Dicas de Roteiro

01/02/2012

Scott Myers – Como Eu Escrevo Um Roteiro (Parte 1)

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
Tags: ,

Hoje começamos um novo mês e, como prometido, uma nova série. Estes textos foram escritos pelo roteirista Scott Myers para o seu site, Go Into The Story:

Escrevendo ideias

“Como você escreve um roteiro?” – Me perguntam muito isso.

Então aqui está: “A Abordagem de Como Escrever Um Roteiro, do Conceito ao Fade Out, do Não Tão Famoso Scott Myers – Uma Série em 10 Partes.”

PARTE 1: O CONCEITO DA HISTÓRIA

Tudo começa com o conceito. E, todos os dias, eu me incumbo de criar conceitos de história fortes e comercializáveis.

Como? Com a ajuda dos suspeitos habituais: artigos de jornais, notícias de rádio e programas de entrevistas, livros, a Internet. A certa altura, eu tive 25 assinaturas de revistas. Colunas de conselhos, obituários, Weekly World News, qualquer lugar que eu poderia pensar em procurar por algum item insólito que eu poderia transformar numa ideia de filme.

Com a ajuda dos suspeitos não tão habituais: o Guia de Cinema Halliwell [N.T.: Este guia foi descontinuado em 2008, mas existem guias de cinema de outros autores ainda sendo publicados nos EUA], que apresenta sinopses de uma linha de 25 mil filmes. Eu o li do começo ao fim pelo menos uma meia dúzia de vezes, procurando em suas páginas por ideias interessantes ou filmes que tivessem sido feitos no estrangeiro, mas não nos EUA. Eu pegaria uma ideia e alteraria o gênero dela, isto é, faria uma comédia de um drama, ou uma comédia de um suspense. Eu também alteraria o gênero, mudando personagens-chave de um homem para uma mulher, ou vice-versa. Outra coisa que eu faria é ler as Páginas Amarelas e compilar uma lista de empregos – o cara que esvazia fossas sépticas, construtor de guitarras, instrutor de direção de carros – na esperança de que um personagem ou uma história saltassem para a vida. Eu até criaria títulos de filmes tentando inspirar uma história: Dois deles me vêm à mente – ASSASSINATO FUTURO e BEIJANDO VAZIO.

Eu colecionava todas estas coisas e as colocava em arquivos, fossem arquivos de fato, os quais eu colocaria num conjunto de pastas Manila expansíveis, ou inseriria pensamentos e ideias em meu computador.

Pasta de Arquivo Manila Expansível

Antes da minha última mudança de residência, eu joguei fora todos os artigos, mas ainda me lembro de alguns deles. Como o obituário sobre o soldado britânico que ficou retido na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. Ele sentiu pena dos civis locais, que estavam destituídos e famintos. Percebendo aquela grande fábrica no centro da cidade, ele visitou-a com alguns homens que tinham trabalhado lá. Eles explicaram que, durante a guerra, a instalação tinha sido convertida em uma unidade de produção de jipes. Mas, antes da guerra, eles tinham construído carros – o que Hitler chamou de "carro do povo". Acontece que este britânico ajudou a ressuscitar aquela fábrica, e ele veio a ser conhecido como o "Salvador da Volkswagen."

A coisa é que eu sei que a maioria das ideias que eu crio não são dignas de serem transformadas em um filme. Mas isso não me detém, ao contrário, isso estimula o meu processo de criação de conceitos de história, porque eu calculo que tenho de criar muitas ideias para encontrar algumas ótimas.

As duas palavras mais importantes no processo de criação de conceitos de história são “E se?” Eu lembro de ter lido um artigo sobre o roteirista Jim Hart, que estava sentado à mesa do café da manhã com sua família, quando um de seus filhos de repente perguntou: “E se Peter Pan crescesse?” Essa foi a gênese do filme Hook.

ATUALIZAÇÃO: É claro que qualquer pessoa que tenha frequentado este blog por algum tempo sabe sobre a série mensal que publico todo mês de abril:

Uma Ideia de História A Cada Dia, Por Um Mês (2010)

Uma Ideia de História A Cada Dia, Por Um Mês (2011)

Essas derivam de artigos que eu encontro no jornal, online, em qualquer lugar.

Você pode encontrar conceitos de história em todos os lugares. Apenas tem que manter seus olhos abertos. E parte de seu cérebro constantemente consciente deles como possíveis conceitos de filmes.

Na parte 2 desta série, iremos olhar o processo de fazer brainstorm, um aspecto extremamente importante do processo de escrita de roteiros.

[Originalmente postado em 05 de junho de 2008]

Calvin & Haroldo - trabalho de casa

Boa escrita pra você hoje! =D

Anúncios

6 Comentários

  1. Descobri este blog por acaso, e a duas semanas ele
    faz parte da minha prioridade de leitura diária na internet.
    Parabéns pelo conteúdo fantástico!
    Acredito que todos que escrevem estão sempre com as “antenas”
    ligadas captando acontecimentos e histórias a sua volta, e agente
    sempre se pega pensando: “Meu personagem falaria/faria isso.”
    Depois de escrever algumas peças teatrais na escola, estou
    começando a escrever um sitcom e o Dicas de Roteiro tem tirado muitas
    das minhas dúvidas.
    Ah, e assim como o Calvin tem dias que a tão almejada inspiração não
    vem! E é nessas situações que temos que “espremer” as idéias!

    Comentário por Gabriel — 01/02/2012 @ 12:42

    • Oi, Gabriel, seja bem-vindo!

      Muito obrigada!! Que bom saber que você é nosso companheiro diário nesta jornada! Fico feliz que o blog esteja ajudando com a sua série e tirando as suas dúvidas. 🙂

      De fato, dizem que escritor nunca tira férias, onde ele estiver estará alerta para qualquer ideia, personagem ou diálogo que surja e que ele possa “pegar emprestado” para a sua história. Por isso temos que anotar tudo o que nos chama a atenção, até o que possa parecer meio bobagem no momento, pois aquilo pode servir de inspiração na hora em que, como você disse, temos que “espremer” as ideias! :mrgreen:

      Um abração, Gabriel, e obrigada pela visita e pela força! Muito sucesso pra sua sitcom! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/02/2012 @ 12:05

  2. Espetacular esse texto, Valéria!!!!!

    Eu também, quando encontro qualquer coisa que me interesse, que eu ache que pode virar uma idéia interessante para um filme, eu arquivo. Creio que isso deva ser algo inerente a todos os roteiristas, escritores. Vivemos a procura de grandes histórias. As vezes encontramos.

    Beijos!!!!!

    Comentário por Paulo Henrique — 01/02/2012 @ 13:30

    • Oi, Paulo Henrique! 😀

      Quando comecei a escrever eu achava que só eu era compulsiva assim, depois que vi que a maioria dos escritores tem esse mesmo “defeito”, eu relaxei. Rsrs! :mrgreen: Às vezes eu compro mais revistas e livros do que tenho tempo para ler, mas sei que algum dia servirão de base para alguma pesquisa ou mesmo uma história/ personagem interessante. O importante é a gente ficar sempre de olho vivo, porque eu acho que nem sempre encontramos uma boa ideia, às vezes uma boa ideia encontra a gente! Aí precisamos é ficar alertas para reconhecê-la nesta hora.

      Um abração, Paulo, obrigada pela visita, e um excelente final de semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/02/2012 @ 12:12

  3. Oi Valéria…

    …a série parece ter potencial, jah esperando pela décima parte… rsrsrs

    Abraços… e bom restinho de semana!!!

    Comentário por ValdemarEidam — 02/02/2012 @ 02:49

    • Oi, Valdemar! 😀

      Eu também sou assim, já fico ansiosa pelo final! Rsrs! :mrgreen:

      É sempre bom a gente ver como os outros escritores trabalham, não para mudarmos o nosso estilo, mas para ver se tem algo que pode contribuir para a nossa rotina de escrita. Afinal de contas, às vezes uma pequenina mudança faz maravilhas em facilitar a nossa vida, não é verdade?

      Um abraço grande, Valdemar, obrigada pela visita, e um excelente fim de semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/02/2012 @ 12:18


RSS feed for comments on this post.

%d blogueiros gostam disto: