Dicas de Roteiro

04/05/2012

Como a Tecnologia Arruinou a Comédia Romântica

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este artigo foi escrito pelo consultor de roteiros Danny Manus, e tirado do site Movie Outline:

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Lembra-se dos bons velhos tempos quando, a fim de encontrar a alma gêmea perdida, um personagem tinha que vasculhar a terra numa grandiosa viagem romântica, sem nada além de um fio de cabelo, um desenho a carvão e uma lembrança de infância? Agora, eles podem simplesmente usar o Facebook. Leva 30 segundos, e a história acabou.

As mídias sociais e a tecnologia atual arruinaram completamente as comédias românticas e tornaram muito mais difícil criar uma história original e convincente de duas pessoas aleatórias se encontrando. Porque NÃO há mais tal coisa como o acaso. Não há tal coisa como “cortejar.” As pessoas nem sequer mais namoram – elas só “ficam”, e, eventualmente, decidem que estão juntas. Então você precisa perguntar a si mesmo – os seus personagens ainda estão vivendo na década de 1950?

Mesmo se você esbarrasse em uma total estranha na rua e tivesse aquele momento de “amor à primeira vista”, você iria para casa e a procuraria no Google, checaria a página dela no Facebook, seu MySpace, seu perfil no Linked In, seu blog, e sua conta no Twitter (que vem com localização por GPS e contra recibo, para que você possa saber exatamente onde ela esteve e o que ela comprou), e você saberia tudo o que poderia querer saber em 5 minutos. Meio que tira a diversão de uma boa e velha perseguição, não é?

Algumas das maiores comédias românticas são baseadas em um dos seguintes problemas ou planos de ação:

  • Encontrar um amor perdido ou amor de infância
  • Enviar uma mensagem para a pessoa que você ama antes que seja tarde demais
  • Relacionar-se com os amigos ou a família da pessoa que você ama
  • Superar a distância
  • Tentar separar um casal, pois eles não pertencem um ao outro
  • Conseguir a atenção de alguém que não sabe que você está vivo
  • Descobrir algo sobre a pessoa com quem você deseja estar, para que ele(a) ache que vocês têm algo em comum
  • Provar que você não está mentindo ou traindo alguém
  • Ter que rastrear alguém
  • Melhores amigos que perdem contato e então encontram-se novamente mais tarde na vida.

Estas costumavam ser ideias sobre as quais você poderia escrever 100 páginas. Agora, qualquer um destes problemas seria solucionável em questão de minutos. Uma boa história de amor ainda pode transcender o tempo, mas hoje em dia, se os seus personagens não têm nem mesmo telefones celulares, o quão verdadeiros para a vida real eles poderiam ser? Hoje em dia, Harry provavelmente teria encontrado Sally no Match.com e aquela cena do orgasmo na lanchonete teria sido o Billy Crystal assistindo a um vídeo de Meg em seu iPhone. Steve Martin não teria tido que sentar-se nos arbustos e sussurrar palavras para outro homem a fim de conquistar Roxane – ele poderia ter apenas mandado uma mensagem para ela do telefone do outro cara. E John Cusack não estaria em pé do lado de fora da casa de Ione Skye com um aparelho de som portátil sobre sua cabeça – ele teria apenas jogado o seu iPod pela janela aberta dela, e gritado: “Faixa 4!”

Sintonia de Amor funcionou porque era sobre aquelas duas pessoas em lados diferentes do país, que se encontraram em um programa de rádio. Mas, agora, 15 anos depois… quem mais ouve rádio, exceto doidos de direita, fãs de Howard Stern e meninas de 12 anos de idade?

E os relacionamentos à longa distância são certamente muito mais fáceis hoje em dia do que era há 10 anos. O recente lançamento Amor à Distância, que é sobre tentar fazer um relacionamento de longa distância funcionar, tem uma hilariante cena de sexo por telefone, mas nós já não ultrapassamos isso? Existem webcams embutidas em todos os computadores. Existe o Skype e o sexting [N.T.: Envio de mensagens eróticas e fotos através de torpedos], e sites concebidos para pessoas que querem trair. Em um mundo onde jovens de 14 anos estão tendo mais relações sexuais do que os seus pais, um em cada dois relacionamentos terminam em divórcio, e um em cada quatro relacionamentos são iniciados online, comédias românticas que não envolvam tecnologia, sobre a linda garota virgem de 25 anos ou sobre o amor verdadeiro, simplesmente não soam mais verdadeiras.

Isto certamente não significa que o amor verdadeiro – ou as comédias românticas – está morto. Significa apenas que você precisa ser mais criativo em seus ganchos e premissas, e estar consciente dos perigos de esquecer da tecnologia. Agora, talvez, se você estiver escrevendo Simplesmente Complicado e seus personagens principais estiverem em seus 50 anos de idade ou mais, não tem de focar tanto na tecnologia. Mas se você estiver escrevendo um romance adolescente, e os jovens nunca mandarem torpedos entre si – o quão verdadeiro é isso para a juventude de hoje?

Comédias românticas sempre tiveram um elemento de fantasia em si. Elas são as situações de sonho perfeitas. Elas seguem uma equação simples – Circunstância mais mágica, mais incríveis boas aparências, menos obstáculos é igual a felizes para sempre. E os espectadores vão mesmo ao cinema para escapar das realidades de suas próprias vidas, mas eles precisam ser capazes de se relacionar com o mundo que você criou. Comédias românticas tem que ser baseadas em algum tipo de realidade, e se nenhum de seus personagens usar um computador, isso simplesmente não é a realidade. Então, tenha sempre em mente o período de tempo para o qual você está escrevendo, e tudo o que ele engloba.

E quando se tratar de amor, mantenha o coração aberto e um disco rígido vazio.

NO BO livro acima é do autor deste artigo. Clicando na capa você poderá comprá-lo em e-book ou livro físico (encadernação espiral).

Boa escrita de comédia romântica pra todos! =D S2

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5 Comentários

  1. Todo mundo ama Marcos:
    Marcos amará todo mundo.
    Inclusive eu; Marcos ama.
    Marcos tem o maior amor
    Do mundo. Ama as mulheres
    Todas elas deste mundo de Deus.
    Marcos amará todo mundo;
    Todo mundo amará Marcos. E fim.
    Mas o amor recomeça. Sempre.

    Comentário por Marcos Silva Oliveira — 04/05/2012 @ 14:17

  2. Eu confesso que nunca havia parado pra pensar no fato de as comédias românticas atuais praticamente ignorarem essas novas tecnologias. Não faria muita diferença ver um filme como “500 Dias com Ela”, que a propósito eu adoro, em 2012 ou em 1985.

    Preciso agradecer especialmente por esse post. Eu acredito que consigo inserir muito bem comédia dentro de histórias de outros gêneros, mas acho que não tenho mão pra escrever um filme de comédia, por exemplo. Ou melhor, é um gênero que não desperta a minha criatividade, não me atraia a idéia de trabalhar com ele. E esse texto, pela primeira vez, me inspirou, eu digo, realmente me inspirou a tentar escrever uma comédia romântica. Conforme eu ia lendo, uma idéia muito bacana ia se formando.

    Muito obrigado.

    Comentário por André — 07/05/2012 @ 07:22

    • Oi, André! =)

      Eu também não havia reparado que a tecnologia é muitas vezes ignorada nas comédias românticas, mas reparei isso nos filmes de terror. Hoje em dia fica difícil justificar alguém não podendo pedir socorro pelo celular ou avisar ao amigo que um psicopata está indo atrás dele. Tem de inventar muitos percalços para a tecnologia não tirar o suspense da coisa. Se bem que, pensando bem, a tecnologia também gera histórias interessantes. Existem livros de romance sobre relacionamentos através da internet, e filmes de terror com telefones celular mal-assombrados, televisão, carros, essas coisas. Depende da imaginação do escritor, não é mesmo? Ainda não vi iPad assassino! Rsrs! :mrgreen:

      Ih, eu sou igualzinha a você. Gosto de inserir humor em outros gêneros, mas também não me sinto muito atraída a escrever uma comédia pura. Fico muito feliz que o post lhe tenha inspirado a escrever uma comédia romântica, muito legal! 😀

      Um abração, André, e obrigadão pela visita e pela força! Sucesso para a sua história!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 08/05/2012 @ 12:54

  3. Eu fiquei responsável de fazer o roteiro de um curta metragem de amigos meus, mas a história não tem diálogos e não faço ideia de como fazer um roteiro apenas de ações. Podem me ajudar?

    Comentário por Vitória — 11/05/2012 @ 21:28

    • Oi, Vitória!

      Criar um roteiro absolutamente sem diálogos é um desafio e tanto. Lembremos que os filmes mudos tinham muitos quadros de legendas com diálogos para o pessoal ler. Tem um texto sobre esse assunto que postarei logo que possível (infelizmente eu ando sem tempo e há outros pedidos na fila, mas se você quiser lê-lo antes em inglês, esse é o endereço: http://alan-barkley.suite101.com/further-tips-on-writing-the-short-film-dialogue-free-action-a296019 ).

      Um abraço, Vitória, boa sorte e sucesso com seu curta!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 11/05/2012 @ 23:17


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