Dicas de Roteiro

07/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 7)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este é mais capítulo desta série em 10 partes escrita pelo roteirista Scott Myers, e tirada de seu site Go Into The Story:

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PARTE 7: DIÁRIO DE ROTEIRO

A última coisa que eu faço antes de digitar FADE IN é criar mais um arquivo do Word, que eu chamo de Diário de Roteiro.

Eu entro no diário para começar cada sessão de escrita. Eu o visito quando fico emperrado. Volto a ele quando eu topo com uma revelação da história. Dia após dia, eu uso o meu diário de roteiro para narrar a escrita da história.

No início de uma sessão de escrita, eu anoto a data e a hora no diário de roteiro, e então faço os meus dedos e o meu cérebro se soltarem digitando meus pensamentos sobre a cena que eu estou prestes a enfrentar. Eu lembro qual é o tipo de cena, quais personagens estão participando dela, qual é a agenda de cada um, quem está exercendo qual função da história naquela cena, como a cena se relaciona à trama global, qual é o objetivo central da cena, e assim por diante. Conforme eu faço isso, normalmente as falas de diálogo vêm à mente e eu as escreverei – deste modo, em essência, eu estou pré-elaborando a cena, e posso levar esse esboço para o meu arquivo de roteiro e usá-lo para escrever a cena presente.

Eu também uso o diário de roteiro para acompanhar a minha conexão emocional com a história. Por exemplo, eu posso estar preocupado se a cena que estou prestes a escrever vai funcionar ou não. Posso estar preocupado que um dos personagens não pareça muito certo. Se estou emperrado, eu uso o diário como um lugar para expressar os meus receios sobre a história; na verdade, se estou realmente emperrado, eu vou "pedir" aos personagens, bem ali no meu diário, para falarem comigo, me mostrarem o que eles querem ou precisam.

Agora, você pode pensar que eu sou louco – conversando com meus personagens, pedindo-lhes ajuda! Mas desde que eu comecei a usar um diário de roteiro, a minha experiência com os personagens de minhas histórias tornou-se muito mais… real – eu suponho que essa seja a melhor maneira de descrever isso.

A minha primeira experiência com isto foi quando eu estava escrevendo Snowbirds, onde algo especial aconteceu entre o uso daquele diário e a escrita do roteiro: de certa forma, um espaço sagrado, se você preferir, foi criado. Este "lugar" paralelo meio que estava dentro e fora da minha cabeça – Quero dizer, eu estaria pensando nisso, então parte da minha experiência era dentro da minha cabeça, mas eu sentiria o lugar externo ao meu lado, a cerca de trinta a sessenta centímetros de distância de mim. E neste ‘lugar’, eu encontraria meus personagens.

Abby, Rosa, Emerson, Truman, Bernice, Chuck, Irene, Ed, Sarah, e Lucky. Todos eles. Eles surgiram com cada vez mais clareza conforme eu me aprofundava no roteiro, de modo que, quando cheguei ao Ato II, eles estavam de certa forma sempre "presentes". Eles não invadiram os meus pensamentos, nem eu interferia com eles. Eles não estavam fazendo o que eu estava escrevendo ou imaginando, em vez disso eles mais ou menos apenas meio que cambaleavam ao redor, sem olhar para mim. Mas sempre que eu estava emperrado – e eu fiquei emperrado no Ato II em vários momentos críticos – eu começava a escrever no meu diário de roteiro, e eu me tornava ciente deles, simplesmente “lá” fora. E, de repente, um deles virava e olhava rapidamente para mim a meio caminho, ou se movia, e eu o "seguia". As duas reviravoltas mais críticas da história, que eu nunca poderia ter previsto na fase da escrita preparatória, ocorreram dessa forma – primeiro, seguindo o Ed, e outra vez seguindo a Abby.

O que estou dizendo é que os meus personagens me levaram mais fundo na minha história. Eles me mostraram o caminho. E o diário de roteiro foi uma parte crucial daquela experiência porque, eu acho, eu estava me abrindo para os meus personagens, criando um "diálogo" com eles naquelas páginas do diário.

E há outra coisa que é muito legal em relação a um diário de roteiro: quando termina o projeto, você tem este diário de todo o processo de escrita. Você pode voltar para ver e sentir os momentos efetivos onde você fez uma descoberta importante, onde você rompeu um bloqueio de história, onde seus personagens falaram com você.

Como tudo o mais nesta sucessão de posts, um diário de roteiro pode não funcionar para você. Todavia, eu lhe encorajo a experimentá-lo pelo menos uma vez. Acho que você ficará agradavelmente surpreendido.

E agora, depois de tudo isso, o nosso próximo post vai finalmente chegar ao processo de escrita da página, começando naturalmente com a primeira versão.

*****

Num dos comentários antigos, o autor escreveu:

Anos atrás [N.T.: Este comentário foi escrito em 11/06/2008], eu li uma entrevista com o grande dramaturgo August Wilson, e ele basicamente disse que não escrevia suas peças, seus personagens que escreviam. Na época, a minha experiência de escrita me levou a interpretar seus personagens “falando” como tendo que ser metafórico. Mas com o passar do tempo, conforme eu me permitia a confiar no processo de escrita, me permitia a liberdade de afastar-me do esboço, de “sentar-me” junto de meus personagens e observá-los, procurá-los, escutá-los, eles começaram a ganhar “vida” desta forma quase metafísica.

O Sol É Para Todos - 1962

Você nunca entende realmente uma pessoa até considerar as coisas do ponto de vista dela.

Achei genial esta técnica de diário de roteiro, vou colocá-la imediatamente em prática! ^_^

Boa escrita pra você hoje! =)

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4 Comentários

  1. Também vou tentar esse diário, vai que eu crie algo super legal um dia e tenho esse registro de trabalho. Lets Go!

    Comentário por Abareman — 07/02/2012 @ 10:42

    • Oi, Abareman!

      Eu também acho esse um registro valioso. Mesmo que ninguém mais leia além de você, já é ótimo para ver como evoluímos como escritores no decorrer dos anos. E, como registro, acho mais legal escrever à mão do que no Word, apesar de ser muito melhor para copiar e colar trechos de diálogos e descrições para o roteiro, se já fazemos o diário no computador. Mas eu adoro a palavra escrita à mão no papel, então eu tentei fazer isso ontem. Só que, como no últimos meses eu só tenho digitado, quando fui escrever à mão a minha letra saiu um garrancho só, e depois de uns 40 minutos, fiquei com uma cãimbra terrível!! Estou com a mão fora de forma, é mole? Tasca “ginástica” nela! Agora vai ter que escrever à caneta todo santo dia, pra aprender a não ser preguiçosa nem flácida! Rsrs! :mrgreen:

      Um abração, Abareman, obrigadão pela visita! =)
      Ah, e eu adorei o seu site, já está nos meus favoritos, foi lá que descobri que Bakuman vai ter terceira temporada em outubro de 2012! Eba!! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 08/02/2012 @ 11:04

  2. Interessante essa técnica de Diário de roteiro. Deve estimular a nossa mente a encontrar o caminho certo para cada personagem e para a história. Deve ser importante também nas horas de bloqueio. E, depois de concluído o roteiro, poderemos ver, analisar os nossos errros e acertos no processo de escrita.

    Belíssima série, Valéria.

    Abraços!!!!!!!

    Comentário por Paulo Henrique — 08/02/2012 @ 15:06

    • Oi, Paulo Henrique! =)

      Que bom que você está gostando da série, eu também acho muito bacana ver como os roteiristas profissionais trabalham, sempre estou aprendendo algo. O Scott Myers também lançou no site dele uma série chamada “Como Eles Escrevem”, onde cada post fala sobre o método de trabalho de um roteirista diferente. Eu vou postar um desses por mês, a partir do mês que vem, porque em fevereiro já prometi tanta coisa que tá faltando dia pra dar conta de tudo – quem mandou ser um mês tão curto, ano bissexto e tudo? :mrgreen:

      Obrigada pela visita e pelo apoio, Paulo, fico muito feliz mesmo que você esteja gostando! =)
      Um abração! ^^
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 09/02/2012 @ 09:00


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