Dicas de Roteiro

26/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é a penúltima parte desta série escrita pelo roteirista Dan Harmon, e originalmente publicada no site Channel 101 Wiki:

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Estrutura de História 5: Como a TV é Diferente

A televisão realmente não é diferente, exceto em um sentido muito prático:

O trabalho de um filme de longa-metragem é te mandar para fora do cinema em euforia, em 90 minutos. O trabalho da TV é manter você colado à televisão por toda a sua vida.

Isto não implica fazer histórias menos circulares (os círculos de TV são tão circulares que às vezes são irritantemente previsíveis). Significa apenas que o foco da etapa (8) é menos agitar-as-coisas e mais botar-as-coisas-de-volta-aonde-começaram.

Os filmes podem se dar ao luxo de explodir a Estrela da Morte no final. Em uma versão-sitcom de Star Wars, todavia, o protagonista seria um recepcionista trabalhando no hangar do quartel general Rebelde. Em uma série dramática, ele seria um piloto de X-Wing constantemente fazendo incursões sobre a Estrela da Morte. Mas note que, tanto na versão de sitcom quanto na versão dramática televisiva de Star Wars, a Estrela da Morte continua. Senão, o programa terminaria.

O episódio piloto de um programa de TV geralmente conta a história de uma pessoa entrando em uma situação nova. Emprego novo, casamento novo, divórcio, acabou de sair da faculdade, adotou uma pessoa negra etc. Eu sou muito ruim de exemplos, porque a única TV que assisto é o programa do qual o meu amigo participa, "Happy Family". No piloto desse programa, marido e esposa baby boomers percebem, pela primeira vez, que não importa quão velhos os seus filhos fiquem, eles nunca deixam de ser seus filhos. A situação "nova" pode ser simples assim, uma percepção, um tema, a coisa sobre a qual é o seu programa.

Em um âmbito mais amplo, um piloto de TV está nos dando (1), (2) e (3), e então, incentivando-nos a sintonizar e assistir (4) pelo resto do tempo. Mas isso é ver a exibição inteira do programa como uma única história. Dentro do âmbito de um episódio individual, piloto ou não, você ainda tem que percorrer um círculo completo:

  1. Eu
  2. noto um pequeno problema,
  3. e tomo uma decisão importante.
  4. Isso muda as coisas
  5. para alguma satisfação, mas
  6. há consequências
  7. que devem ser desfeitas,
  8. e eu devo admitir a inutilidade da mudança.

Desanimador? Sim, mas a alegria da TV está no momento. A TV não está vendendo revolução, está vendendo uma substituição higiênica e relacionável ​​para a sua própria humanidade imunda e invendável. As histórias estão só matando o tempo enquanto as vozes e os rostos se imprimem em seu cérebro através da repetição, e os comerciais fazem o seu trabalho duro, duro.

Mas note como, sendo necessário prender a nossa atenção, eles têm que fazer isso com essa estrutura circular. Se nós não obtemos esse círculo, vamos virar para o próximo canal.

Os personagens devem começar na situação normal, descer para uma nova situação, adaptar-se a ela, tornar-se inatos a ela, pagar o preço e então migrar de volta ao básico, tendo "mudado".

O truque que a TV desempenha é que ela exclui qualquer verdade significativa e, portanto, potencialmente subversiva para a televisão, com a eterna "verdade" básica de que a mudança é desnecessária. "O que você aprendeu hoje, Beaver?" Bem, basicamente, Pai, eu aprendi a nunca fazer nada. "Bom menino."

Não há nada de sinistro nesta intenção, a intenção é apenas para poupar dinheiro em cenários e manter os roteiros relativamente modulares. Você é quem queria uma sociedade capitalista. Bem-vindo às técnicas de narração de histórias por dinheiro, com redução de gastos e maximização de lucros.

É aí que entra o Channel 101. Nós não estamos tão sobrecarregados financeiramente. Nós somos o próximo estágio na evolução do entretenimento.

televisão (1)

Boa escrita pra você hoje! ~O-O~

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4 Comentários

  1. Oi! Eu queria lhe perguntar uma coisinha bem rápida.Quando vc escreve um sitcom,você tem que escrever quando as pessoas tem que sorrir.Sabe quando vc assiste uma série de comédia e no fundo tem pessoas sorrindo?Então,o roteirista tem que colocar isso?

    Valeu aê!

    Comentário por Lucas Alencar — 01/03/2012 @ 02:53

    • Oi, Lucas! =)

      Essas gargalhadas e, por vezes, aplausos no fundo são chamados de claque. Eu não lembro de ter visto isso em livros de teoria, então eu fiz uma pesquisa na internet e dei uma lida em alguns roteiros de sitcoms para confirmar. Em nenhum deles eu encontrei essas indicações de claque. Pelo jeito é algo que só colocam na edição mesmo (quando não tem uma plateia assistindo as gravações do seriado). Você pode dar uma conferida, eis o link do site de onde eu peguei os roteiros: http://www.simplyscripts.com/tv.html

      Pegue os que estão descritos como “script”, porque tem também os “transcripts”, que são as transcrições dos diálogos e ações feitas por fãs, não são os roteiros originais.

      Um abração, Lucas! Um excelente final de semana pra você!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/03/2012 @ 20:54

  2. Oi Valéria… Estou com dificuldade em escrever dois tipos de cenas… As dramáticas, onde alguém perde um parente próximo e bla bla bla, não estou conseguindo passar essa emoção… E as lúdicas, sem noção, sem sentido, retardadas, a lá Alice no País das Maravilhas ashashas…. Bem, é meio complicado escrevê-las, é loucura demais para minha cabeça, mas acho q vai dar um ar interessante para minha história… Você tem algum texto assim na lista de textos para serem traduzidos ou algum texto desses aqui no blog já??

    Comentário por Lucas Luciano — 02/03/2012 @ 22:37

    • Oi, Lucas Luciano! =)

      Eu entendi o que você quis dizer, e a sua dúvida é bem complexa. Infelizmente eu não tenho nenhum texto sobre o assunto, e acho difícil que vá encontrar. A questão aqui talvez seja você ler vários livros tipo Alice no País das Maravilhas, e outros que sejam dramáticos e emocionantes, a fim de analisar como o autor passou aquela emoção. No fundo, é a mesma coisa como quando me perguntam como escrever comédia e ser engraçado. Para mim, isso é parte talento e parte observação de como outros já fizeram, e nesta análise eu acredito que aplicamos muito mais a intuição do que a teoria (senão, todos os filmes Hollywoodianos seriam incrivelmente dramáticos, divertidos, emocionantes etc., já que eles são mestres em fazer “manuais do como fazer”. Mas, como todos nós sabemos, não é isso o que ocorre).

      A escritora J.K. Rowling disse numa entrevista que ficou em pranto convulsivo ao escrever muitas das cenas decisivas do final da saga do Harry Potter. Talvez esse seja o principal segredo: sentir para escrever. Muitos autores dizem que se você não ri da própria piada que escreve, como pode esperar que os outros riam?

      Eu realmente acredito que com bastante leitura desses tipos de obras você terá mais material para escrever as suas próprias cenas. Pelo menos foi o que aconteceu comigo, isso ajudou bastante.

      Um abração, Lucas Luciano, se eu encontrar algo sobre esses tópicos, com certeza postarei aqui, pode deixar que de agora em diante eu ficarei alerta.
      Um excelente final de semana pra você!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/03/2012 @ 21:11


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