Dicas de Roteiro

08/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 8)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é a antepenúltima parte desta série tirada do site Go Into The Story e escrita pelo roteirista Scott Myers:

A primeira versão

PARTE 8: A PRIMEIRA VERSÃO

Finalmente, chegamos à parte do processo de efetiva escrita da página. E agora que já fiz todo este trabalho de preparação de escrita, o resto do processo é bastante simples, pelo menos para descrever. Meu objetivo na primeira versão é botar o material da história para fora, colocá-la no papel.

Nos ‘velhos’ tempos, eu ficava totalmente comprometido em seguir em frente até o FADE OUT. Então, se eu topasse com uma cena ou cenas que não dessem certo, eu faria o melhor que pudesse, e então seguiria em frente. Eu usaria a segunda versão para consertar o roteiro. E normalmente eu constatava que, ao seguir em frente, eu descobriria elementos narrativos fundamentais que me informariam o que eu precisava fazer com as problemáticas cenas anteriores.

Nos últimos vários roteiros que escrevi, eu aproveitei para parar e trabalhar na cena problemática até me sentir satisfeito por ter resolvido o problema, mais ou menos.

Eu confesso isso com sentimentos mistos, porque eu jamais gostaria de dar qualquer pretexto aos aspirantes a roteirista para retardarem seus progressos no processo da primeira versão. Então deixe-me dizer apenas isto: Quando você escrever a sua primeira versão, mantenha este mantra de escrita em mente:

"Apenas termine a maldita coisa"

Na verdade, por que não imprimi-la e colá-la bem à vista de seu espaço de trabalho? Uma vez que você tenha escrito vários roteiros e tenha a confiança de saber que, não importa o quê, você vai terminar a versão, então você pode parar a sua escrita para resolver problemas. Mas até que você tenha chegado a esse ponto, esteja avisado: Aqueles que param o processo da primeira versão estão em perigo de perder o impulso e nunca terminar seu roteiro.

Outra pergunta que me fazem é a seguinte: quantas páginas por dia um escritor deve esperar escrever? Claro, isso tudo depende do escritor, então não há nenhuma resposta universalmente "correta". Uma cena média tem de uma-e-meia a duas páginas, então parece que o mínimo que você pode tentar é escrever uma cena / duas páginas na sessão de escrita de um dia. Eu viso 5 páginas por dia, o que significa que é possível completar uma primeira versão em um mês, supondo que você escreva todos os dias.

Mas e se você tem um emprego ‘real’ e só pode escrever nas suas horas de folga? Bem, mesmo se você só puder dedicar-se a uma página por dia, isso significa que você vai terminar a sua primeira versão em 4 meses.

Quando comecei a me dedicar a escrever roteiros, eu estava fazendo um ato de comédia em pé, viajando ida-e-volta do norte para o sul da Califórnia. Sendo trabalhador autônomo, eu organizei o meu horário de trabalho de forma que eu trabalhasse por duas ou três semanas e depois tirasse uma semana de folga – e durante essa semana, eu escrevia tanto quanto eu pudesse da versão. Devo dizer que eu realmente gostava, e ainda gosto, da pura intensidade desse tipo de escrita – e você pode realmente produzir páginas em abundância. Na verdade, depois que me mudei para Los Angeles, sempre que eu trabalhava em um roteiro de especulação por fora, eu ia até uma pequena hospedaria no Lago Arrowhead, reservando sempre o mesmo quarto – criatura de hábitos! – chegando lá sexta-feira ao meio-dia e partindo ao meio-dia de domingo. Em um dos roteiros de especulação, eu completei mais de 60 páginas de uma primeira versão em 48 horas. Armado com um esboço abrangente e sem distrações, sem desculpas, você pode realmente produzir páginas em abundância.

Um último conselho: uma vez que você digite FADE IN e termine a sua primeira versão, eu sugiro que você deixe o roteiro de lado por pelo menos uma semana; melhor ainda, duas semanas. Parte do motivo é que você empregou uma grande quantidade de energia e é hora de recarregar as suas baterias criativas, mas a parte mais importante é obter alguma distância daquilo que você escreveu. Se eu começo a reescrever imediatamente, acho que estou muito mais propenso a abordar o material com um olhar menos crítico. Com algum tempo e distância, eu posso ficar menos ligado à experiência de escrever as páginas, e mais imparcial – porque a reescrita é onde você quer corrigir os problemas do roteiro, e você não pode fazer isso se não está disposto a admitir que o roteiro tem problemas.

Mais sobre isso na próxima vez, quando falaremos sobre a segunda versão.

*****

O leitor Patrick Sweeney perguntou ao autor:

Você escreve sequencialmente do Fade In ao Fade Out, ou pula de uma cena a outra?

Resposta de Scott Myers:

Se já trabalhei a história de antemão, eu tendo a escrever sequencialmente, principalmente porque eu posso monitorar melhor o fluxo da narrativa, o ritmo etc. Entretanto, existem momentos em que pularei para uma cena à frente. Por exemplo, se eu estou emperrado em uma cena ou se tenho uma súbita inspiração sobre como abordar uma outra.

Se eu tiver optado por começar a escrever sem mapear de antemão a história toda, eu tendo a pular mais de uma para outra, uma abordagem mais instintiva.

Como eu digo, não há maneira certa de escrever. O que for preciso para fazer a história funcionar. Deste modo, sequencialmente, não-sequencialmente, qualquer que seja pode funcionar.

Num dos comentários antigos, o leitor Tom comentou:

Parece que as pessoas que realmente querem escrever, escrevem, sem desculpas. Eu acho que foi Ron Bass que costumava acordar às 3h da madrugada, com crianças em casa e um trabalho de tempo integral como advogado, só para escrever.

Resposta de Scott Myers (escrita em 13 de junho de 2008):

Eu já li várias entrevistas e artigos de Ron Bass que confirmam a sua observação, sobre como ele acordava de madrugada para escrever, enquanto trabalhava como um bem-sucedido advogado da área de entretenimento. Aqui está uma citação de uma entrevista com ele no The Guardian; eu não consigo encontrar o link, isso é apenas algo tirado de minhas anotações: “Eu já escrevi 103 roteiros em 18 anos, apesar de que inevitavelmente somente uma pequena porcentagem deles tenha sido feita. Eu escrevo de cinco a seis roteiros por ano, e posso pensar em apenas alguns outros poucos escritores que fazem isso.”

Essa entrevista foi há pelo menos 3 anos [N.T.: Hoje, já há uns 6 ou 7 anos], então você pode acrescentar pelo menos 15 roteiros ao total [N.T.: Mais uns 30 roteiros agora]. Bass executa isso com sua “equipe” que, de certa forma controversamente, ajuda-o a criar a história, a qual ele pega, escreve, e pela qual recebe o crédito exclusivo. Isso está descrito neste artigo da New Yorker, de janeiro de 2000.

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PALAVRAS CRIAM MUNDOS

Para complementar, eis um post curtinho do Scott Myers sobre o roteirista Ron Bass:

O roteirista Ron Bass, que tem sido chamado de "O Homem de Dois Bilhões de Dólares" porque os filmes que ele escreveu arrecadaram esse tanto de dinheiro nas bilheterias, surgiu em uma recente discussão [N.T.: A mesma traduzida acima]. Para aqueles de vocês que não sabem sobre Bass, ele trabalha com uma "equipe" de pesquisadores, assistentes e escritores com qualificações próprias para ajudar nos seus muitos projetos de roteiro (a média dele varia entre 6 a 7 roteiros por ano):

"Bass reuniu a sua equipe de desenvolvimento no final dos anos 80. Ela transformou ‘Ron Bass’ em uma máquina que se move com eficiência brutal de um projeto para o próximo. E isso levou a acusações de que Bass não é de modo algum um escritor, mas um empresário de outros escritores cujas ideias e opiniões ele recolhe, organiza e, em seguida, apresenta como se fosse o seu próprio trabalho. A primeira pessoa a se juntar a ele foi Jane Rusconi, ex-pesquisadora do Oliver Stone para JFK. Depois de Jane veio Mimi, e depois de Mimi veio Hannah; e logo havia oito, os membros da equipe em sua maioria mulheres. (Um engraçadinho de Hollywood apelidou o grupo de "Ronettes".)"

Para mais informações sobre Bass, aqui está um artigo do BFI, de março de 1999.

*****

Na edição da revista Veja de 14 de setembro de 2011 (edição 2234 – ano 44 – nº 37 – páginas 122 e 123) há uma matéria sobre o romancista James Patterson (“O autor fast-food – Como o americano James Patterson se tornou o homem que mais vende – e publica, e fatura – livros no mundo”), que faz a mesma coisa: Ele tem uns 6 ou 7 colaboradores que transformam os argumentos dele em livros, e cujos créditos autorais aparecem em letras miúdas no livro. Me parece que isso está ficando cada vez mais comum, grupos de escritores que servem a uma espécie de “grife” autoral. Como a quantidade de escritores que não encontram chance no mercado é muito grande, não é de se admirar que tantos se submetam a essas condições a fim de poderem pagar suas contas fazendo aquilo que gostam. É mais uma das facetas desta “indústria”: Ou seja, nem toda obra é realmente o reflexo do talento de (apenas) um autor.

Apesar disso tudo, boa escrita pra você hoje!

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