Dicas de Roteiro

26/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 5

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é a penúltima parte desta série escrita pelo roteirista Dan Harmon, e originalmente publicada no site Channel 101 Wiki:

Tênis Converse

Estrutura de História 5: Como a TV é Diferente

A televisão realmente não é diferente, exceto em um sentido muito prático:

O trabalho de um filme de longa-metragem é te mandar para fora do cinema em euforia, em 90 minutos. O trabalho da TV é manter você colado à televisão por toda a sua vida.

Isto não implica fazer histórias menos circulares (os círculos de TV são tão circulares que às vezes são irritantemente previsíveis). Significa apenas que o foco da etapa (8) é menos agitar-as-coisas e mais botar-as-coisas-de-volta-aonde-começaram.

Os filmes podem se dar ao luxo de explodir a Estrela da Morte no final. Em uma versão-sitcom de Star Wars, todavia, o protagonista seria um recepcionista trabalhando no hangar do quartel general Rebelde. Em uma série dramática, ele seria um piloto de X-Wing constantemente fazendo incursões sobre a Estrela da Morte. Mas note que, tanto na versão de sitcom quanto na versão dramática televisiva de Star Wars, a Estrela da Morte continua. Senão, o programa terminaria.

O episódio piloto de um programa de TV geralmente conta a história de uma pessoa entrando em uma situação nova. Emprego novo, casamento novo, divórcio, acabou de sair da faculdade, adotou uma pessoa negra etc. Eu sou muito ruim de exemplos, porque a única TV que assisto é o programa do qual o meu amigo participa, "Happy Family". No piloto desse programa, marido e esposa baby boomers percebem, pela primeira vez, que não importa quão velhos os seus filhos fiquem, eles nunca deixam de ser seus filhos. A situação "nova" pode ser simples assim, uma percepção, um tema, a coisa sobre a qual é o seu programa.

Em um âmbito mais amplo, um piloto de TV está nos dando (1), (2) e (3), e então, incentivando-nos a sintonizar e assistir (4) pelo resto do tempo. Mas isso é ver a exibição inteira do programa como uma única história. Dentro do âmbito de um episódio individual, piloto ou não, você ainda tem que percorrer um círculo completo:

  1. Eu
  2. noto um pequeno problema,
  3. e tomo uma decisão importante.
  4. Isso muda as coisas
  5. para alguma satisfação, mas
  6. há consequências
  7. que devem ser desfeitas,
  8. e eu devo admitir a inutilidade da mudança.

Desanimador? Sim, mas a alegria da TV está no momento. A TV não está vendendo revolução, está vendendo uma substituição higiênica e relacionável ​​para a sua própria humanidade imunda e invendável. As histórias estão só matando o tempo enquanto as vozes e os rostos se imprimem em seu cérebro através da repetição, e os comerciais fazem o seu trabalho duro, duro.

Mas note como, sendo necessário prender a nossa atenção, eles têm que fazer isso com essa estrutura circular. Se nós não obtemos esse círculo, vamos virar para o próximo canal.

Os personagens devem começar na situação normal, descer para uma nova situação, adaptar-se a ela, tornar-se inatos a ela, pagar o preço e então migrar de volta ao básico, tendo "mudado".

O truque que a TV desempenha é que ela exclui qualquer verdade significativa e, portanto, potencialmente subversiva para a televisão, com a eterna "verdade" básica de que a mudança é desnecessária. "O que você aprendeu hoje, Beaver?" Bem, basicamente, Pai, eu aprendi a nunca fazer nada. "Bom menino."

Não há nada de sinistro nesta intenção, a intenção é apenas para poupar dinheiro em cenários e manter os roteiros relativamente modulares. Você é quem queria uma sociedade capitalista. Bem-vindo às técnicas de narração de histórias por dinheiro, com redução de gastos e maximização de lucros.

É aí que entra o Channel 101. Nós não estamos tão sobrecarregados financeiramente. Nós somos o próximo estágio na evolução do entretenimento.

televisão (1)

Boa escrita pra você hoje! ~O-O~

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25/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4C

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:00
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Aqui está o final da quarta parte desta série com a fórmula de escrita criada pelo roteirista Dan Harmon, e tirada do site Channel 101 Wiki.

NOTA:spoilers dos filmes O MÁGICO DE OZ, DURO DE MATAR, ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, e MATRIX.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

7 – “Retorna.” – TRAZENDO-O PARA CASA

Para alguns personagens, isso é tão fácil quanto dar um abraço de despedida no espantalho e acordar. Para outros, este é o lugar onde a equipe de extração finalmente aparece e tira-os dali – o que Campbell chama de "Resgate de Dentro". Em uma anedota sobre ter que mudar um pneu furado na chuva, isto poderia ser o personagem voltando para seu carro.

Para outros, não é tão fácil, razão pela qual Campbell também fala sobre "O Voo Mágico".

Os habitantes das profundezas não podem ter pessoas passeando do lado de fora do porão mais do que as pessoas do andar de cima queriam que você descesse lá em primeiro lugar. Os nativos do mundo consciente e do mundo inconsciente justificam suas ações como quiserem, mas no esquema maior, o objetivo deles é manter os dois mundos separados, o que inclui evitar que as pessoas vejam um deles e vivam para contar sobre isso.

Este é um ótimo lugar para uma perseguição de carros. Ou, em uma história de amor, tendo percebido o que é importante, o herói sai intempestivamente de seu apartamento para a calçada. O avião de sua amada parte para a Antártica em DEZ MINUTOS! John McClane, que na etapa (1) tinha medo de voar, agora enrosca uma mangueira de incêndio ao redor de sua cintura e salta de um edifício explodindo, e então atira numa janela gigante para que ele possa atravessá-la chutando-a com seus pés sangrentos.

Estranhamente, ele vai logo encontrar-se de novo na mesma sala onde a festa de Natal estava sendo realizada.

8 – “Muda.” – SENHOR DE DOIS MUNDOS

Em um filme de ação, você tem um confronto garantido aqui. Em um drama de tribunal, aqui vem o interrogatório perturbador, enfurecido, que acaba com o assassino numa confissão chorosa. Em uma história de amor, o homem atravessa a pista, para o avião que está taxiando, sobe a bordo e diz à sua amada:

"Quando te conheci, eu pensei que você fosse perfeita. E então eu me acostumei a você ser perfeita, e tudo estava perfeito, mas depois eu descobri que você não era perfeita, e nós terminamos, e então eu percebi, eu também não sou perfeito. Ninguém é perfeito, e eu não quero uma pessoa perfeita, eu só quero você. Vamos morar juntos. Eu dormirei no lugar molhado. Você pode manter o seu gato, eu vou tomar remédio de alergia. E quando você estiver com cem anos de idade, eu vou limpar a merda de sua fralda."

E então, é claro, a velha e/ou o negro grandão sentado ao lado do objeto da paixão do protagonista olha para ela, e diz: "Bem, o que você está esperando? Corra para ele!"

Por que essa estranha reação de mulheres velhas e homens negros grandões? Porque o protagonista, em qualquer escala que seja, agora é um ninja-transformador-de-mundo. Ele esteve no lugar estranho, adaptou-se a ele, descobriu o verdadeiro poder e agora ele está de volta aonde começou, mudado para sempre e para sempre capaz de criar mudança. Em uma história de amor, ele é capaz de amar. Em uma história de Kung Fu, ele é capaz de Kung todo o Fu. Em um filme de terror, agora ele pode assassinar o assassino.

Um truque realmente legal é lembrar ao público que o motivo do protagonista ser capaz de tal comportamento é por causa do que aconteceu lá em baixo. Quando em dúvida, olhe para o lado oposto do círculo. Surpresa, surpresa, o oposto de (8) é (4), a estrada de provas, onde o herói estava botando suas coisas em ordem. Lembra-se daquele isqueiro zippo que o mendigo lhe deu? Ele bloqueou a bala! Isso é banal, mas é banal porque já funcionou mil vezes. Agarre-o, desconstrua-o, e crie a sua própria versão. Você não pareceu ter um problema com essa fórmula, quando o cara gago (4) recitou um monólogo perfeito (8) em Shakespeare Apaixonado. É tudo a mesma coisa. Lembra-se daquela tribo de índios loucos, de alívio cômico, com quem fizemos amizade (4) ao chutar o seu maior lutador nas bolas? É agora, no (8), quando estamos quase vencidos pelo bandido, que aqueles filhos da puta loucos cavalgam pela colina e nos salvam. Por que isto não é Deus Ex Machina? Porque nós fizemos por merecer (4).

Todo mundo pensa que Matrix foi um sucesso por causa de novos efeitos especiais americanos combinados com o velho estilo de Hong Kong pirateado. Essas coisas não atrapalharam, mas, para um exemplo do quanto elas valem por si sós, assista a porra da sequência. Admita, ela é uma porcaria. Os escritores de Matrix dizem em entrevistas que eles organizaram esse longa a partir de elementos de seus filmes favoritos. Eles tentaram fazer o filme que sempre quiseram assistir. Ta-rá. Eles se renderam aos seus instintos, ao que eles sabiam que funcionava, e, como resultado, eles fizeram o que os seres humanos fazem instintivamente: Contaram uma história instintivamente satisfatória sobre um cara comum (1) que recebe um telefonema estranho (2) e, ao segui-lo, percebe que a realidade era uma ilusão (3). Ele aprende como as coisas funcionam (4), conversa com o oráculo (5), perde seu mentor (6), volta (7) e salva a porra do dia (8). Não é perfeito, especialmente no terceiro ato, mas tente identificar as etapas em Matrix Reloaded. Arranje uma régua. E uma xícara de café. Vai ser uma ralação longa e árdua.

Em Duro de Matar, tendo matado todos os terroristas – a cada vez largando mais e mais bagagem neurótica, McClane está agora desarmado, quase nu, frente à sua esposa. Há apenas um problema. Hans Gruber, a versão-sombra do inconsciente de John ("Hans" é "John" em alemão?), também está aqui, tendo "seguido-o" até o mundo comum, como as sombras têm propensão a fazer. Ele tem uma arma apontada para a cabeça dela. E ele tem mais um capanga – você sabe, o cara que interpretou "Nick, o Gostosão" em A Última Festa de Solteiro (quem teria imaginado que ele duraria mais tempo?).

Às vezes o Chefe Hogg não para na fronteira do condado. Às vezes o alien entra escondido a bordo de sua cápsula de fuga, ou o T-Rex começa a andar pelos quintais das pessoas. Isto é especialmente passível de acontecer em histórias de vida ou morte mais orientadas para a ação, onde a travessia do limiar na volta foi bruta e descuidada. As coisas podem ficar bagunçadas. Você pode arrastar um pouco mais de caos através do portal do que você queria. Mundos podem colidir. Como Ulysses, voltando para casa para encontrar 50 caras tentando transar com sua esposa, é hora de limpar a casa.

Felizmente, o verdadeiro John passou o tempo de sua história aprendendo novos comportamentos, enquanto o John-Sombra passou seu tempo tentando segurar o seu ego que estava desmoronando. O verdadeiro John aprendeu, em particular, que às vezes o seu melhor ataque é a rendição. Ele virou a esquina com sua submetralhadora de outro mundo, e foi ordenado a largá-la. Agora o John-Sombra, em (8) acha que tem o que era tão desesperadamente necessário para ter o John Real em (1): Controle. Ele tem a esposa de John como uma refém relutante. E, claro, como um bom vilão, Hans nunca sonharia em jogar fora a oportunidade de tripudiar, de modo que ele aponta sua arma para o John.

Mas a submetralhadora de John estava vazia. Ele tinha colocado suas duas últimas balas do mundo inconsciente de volta na sua velha e consciente pistola-pênis de Nova York, a que ele tinha no avião, a que agora está presa em suas costas com… (ruborize) fita adesiva de Natal. Ok, olhe, é um roteiro muito bom até esse ponto. De qualquer forma, John puxa a arma escondida, atira no John-Sombra no seu intransigente coração negro alemão, atira no Nick, o Gostosão na testa, e, no momento em que sua esposa e Hans quase despencam juntos através da janela quebrada, John é capaz de libertar seu amor de uma vez por todas, liberando a fivela do Rolex dado a ela por um yuppy drogado de Los Angeles. O relógio, e Hans, tombam pelo ar, e o ator que interpreta o diretor em Clube dos Cinco diz: "Eu espero que esse não seja um refém"; e assim termina o maior filme de ação do século 20.

Bem, não exatamente. O motorista negro cheio de conversa fiada, adequado, submisso, de alívio cômico, tem que nocautear o hacker de computador negro hiper-inteligente, impróprio, arrogante, tornando a escravidão mais heroica do que o terrorismo, e restabelecendo a segurança para a sociedade caucasiana. Além disso, o policial de Los Angeles, assassino de criança e com medo de usar a arma, tem que atirar para matar o recém-ressuscitado terrorista Louro, reacostumando-se com o fato de que, às vezes, matar o tipo certo de pessoa pode ser um ato de afirmação da vida.

Enquanto isso, o nosso herói trocador de pneu liga seu carro e vai para casa, com uma história para contar à sua esposa.

Uma boa história? Digna de TV ou filmes? Claro que não. Mas a história da troca de pneus usa os mínimos mais básicos. Contraste-a com uma em que, depois do homem dirigir seu carro para o acostamento da estrada, um lobisomem abre a porta e o come. Fim. Agora você tem uma sequência com um lobisomem e uma sem. Qual conta uma história? Não importa o quão legal você ache que lobisomens sejam, você sabe a resposta instintivamente.

Você sabe tudo isso instintivamente. Você é um contador de histórias. Você nasceu assim.

Lobisomem

Boa escrita pra você hoje! (.V.)

22/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4B

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:30
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Aqui está a continuação da quarta parte da estrutura de escrita formulada pelo roteirista Dan Harmon, tirada do site Channel 101 Wiki:

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

5 – “Encontra.” – Encontro com a Deusa

A função da estrada de provas é preparar o seu protagonista para este encontro. Como uma única célula espermatozoide chegando ao óvulo, o seu herói-em-formação acabou de encontrar o que ele estava procurando, mesmo que não seja bem o que ele sabia que estava procurando.

Eu estou usando a frase "encontro com a deusa" porque o Joseph Campbell pensou sobre essas coisas por mais tempo e mais a fundo do que eu. Syd Field chama isso de "o ponto central". Fácil de lembrar. Robert McKee provavelmente o chama de "nexo de inclinação", ou algo assim. Se não me engano, os afro-americanos o chamam de Kwanza.

Não importa como você o chame, este é um ponto de articulação muito, muito especial. Se você olhar para o círculo, verá que eu coloquei a deusa embaixo, bem no centro. Imagine que o seu protagonista começou no topo e tombou por todo o caminho até aqui. Este é o lugar onde a tendência natural do universo de puxar o seu protagonista para baixo tem feito seu trabalho, e por uma quantidade X de tempo, nós experimentamos leveza. Qualquer coisa vai para baixo aqui. Este é um momento de grandes revelações, e de vulnerabilidade total. Se você estiver escrevendo um suspense com um enredo cheio de reviravoltas, faça uma reviravolta aqui, e das maiores.

Reviravolta ou não, este também é outro limiar, em que tudo para além deste ponto terá um sentido diferente (ou seja, PARA CIMA), mas note que o indivíduo não é arrastado, chutando e gritando através dessas cortinas. Ele paira aqui. Ele fará uma escolha, e então ascenderá.

Imagine que você está em pé num cais (1). Você vê um brilho dentro d’água e se pergunta o que é (2). Ao se inclinar para ver, você cai do cais (3). Você afunda cada vez mais (4) até chegar ao chão do lago e ver o que estava captando os raios do sol.

(5) É um crânio humano.
(5) É um colar.
(5) É uma pequenina nave espacial antiga.
(5) É uma moeda. Patrimônio líquido: 25 centavos.

Poderia ser qualquer coisa, boa ou ruim. Muitas vezes, é uma dose saudável de ambas. Em uma história de detetive durão, ou numa aventura de James Bond, este poderia ser um "encontro" mais literal e íntimo, se você entende o que quero dizer, com uma poderosa e misteriosa personagem do sexo feminino. Este é um ótimo momento para o sexo, ou para dar uns amassos na garota gostosa, especialmente se o seu protagonista kung-fuzou todo mundo que ele encontrou na última meia hora (ou, no caso do Channel 101, nos últimos 60 segundos).

Mas a deusa não tem que ser uma femme fatale ou uma donzela angelical. Em um jogo totalmente masculino ou totalmente feminino que se realiza em torno de uma mesa de pôquer, a "deusa" poderia ser a confissão de um personagem de que ele perdeu seu emprego. A deusa pode ser um gesto, uma ideia, uma arma, um diamante, um destino, ou apenas um momento de liberdade daquele monstro que não vai parar de perseguir você.

Em Duro de Matar, John McClane, depois de ter corrido sobre vidro quebrado, está sentado em um banheiro, lavando seus pés sangrentos na pia. É nesse momento que ele finalmente percebe a verdadeira extensão de seu amor por sua esposa, e o que ele está fazendo de errado em seu casamento. Ele (1) tem sido teimoso demais (2). Ele usa seu walkie-talkie, adquirido na etapa (4), para mandar uma mensagem para sua esposa através de seu interlocutor benevolente, bem casado e que odeia tiros: "Ela já me ouviu dizer ‘eu te amo’ umas mil vezes… mas nunca me ouviu dizer que sinto muito."

Não é suficiente picar e retalhar para abrir seu caminho através de símbolo após símbolo neurótico. O picar e o retalhar era um processo, esse processo terminou, mesmo que apenas temporariamente, e chegamos a uma segunda grande reviravolta.

A definição de "grande", é claro, tem relação com o diâmetro do seu círculo. O nosso motorista encalhado e encharcado de chuva acabou de esvaziar o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada. Ele vê o estepe e solta um som muito leve e muito rápido de alívio. Isto é tudo. Esta é uma história sobre um homem mudando um pneu. Essa é toda a deusa de que precisamos.

Você deve ter notado que, assim como (3), a travessia do limiar, é o oposto de (7), o retorno, (5), o encontro com a deusa, é o oposto de (1), a zona de conforto do protagonista. Pense em (1) como sendo os braços da mãe, por mais disfuncional que ela possa ser. (5) é uma nova forma de mãe, uma versão inconsciente, e frequentemente há a tentação de ficar bem aqui. Como na casa daquele elfo em O Senhor dos Anéis.

Isto é muito, muito importante. O movimento para além de (5) torna-se a vontade do protagonista. A água onde as sereias cantavam a sua canção sedutora estava repleta de navios naufragados. A deusa pode ser a ruína, ou a pacificação permanente, dos não-heróis. Está tudo muito bem e tranquilo para o James Bond mergulhar seu biscoito, mas ele não pode ficar por aqui o dia todo. A Electropussy poderia matá-lo com seu batom lança-chamas, ou algo assim.

Em (1), nós estávamos nos braços da mãe, mas fomos removidos por (2), o puxão do pai. A necessidade, a saudade, a falta de conclusão, seja vinda de dentro ou de fora, chamou-nos para (3), e nós fomos puxados através de um limiar, para o desconhecido. Fomos, então, transformados (4) em (5), o oposto de um filhinho da mamãe: um mulherengo.

Para reiterar, isto não se aplica apenas a histórias sobre homens fazendo sexo. Se esta é a história de uma pobre menina (1) que sonhava em ser rica (2) e foi adotada por um milionário (3), depois de ter se acostumado ao seu novo estilo de vida, (4), ela pode agora ser um tanto afetada (5). Mostre isso com um momento definidor. Este pode ser um bom ponto para ela passar pelo orfanato em sua limusine.

6 – “Pega.” – CONHEÇA SEU CRIADOR

Como você poderia esperar de um modelo circular como este, há um monte de simetria acontecendo, e na viagem de volta para cima, nós estaremos fazendo um monte de referências à viagem para baixo.

Assim como (1) e (5) são momentos muito maternos, femininos e vulneráveis, (2) e (6) são momentos muito paternos, masculinos e ativos, independentemente do sexo do protagonista.

Pense no que realmente aconteceu em (2). As coisas estavam "bem" em (1), mas elas simplesmente não eram boas o suficiente. É assim que entramos nessa confusão toda, para começo de conversa.

Em Academia de Gênios (eu estou realmente me aproveitando dos clássicos, agora), o garoto desajeitado (1) é recrutado por um programa especial da faculdade que está trabalhando em um poderoso laser (2). Ele se torna o companheiro de quarto de um gênio rebelde, que vai se formar em como-festejaaarr (3). O Homem-festa ensina o Desajeitado como relaxar, enquanto o Desajeitado ensina o Homem-festa como se concentrar (4) e, como resultado, eles são capazes de aperfeiçoar seu laser (5) e obter os seus prêmios de prestígio. Mas agora há um segundo e mais honesto chamado à aventura, vindo de um super-nerd que vive nos túneis subterrâneos da universidade: Para quê serve o laser? Por que eles tinham que construí-lo com as especificações determinadas? O que aquele assustador professor que odeia pipoca tem em mente? Claro, eles poderiam ficar aqui nesta pizzaria, mamando na teta de sua própria prosperidade. Mas, novamente, eles não chegaram tão longe sendo irresponsáveis. É hora de começar a voltar ao mundo real e fazer as coisas direito, ao estilo Gênio.

Há consequências grandes e importantes dessa decisão. De fato, em um bom filme de ação, esse é o momento onde o nosso cara simplesmente tem a sua bunda chutada. Robocop, armado com a confissão de Clarence Boddiker (5), marcha para o escritório de Dick Jones, CEO da empresa que o construiu. Ele tenta prender o homem que é dono dele, só para descobrir que não consegue. É contra a sua programação. O Alex Murphy amável e humano (2) poderia ter sido capaz de conseguir isso, mas o Robocop à prova de balas, feito de fábrica, não pode. Irônico, considerando que o desejo inconsciente de Murphy (2) era ser um herói à prova de balas ("TJ Laser"). Entre o seu irmão puramente mecânico, o ED-209, e os seus irmãos puramente humanos, a polícia mal informada, sendo incitada a atacá-lo, Robocop mal consegue sair do castelo do pai em um único pedaço.

Antes que você pense que momentos como este estão reservados para filmes de ação, vamos dar uma olhada numa cena quase idêntica, que se passa em Rede de Intrigas, que pode ser o filme mais bem escrito já feito. Nesta fase da história, Howard Beale, âncora de notícias que virou profeta, é conduzido a uma sala de diretoria, onde ele fica cara a cara com o seu criador: o CEO da empresa que é dona da rede, Arthur Jensen (interpretado por Ned Beatty). Num dos monólogos mais bem escritos e interpretados do século 20, Jensen revela a Beale que o capitalismo é Deus, Deus é o capitalismo e, por ter fodido com Deus, Beale agora deve sofrer as consequências.

Nada de robôs, nada de explosões, mesma estrutura.

Isso porque esta metade do círculo tem seu próprio caminho de testes – a estrada de volta para cima. A estrada para baixo prepara você para a cama da deusa, e a estrada para cima lhe prepara para reingressar no mundo comum.

Tendo ficado em paz (5) em relação ao seu casamento, John McClane agora se pergunta por que Hans Gruber, o terrorista-chefe, estava tão desesperado por aqueles detonadores. Ele volta para o telhado e descobre que toda a porção superior do arranha-céu está armada para explodir. Com esta percepção, vem a consequência (6): O gigante terrorista loiro – o ED-209 para o Robocop de McClane – cai sobre ele e os dois agora vão lutar até a morte. Liquidar o Lourinho é apenas o primeiro passo. Os testes nesta estrada surgem rápidos e furiosos. No momento em que o protagonista chega ao (7), os fragmentos remanescentes do seu ego terão desaparecido, e ele terá realizado o que Campbell chama de "Sintonia com o Pai" – O pai sendo este universo totalmente não-pessoal e sem raiva, geralmente incorporado, nos filmes de ação, pelo bandido (o qual muitas vezes ouvimos dizer, nesses filmes mais maliciosos: "Nada pessoal. Apenas negócios.")

Em uma história de amor, esta é a parte onde eles terminam. Agora vem a barba por fazer, e os pratos sujos, e os tons fechados. A depressão profunda, profunda e suicida. A relação entediante com um(a) parceiro(a) supostamente melhor. E, finalmente, a percepção de que nada nunca foi mais importante do que ele ou ela.

Ao perceber que algo é importante, realmente importante, a ponto de ser mais importante do que VOCÊ, você ganha controle total sobre o seu destino. Na primeira metade do círculo, você estava reagindo às forças do universo, se adaptando, mudando, buscando. Agora você TORNOU-SE o universo. Você tornou-se aquele que faz as coisas acontecerem. Você tornou-se um Deus vivo.

Dependendo do escopo de sua história, um "Deus vivo" pode ser um cara que consegue terminar de trocar um pneu na chuva. Ou, no caso de Duro de Matar, pode ser um cara que consegue aparecer no telhado, liquidar terroristas com facilidade e levar 50 reféns à segurança, enquanto se esquiva dos tiros de um helicóptero do FBI.

Shannon-changing-tire

Por falta de tempo, acabei tendo de dividir este texto em três partes, pessoal. Mas amanhã devo conseguir postar a última.

Uma ótima escrita pra todos vocês!

21/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 4A

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 18:20
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Aqui está outro capítulo da fórmula desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon, tirado do site Channel 101 Wiki. Como é meio grande, eu o dividi em duas partes.

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Joseph Campbell era um mitólogo comparativo, não um guru de roteiro banal. No entanto, aqui é onde eu, Dan Harmon,

sinto que os capítulos do famoso "monomito" ou "jornada do herói" de Campbell cairiam, se você os forçasse para dentro de meu círculo.

Estrutura de História 4: Os Detalhes Interessantes

Ok, aqui está aquela parte onde o auto-nomeado guru lhe diz exatamente o que deve acontecer e quando.

Eu espero ter deixado claro para você antes de fazer isso, que a estrutura REAL de qualquer boa história é simplesmente circular – uma descida ao desconhecido e o eventual retorno – e que quaisquer descrições específicas desse processo são específicos para você e sua história.

Aqui está a minha descrição detalhada dos passos no círculo. Eu vou ser chegar a ser bastante específico, e não vou incomodar, dizendo: "há algumas exceções disto", várias e várias vezes. Existem algumas exceções para tudo, mas isso é chamado de estilo, não estrutura.

  1. Você (um personagem está em uma zona de conforto)
  2. Necessita (mas ele quer algo)
  3. Vai (ele entra em uma situação não-familiar)
  4. Procura (adapta-se a ela)
  5. Encontra (encontra o que queria)
  6. Pega (paga o seu preço)
  7. Retorna (e volta para onde ele começou)
  8. Muda (agora capaz de mudar)

1 – “Você.” – ESTABELEÇA UM PROTAGONISTA

O público está flutuando livremente, como um fantasma, até você dar-lhe um lugar para pousar.

Este efeito de livre flutuação pode ser explorado por um tempo – dando um close sobre o planeta Terra; fazendo uma panorâmica através de um barracão sujo. Quem nós vamos ser? Mas, cedo ou tarde, nós precisamos ser alguém, porque se não estivermos dentro de um personagem, então não estamos dentro da história.

Como você coloca o público em um personagem? Fácil. Mostre um. Você teria que sair do seu caminho para evitar do público se imprimir nele. Pode ser um guaxinim, um homem sem-teto, ou o Presidente. Simplesmente abra o quadro nele, e nós somos ele até que tenhamos uma melhor opção.

Se houver opções, os espectadores escolhem alguém com quem eles se relacionam. Quando em dúvida, eles seguem sua compaixão. Abra o quadro em um guaxinim que está sendo perseguido por um urso, e somos o guaxinim. Abra o quadro em uma sala cheia de embaixadores. O Presidente entra e tropeça no tapete. Nós somos o Presidente. Quando sente pena de alguém, você está usando a mesma parte de seu cérebro que usa para se identificar com eles.

Muitas histórias modernas nos fazem saltar de personagem para personagem no início, até que finalmente nos acomodamos em alguns sapatos confortáveis. Esse saltar pode ser eficaz, mas se isso está continuando por mais de 25% de sua história total, você vai perder o público. Como qualquer coisa adesiva, o nosso senso de identidade se enfraquece um pouco a cada vez que é trocado ou testado. Quanto mais tempo ele tem estado grudado em algo, mais chocante vai ser arrancá-lo e colá-lo em outra pessoa.

Eu não foderia com isso, se eu fosse você. A coisa mais fácil a fazer é abrir o quadro em um personagem que sempre faz o que o público faria. Ele pode ser um assassino, um guaxinim, pode ser um parasita vivendo no fígado do guaxinim, mas que ele faça o que o público faria se estivesse na mesma situação. Em Duro de Matar, o quadro se abre em John McClane, um passageiro em um avião, que não gosta de voar.

2 – “Necessita.” – ALGO NÃO ESTÁ CERTO

E agora o carrinho da montanha-russa sobe a primeira colina. Click, click, click…

Aqui é onde nós demonstramos que algo está fora de equilíbrio no universo, não importa o quão grande ou pequeno o universo seja. Se esta for uma história sobre uma guerra entre a Terra e Marte, este é um bom momento para mostrar aquelas naves marcianas rumando em direção ao nosso pacífico planeta. Por outro lado, se esta for uma comédia romântica, talvez a nossa heroína esteja jantando em um encontro às cegas ruim.

Estamos sendo apresentados à ideia de que as coisas não estão perfeitas. Elas poderiam estar melhores. Aqui é onde um personagem poderia se perguntar em voz alta, ou com expressões faciais, por que ele não pode ser mais bacana, ou mais rico, ou mais rápido, ou um melhor amante. Este desejo será concedido de formas que o personagem não poderia ter esperado.

Aqui também é onde um "Chamado à aventura" mais literal e exterior poderia entrar em jogo, nas mãos de um mensageiro misterioso que explica para um tintureiro que ele acabou de ser destacado pela CIA.

Frequentemente, o protagonista "recusa o chamado". Ele não quer ir para a etapa 3. Ele é feliz como tintureiro (pelo menos ele pensa que é). A "recusa ao chamado" não é um ingrediente necessário, é apenas outro truque muito usado para nos manter presos a uma identidade. Todos nós temos medo da mudança.

Lembre-se: Os chamados à aventura não têm de vir de um mensageiro de fato, e os desejos não têm de ser feitos em voz alta.

Abra o quadro em um homem de aparência gentil dirigindo um carro. Está chovendo. Bum. Pneu furado. Ele luta para evitar que o carro derrape. Ele puxa-o para o lado da estrada e para. Ele tem medo em seu rosto. Ele olha pela janela do carro para a chuva batendo…

Ou, para continuar com Duro de Matar: Nós percebemos agora que o casamento de John está abalado. Sua esposa tem um bom trabalho em Los Angeles, e ele se recusou a vir para cá com ela. Agora ele a está visitando para o Natal. Ela está usando seu nome de solteira no diretório corporativo. Eles estão brigando. As coisas não estão bem, e se você pudesse ler a mente do protagonista, poderia encontrá-lo desejando que houvesse algo que ele pudesse fazer para salvar seu casamento…

3 – “Vai.” – ATRAVESSANDO O LIMIAR

Sobre o quê é a sua história? Se é sobre uma mulher fugindo de um ciborgue assassino, então, até agora, ela não esteve fugindo de um ciborgue assassino. Agora ela vai começar. Se a sua história é sobre uma paixão, esse pode ser o ponto onde o nosso herói masculino põe os olhos sobre o objeto de seu desejo pela primeira vez. Então, novamente, se a nossa protagonista é objeto de uma perigosa obsessão, a paixão poderia ter sido o passo 2, e este poderia ser o ponto onde o cara diz algo realmente, realmente assustador para ela no corredor do escritório. Se é uma história sobre amadurecimento, este poderia ser um primeiro beijo, ou a descoberta de um pelo na axila. Se é um filme de terror, este é o primeiro assassinato, ou a descoberta de um cadáver.

A chave é, descubra qual é o seu "cartaz do filme". O que você anunciaria às pessoas, se quisesse que elas viessem ouvir a sua história? Um tubarão assassino? O espaço sideral? A Máfia? O verdadeiro amor? Tudo com cor cinza naquele círculo, a metade inferior, é o "mundo especial" onde aquele pôster do filme começa a ser transmitido, e tudo acima desta linha é o "mundo comum". Etapa 1, você é o xerife de uma pequena cidade. Etapa 2, mordidas estranhas no corpo de uma vítima de assassinato. Etapa 3, puta merda, é um lobisomem.

Lembre-se do tutorial 2, de que o que realmente está acontecendo aqui é uma jornada para dentro de nossa própria mente inconsciente, onde podemos conseguir resolver nossas coisas. Um garoto acorda, e agora ele é Tom Hanks. O seu desejo de ser "grande" foi concedido. Terroristas atacam a festa de Natal, e agora John McClane tem sua chance de literalmente salvar seu casamento abalado. Neo acorda em um tanque de gosma em um mundo dominado pelas máquinas. Seu desejo do mundo comum de ser um hacker, de lutar contra o sistema, vai ser posto à prova. Um menino suicida começa a ver um terapeuta. Vamos descobrir por que ele tentou se matar.

Não importa o quão pequeno ou grande seja o âmbito da sua história, o que importa é a quantidade de contraste entre esses mundos. Em nossa história sobre o homem trocando o pneu na chuva, até agora, ele não estava mudando um pneu. Ele estava dentro de um carro seco. Agora, ele abre a porta do carro e sai para a chuva. A aventura, independentemente de seu tamanho ou sutileza, já começou.

4 – “Procura.” – ESTRADA DE PROVAS

Christopher Vogler chama esta fase de um roteiro de longa-metragem de "amigos, inimigos e aliados". Produtores mercenários a chamam de "fase de treinamento". Eu prefiro ficar com o título de Joseph Campbell, "A Estrada de Provas", porque é menos específico. Eu tenho visto filmes demais onde o nosso tempo é desperdiçado assistindo a um herói literalmente "treinar" em uma clareira na floresta porque alguém teve a ideia de que esse era um ingrediente necessário. O ponto desta parte do círculo é: o nosso protagonista foi jogado na água, e agora é afundar ou nadar.

Em O Herói de Mil Faces, Campbell efetivamente evoca a imagem de um aparelho digestivo, desmembrando o herói, despindo-o de neuroses, despojando-o de medo e desejo. Não há espaço para besteiras no porão do inconsciente. Inaladores de asma, óculos, cartões de crédito, namorados da fraternidade, promoções, perucas e telefones celulares não podem salvá-lo aqui. O propósito aqui tornou-se revigorantemente – e assustadoramente – simples.

Em Tudo Por Uma Esmeralda, Michael Douglas corta fora os saltos dos caros sapatos da Kathleen Turner com um facão. Em seguida, ele joga a mala dela num penhasco. Se ela vai continuar a sobreviver nesta selva, ela literalmente precisa largar o excesso de bagagem e perder as calças chiques.

Em Duro de Matar, John McClane é aconselhado por um terrorista a quem ele mostrou misericórdia mais cedo: "Na próxima vez que você tiver a chance de matar alguém, não hesite." John atira nele várias vezes e agradece a seu cadáver pelo conselho. O policial começou a desaparecer, pedaço por pedaço, revelando o seu caubói interior.

O homem na chuva abre seu porta-malas, revelando uma pilha de roupa suja e lixo de fast food. Ele tenta mover aquilo de um lado para outro, mas finalmente a sua frustração toma conta e ele começa a jogar as coisas por cima do ombro, esvaziando o conteúdo de seu porta-malas no acostamento da estrada.

Estamos nos dirigindo para o nível mais profundo da mente inconsciente, e não podemos alcançá-lo sobrecarregados com toda aquela porcaria que costumávamos pensar que era importante.

Die-Hard

Boa terça-feira gorda de carnaval pra você!

20/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 3

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é mais uma parte da fórmula desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon para escrever histórias, tirada do site Channel 101 Wiki:

SS103

Estrutura de História 3: Vamos simplificar Antes de Seguir em Frente

Aqui estão aqueles passos do tutorial 1 novamente, resumidos ao mínimo indispensável que eu consigo, ainda falando português:

  1. Quando você
  2. tem uma necessidade,
  3. você vai a algum lugar,
  4. procura por isso,
  5. encontra-o,
  6. pega-o,
  7. então retorna
  8. e muda as coisas.

Menos foco no português, mais na importância:

  1. Você
  2. Necessidade
  3. Ir
  4. Procurar
  5. Encontrar
  6. Pegar
  7. Retornar
  8. MUDAR

Soa como um homem das cavernas dando-lhe uma ordem. É isso o que é. Por trás (e abaixo) do seu prosencéfalo criador de cultura, há um cérebro de macaco mais antigo e mais simples, com muito menos a dizer e uma voz muito mais alta. Uma das poucas coisas que ele está lhe dizendo, várias e várias vezes, é que você precisa ir procurar, encontrar, pegar e retornar com a mudança. Por quê? Porque é assim que o animal humano tem evitado ser extinto, é como as sociedades humanas evitam entrar em colapso, e como você evita entrar num McDonald’s com uma metralhadora.

Se você fosse contratado para escrever um roteiro para uma raça de aranhas super-evoluídas, você poderia achar que elas preferem um modelo mais linear. Na versão aranha de João e o Pé de Feijão, João poderia construir o seu próprio pé de feijão, encontrar um sanduíche no topo dele, comer um pouco e poupar o resto para mais tarde. Fim. Isso não é muito inspirador para nós. Nós gostamos de nos colocar em alguns círculos. Nós gostamos dos grandes, nós gostamos dos pequenos, e, dada a escolha, vamos preferir a bosta de um do que a falta de um, mas, a menos que você esteja escrevendo para outras espécies, você será recompensado por manter as coisas bastante redondas.

João escala o pé de feijão, João encontra algumas coisas legais, João as rouba, desce correndo de volta, e as dá para a sua mãe.

Precisamos ir procurar – Precisamos obter fogo, precisamos de uma boa mulher, precisamos aterrissar na lua – mas, mais importante ainda, precisamos RETORNAR, e precisamos MUDAR, porque nós somos uma comunidade, e se os nossos heróis apenas subissem no pé de feijão e nunca descessem, não teríamos sobrevivido à nossa primeira era do gelo.

Eu sei que você ainda não acredita que isso tenha algo a ver com o episódio de cinco minutos de "Laser Fart". Aguente aí. A parte boa vem a seguir.

Jack_Gustaffson

Boa escrita pra você! =)

19/02/2012

A Estrutura de História de Dan Harmon – Parte 2

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Continuando a nossa série, aqui vai a segunda parte da estrutura desenvolvida pelo roteirista Dan Harmon para escrever histórias, tirada do site Channel 101 Wiki:

LCODUC

VIDA, CONSCIÊNCIA, ORDEM / MORTE, INCONSCIÊNCIA, CAOS

Estrutura de História 2: Teoria Pura e Chata

Isto não é um tutorial. É apenas um monte de teoria. Os pragmáticos ou impacientes entre vocês podem pular esta parte.

Por que esse ritual de descida e retorno? Por que uma história tem que conter determinados elementos, em uma determinada ordem, antes que o público sequer a reconheça como uma história?

Porque a nossa sociedade, cada mente humana dentro dela, e toda a vida em si tem um ritmo, e quando você toca nesse ritmo, ele ressoa.

O RITMO DA BIOLOGIA

TheRythymOfBiology

VIDA / MORTE

O universo ao nosso redor está morrendo, passando de um estado de alta energia para um de baixa. Na Terra, porém, as coisas tendem a se mover em direção contrária. Os ovos se transformam em galinhas. As pessoas se transformam em mais pessoas. A carne cura, o idiota torna-se mais inteligente, e o planeta, uma vez frio e vazio, está agora tão cheio de vida que você não pode deixar o pão sobre o balcão. Como a vida conseguiu enganar um universo moribundo, assim?

Através da morte.

Esta criatura planetária conhecida como "Vida na Terra" tem sido capaz de crescer e prosperar através de uma corrida armamentista evolucionária entre as várias partes de si mesma. As partes mais avançadas da vida COMEM as partes menos avançadas, desse modo tornando-se mais abundantes até uma parte mais avançada consumi-las. Isso faz com que toda a vida avance e se espalhe. A contínua batalha entre comedores e comidos é responsável por essa arma biológica de ponta que você chama cérebro, e pode até levar, um dia, a seres humanos lançando-se como esporos para planetas mortos e trazendo esses planetas à vida.

Para você e eu, conscientemente, a morte pode ser uma chatice, mas para a Mãe Gaia, para a vida em si, inconscientemente, ela é absolutamente essencial – 50% de como as coisas são feitas.

O que quero dizer com consciente e inconscientemente?

O RITMO DA PSICOLOGIA

RhythmPsychology

CONSCIENTE / INCONSCIENTE

A sua mente é uma casa, com um andar em cima e um embaixo.

Lá em cima, em sua consciência, as coisas são bem iluminadas e regularmente varridas. Os amigos visitam. Joga-se palavras cruzadas, o chocolate quente está sendo preparado. É um lugar agradável e familiar.

Lá embaixo, é mais antigo, mais escuro e muito, muito mais esquisito. Chamamos este porão de mente inconsciente.

O inconsciente é exatamente o que parece: São as coisas sobre as quais você não quer, não vai e/ou não consegue pensar. De acordo com Freud, há imagens sujas de sua mãe, lá embaixo. Segundo Jung, há tubos, fios, até mesmo túneis lá embaixo que ligam a sua casa a outras. E apesar dele conter energias de sustentação da vida (como a caixa de fusíveis e o aquecedor de água), é um lugar primitivo, fedido e assustador, e não é de admirar que, dada a escolha, nós não o visitemos regularmente.

Entretanto, o seu prazer, a sua sanidade e até mesmo a sua vida dependem de ocasionais idas. Você tem que trocar os fusíveis, pegar os enfeites de Natal, limpar a caixa de areia. Na medida em que mantemos a porta do porão selada, toda a casa torna-se instável. As criaturas lá embaixo ficam mais barulhentas, e o cara lá em cima (o seu ego) tenta cobrir o ruído com comportamento neurótico. Para alguns, eventualmente, a porta do porão pode se soltar de suas dobradiças, e os habitantes viscosos e primordiais das profundezas podem tornar-se parceiros de palavras cruzadas. Você pode chamar isso de um colapso nervoso ou surto psicótico, não importa. O ponto é: Campanhas ocasionais do ego para dentro do inconsciente, através de terapia, meditação, confissão, sexo, violência, ou uma boa história, mantêm a consciência funcionando em ordem.

Este é o ritmo da psicologia: Consciente-inconsciente-consciente-inconsciente-etc.

O RITMO DA SOCIEDADE

RhythmSociety

ORDEM / CAOS

Sociedades são basicamente macrocosmos (versões grandes) de pessoas, só que, ao invés de "consciência", o andar de cima de uma sociedade é "ordem", e o seu porão é "caos".

Enquanto a saúde de um indivíduo depende de descidas e retornos regulares do ego para e do inconsciente, a longevidade de uma sociedade depende de pessoas reais viajando para o desconhecido e voltando com ideias.

Em sua forma mais dramática e revolucionária, essas pessoas são chamadas de heróis, mas, a cada dia, a sociedade é reabastecida por milhões de pessoas mergulhando na escuridão e emergindo com algo novo (ou esquecido): cientistas, pintores, professores, dançarinos, atores, padres, atletas, arquitetos e, mais importante, eu, Dan Harmon.

As sociedades são macrocosmos de pessoas de outra maneira: Eventualmente, elas morrem. Há concorrência entre diferentes sociedades. Os perdedores são comidos e os vencedores se reproduzem.

Como as pessoas, as sociedades se tornam neuróticas e podem, eventualmente, desmoronar, quando cometem o erro de pensar que o andar de baixo não deveria existir. Os Estados Unidos são um exemplo fantástico disso, conforme o nosso medo do desconhecido continua a criar mais incógnitas e mais medo. Agora é punível por bombardeio ter um problema com a política de bombardeio dos Estados Unidos. Em um ser humano, o equivalente seria diagnosticável como sintomático. Nosso porão está repleto de rastejadores assustadores, a pressão sobre a porta está aumentando. Nunca houve uma maior necessidade de heróis, e eles nunca estiveram em tal escassez.

Uma das duas coisas vai acontecer. Alguém vai abrir aquela porta e ir lá em baixo, ou a porta vai saltar fora de suas dobradiças. De qualquer forma, a evolução social não será enganada em seu ritmo e vai ficar descuidada. Todos nós sabemos disso. Todos nós andamos por aí com essa compreensão instintiva em nossas mentes inconscientes.

O ritmo da sociedade: Ordem-caos-ordem-caos-etc.

RESSONÂNCIA

Agora você entende que toda a vida, incluindo a mente humana e as comunidades que criamos, marcham sob o mesmo, e muito específico, ritmo. Se a sua história também marcha sob este ritmo — seja ela o grande romance americano ou uma piada de peido – ela vai repercutir. Ela vai enviar o ego do seu público para uma breve viagem ao inconsciente, e trazê-lo de volta. Seu público tem um gosto instintivo para isso, e eles vão dizer "yam".

Nós voltaremos aos aspectos práticos na próxima, elaborando bastante sobre o modelo circular e aplicando-o ao piloto de 5 minutos do Channel 101.

Alice Madness Returns

Boa escrita pra você hoje! =)

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