Dicas de Roteiro

18/02/2012

Como as Histórias A/A/A Diferem das Histórias A/B/C?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:00
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Oi, pessoal, desculpem o atraso! Como prometido, o texto de hoje é um complemento do de ontem. Ele foi tirado do site da Scriptmag, e é de autoria do produtor, roteirista, autor e dramaturgo Chad Gervich (chad@chadgervich.com):

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A pergunta de hoje vem de Daniel, que escreve…

Meu parceiro de escrita e eu temos um piloto de uma hora mapeado, os personagens, e um "roteiro" de apresentação de venda quase montado, por isso temos muitas ideias de episódios. Nós estamos trabalhando com um dirigente de seriado, que fez uma referência a descrever "o sentimento de um episódio. Quantas histórias? Elas são tipo "A & B & C" ou "A & A & A?"

Qual é a diferença entre elas? É apenas uma questão de tempo de roteiro e ênfase do enredo? Isso tem algo a ver com o protagonista principal estar em todas as histórias, ao invés de entrecortar entre o principal e os secundários em suas próprias histórias?

Pergunta interessante, Daniel! — Então eu decidi consultar o meu amigo Rick Muirragui, que atualmente escreve para o não-convencional drama policial da FOX, The Good Guys. Rick já trabalhou em programas que usam as tradicionais histórias A/B/C, como Past Life e Charmed, e ele também escreveu para programas que usam histórias A/A/A, como o dramédia de sucesso da TNT, Men of a Certain Age.

Como Rick diz, "um episódio com histórias A/A/A é um episódio em que três personagens têm histórias de forma que todas possuam igual peso no episódio. Não é a história de um que preenche o episódio; todas elas preenchem o episódio igualmente".

(Eu suponho que também pode haver casos em que todas as três histórias-A iguais se concentram sobre o "principal protagonista", mas Rick e eu não conseguimos pensar em quaisquer exemplos específicos. Talvez um episódio de Família Soprano? Algo em que Tony está contrabalanceando uma história de casa com uma história de trabalho? De qualquer forma, uma história assim pode existir, mas eu acho que a maioria dos episódios A/A/A balanceia histórias-A sobre três personagens separados).

Isso frequentemente significa que as três histórias-A iguais tendem a ser menores do que as histórias-A que dividem o palco com histórias B e C, afinal de contas, o tempo do episódio deve ser dividido de forma mais uniforme. Em outras palavras, qualquer história-A em um episódio A/A/A  tem menos beats do que uma história-A no, digamos, NCIS: Los Angeles ou no The Closer, que geralmente são dominados por uma única história-A. Modern Family, embora uma comédia, é frequentemente citado como um programa com histórias A/A/A.

Em um tradicional episódio A/B/C, "você realmente se concentra na sua história-A", diz Rick. "Como aquela história-A vai ser? Ela vai preencher o episódio, você terá um montão de beats da história… e você trabalha as suas histórias B e C em torno da sua história-A, sustentando-as nela, conectando-as de alguma forma."

Ao lidar com programas A/A/A, Rick gosta de começar fazendo o brainstorm de histórias-A separadas para cada personagem principal, e então dando forma a elas independentemente, antes de combiná-las com as outras histórias.

"Men of a Certain Age é um bom exemplo", diz Rick, "porque desenvolvíamos histórias [independentes] para personagens específicos… então todos nós nos sentávamos na sala e Mike [Royce, o dirigente do programa] começava a atribuir tarefas. ‘O Episódio Quatro vai ser tal, e tal, e tal história."

Men of a Certain Age

"Men of a Certain Age", da TNT, frequentemente apresenta histórias igualmente contrabalanceadas seguindo cada um de seus personagens, Joe, Owen e Terry.

Em um episódio, por exemplo, as histórias de Rick incluíam Owen (Andre Braugher) vendendo carros com desconto, Terry (Scott Bakula) fingindo comprar uma casa, e Joe (Ray Romano) lidando com os medos de seu filho. O trabalho de Rick era tecer estas três histórias discrepantes em um roteiro único e coeso.

"Eu tento encarar isso como um problema de matemática", diz Rick, "garantindo que cada história tenha um número similar de beats, o mesmo alcance de história." Uma vez que cada história esteja formada, você pode organizar os diferentes beats em atos, colocando em cada ato um ou dois beats de uma história, um beat ou dois de outra etc. "[Isso me ajuda] a compreender como as histórias se relacionam entre si. É sempre uma surpresa divertida, porque você começa com três histórias independentes, e em seguida, descobre como elas se tocam, como se informam mutuamente, como uma história reverbera através da outra."

Conforme as diferentes histórias se misturam e se mesclam, tópicos emocionais comuns surgem. Com o episódio de Men of a Certain Age de Rick, ele percebeu que, conforme as histórias começaram a coexistir, um tema de ligação estava correndo por todas as três.

"Eu fui até o Mike Royce, e disse: "Todas essas três histórias são sobre personagens preocupados com a forma como eles são percebidos pelo mundo, e como eles veem a si mesmos em suas mentes", diz Rick. "Nós não desenvolvemos as histórias para refletir o tema… [mas] se você tiver sorte, e se você escreveu histórias sólidas, um tema vai começar a surgir."

Ao abordar primeiro a estrutura do seu episódio, deixando os temas borbulharem organicamente, você pode esquivar-se de escrever histórias desajeitadas, didáticas. As suas histórias-A separadas podem não se colar perfeitamente no início, mas conforme você as ajusta e as massageia, elas começam a se conectar tanto narrativamente quanto estruturalmente. No final das contas, você se encontrará com um episódio televisivo uniforme, apresentando três sólidas histórias-A.

De qualquer forma, Daniel – Eu espero que isso ajude… e obrigado pela pergunta. Continue lendo… (e perguntando)… e para o resto de vocês com dúvidas, mande-as [escritas em inglês] para chad@chadgervich.com.

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Boa escrita pra você hoje! =)

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4 Comentários

  1. Oi!Eu gostaria muito que você fizesse um post de como vender sua série de televisão,é que eu estou com muitas dúvidas em relação a isso! Valeu!

    Comentário por Lucas Alencar — 19/02/2012 @ 13:59

    • Oi, Lucas!

      Vender roteiros para a TV é basicamente igual a vender para o cinema, e tão difícil quanto, já que a oferta ultrapassa em muito a demanda. Nós já temos alguns posts sobre isso, mas se você quiser, me mande suas dúvidas, assim posso ver se tem algum texto que possa esclarecê-las.

      Um abração, Lucas!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/02/2012 @ 09:20

  2. Olá Valéria tudo bem? Lembrei bastante da estrutura do filme Magnólia. Porém o tipo de estrutura são vários “A”. Bem o filme é bem complexo e termina com “um absurdo”. Tem algum comentário sobre tal filme? Já assistiu? Abraços.

    Comentário por Alan Silva (@scizornl) — 23/02/2012 @ 09:30

    • Oi, Alan, como vai?

      Por aqui, tá tudo beleza. Olha, eu assisti o filme Magnólia quando ele saiu, em 1999, e para ser sincera, só me lembro de uma cena dele. Nem tenho mais ideia de que se tratava o filme, acho que meu cérebro não quis guardá-lo na memória, pelo jeito por um bom motivo. Mas é legal a gente fazer essas associações que você fez, analisando a teoria com base em filmes prontos, isso nos ajuda muito a lembrar da estrutura e a aprender com os erros e acertos dos outros.

      Um abração, Alan, um ótimo final de semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 25/02/2012 @ 10:09


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