Dicas de Roteiro

05/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 5)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
Tags: , ,

Esta é mais uma parte desta série tirada do site Go Into The Story, do roteirista Scott Myers:

minhavida

PARTE 5: ESCREVENDO O ENREDO

Esta é outra parte do processo que acontece enquanto eu estou fazendo o brainstorm, a pesquisa e desenvolvendo os personagens. Mais uma vez, eu apenas sigo os meus instintos – onde eu realmente sinta que deva ir hoje. Se eu sentir uma coceira de trabalhar no enredo, é isso o que farei. E uma pilha de fichas de 3×5 polegadas pode ser uma parte inestimável do processo de criação de enredos.

Eu vou para a minha lista do processo de brainstorm, que foi ampliada por cenas e momentos que surgem conforme estou gerando os personagens, e eu anoto o que acho que sejam situações, cenas ou dinâmicas interessantes – uma por ficha. Eu me empenho em uma análise crítica aqui, começando a separar o trigo do joio – obviamente, eu tenho que fazer isso, senão todo o ‘material’ de história que eu já produzi se traduziria em uma minissérie de 10 horas. Mas se eu estou na dúvida quanto a um ponto da história – dentro ou fora – eu o anoto e o permito entrar: Melhor descartá-lo mais tarde do que não considerá-lo de forma alguma.

Depois de eu ter escrito todos as situações, as cenas e as dinâmicas em fichas individuais, eu as divido em três pilhas: Ato I, Ato II e Ato III. Tendo escrito roteiros por quase 25 anos, eu tenho um sentido muito intuitivo de o que vai aonde. Basicamente, se parecer com algo que tem a ver com definir a história, isso vai para a primeira pilha. Se parecer com algo que tem a ver com a luta final, isso vai para a terceira pilha. E todo o resto vai para a segunda pilha.

Eu tomo um cuidado especial para ver se posso encontrar quatro importantes pontos de virada. Isso remonta a um conselho que eu recebi de um escritor veterano enquanto formava um piquete nos estúdios da 20th Century Fox durante a greve do WGA [Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos] em 1988 (eu usava aqueles eventos para interrogar os outros escritores sobre o ofício). Este velho colega me disse: “Você tem que saber quatro coisas antes de começar a escrever um roteiro. Qual é o começo? Qual é o fim do Ato Um? Qual é o fim do Ato Dois? E qual é o final? Se você sabe essas quatro coisas, pode escrever um roteiro. Se não sabe as respostas para essas quatro perguntas, você não tem nada.”

Eu acho que é um conselho muito sábio. Afinal de contas, esses são os quatro principais pontos de  virada de um roteiro. Uma vez que eu conheça as respostas daquelas quatro perguntas, isso não só me dá confiança em relação a para onde eu estou indo, como também pode me ajudar com o resto do processo de criar o enredo.

Então eu revejo as três pilhas de fichas, ordenando e reordenando as fichas. Eu lerei os acontecimentos da história para ter uma noção se um fluxo narrativo está começando a surgir. Se eu fiz o meu trabalho direito, se eu realmente fiz o brainstorm, se eu realmente pesquisei o mundo da história, se eu realmente me aprofundei nos meus personagens, então o processo de criação do enredo pode ser bem tranquilo. Eu presto uma atenção particular à transformação do Protagonista [supondo que a história tenha um], o que eu vejo como quatro movimentos: Desunião (Ato 1) – Desconstrução (Ato 2A) – Reconstrução (Ato 2B) – Unidade (Ato 3), pois isso sempre fornece uma espinha emocional para a história.

Todo paradigma de roteiro parece ter um certo número de "pontos de virada": A minha própria abordagem (Linha Narrativa) tem dez. Antes de seguir em frente, eu identifico aqueles dez eventos principais. Se eu sei que preciso ter um importante ponto de virada, mas ainda não criei os detalhes, então eu só escrevo “Alguma Coisa Acontece Aqui” em uma ficha, e incluo-a na pilha. Claro, eu tenho que fazer um brainstorm para tentar inventar uma ótima sequência para servir àquela função narrativa, talvez mais pesquisa ou passar tempo com os personagens, mas eventualmente eu tento descobrir aqueles dez pontos de virada.

Então eu gosto de pregar as fichas com tachinhas numa parede, assim eu posso ver o enredo se desdobrando da esquerda para a direita. Eu posso mudar as fichas de lugar, já que a história pode parecer diferente ao ser vista de uma forma linear. Quando eu me sinto confortável com o enredo, sei que estou pronto para ir para a próxima etapa – o esboço. E esse é o assunto do nosso próximo post.

*****

Nos comentários do post original, um leitor perguntou: “Referente aos 10 principais pontos de virada: Como você definiria um ponto de virada principal?”

A resposta de Scott Myers:

Essa é uma ótima pergunta. Sem dúvida, alguma coisa deve acontecer em cada cena, que altere o fluxo dos eventos narrativos. Mas eu não consideraria cada um desses eventos como sendo um Ponto de Virada Principal. Antes de se qualificar como um PVP, o evento deve fazer pelo menos duas coisas:

(1) Deve ser importante o suficiente para girar a Trama de uma forma significativa.

(2) O evento não deve ser apenas importante, ele deve alterar a Trama de um jeito específico. Por exemplo, a maioria dos filmes se desenvolve para o que podemos chamar de uma Luta Final, onde o Protagonista tem que superar o Grande Teste da história, a fim de atingir um objetivo. Muitas vezes esta luta é entre o Protagonista e uma Nêmese. Então, o que quer que aconteça, não deve somente testar o Protagonista e envolver a Nêmese na disputa, deve também resolver: O Protagonista ganha ou perde. Se fizer tudo isso, então parece se qualificar como um Ponto de Virada Principal, especificamente uma Luta Final.

Existem todos os tipos de variações de paradigmas de enredo e estruturas de roteiro. Eu tenho um que tenho usado e ensinado por uma década, e ele tem 10 Pontos Principais de Enredo. Embora eu não tenha desenvolvido-o com a abordagem da sequência em mente, ele simplesmente acontece de acomodar oito sequências muito bem.

Voltando à sua pergunta, mais uma vez, duas coisas: (1) O Evento tem de ser grande o suficiente para alterar o curso da narrativa de uma forma significativa; (2) tem de fornecer uma função narrativa que mova a Trama de um jeito específico.

Comentário do leitor Teddy Pasternak:

Uma coisa interessante em relação aos pontos de virada é que eles não têm que ser um grande evento na tela para causar um impacto maior. Por exemplo, em Se Meu Apartamento Falasse, Baxter vê o espelho quebrado e soma dois mais dois em relação ao Sheldrake e à Senhorita Kubelik. É muito sutil e feito quase sem palavras.

Às vezes, o ponto de virada é completamente oculto, como quando Andy Dufresne recebe o martelo de geólogo em Um Sonho de Liberdade. É maravilhosamente enganoso e compensa grandemente mais tarde no filme.

Billy Wilder disse: “Quanto mais sutil e elegantemente você esconder os seus pontos de virada, melhor você é como escritor.”

Resposta de Scott Myers:

Esse é um bom ponto. O evento em si não precisa necessariamente parecer grande, mas o impacto que ele tem sobre a Trama precisa ser um Ponto Principal de Enredo. O seu exemplo da revelação do espelho quebrado em Se Meu Apartamento Falasse é um ótimo. Eu o veria como a Parte 2 daquele PVP em particular, a primeira parte sendo quando a Senhorita Olsen conta a Kubelik sobre os muitos casos do Sheldrake, uma cena que se passa diretamente antes de Baxter ver o espelho compacto quebrado e juntar 2 + 2.

TheApartment_Mirror

Boa escrita pra você hoje! =)

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: