Dicas de Roteiro

09/03/2012

Técnicas Cinematográficas de Alfred Hitchcock – Parte 2

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 13:30
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Esta é a segunda parte desta série sobre as técnicas do mestre do suspense. Os artigos são do cineasta independente Jeffrey Michael Bays, e foram tirados de seu site, Borgus.com. Lembrando que pode haver alguns SPOILERS de cenas dos filmes de Hitchcock.

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HUMOR: A ARMA SECRETA DE HITCHCOCK

"Para mim, o suspense não tem qualquer valor, se não estiver balanceado com humor." – Alfred Hitchcock

Borgus.com – Os cineastas que tentam usar as técnicas de Alfred Hitchcock muitas vezes esquecem da comédia, um componente vital de suas obras. Mesmo as situações mais mortais mostradas em seus filmes têm uma corrente subjacente de sagacidade jocosa. A própria persona pública de Hitchcock foi construída sobre a base de seu sofisticado e impassível humor britânico, e não é de estranhar que esta atitude maliciosamente brincalhona permeie o seu trabalho.

"No gênero de mistério e suspense, uma abordagem jocosa é indispensável", disse Hitchcock. (Truffaut)  Ele sentia que este era o ingrediente que mantinha o público voltando, implorando por mais. É equivalente a uma montanha-russa em que os passageiros gritam descontroladamente na descida, mas riem quando o carrinho desliza até parar. (Gottlieb)

Em um de seus filmes mais populares, Psicose (1960), a mãe colérica de um proprietário de hotel assassina os visitantes à noite, e não há risos evidentes no filme. Mas Hitchcock muitas vezes descreveu Psicose como uma pegadinha. (Truffaut)  Outros filmes, como A Sombra de uma Dúvida (1943) e Pacto Sinistro (1951), são polvilhados com humor macabro. O Terceiro Tiro (1955) é puramente uma comédia em estilo impassível.

De acordo com Hitchcock, o humor não diminui a eficácia do suspense dramático. Na verdade, ele argumentou que o humor aumenta o drama e o torna ainda mais potente. "Para mim, o suspense não tem qualquer valor, a menos que esteja balanceado com humor", disse Hitchcock. (Gottlieb)

Através de seus personagens peculiares, situações irônicas, cenários excêntricos, e um equilíbrio complexo entre risos e tensão, Alfred Hitchcock tinha encontrado um jeito de tornar o seu suspense insuportavelmente divertido para o seu público:

 

1. Explore Traços Triviais de Caráter

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Raymond Burr recua e segura seus óculos enquanto está temporariamente cego por um flash de câmera, em Janela Indiscreta.

A fim de aumentar a tensão, Hitchcock desviava o foco da ação para os detalhes não-essenciais e frívolos. Ele chamou isso de minimização – uma maneira de chamar a atenção para os aspectos triviais de um personagem como um modo de formar contraste dramático num momento de crise.

"Eu sempre achei que, num momento de crise, uma pessoa invariavelmente faz algo trivial", disse Hitchcock, "como fazer uma xícara de chá ou acender um cigarro. Um pequeno detalhe deste tipo aumenta consideravelmente a tensão dramática da situação." (Gottlieb)

Quanto mais estranhos e específicos forem esses detalhes, melhor. Na cena-clímax de Janela Indiscreta (1954), James Stewart, desesperado para atrasar o ataque de Raymond Burr, pega as lâmpadas de sua câmera e acende-as sequencialmente para criar uma distração. A cada vez que uma nova lâmpada se acende, Burr desajeitadamente segura seus óculos, conforme ela momentaneamente o cega. Com cada flash, Burr luta com sua visão, enquanto a tensão aumenta para o público.

"Eu faço disso uma regra para explorar os elementos que estão ligados a um personagem ou local; eu me sentiria como se tivesse sido negligente, se eu não tivesse feito uso máximo desses elementos", disse Hitchcock.

 

2. Crie Situações de Ironia

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Cary Grant encurralado em um campo aberto, em Intriga Internacional.

Enquanto trabalhava num roteiro, Hitchcock muitas vezes perguntava: "Agora, não seria essa uma maneira engraçada de matá-lo?" (Truffaut)  Ele construía suas histórias em torno de situações irônicas. Ele gostava de pregar peças nos personagens, submetendo-os às piores coisas possíveis que poderiam dar errado.

No episódio de Alfred Hitchcock Apresenta, "One More Mile to Go" [“Mais Uma Milha Restante”] (1957, dirigido por Hitchcock), um policial tinha parado um homem por causa de uma luz traseira queimada em seu carro, completamente inconsciente de que há um cadáver no porta-malas. Quanto mais obcecado este policial fica em consertar a luz, mais inquieto o assassino fica. Hitchcock leva esta situação ao nível do absurdo insuportável, conforme o policial continua se preocupando com a luz, e fica cada vez mais perto de perceber o corpo.

Intriga Internacional (1959) coloca Cary Grant em um campo aberto num dia ensolarado, onde ele é então é perseguido por um avião. "Eu gosto de pegar uma situação sinistra e contrapô-la com a minimização", explicou Hitchcock.

 

3. Cerque o Drama Com um Cenário Feliz

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Hitchcock acreditava que, para o drama ser forte, ele deve estar cercado por um ambiente leve e bem-humorado. Ele preferia colocar os seus crimes no meio da luz solar, e evitar as sombras, o mau tempo e as portas rangentes clichês que a maioria dos espectadores associam com o suspense. (Gottlieb)

"Quanto mais despreocupado e alegre o cenário, maior a emoção que você obtém da introdução súbita do drama", disse Hitchcock. (Gottlieb)

Os créditos de abertura dos filmes de Hitchcock são frequentemente divertidos, muitos acompanhados pela pontuação da música jocosa de Bernard Herrmann.

Um dos melhores exemplos da utilização de ambiente excêntrico de Hitchcock está em O Terceiro Tiro (1955). Tudo é normal nesta pequena cidade com os prados verdejantes, o sol e as folhas alaranjadas de outono, até que um cadáver aparece. Harry Warp torna-se um problema de todos – o que pode ser feito em relação a Harry?

"É a justaposição da norma, da média precisa, sobre a fantasia… é isso que torna a coisa interessante." – Alfred Hitchcock

 

4. Inclua um Personagem Burlesco

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Norma Varden fazendo rir sobre estrangulamento, em Pacto Sinistro.

Um dos personagens de Hitchcock nunca deve levar assassinatos a sério, zombando disso em completo deleite. Os mais memoráveis são, provavelmente, Henry Travers e Hume Cronyn em A Sombra de uma Dúvida (1943) arrancando risadas ao redor da mesa de jantar da família, tentando descobrir várias maneiras de matar sem ser pego. O senso de humor chocante frequentemente perturba e confunde uma pessoa crédula por perto, sem saber se eles estão falando sério. Em Pacto Sinistro (1951) Robert Walker ensina uma mulher em uma festa como estrangular alguém, e ela consegue umas boas gargalhadas com isso. Em Festim Diabólico (1948), Constance Collier ri histericamente da ideia de Rupert (James Stewart) de assassinar pessoas por esporte. Em Janela Indiscreta (1954), Thelma Ritter fica muito entusiasmada com a possibilidade de um assassinato do outro lado do pátio.

 

5. Equilibre Riso e Tensão

Um taxidermista tenta freneticamente salvar seu peixe-espada no meio de uma luta com James Stewart, em O Homem Que Sabia Demais.

Hitchcock usava uma delicada combinação de tensão e alívio em suas sequências de suspense. Frequentemente, uma risada era inserida em um ponto-chave para liberar alguma tensão. "…quando você tem alívio cômico, é importante que o herói, assim como o público, fique aliviado", disse Hitchcock. (Gottlieb) Isto garante que o público mantenha a simpatia pelo personagem.

Intriga Internacional (1959) é um dos melhores exemplos de uso de humor envolvendo uma perseguição. No início do filme, Cary Grant está bêbado e se torna cômico ao quase dirigir para fora de um penhasco. Ele olha para baixo sobre a borda e ri embriagadamente enquanto se afasta. Mais tarde, quando ele é mantido por sequestradores em um leilão público, ele se torna um arruaceiro, a fim de ser pego pela polícia.

Mas este equilíbrio nem sempre é fácil de julgar ao se fazer um filme. "A única questão é se deve-se sempre ter senso de humor ao lidar com um assunto sério", Hitchcock admite, "é a coisa mais difícil do mundo controlar isso de modo a obter a dose certa. É só depois que um filme está pronto, que se pode julgar isso devidamente."

Seria um erro pensar nos filmes de Alfred Hitchcock como comédias, mas são seus personagens peculiares, situações irônicas, cenários excêntricos, e piadas deliberadas que elevam seus filmes a um brilho hitchcockiano inigualável.

hitchcock

Boa escrita pra você hoje! =)

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