Dicas de Roteiro

21/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4A

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:20
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Aqui está outro capítulo da fórmula desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon, tirado do site Channel 101 Wiki. Como é meio grande, eu o dividi em duas partes.

StoryStructure04

Joseph Campbell era um mitólogo comparativo, não um guru de roteiro banal. No entanto, aqui é onde eu, Dan Harmon,

sinto que os capítulos do famoso "monomito" ou "jornada do herói" de Campbell cairiam, se você os forçasse para dentro de meu círculo.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

Ok, aqui está aquela parte onde o auto-nomeado guru lhe diz exatamente o que deve acontecer e quando.

Eu espero ter deixado claro para você antes de fazer isso, que a estrutura REAL de qualquer boa história é simplesmente circular – uma descida ao desconhecido e o eventual retorno – e que quaisquer descrições específicas desse processo são específicos para você e sua história.

Aqui está a minha descrição detalhada dos passos no círculo. Eu vou ser chegar a ser bastante específico, e não vou incomodar, dizendo: "há algumas exceções disto", várias e várias vezes. Existem algumas exceções para tudo, mas isso é chamado de estilo, não estrutura.

  1. Você (um personagem está em uma zona de conforto)
  2. Necessita (mas ele quer algo)
  3. Vai (ele entra em uma situação não-familiar)
  4. Procura (adapta-se a ela)
  5. Encontra (encontra o que queria)
  6. Pega (paga o seu preço)
  7. Retorna (e volta para onde ele começou)
  8. Muda (agora capaz de mudar)

1 – “Você.” – ESTABELEÇA UM PROTAGONISTA

O público está flutuando livremente, como um fantasma, até você dar-lhe um lugar para pousar.

Este efeito de livre flutuação pode ser explorado por um tempo – dando um close sobre o planeta Terra; fazendo uma panorâmica através de um barracão sujo. Quem nós vamos ser? Mas, cedo ou tarde, nós precisamos ser alguém, porque se não estivermos dentro de um personagem, então não estamos dentro da história.

Como você coloca o público em um personagem? Fácil. Mostre um. Você teria que sair do seu caminho para evitar do público se imprimir nele. Pode ser um guaxinim, um homem sem-teto, ou o Presidente. Simplesmente abra o quadro nele, e nós somos ele até que tenhamos uma melhor opção.

Se houver opções, os espectadores escolhem alguém com quem eles se relacionam. Quando em dúvida, eles seguem sua compaixão. Abra o quadro em um guaxinim que está sendo perseguido por um urso, e somos o guaxinim. Abra o quadro em uma sala cheia de embaixadores. O Presidente entra e tropeça no tapete. Nós somos o Presidente. Quando sente pena de alguém, você está usando a mesma parte de seu cérebro que usa para se identificar com eles.

Muitas histórias modernas nos fazem saltar de personagem para personagem no início, até que finalmente nos acomodamos em alguns sapatos confortáveis. Esse saltar pode ser eficaz, mas se isso está continuando por mais de 25% de sua história total, você vai perder o público. Como qualquer coisa adesiva, o nosso senso de identidade se enfraquece um pouco a cada vez que é trocado ou testado. Quanto mais tempo ele tem estado grudado em algo, mais chocante vai ser arrancá-lo e colá-lo em outra pessoa.

Eu não foderia com isso, se eu fosse você. A coisa mais fácil a fazer é abrir o quadro em um personagem que sempre faz o que o público faria. Ele pode ser um assassino, um guaxinim, pode ser um parasita vivendo no fígado do guaxinim, mas que ele faça o que o público faria se estivesse na mesma situação. Em Duro de Matar, o quadro se abre em John McClane, um passageiro em um avião, que não gosta de voar.

2 – “Necessita.” – ALGO NÃO ESTÁ CERTO

E agora o carrinho da montanha-russa sobe a primeira colina. Click, click, click…

Aqui é onde nós demonstramos que algo está fora de equilíbrio no universo, não importa o quão grande ou pequeno o universo seja. Se esta for uma história sobre uma guerra entre a Terra e Marte, este é um bom momento para mostrar aquelas naves marcianas rumando em direção ao nosso pacífico planeta. Por outro lado, se esta for uma comédia romântica, talvez a nossa heroína esteja jantando em um encontro às cegas ruim.

Estamos sendo apresentados à ideia de que as coisas não estão perfeitas. Elas poderiam estar melhores. Aqui é onde um personagem poderia se perguntar em voz alta, ou com expressões faciais, por que ele não pode ser mais bacana, ou mais rico, ou mais rápido, ou um melhor amante. Este desejo será concedido de formas que o personagem não poderia ter esperado.

Aqui também é onde um "Chamado à aventura" mais literal e exterior poderia entrar em jogo, nas mãos de um mensageiro misterioso que explica para um tintureiro que ele acabou de ser destacado pela CIA.

Frequentemente, o protagonista "recusa o chamado". Ele não quer ir para a etapa 3. Ele é feliz como tintureiro (pelo menos ele pensa que é). A "recusa ao chamado" não é um ingrediente necessário, é apenas outro truque muito usado para nos manter presos a uma identidade. Todos nós temos medo da mudança.

Lembre-se: Os chamados à aventura não têm de vir de um mensageiro de fato, e os desejos não têm de ser feitos em voz alta.

Abra o quadro em um homem de aparência gentil dirigindo um carro. Está chovendo. Bum. Pneu furado. Ele luta para evitar que o carro derrape. Ele puxa-o para o lado da estrada e para. Ele tem medo em seu rosto. Ele olha pela janela do carro para a chuva batendo…

Ou, para continuar com Duro de Matar: Nós percebemos agora que o casamento de John está abalado. Sua esposa tem um bom trabalho em Los Angeles, e ele se recusou a vir para cá com ela. Agora ele a está visitando para o Natal. Ela está usando seu nome de solteira no diretório corporativo. Eles estão brigando. As coisas não estão bem, e se você pudesse ler a mente do protagonista, poderia encontrá-lo desejando que houvesse algo que ele pudesse fazer para salvar seu casamento…

3 – “Vai.” – ATRAVESSANDO O LIMIAR

Sobre o quê é a sua história? Se é sobre uma mulher fugindo de um ciborgue assassino, então, até agora, ela não esteve fugindo de um ciborgue assassino. Agora ela vai começar. Se a sua história é sobre uma paixão, esse pode ser o ponto onde o nosso herói masculino põe os olhos sobre o objeto de seu desejo pela primeira vez. Então, novamente, se a nossa protagonista é objeto de uma perigosa obsessão, a paixão poderia ter sido o passo 2, e este poderia ser o ponto onde o cara diz algo realmente, realmente assustador para ela no corredor do escritório. Se é uma história sobre amadurecimento, este poderia ser um primeiro beijo, ou a descoberta de um pelo na axila. Se é um filme de terror, este é o primeiro assassinato, ou a descoberta de um cadáver.

A chave é, descubra qual é o seu "cartaz do filme". O que você anunciaria às pessoas, se quisesse que elas viessem ouvir a sua história? Um tubarão assassino? O espaço sideral? A Máfia? O verdadeiro amor? Tudo com cor cinza naquele círculo, a metade inferior, é o "mundo especial" onde aquele pôster do filme começa a ser transmitido, e tudo acima desta linha é o "mundo comum". Etapa 1, você é o xerife de uma pequena cidade. Etapa 2, mordidas estranhas no corpo de uma vítima de assassinato. Etapa 3, puta merda, é um lobisomem.

Lembre-se do tutorial 2, de que o que realmente está acontecendo aqui é uma jornada para dentro de nossa própria mente inconsciente, onde podemos conseguir resolver nossas coisas. Um garoto acorda, e agora ele é Tom Hanks. O seu desejo de ser "grande" foi concedido. Terroristas atacam a festa de Natal, e agora John McClane tem sua chance de literalmente salvar seu casamento abalado. Neo acorda em um tanque de gosma em um mundo dominado pelas máquinas. Seu desejo do mundo comum de ser um hacker, de lutar contra o sistema, vai ser posto à prova. Um menino suicida começa a ver um terapeuta. Vamos descobrir por que ele tentou se matar.

Não importa o quão pequeno ou grande seja o âmbito da sua história, o que importa é a quantidade de contraste entre esses mundos. Em nossa história sobre o homem trocando o pneu na chuva, até agora, ele não estava mudando um pneu. Ele estava dentro de um carro seco. Agora, ele abre a porta do carro e sai para a chuva. A aventura, independentemente de seu tamanho ou sutileza, já começou.

4 – “Procura.” – ESTRADA DE PROVAS

Christopher Vogler chama esta fase de um roteiro de longa-metragem de "amigos, inimigos e aliados". Produtores mercenários a chamam de "fase de treinamento". Eu prefiro ficar com o título de Joseph Campbell, "A Estrada de Provas", porque é menos específico. Eu tenho visto filmes demais onde o nosso tempo é desperdiçado assistindo a um herói literalmente "treinar" em uma clareira na floresta porque alguém teve a ideia de que esse era um ingrediente necessário. O ponto desta parte do círculo é: o nosso protagonista foi jogado na água, e agora é afundar ou nadar.

Em O Herói de Mil Faces, Campbell efetivamente evoca a imagem de um aparelho digestivo, desmembrando o herói, despindo-o de neuroses, despojando-o de medo e desejo. Não há espaço para besteiras no porão do inconsciente. Inaladores de asma, óculos, cartões de crédito, namorados da fraternidade, promoções, perucas e telefones celulares não podem salvá-lo aqui. O propósito aqui tornou-se revigorantemente – e assustadoramente – simples.

Em Tudo Por Uma Esmeralda, Michael Douglas corta fora os saltos dos caros sapatos da Kathleen Turner com um facão. Em seguida, ele joga a mala dela num penhasco. Se ela vai continuar a sobreviver nesta selva, ela literalmente precisa largar o excesso de bagagem e perder as calças chiques.

Em Duro de Matar, John McClane é aconselhado por um terrorista a quem ele mostrou misericórdia mais cedo: "Na próxima vez que você tiver a chance de matar alguém, não hesite." John atira nele várias vezes e agradece a seu cadáver pelo conselho. O policial começou a desaparecer, pedaço por pedaço, revelando o seu caubói interior.

O homem na chuva abre seu porta-malas, revelando uma pilha de roupa suja e lixo de fast food. Ele tenta mover aquilo de um lado para outro, mas finalmente a sua frustração toma conta e ele começa a jogar as coisas por cima do ombro, esvaziando o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada.

Estamos nos dirigindo para o nível mais profundo da mente inconsciente, e não podemos alcançá-lo sobrecarregados com toda aquela porcaria que costumávamos pensar que era importante.

Die-Hard

Boa terça-feira gorda de carnaval pra você!

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3 Comentários

  1. Olá, tudo bem!? Estou montando um show e preciso fazer um roteiro, porém não sou roteirista, sou músico, e gostaria de saber se existe um passo-a-passo para realizar esta tarefa…..
    Vc poderia me ajudar de alguma forma?
    Obrigado, um abraço, Guilherme

    Comentário por Guilherme — 21/02/2012 @ 21:21

    • Oi, Guilherme!

      Você está montando um show de música, não é? Infelizmente, acho que o tipo de roteiro que você está procurando é algo totalmente diferente do que temos aqui. Pessoalmente, eu nunca vi um roteiro de show, nem mesmo de uma peça musical de teatro, que já é bem difícil de encontrar. Eu gostaria muito de poder ajudá-lo, mas não tenho a mínima ideia de como ou onde você poderia descobrir isso. Talvez em sites de músicos…?

      Desculpe, Guilherme, por não ter sido de nenhuma valia, eu torço para que você encontre alguém que possa tirar essa dúvida pra você.
      Um abraço grande,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 22/02/2012 @ 09:26

      • Ok Valeria, tudo bem.
        Vou continuar a minha busca.

        Valeu pela atenção.
        [ ]’s

        Comentário por Guilherme — 22/02/2012 @ 13:56


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