Dicas de Roteiro

13/03/2012

Técnicas Cinematográficas de Alfred Hitchcock – Parte 3

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Aqui está a terceira parte desta série de artigos do cineasta independente Jeffrey Michael Bays, tirados de seu site, Borgus.com. ATENÇÃO:SPOILERS pesados do filme Psicose, de Hitchcock.

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MENSAGEM EM UMA CABINE TELEFÔNICA: AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE ARBOGAST

"O modo de Hitchcock colocar esta cena neste preciso momento, e seu tratamento bastante objetivo das informações expositivas no telefonema, dá-nos uma ideia de sua estratégia de suspense."

Borgus.com – Muito tem sido escrito sobre o filme Psicose (1960), embora o foco tenda a estar na primeira hora, até o corpo de Marion Crane (Janet Leigh) ser afundado no pântano. Em vez disso, este ensaio vai discutir a segunda metade do filme, especificamente, o papel de uma cena – que eu nomeei para facilitar a descrição – a Cena da Cabine Telefônica.

A Cena da Cabine Telefônica é simples na construção, durando menos de dois minutos de tempo de tela, e é composta por apenas duas tomadas: tomada de estabelecimento de localização e tomada principal. A cena abre num ângulo amplo, estabelecendo a localização do estacionamento do posto de gasolina, conforme o detetive Arbogast (Martin Balsam) sai de seu carro, fecha a porta, e casualmente entra em uma cabine telefônica. A cabine é isolada, perto de algumas árvores; uma placa, onde lê-se: "Gasolina", mal é vista na parte escura, à esquerda do quadro. Dominando o quadro, está o letreiro luminoso em cima da cabine, que diz, em letras grandes, "Telefone". Arbogast fecha a porta da cabine, pega um caderno de seu bolso, e confere um número.

Hitchcock corta para a tomada principal, um close-médio da cabine, enquanto Arbogast coloca uma moeda na fenda, disca o número, e coloca o fone no ouvido. Ele então começa a sua conversa por telefone com a irmã de Marion, Lila Crane (Vera Miles). Estando encerrado em uma cabine telefônica de vidro, a cena funciona metaforicamente como uma mensagem numa garrafa, já que esta é a última comunicação que Arbogast tem com o mundo exterior antes de ser morto.

Como uma escolha estilística, Hitchcock e o escritor, Joseph Stefano, não usaram nenhum diálogo do outro lado da chamada, apenas deixando-nos ouvir a voz do Arbogast. Isto dá à cena uma qualidade voyeurística, visto que o detetive é observado em tempo real. Cada vez que ele faz uma pausa para ouvir, isso eleva a nossa curiosidade ao máximo, deixando que a mente preencha os espaços em branco.

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O comediante de comédia em pé, Bob Newhart, era conhecido por suas rotinas de telefonemas unilaterais.

Coincidentemente, no mesmo ano, Bob Newhart iniciou sua carreira cômica com uma rotina de telefonema unilateral. Balsam brilhantemente põe em prática um momento Newhart aqui, trazendo o fluxo orgânico do telefonema à vida plena. Hitchcock e Balsam devem ter colaborado na reformulação do diálogo para torná-lo mais natural, visto que quase todas as falas do roteiro de Stefano foram alteradas. Por exemplo, no filme, a saudação de Arbogast é um amistoso:

ARBOGAST: "Ah, alô, Loomis? É o Arbogast. A Lila está? Bom, deixe-me falar com ela, por favor."

Isto foi escrito originalmente com uma abreviação mais abrasiva:

ARBOGAST: "Lila está, Sr. Loomis? Arbogast."

Pode-se deduzir deste “aquecimento” da personalidade de Arbogast, que Hitchcock queria que o espectador sentisse simpatia pelo detetive, para aumentar a nossa sensação de suspense quando ele se torna uma vítima de golpe de faca na cena seguinte. Embora a Cena da Cabine Telefônica seja curta, ela desempenha um papel fundamental na configuração dramática do filme, moldando os eventos a seguir.

O modo de Hitchcock colocar esta cena neste preciso momento, e seu tratamento bastante objetivo das informações expositivas no telefonema, dá-nos uma ideia de sua estratégia de suspense. Ele optou por não chamar a atenção para a cena, visto que a informação transmitida na chamada telefônica já é conhecida do espectador. Esta informação vital serve apenas para o conhecimento dos outros personagens, Lila e Sam. Hitchcock cria, então, pela próxima meia hora, uma grande dose de suspense a partir da reação deles, visto que se referem diretamente à chamada telefônica nove vezes em uma conversa. A preocupação deles em torno do desaparecimento de Arbogast cresce, criando, para o espectador, uma onda alta de impulso à frente, através da repetição frenética e da indiferente lógica circular do Xerife local. A preocupação, a especulação de olhos arregalados, e a frustração frenética crescem exponencialmente dentro de Lila e Sam, conforme Hitchcock aumenta mais e mais a tensão em direção ao clímax de Psicose – tudo por causa do telefonema.

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O conteúdo desta mensagem numa garrafa é bastante simples, mas preciso. Arbogast primeiro revela que Marion realmente hospedou-se no Motel Bates, na Cabana Um. Ele, então, menciona uma mãe doente que pode saber mais sobre o paradeiro de Marion. Em seguida, ele afirma sua opinião de que Sam não estava envolvido no desaparecimento de Marion. Arbogast termina o telefonema repetindo um ponto-chave, "Vejo você em cerca de uma hora, ou menos."

As horas passam sem o seu retorno, levando Sam e Lila a agir. Sem este simples telefonema no filme, Lila não saberia para onde ir, nem sobre a mãe, nem se deveria confiar em Sam. E, sem ela e Sam correndo para resgatar o detetive desaparecido, eles nunca descobririam o cadáver da mãe, nem o Bates de peruca. Claramente, então, este telefonema foi essencial narrativamente, para pôr as coisas em movimento.

Mas a questão óbvia sobre a cena é: por que Arbogast fez a chamada em primeiro lugar? O fato de ele dirigir o caminho todo até um posto de gasolina para telefonar para Lila, especificamente, é excêntrico, na melhor das hipóteses. Por que Lila? O filme estabelece vagamente Arbogast como um investigador particular contratado pelo chefe de Marion, e só está interessado em encontrar o dinheiro. Por que ele não opta por telefonar para o seu verdadeiro cliente para repassar a nova informação, não se sabe. No encontro anterior, ele é insensível com Lila, mas diz a ela que "com uma pequena averiguação, eu poderia chegar a acreditar em você." Na superfície, pode parecer que ele está ligando para ela por simpatia, mas ele pode estar testando a sua reação à notícia, ainda suspeito do envolvimento dela. Aliás, ele não parece nada interessado em falar com o namorado Sam, provavelmente devido ao temperamento selvagem de Sam – a informação teria sido desperdiçada com ele.

Emocionalmente, a cena é sobre Arbogast estar inseguro sobre como proceder, estando perdido, e com a esperança de corrigir as coisas. É no meio deste telefonema que ele decide voltar para o Motel Bates para mais investigações. Talvez, no processo de verbalizar as descobertas para Lila, ele comece a ter um sentimento de culpa por não fazer mais perguntas a Bates. Claro, se ele tivesse ficado e tentado falar com a mãe, Bates não teria sido capaz de subir para o quarto e transformar-se na mãe, empunhando uma faca. O próprio fato de Arbogast partir temporariamente para dar este telefonema, sela o seu próprio destino. A cabine telefônica, com a sua janela de tela de arame, torna-se uma armadilha, da qual, metaforicamente, ele não pode escapar.

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Hitchcock cria uma ansiedade crescente baseada nas informações de um simples telefonema.

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Boa escrita para todos, hoje! =)

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