Dicas de Roteiro

12/06/2012

Escrevendo Roteiros Sem Diálogos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Oi, pessoal! O artigo de hoje é de autoria de Alan Barkley, e foi tirado do site Writing For Stage/Screen do Suite 101:

Screenwriter

Desenvolver cenas ou um curta inteiro sem diálogo colocará em foco o essencial da sua história.

Alguns espectadores acreditam erroneamente que um roteirista só escreve o que os atores dizem, e que o diretor do filme e o diretor de fotografia fornecem o que os atores fazem. Mas é claro que os roteiristas escrevem tanto o diálogo quanto a ação e precisamos deles para trabalhar em conjunto a fim de contar a história de um longa-metragem de forma eficaz. Uma boa maneira de melhorar a sua habilidade de escrever ação é escrever um roteiro curto sem diálogo nenhum.

Curtas Ilustres Sem Diálogos

Uma série de fortes curta-metragens têm sido criados sem uma única palavra falada. Aqui estão dois:

1. Gerri’s Game [Eu Comigo Mesmo] ganhou o Oscar de Melhor Curta de Animação em 1998. Escrito e dirigido por Jan Pikav e produzido pela Pixar, esta comédia de cinco minutos envolve apenas um personagem, um homem idoso jogando xadrez sozinho. Mas não é uma história convencional sobre a solidão da velhice. Gerri demonstra a sua vívida imaginação conforme ele se move de um lado da mesa de xadrez para o outro, jogando alternadamente os lados preto e branco, enquanto dá a si mesmo a personalidade de um astuto mago do xadrez lutando contra uma versão hesitante e de óculos de si mesmo.

Se víssemos o roteiro, não iríamos encontrar nenhum segmento de diálogo. Em vez disso, ele seria preenchido com parágrafos curtos descrevendo o comportamento de Gerri, cada um levando o público a um passo mais perto do clímax, onde o ‘Gerri mais dócil’ é ostensivamente superado por seu regozijante ‘adversário’, finge um ataque cardíaco e vira o tabuleiro a fim de garantir a sua “vitória”.

Gerri não diz nada durante o filme. O que ele faz, entretanto, conta a história toda.

2. Strangers, escrito e dirigido por Erez Tadmore e Guy Nattiv, é um dramático filme de sete minutos, sem diálogos. Produzido com o apoio da Fox Searchlab Films, Strangers ganhou os prêmios mais importantes em 2004, nos Festivais de Cinema de Aspen, Palm Springs e Sundance.

Em um metrô francês, um jovem usando um colar com um pingente da Estrela de Davi senta-se em frente a outro jovem lendo um jornal impresso em árabe. Eles se entreolham com desconfiança. Três outros homens exibindo cabeças raspadas e tatuagens neonazistas visam o homem lendo o jornal, e começam sua intimidação pintando o jornal com spray e enfiando uma bota no assento dele.

Mas quando o telefone celular do primeiro homem de repente toca a popular canção hebraica Hava Nagila, os valentões voltam agora sua atenção carrancuda para ele – eles odeiam tudo o que é “étnico”. Com a violência iminente, os dois homens correm impetuosamente na parada seguinte e se apressam para as portas abertas, perseguidos pelos surpresos neonazistas. Eles pulam do vagão para a plataforma de ambos os lados do trem, bem quando as portas do metrô se fecham, e antes que os valentões irritados possam alcançá-los. De cada lado dos trilhos, os dois homens celebram brevemente seu triunfo e, em seguida, seguem seus caminhos separados.

Sem uma palavra falada, as tensões entre muçulmanos e judeus e o preconceito generalizado que ambos enfrentam são efetivamente representados por meio da ação – e é dado um raio de esperança.

Escreva a Sua História Como Ação Somente

Imagine a sua história como um filme mudo e escreva uma série de parágrafos curtos que descrevam o que o público veria do início ao fim. Visualize diferentes locais que rápida e dramaticamente definam o palco, assim como um parque ensolarado e um metrô escuro estabelecem as diferentes atmosferas e contextos de Gerri’s Game e Strangers.

Faça os seus personagens vívidos e distintos. Strangers usa a aparência dos personagens para ajudar a comunicar o significado da história: Os dois homens de diferentes religiões parecem semelhantes entre si, mas ambos são visualmente distintos dos ameaçadores neonazistas que, por sua vez, parecem-se muito iguais.

Imagine o que cada personagem faz para avançar com a sua história. Se você sente que precisa de pessoas falando, repense a situação até encontrar uma nova maneira de apresentar a informação. Você pode fazer isso simplesmente repetindo a história em sua cabeça até que as circunstâncias corretas se encaixem no lugar:

Exemplo

O seu personagem Jack vai preparar uma refeição extravagante e você quer mostrar que ele comprou os melhores mantimentos. Você pode mostrá-lo em uma loja chique falando com um açougueiro. Mas precisamos desse diálogo?

Que tal, em vez disso, apenas tê-lo retirando as mercadorias de uma sacola de compras chique?

A ação ficaria assim:

INT. COZINHA DO JACK – DIA

Jake levanta para o balcão de sua cozinha azulejada uma sacola cheia de compras, estampada com um logotipo elegante, que diz: “Manjares Gourmet da Jordânia”.

Uma vez que você tenha esboçado completamente a sua história e esgotado todas as possíveis abordagens “silenciosas”, descobrirá que qualquer diálogo que você deve ter a fim de comunicar a história agora será esparso e mais significativo.

Dica de Eliminação de Diálogo: Nunca repita no diálogo nenhuma ação que já tenha sido mostrada na tela. Por exemplo, não tenha um personagem descrevendo para um amigo os detalhes de um incidente sobre o qual o amigo não sabe, se o público já souber.

Dicas Para Maximizar a Ação
  • Escreva a história toda em uma série de parágrafos curtos e sem recuo.
  • A prática atual é descrever cada ação separada que você vê na tela com no máximo três linhas. Qualquer coisa maior que três linhas e você deve simplificar a descrição e/ou quebrar em um novo parágrafo.
  • Assegure-se de que cada parágrafo/momento de ação avance com a história.
  • Inicie cada local separado para a sua ação com um cabeçalho de três partes em MAIÚSCULAS: interior ou exterior (INT. ou EXT.) – uma breve descrição do local – (COZINHA DO JACK), e se a ocasião é dia ou noite (DIA/NOITE).
  • Visualize locais que definam rápida e dramaticamente o palco da sua história.
  • Conceba e descreva os seus personagens distintamente.
  • Escreva o que os seus personagens fazem, não o que eles dizem.
  • “Sem diálogos” não significa “sem som”: o LAMENTO de um metrô acelerando, o BATER de uma porta, ou um bife FRITANDO podem ser eficazes ingredientes de ação.

Boa escrita!

a-ultima-gargalhada

Uma ótima escrita pra você hoje! =)

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