Dicas de Roteiro

02/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 2)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é outra parte da série escrita pelo roteirista Scott Myers e tirada de seu site, Go Into The Story:

Brain_Storm_by_alexiuss

PARTE 2: FAZENDO O BRAINSTORM

Logo que eu encontro um conceito de história que acho que possa virar um bom filme, eu crio um arquivo de Word no meu computador e começo a fazer brainstorm de ideias, colocando-as naquele arquivo. Eu não posso enfatizar o suficiente o quão importante é fazer brainstorm. Para começar, aqui é onde eu descubro se o meu conceito é, de fato, bom o suficiente – se as ideias para o enredo e os personagens saltam em minha imaginação, há uma boa chance de que eu tenha um conceito forte.

Além disso, quando eu faço brainstorm, eu começo a "ver" o filme. Cenas-chave surgem, personagens transformam-se em seres, eu ouço trechos de diálogo. É claro, tudo isso representa material de história em potencial, mas, mais do que isso, "ver" estes elementos estimula o meu entusiasmo… o que me conduz mais fundo no processo de brainstorm… o que me dá mais material de história. O que me deixa mais animado. E assim por diante.

Finalmente, e mais importante, se eu faço brainstorm o suficiente e as estrelas criativas se alinham, aí é onde eu descubro ouro, aqueles fantásticos detalhes do negócio da história que aparecem como que do nada, ideias e cenas surpreendentes, totalmente inesperadas. A chave para fazê-lo corretamente: nada de prejulgamento. Todas as ideias vão para o arquivo mestre do brainstorm. Após uma reflexão adicional, eu posso optar por jogá-las de lado – tudo bem. Mas qualquer imagem, cena, fala de diálogo, ação ou tema que eu tenha durante o brainstorm, entra no arquivo. Acho que este processo libera aquela parte especial da minha consciência para que aquelas maravilhosas pepitas de ouro de história possam se revelar.

Eu gasto dias, até semanas fazendo brainstorm (juntamente com a pesquisa, o nosso próximo assunto). O processo é muito parecido com nadar num mar de ideias, mas, novamente, este é o lugar onde a maioria do “material” da história surge, e, com muita frequência, o enredo e as subtramas começam a mostrar-se, também.

Muitos aspirantes a roteirista não gastam tempo suficiente fazendo brainstorm, sua impaciência levando a melhor sobre eles. Isso quase sempre volta para te morder o traseiro. Ou você vai ficar emperrado na escrita, pois não ‘encontra’ a sua história, ou a sua história vai ter pouco, ou nada de especial em si, porque você não fez brainstorm suficiente para o ouro vir à superfície.

Na próxima vez, veremos outra importante parte do processo de escrita de roteiros: a pesquisa.

[Originalmente postado em 06 de junho de 2008]

Nos comentários, um leitor definiu o sistema de busca Google Imagens como o melhor amigo de quem faz brainstorm.

Brainstorm

Scott Myers editou este texto (eu o imprimi há uns dois anos). Originalmente ele tinha mais três parágrafos. Como a continuação é interessante, vou acrescentar aqui o que ele apagou:

A propósito, durante este processo é imperativo que você carregue um gravador de bolso consigo para todo lado [N.T.: Isso de fato já está datado, com tantos celulares cheios de recursos, inclusive internet (sem falar nos tablets), gravadores de bolso ficaram de vez no passado.] e mantenha um bloco & caneta na sua mesinha de cabeceira – você nunca sabe quando a inspiração pode bater. E quando você tiver uma ideia no meio da noite, pelo amor de Deus – acorde e escreva-a! A chave para a sua história pode surgir de sua inconsciência no meio da noite.

O que me lembra de uma anedota. Um escritor acorda no meio da noite com a melhor ideia que já existiu para uma história. Tateando ao redor no escuro, ele finalmente consegue acender a luz, mexe em volta para encontrar uma caneta e papel, e então anota esta ideia das mais brilhantes. Satisfeito por que não irá esquecer este bebê de um milhão de dólares, ele volta a se acomodar na cama, e sonha com fama e fortuna. Na manhã seguinte, um sorriso espalhado por todo o seu rosto, seus dedos trêmulos catam a nota que ele escreveu durante a noite. Está escrito: “Rapaz encontra garota. Fim.”

OK, talvez nem toda ideia no meio da noite seja uma vencedora. Mas nunca se sabe. Então esteja preparado.

Nos comentários originais, o autor escreveu (e posteriormente também apagou):

Eu julgo que essa coisa – o momento em que a inspiração bate – seja um assunto verdadeiramente fascinante. E ela não tem que ser sobre escrita nem sobre algo tão significativo assim. Digo, alguém falou: “Hm, que tal pedras de estimação?” Isso é pensamento inspirado.

Lembra do filme Corretores do Amor? O personagem de Michael Keaton com um gravador? Sempre recitando aquelas “brilhantes” ideias nele? “E se você misturar maionese na lata, COM o atum?”

Sério, esses momentos “Ahá!” nunca deixam de me maravilhar.

Não apenas o momento de inspiração/ideia em si, mas o “surto de confiança” que o acompanha.

Eu não sei como isso funciona. Às vezes a ideia se iguala à confiança. Muitas vezes, não.

Esse é um dos motivos por que eu sigo as tendências de compra e venda em Hollywood, para ter algo contra o qual avaliar ideias.

Dito isto, no final das contas, é uma questão do escritor ter paixão por uma ideia e escrever o máximo dessa história.

Há muito tempo, quando Burg & Myers [N.T.: Andy Burg & Scott Myers, o autor e o seu parceiro de escrita] se encontraram com o “pessoal” do Tom Hanks (isso foi mais ou menos na época em que Tom ainda estava fazendo comédias como Meus Vizinhos São Um Terror), sua principal assessora de desenvolvimento disse que Tom não era nem um pouco como o tipo de comédia inculta que ele estava retratando nos filmes, ele tinha profundidade, estava interessado em um monte de ideias.

Ela continuou a descrever esta história pela qual ele estava fascinado – sobre um cara que cresceu no Sul dos EUA nos anos 1960, jogou futebol americano na Universidade do Alabama, foi lutar no Vietnã, jogou ping-pong na China, atravessou o país correndo, e daí por diante.

Eu saí daquela reunião, virei para o Andy, e disse: “Que diabos é aquilo tudo?”

Sim, eu tinha acabado de jogar fora o que iria tornar-se Forrest Gump.

Nós estudamos, tentamos analisar, descobrir os ângulos. Mas tanto a beleza quanto a maldição das histórias é que nós simplesmente não podemos quantificar seu valor. Nós encontramos uma ideia, e escolhemos escrevê-la ou não.

Uma coisa é certa: se não a escrevermos, ela jamais terá uma chance de ver a luz do dia.

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Boa escrita pra você hoje! =)

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4 Comentários

  1. Ótimo artigo, Valeria!

    Comentário por Inteligivel — 02/02/2012 @ 09:30

    • Obrigada, Leonardo, fico muito feliz que você esteja gostando! É sempre bom a gente ver como os outros trabalham, pra adaptarmos aquilo que está faltando na nossa rotina, não é verdade?

      Um abração! =)

      Comentário por valeriaolivetti — 03/02/2012 @ 11:42

  2. Nossa… Agora não me acho tão louco assim. Eu A-DO-RO ver cenas, trechos, diálogos e etc dos projetos que imagino. Digo projetos porque sempre procuro pensar em histórias que possam ser adaptadas para filmes, livros, quadrinhos e outras mídias – me falta um musical, quero muito escrever um, mas basicamente são todas séries televisivas.

    A propósito, Valéria, recebi um e-mail do site Scripped (uma boa dica de software para roteiros) sobre um concurso do site Storyboard TV http://storyboardtv.com/ inscrições até 26 de fevereiro. Se interessar a alguém…

    Comentário por Fernando — 03/02/2012 @ 23:26

    • Oi, Fernando! 😀

      Eu acho que esta qualidade visual mental é o que diferencia nós escritores dos humanos “normais”. 😆 :mrgreen: Sério! Eu já conheci gente que realmente não consegue visualizar mentalmente coisa alguma! Eu não sei, é como se a mente dessas pessoas fosse mais auditiva ou linear, não tanto visual e imaginativa (e que frequentemente viaja na maionese) quanto a nossa. E é por isso que muita gente depende demais de filmes e de programas de televisão para sair um pouco de sua realidade e respirar novos ares. Nossa responsabilidade é grande…!

      Ah, e eu gostei muito da dica do concurso, eu não conhecia esse, quem escreve em inglês ou já tiver o roteiro traduzido pode querer tentar, a inscrição é baratinha, só 20 dólares!

      Um grande abraço, Fernando, obrigadão pela visita e uma ótima semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 05/02/2012 @ 09:40


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