Dicas de Roteiro

25/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4C

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:00
Tags: , ,

Aqui está o final da quarta parte desta série com a fórmula de escrita criada pelo roteirista Dan Harmon, e tirada do site Channel 101 Wiki.

NOTA:spoilers dos filmes O MÁGICO DE OZ, DURO DE MATAR, ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, e MATRIX.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

7 – “Retorna.” – TRAZENDO-O PARA CASA

Para alguns personagens, isso é tão fácil quanto dar um abraço de despedida no espantalho e acordar. Para outros, este é o lugar onde a equipe de extração finalmente aparece e tira-os dali – o que Campbell chama de "Resgate de Dentro". Em uma anedota sobre ter que mudar um pneu furado na chuva, isto poderia ser o personagem voltando para seu carro.

Para outros, não é tão fácil, razão pela qual Campbell também fala sobre "O Voo Mágico".

Os habitantes das profundezas não podem ter pessoas passeando do lado de fora do porão mais do que as pessoas do andar de cima queriam que você descesse lá em primeiro lugar. Os nativos do mundo consciente e do mundo inconsciente justificam suas ações como quiserem, mas no esquema maior, o objetivo deles é manter os dois mundos separados, o que inclui evitar que as pessoas vejam um deles e vivam para contar sobre isso.

Este é um ótimo lugar para uma perseguição de carros. Ou, em uma história de amor, tendo percebido o que é importante, o herói sai intempestivamente de seu apartamento para a calçada. O avião de sua amada parte para a Antártica em DEZ MINUTOS! John McClane, que na etapa (1) tinha medo de voar, agora enrosca uma mangueira de incêndio ao redor de sua cintura e salta de um edifício explodindo, e então atira numa janela gigante para que ele possa atravessá-la chutando-a com seus pés sangrentos.

Estranhamente, ele vai logo encontrar-se de novo na mesma sala onde a festa de Natal estava sendo realizada.

8 – “Muda.” – SENHOR DE DOIS MUNDOS

Em um filme de ação, você tem um confronto garantido aqui. Em um drama de tribunal, aqui vem o interrogatório perturbador, enfurecido, que acaba com o assassino numa confissão chorosa. Em uma história de amor, o homem atravessa a pista, para o avião que está taxiando, sobe a bordo e diz à sua amada:

"Quando te conheci, eu pensei que você fosse perfeita. E então eu me acostumei a você ser perfeita, e tudo estava perfeito, mas depois eu descobri que você não era perfeita, e nós terminamos, e então eu percebi, eu também não sou perfeito. Ninguém é perfeito, e eu não quero uma pessoa perfeita, eu só quero você. Vamos morar juntos. Eu dormirei no lugar molhado. Você pode manter o seu gato, eu vou tomar remédio de alergia. E quando você estiver com cem anos de idade, eu vou limpar a merda de sua fralda."

E então, é claro, a velha e/ou o negro grandão sentado ao lado do objeto da paixão do protagonista olha para ela, e diz: "Bem, o que você está esperando? Corra para ele!"

Por que essa estranha reação de mulheres velhas e homens negros grandões? Porque o protagonista, em qualquer escala que seja, agora é um ninja-transformador-de-mundo. Ele esteve no lugar estranho, adaptou-se a ele, descobriu o verdadeiro poder e agora ele está de volta aonde começou, mudado para sempre e para sempre capaz de criar mudança. Em uma história de amor, ele é capaz de amar. Em uma história de Kung Fu, ele é capaz de Kung todo o Fu. Em um filme de terror, agora ele pode assassinar o assassino.

Um truque realmente legal é lembrar ao público que o motivo do protagonista ser capaz de tal comportamento é por causa do que aconteceu lá em baixo. Quando em dúvida, olhe para o lado oposto do círculo. Surpresa, surpresa, o oposto de (8) é (4), a estrada de provas, onde o herói estava botando suas coisas em ordem. Lembra-se daquele isqueiro zippo que o mendigo lhe deu? Ele bloqueou a bala! Isso é banal, mas é banal porque já funcionou mil vezes. Agarre-o, desconstrua-o, e crie a sua própria versão. Você não pareceu ter um problema com essa fórmula, quando o cara gago (4) recitou um monólogo perfeito (8) em Shakespeare Apaixonado. É tudo a mesma coisa. Lembra-se daquela tribo de índios loucos, de alívio cômico, com quem fizemos amizade (4) ao chutar o seu maior lutador nas bolas? É agora, no (8), quando estamos quase vencidos pelo bandido, que aqueles filhos da puta loucos cavalgam pela colina e nos salvam. Por que isto não é Deus Ex Machina? Porque nós fizemos por merecer (4).

Todo mundo pensa que Matrix foi um sucesso por causa de novos efeitos especiais americanos combinados com o velho estilo de Hong Kong pirateado. Essas coisas não atrapalharam, mas, para um exemplo do quanto elas valem por si sós, assista a porra da sequência. Admita, ela é uma porcaria. Os escritores de Matrix dizem em entrevistas que eles organizaram esse longa a partir de elementos de seus filmes favoritos. Eles tentaram fazer o filme que sempre quiseram assistir. Ta-rá. Eles se renderam aos seus instintos, ao que eles sabiam que funcionava, e, como resultado, eles fizeram o que os seres humanos fazem instintivamente: Contaram uma história instintivamente satisfatória sobre um cara comum (1) que recebe um telefonema estranho (2) e, ao segui-lo, percebe que a realidade era uma ilusão (3). Ele aprende como as coisas funcionam (4), conversa com o oráculo (5), perde seu mentor (6), volta (7) e salva a porra do dia (8). Não é perfeito, especialmente no terceiro ato, mas tente identificar as etapas em Matrix Reloaded. Arranje uma régua. E uma xícara de café. Vai ser uma ralação longa e árdua.

Em Duro de Matar, tendo matado todos os terroristas – a cada vez largando mais e mais bagagem neurótica, McClane está agora desarmado, quase nu, frente à sua esposa. Há apenas um problema. Hans Gruber, a versão-sombra do inconsciente de John ("Hans" é "John" em alemão?), também está aqui, tendo "seguido-o" até o mundo comum, como as sombras têm propensão a fazer. Ele tem uma arma apontada para a cabeça dela. E ele tem mais um capanga – você sabe, o cara que interpretou "Nick, o Gostosão" em A Última Festa de Solteiro (quem teria imaginado que ele duraria mais tempo?).

Às vezes o Chefe Hogg não para na fronteira do condado. Às vezes o alien entra escondido a bordo de sua cápsula de fuga, ou o T-Rex começa a andar pelos quintais das pessoas. Isto é especialmente passível de acontecer em histórias de vida ou morte mais orientadas para a ação, onde a travessia do limiar na volta foi bruta e descuidada. As coisas podem ficar bagunçadas. Você pode arrastar um pouco mais de caos através do portal do que você queria. Mundos podem colidir. Como Ulysses, voltando para casa para encontrar 50 caras tentando transar com sua esposa, é hora de limpar a casa.

Felizmente, o verdadeiro John passou o tempo de sua história aprendendo novos comportamentos, enquanto o John-Sombra passou seu tempo tentando segurar o seu ego que estava desmoronando. O verdadeiro John aprendeu, em particular, que às vezes o seu melhor ataque é a rendição. Ele virou a esquina com sua submetralhadora de outro mundo, e foi ordenado a largá-la. Agora o John-Sombra, em (8) acha que tem o que era tão desesperadamente necessário para ter o John Real em (1): Controle. Ele tem a esposa de John como uma refém relutante. E, claro, como um bom vilão, Hans nunca sonharia em jogar fora a oportunidade de tripudiar, de modo que ele aponta sua arma para o John.

Mas a submetralhadora de John estava vazia. Ele tinha colocado suas duas últimas balas do mundo inconsciente de volta na sua velha e consciente pistola-pênis de Nova York, a que ele tinha no avião, a que agora está presa em suas costas com… (ruborize) fita adesiva de Natal. Ok, olhe, é um roteiro muito bom até esse ponto. De qualquer forma, John puxa a arma escondida, atira no John-Sombra no seu intransigente coração negro alemão, atira no Nick, o Gostosão na testa, e, no momento em que sua esposa e Hans quase despencam juntos através da janela quebrada, John é capaz de libertar seu amor de uma vez por todas, liberando a fivela do Rolex dado a ela por um yuppy drogado de Los Angeles. O relógio, e Hans, tombam pelo ar, e o ator que interpreta o diretor em Clube dos Cinco diz: "Eu espero que esse não seja um refém"; e assim termina o maior filme de ação do século 20.

Bem, não exatamente. O motorista negro cheio de conversa fiada, adequado, submisso, de alívio cômico, tem que nocautear o hacker de computador negro hiper-inteligente, impróprio, arrogante, tornando a escravidão mais heroica do que o terrorismo, e restabelecendo a segurança para a sociedade caucasiana. Além disso, o policial de Los Angeles, assassino de criança e com medo de usar a arma, tem que atirar para matar o recém-ressuscitado terrorista Louro, reacostumando-se com o fato de que, às vezes, matar o tipo certo de pessoa pode ser um ato de afirmação da vida.

Enquanto isso, o nosso herói trocador de pneu liga seu carro e vai para casa, com uma história para contar à sua esposa.

Uma boa história? Digna de TV ou filmes? Claro que não. Mas a história da troca de pneus usa os mínimos mais básicos. Contraste-a com uma em que, depois do homem dirigir seu carro para o acostamento da estrada, um lobisomem abre a porta e o come. Fim. Agora você tem uma sequência com um lobisomem e uma sem. Qual conta uma história? Não importa o quão legal você ache que lobisomens sejam, você sabe a resposta instintivamente.

Você sabe tudo isso instintivamente. Você é um contador de histórias. Você nasceu assim.

Lobisomem

Boa escrita pra você hoje! (.V.)

Anúncios

4 Comentários

  1. Olá Valéria, bom dia!

    Acompanhando, lendo muito sobre o que você transcreve e no final, as frases, pequenas e derradeiras:

    Você sabe tudo isso instintivamente. Você é um contador de histórias. Você nasceu assim.

    E agora, o que a gente faz? Conta histórias, mentiras, meias verdades e assim por diante. Quer algo melhor do que isso? Não parar enquanto não cansar e mesmo assim, ainda tem tempo de colocar os pontinhos… exausto e pontinhos… exausto e pontinho… exaus… e ex… e. Cansei.

    Abraços!

    Comentário por Cilas Medi — 25/02/2012 @ 10:39

    • Rsrsrs! :mrgreen: Ai, Cilas, você sempre me fazendo rir! 😀 😀

      Eu concordo contigo, aquela frase final foi matadora, deu mais auto-estima pra gente continuar com nossas frases e nossos pontinhos… até nossos dedos ficarem duros (dedos-duro?) de cansados! 😀 :mrgreen:

      Obrigada pela visita e pela mensagem, Cilas, é sempre um prazer imenso! Me perdoe a demora na resposta, o blog tem ficado às moscas nos útimos dias porque eu não estava passando bem, mas agora creio que tudo voltará ao normal, se Deus quiser.

      Um abração, Cilas!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 29/02/2012 @ 20:12

  2. Olá, Valéria! Tudo bem?
    Nossa, seu site continua maravilhosooooo! Sempre passo aqui para ler as novidades.
    Hoje estou com uma duvida. Sai um pouco do assunto roteiro, mas continua no assunto cinema. Eu gostaria de saber para que serve a Ancine. Caso eu venha gravar um filme eu tenho que registrá-lo na Ancine, é isso mesmo? Enfim, o que é e para que serve a Ancine? Será que você poderia tirar essa minha duvida?

    Aguardo resposta.
    Obrigado!

    Comentário por Maycon Carneiro — 26/02/2012 @ 02:43

    • Oi, Maycon! Como vai? 😀

      Eu estive no “estaleiro” por uns dias, mas já estou bem melhor. E fiquei super feliz por você estar gostando tantoooooo assim do blog! :mrgreen:

      Quanto à Ancine, sobre essa parte eu ainda não estou muito bem informada, por isso não posso dizer com 100% de certeza, mas pelo que eu sei, é necessário sim registrar o filme na Ancine se você tiver interesse em comercializá-lo, aqui e no exterior. Além disso, eles também podem ajudá-lo com incentivos para que você produza, termine ou distribua seu filme, se você o registrar lá.

      A Ancine é um órgão regulador do mercado de cinema e audiovisual no Brasil, e basicamente fomenta, apóia e regulariza o mercado, garantindo que as leis referente a esse ramo sejam cumpridas. Tem um FAQ bem extenso na páginas deles, lá talvez você tire muitas de suas dúvidas: http://www.ancine.gov.br/perguntas-frequentes

      E aqui é a apresentação: http://www.ancine.gov.br/ancine/apresentacao

      Um abraço grande, Maycon, e obrigadão por sua visita! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 29/02/2012 @ 20:33


RSS feed for comments on this post.

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: