Dicas de Roteiro

19/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 2

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Continuando a nossa série, aqui vai a segunda parte da estrutura desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon para escrever histórias, tirada do site Channel 101 Wiki:

LCODUC

VIDA, CONSCIÊNCIA, ORDEM / MORTE, INCONSCIÊNCIA, CAOS

Estrutura de História 2: Teoria Pura e Chata

Isto não é um tutorial. É apenas um monte de teoria. Os pragmáticos ou impacientes entre vocês podem pular esta parte.

Por que esse ritual de descida e retorno? Por que uma história tem que conter determinados elementos, em uma determinada ordem, antes que o público sequer a reconheça como uma história?

Porque a nossa sociedade, cada mente humana dentro dela, e toda a vida em si tem um ritmo, e quando você toca nesse ritmo, ele ressoa.

O RITMO DA BIOLOGIA

TheRythymOfBiology

VIDA / MORTE

O universo ao nosso redor está morrendo, passando de um estado de alta energia para um de baixa. Na Terra, porém, as coisas tendem a se mover em direção contrária. Os ovos se transformam em galinhas. As pessoas se transformam em mais pessoas. A carne cura, o idiota torna-se mais inteligente, e o planeta, uma vez frio e vazio, está agora tão cheio de vida que você não pode deixar o pão sobre o balcão. Como a vida conseguiu enganar um universo moribundo, assim?

Através da morte.

Esta criatura planetária conhecida como "Vida na Terra" tem sido capaz de crescer e prosperar através de uma corrida armamentista evolucionária entre as várias partes de si mesma. As partes mais avançadas da vida COMEM as partes menos avançadas, desse modo tornando-se mais abundantes até uma parte mais avançada consumi-las. Isso faz com que toda a vida avance e se espalhe. A contínua batalha entre comedores e comidos é responsável por essa arma biológica de ponta que você chama cérebro, e pode até levar, um dia, a seres humanos lançando-se como esporos para planetas mortos e trazendo esses planetas à vida.

Para você e eu, conscientemente, a morte pode ser uma chatice, mas para a Mãe Gaia, para a vida em si, inconscientemente, ela é absolutamente essencial – 50% de como as coisas são feitas.

O que quero dizer com consciente e inconscientemente?

O RITMO DA PSICOLOGIA

RhythmPsychology

CONSCIENTE / INCONSCIENTE

A sua mente é uma casa, com um andar em cima e um embaixo.

Lá em cima, em sua consciência, as coisas são bem iluminadas e regularmente varridas. Os amigos visitam. Joga-se palavras cruzadas, o chocolate quente está sendo preparado. É um lugar agradável e familiar.

Lá embaixo, é mais antigo, mais escuro e muito, muito mais esquisito. Chamamos este porão de mente inconsciente.

O inconsciente é exatamente o que parece: São as coisas sobre as quais você não quer, não vai e/ou não consegue pensar. De acordo com Freud, há imagens sujas de sua mãe, lá embaixo. Segundo Jung, há tubos, fios, até mesmo túneis lá embaixo que ligam a sua casa a outras. E apesar dele conter energias de sustentação da vida (como a caixa de fusíveis e o aquecedor de água), é um lugar primitivo, fedido e assustador, e não é de admirar que, dada a escolha, nós não o visitemos regularmente.

Entretanto, o seu prazer, a sua sanidade e até mesmo a sua vida dependem de ocasionais idas. Você tem que trocar os fusíveis, pegar os enfeites de Natal, limpar a caixa de areia. Na medida em que mantemos a porta do porão selada, toda a casa torna-se instável. As criaturas lá embaixo ficam mais barulhentas, e o cara lá em cima (o seu ego) tenta cobrir o ruído com comportamento neurótico. Para alguns, eventualmente, a porta do porão pode se soltar de suas dobradiças, e os habitantes viscosos e primordiais das profundezas podem tornar-se parceiros de palavras cruzadas. Você pode chamar isso de um colapso nervoso ou surto psicótico, não importa. O ponto é: Campanhas ocasionais do ego para dentro do inconsciente, através de terapia, meditação, confissão, sexo, violência, ou uma boa história, mantêm a consciência funcionando em ordem.

Este é o ritmo da psicologia: Consciente-inconsciente-consciente-inconsciente-etc.

O RITMO DA SOCIEDADE

RhythmSociety

ORDEM / CAOS

Sociedades são basicamente macrocosmos (versões grandes) de pessoas, só que, ao invés de "consciência", o andar de cima de uma sociedade é "ordem", e o seu porão é "caos".

Enquanto a saúde de um indivíduo depende de descidas e retornos regulares do ego para e do inconsciente, a longevidade de uma sociedade depende de pessoas reais viajando para o desconhecido e voltando com ideias.

Em sua forma mais dramática e revolucionária, essas pessoas são chamadas de heróis, mas, a cada dia, a sociedade é reabastecida por milhões de pessoas mergulhando na escuridão e emergindo com algo novo (ou esquecido): cientistas, pintores, professores, dançarinos, atores, padres, atletas, arquitetos e, mais importante, eu, Dan Harmon.

As sociedades são macrocosmos de pessoas de outra maneira: Eventualmente, elas morrem. Há concorrência entre diferentes sociedades. Os perdedores são comidos e os vencedores se reproduzem.

Como as pessoas, as sociedades se tornam neuróticas e podem, eventualmente, desmoronar, quando cometem o erro de pensar que o andar de baixo não deveria existir. Os Estados Unidos são um exemplo fantástico disso, conforme o nosso medo do desconhecido continua a criar mais incógnitas e mais medo. Agora é punível por bombardeio ter um problema com a política de bombardeio dos Estados Unidos. Em um ser humano, o equivalente seria diagnosticável como sintomático. Nosso porão está repleto de rastejadores assustadores, a pressão sobre a porta está aumentando. Nunca houve uma maior necessidade de heróis, e eles nunca estiveram em tal escassez.

Uma das duas coisas vai acontecer. Alguém vai abrir aquela porta e ir lá em baixo, ou a porta vai saltar fora de suas dobradiças. De qualquer forma, a evolução social não será enganada em seu ritmo e vai ficar descuidada. Todos nós sabemos disso. Todos nós andamos por aí com essa compreensão instintiva em nossas mentes inconscientes.

O ritmo da sociedade: Ordem-caos-ordem-caos-etc.

RESSONÂNCIA

Agora você entende que toda a vida, incluindo a mente humana e as comunidades que criamos, marcham sob o mesmo, e muito específico, ritmo. Se a sua história também marcha sob este ritmo — seja ela o grande romance americano ou uma piada de peido – ela vai repercutir. Ela vai enviar o ego do seu público para uma breve viagem ao inconsciente, e trazê-lo de volta. Seu público tem um gosto instintivo para isso, e eles vão dizer "yam".

Nós voltaremos aos aspectos práticos na próxima, elaborando bastante sobre o modelo circular e aplicando-o ao piloto de 5 minutos do Channel 101.

Alice Madness Returns

Boa escrita pra você hoje! =)

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3 Comentários

  1. Estou passando aqui rapidamente só para deixar uma questão… Não consegui ler o texto, mas depois quando estiver em casa vou ler com calma e dar um comentário sobre, até por que me parece um texto interessante… Pois bem, dessa vez vai uma pergunta que não tem a ver com o texto em questão:
    Bem… Sabemos que o público tem que sentir empatia com o protagonista, querer que ele vença, ou até quem sabe goste dele… Mas… Como eu faço isso se meu protagonista for um vilão? Sendo que ele será um larápio, sujo, que se aproveita da ingenuidade das pessoas e vai espalhando por onde passa a sua teia de mentiras e enganação… É um jovem inconsequente e ardiloso, sem medo de ferir os outros, preocupado apenas com o seu próprio bem, seu ego e ainda mais o seu amado dinheiro…. Como eu posso fazer isso?? O.o essa dúvida me mata!

    Comentário por Lucas Luciano — 19/02/2012 @ 09:04

    • Oi, Lucas, bom dia! 😀

      Excelente a sua dúvida! Eu até já tenho dois textos bacanas sobre esse assunto na fila de tradução (eles acabaram de subir vários degraus na ordem de prioridade! Rsrs! :mrgreen: 😉 ), vou postá-los logo depois que esta série de 6 partes terminar, nesta semana ainda. O que você está escrevendo é um anti-herói, e realmente é preciso muito cuidado para ele não ficar mais vilão do que o próprio antagonista – não é isso o que a gente quer! Pode deixar que esses artigos vão te dar uma mãozinha nisso, é só aguardar um pouquinho.

      Um abração, Lucas, muito obrigada pela visita! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 19/02/2012 @ 11:31

      • Bom… Vou me intrometer aqui… Lucas, sua personagem deve fazer isso por algum motivo, não? Ninguém é ruim por ser ruim, porque é “divertido”; sua personagem pode até achar isso, mas tem um bom motivo para fazer o que faz, certo?

        Eu tentaria mostrar esse motivo, e assim o público pode se identificar com a personagem. Não vão morrer de amores por ele, pois sabem que o que ele faz é errado, mas pode até fazer com que se perguntem se na mesma situação não fariam o mesmo. Acredito que isso crie a empatia que procure, e se a personagem for bem elaborada, complexa e deveras interessante, independente dos motivos o público deve querer saber mais sobre ela.

        Tome como exemplo a personagem Patty Hewes de “Damages”, ela não presta! Contrata Ellen Parsons na primeira temporada somente porque pode ser de grande valia para o caso que defende, mas ela é fascinante! Ela tem motivos, só que os meios para tal não são dos mais ortodoxos.

        Mas aguarde também os posts da mestre Valéria, tenho certeza que ajudarão bem mais do que meu comentário. Nem sei se estou dando conselhos válidos, mas é pelo menos o que eu faria.

        Cada história tem dois lados. O que você vai fazer é mostrar aquele que a maioria não veria.

        Boa sorte!

        Comentário por Fernando — 21/02/2012 @ 11:38


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