How to Write Funny Screenplays, Stories, and More). Você pode estudar as comédias (você vai aprender mais com as ruins, do que com as boas).

Finalmente, se você não quer colaborar com alguém e se o seu coração está determinado a escrever comédias, apenas continue encarando aquela cena que necessita ser melhorada até que uma fala engraçada surja em sua cabeça. Em seguida, faça isso novamente e novamente e novamente. Só não tente analisar o que é engraçado ou descobrir de onde a graça vem. E.B. White expressou isso melhor: "Analisar o humor é como dissecar um sapo. Poucas pessoas estão interessadas, e o sapo morre disso."

AgainstFrogDissectionComic

“Todos da minha turma de biologia votaram contra dissecar um sapo.

Mas nós quase tivemos votos suficientes para dissecar o professor!”

Boa escrita pra você hoje! =)

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4 Comentários

  1. muito bom! estou procurando minha outra metade, apesar deu conseguir escrever comédia e diálogos engraçados… muitos anos de improviso do Keith Johnstone… realmente é muito melhor trabalhar em equipe!

    Comentário por Ana Eliza Guerreiro — 20/07/2012 @ 14:49

    • Oi, Ana Eliza!
      Eu também acho super legal trabalhar em equipe, é mais divertido e mais leve (quando dá certo, claro), mas acho isso mais difícil de conseguir do que casamento, a gente tem que achar a pessoa certa, não só com um talento complementar ao nosso, mas com uma personalidade que combine com a nossa. E, como frequentemente a gente passa mais tempo no trabalho do que com nosso cônjuge, isso fica mesmo mais complicado do que casamento. Por isso eu admiro imensamente quem é parceiro de escrita há mais de 10 anos. É de dar inveja!

      Um abração, Ana Eliza, obrigada pela visita. E tomara que você encontre a sua outra metade da laranja “roteirística”, e logo! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 24/07/2012 @ 10:17

  2. Parabéns pelo blog, estou começando no ramo de roteiro, especialmente no meio da comédia, trabalho com Standup Comedy, e o site tem sido muito útil pra mim. Parabéns pelo trabalho e muito obrigado por compartilhar essas informações.

    Comentário por Afonso Padilha — 20/07/2012 @ 20:46

    • Oi, Afonso!

      Muito obrigada, que bom que você está gostando do blog! Comédia em pé não é pra qualquer um não, eu admiro muito quem trabalha nessa área. E me deixa mais feliz ainda saber que estou ajudando você nisso.

      Obrigadão pela visita, Afonso, e muito sucesso na sua carreira. Um grande abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 24/07/2012 @ 10:22


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