Dicas de Roteiro

22/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4B

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:30
Tags: , ,

Aqui está a continuação da quarta parte da estrutura de escrita formulada pelo roteirista Dan Harmon, tirada do site Channel 101 Wiki:

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

5 – “Encontra.” – Encontro com a Deusa

A função da estrada de provas é preparar o seu protagonista para este encontro. Como uma única célula espermatozoide chegando ao óvulo, o seu herói-em-formação acabou de encontrar o que ele estava procurando, mesmo que não seja bem o que ele sabia que estava procurando.

Eu estou usando a frase "encontro com a deusa" porque o Joseph Campbell pensou sobre essas coisas por mais tempo e mais a fundo do que eu. Syd Field chama isso de "o ponto central". Fácil de lembrar. Robert McKee provavelmente o chama de "nexo de inclinação", ou algo assim. Se não me engano, os afro-americanos o chamam de Kwanza.

Não importa como você o chame, este é um ponto de articulação muito, muito especial. Se você olhar para o círculo, verá que eu coloquei a deusa embaixo, bem no centro. Imagine que o seu protagonista começou no topo e tombou por todo o caminho até aqui. Este é o lugar onde a tendência natural do universo de puxar o seu protagonista para baixo tem feito seu trabalho, e por uma quantidade X de tempo, nós experimentamos leveza. Qualquer coisa vai para baixo aqui. Este é um momento de grandes revelações, e de vulnerabilidade total. Se você estiver escrevendo um suspense com um enredo cheio de reviravoltas, faça uma reviravolta aqui, e das maiores.

Reviravolta ou não, este também é outro limiar, em que tudo para além deste ponto terá um sentido diferente (ou seja, PARA CIMA), mas note que o indivíduo não é arrastado, chutando e gritando através dessas cortinas. Ele paira aqui. Ele fará uma escolha, e então ascenderá.

Imagine que você está em pé num cais (1). Você vê um brilho dentro d’água e se pergunta o que é (2). Ao se inclinar para ver, você cai do cais (3). Você afunda cada vez mais (4) até chegar ao chão do lago e ver o que estava captando os raios do sol.

(5) É um crânio humano.
(5) É um colar.
(5) É uma pequenina nave espacial antiga.
(5) É uma moeda. Patrimônio líquido: 25 centavos.

Poderia ser qualquer coisa, boa ou ruim. Muitas vezes, é uma dose saudável de ambas. Em uma história de detetive durão, ou numa aventura de James Bond, este poderia ser um "encontro" mais literal e íntimo, se você entende o que quero dizer, com uma poderosa e misteriosa personagem do sexo feminino. Este é um ótimo momento para o sexo, ou para dar uns amassos na garota gostosa, especialmente se o seu protagonista kung-fuzou todo mundo que ele encontrou na última meia hora (ou, no caso do Channel 101, nos últimos 60 segundos).

Mas a deusa não tem que ser uma femme fatale ou uma donzela angelical. Em um jogo totalmente masculino ou totalmente feminino que se realiza em torno de uma mesa de pôquer, a "deusa" poderia ser a confissão de um personagem de que ele perdeu seu emprego. A deusa pode ser um gesto, uma ideia, uma arma, um diamante, um destino, ou apenas um momento de liberdade daquele monstro que não vai parar de perseguir você.

Em Duro de Matar, John McClane, depois de ter corrido sobre vidro quebrado, está sentado em um banheiro, lavando seus pés sangrentos na pia. É nesse momento que ele finalmente percebe a verdadeira extensão de seu amor por sua esposa, e o que ele está fazendo de errado em seu casamento. Ele (1) tem sido teimoso demais (2). Ele usa seu walkie-talkie, adquirido na etapa (4), para mandar uma mensagem para sua esposa através de seu interlocutor benevolente, bem casado e que odeia tiros: "Ela já me ouviu dizer ‘eu te amo’ umas mil vezes… mas nunca me ouviu dizer que sinto muito."

Não é suficiente picar e retalhar para abrir seu caminho através de símbolo após símbolo neurótico. O picar e o retalhar era um processo, esse processo terminou, mesmo que apenas temporariamente, e chegamos a uma segunda grande reviravolta.

A definição de "grande", é claro, tem relação com o diâmetro do seu círculo. O nosso motorista encalhado e encharcado de chuva acabou de esvaziar o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada. Ele vê o estepe e solta um som muito leve e muito rápido de alívio. Isto é tudo. Esta é uma história sobre um homem mudando um pneu. Essa é toda a deusa de que precisamos.

Você deve ter notado que, assim como (3), a travessia do limiar, é o oposto de (7), o retorno, (5), o encontro com a deusa, é o oposto de (1), a zona de conforto do protagonista. Pense em (1) como sendo os braços da mãe, por mais disfuncional que ela possa ser. (5) é uma nova forma de mãe, uma versão inconsciente, e frequentemente há a tentação de ficar bem aqui. Como na casa daquele elfo em O Senhor dos Anéis.

Isto é muito, muito importante. O movimento para além de (5) torna-se a vontade do protagonista. A água onde as sereias cantavam a sua canção sedutora estava repleta de navios naufragados. A deusa pode ser a ruína, ou a pacificação permanente, dos não-heróis. Está tudo muito bem e tranquilo para o James Bond mergulhar seu biscoito, mas ele não pode ficar por aqui o dia todo. A Electropussy poderia matá-lo com seu batom lança-chamas, ou algo assim.

Em (1), nós estávamos nos braços da mãe, mas fomos removidos por (2), o puxão do pai. A necessidade, a saudade, a falta de conclusão, seja vinda de dentro ou de fora, chamou-nos para (3), e nós fomos puxados através de um limiar, para o desconhecido. Fomos, então, transformados (4) em (5), o oposto de um filhinho da mamãe: um mulherengo.

Para reiterar, isto não se aplica apenas a histórias sobre homens fazendo sexo. Se esta é a história de uma pobre menina (1) que sonhava em ser rica (2) e foi adotada por um milionário (3), depois de ter se acostumado ao seu novo estilo de vida, (4), ela pode agora ser um tanto afetada (5). Mostre isso com um momento definidor. Este pode ser um bom ponto para ela passar pelo orfanato em sua limusine.

6 – “Pega.” – CONHEÇA SEU CRIADOR

Como você poderia esperar de um modelo circular como este, há um monte de simetria acontecendo, e na viagem de volta para cima, nós estaremos fazendo um monte de referências à viagem para baixo.

Assim como (1) e (5) são momentos muito maternos, femininos e vulneráveis, (2) e (6) são momentos muito paternos, masculinos e ativos, independentemente do sexo do protagonista.

Pense no que realmente aconteceu em (2). As coisas estavam "bem" em (1), mas elas simplesmente não eram boas o suficiente. É assim que entramos nessa confusão toda, para começo de conversa.

Em Academia de Gênios (eu estou realmente me aproveitando dos clássicos, agora), o garoto desajeitado (1) é recrutado por um programa especial da faculdade que está trabalhando em um poderoso laser (2). Ele se torna o companheiro de quarto de um gênio rebelde, que vai se formar em como-festejaaarr (3). O Homem-festa ensina o Desajeitado como relaxar, enquanto o Desajeitado ensina o Homem-festa como se concentrar (4) e, como resultado, eles são capazes de aperfeiçoar seu laser (5) e obter os seus prêmios de prestígio. Mas agora há um segundo e mais honesto chamado à aventura, vindo de um super-nerd que vive nos túneis subterrâneos da universidade: Para quê serve o laser? Por que eles tinham que construí-lo com as especificações determinadas? O que aquele assustador professor que odeia pipoca tem em mente? Claro, eles poderiam ficar aqui nesta pizzaria, mamando na teta de sua própria prosperidade. Mas, novamente, eles não chegaram tão longe sendo irresponsáveis. É hora de começar a voltar ao mundo real e fazer as coisas direito, ao estilo Gênio.

Há consequências grandes e importantes dessa decisão. De fato, em um bom filme de ação, esse é o momento onde o nosso cara simplesmente tem a sua bunda chutada. Robocop, armado com a confissão de Clarence Boddiker (5), marcha para o escritório de Dick Jones, CEO da empresa que o construiu. Ele tenta prender o homem que é dono dele, só para descobrir que não consegue. É contra a sua programação. O Alex Murphy amável e humano (2) poderia ter sido capaz de conseguir isso, mas o Robocop à prova de balas, feito de fábrica, não pode. Irônico, considerando que o desejo inconsciente de Murphy (2) era ser um herói à prova de balas ("TJ Laser"). Entre o seu irmão puramente mecânico, o ED-209, e os seus irmãos puramente humanos, a polícia mal informada, sendo incitada a atacá-lo, Robocop mal consegue sair do castelo do pai em um único pedaço.

Antes que você pense que momentos como este estão reservados para filmes de ação, vamos dar uma olhada numa cena quase idêntica, que se passa em Rede de Intrigas, que pode ser o filme mais bem escrito já feito. Nesta fase da história, Howard Beale, âncora de notícias que virou profeta, é conduzido a uma sala de diretoria, onde ele fica cara a cara com o seu criador: o CEO da empresa que é dona da rede, Arthur Jensen (interpretado por Ned Beatty). Num dos monólogos mais bem escritos e interpretados do século 20, Jensen revela a Beale que o capitalismo é Deus, Deus é o capitalismo e, por ter fodido com Deus, Beale agora deve sofrer as consequências.

Nada de robôs, nada de explosões, mesma estrutura.

Isso porque esta metade do círculo tem seu próprio caminho de testes – a estrada de volta para cima. A estrada para baixo prepara você para a cama da deusa, e a estrada para cima lhe prepara para reingressar no mundo comum.

Tendo ficado em paz (5) em relação ao seu casamento, John McClane agora se pergunta por que Hans Gruber, o terrorista-chefe, estava tão desesperado por aqueles detonadores. Ele volta para o telhado e descobre que toda a porção superior do arranha-céu está armada para explodir. Com esta percepção, vem a consequência (6): O gigante terrorista loiro – o ED-209 para o Robocop de McClane – cai sobre ele e os dois agora vão lutar até a morte. Liquidar o Lourinho é apenas o primeiro passo. Os testes nesta estrada surgem rápidos e furiosos. No momento em que o protagonista chega ao (7), os fragmentos remanescentes do seu ego terão desaparecido, e ele terá realizado o que Campbell chama de "Sintonia com o Pai" – O pai sendo este universo totalmente não-pessoal e sem raiva, geralmente incorporado, nos filmes de ação, pelo bandido (o qual muitas vezes ouvimos dizer, nesses filmes mais maliciosos: "Nada pessoal. Apenas negócios.")

Em uma história de amor, esta é a parte onde eles terminam. Agora vem a barba por fazer, e os pratos sujos, e os tons fechados. A depressão profunda, profunda e suicida. A relação entediante com um(a) parceiro(a) supostamente melhor. E, finalmente, a percepção de que nada nunca foi mais importante do que ele ou ela.

Ao perceber que algo é importante, realmente importante, a ponto de ser mais importante do que VOCÊ, você ganha controle total sobre o seu destino. Na primeira metade do círculo, você estava reagindo às forças do universo, se adaptando, mudando, buscando. Agora você TORNOU-SE o universo. Você tornou-se aquele que faz as coisas acontecerem. Você tornou-se um Deus vivo.

Dependendo do escopo de sua história, um "Deus vivo" pode ser um cara que consegue terminar de trocar um pneu na chuva. Ou, no caso de Duro de Matar, pode ser um cara que consegue aparecer no telhado, liquidar terroristas com facilidade e levar 50 reféns à segurança, enquanto se esquiva dos tiros de um helicóptero do FBI.

Shannon-changing-tire

Por falta de tempo, acabei tendo de dividir este texto em três partes, pessoal. Mas amanhã devo conseguir postar a última.

Uma ótima escrita pra todos vocês!

Anúncios

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: