Dicas de Roteiro

28/01/2012

O Grande Paradoxo da Criatividade

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:01
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O artigo de hoje é de autoria do roteirista, professor e consultor de roteiros David Trottier, e foi tirado de seu site, Keep Writing:

Escher

Quando o meu professor de escrita criativa da faculdade me perguntou sobre o meu ensaio desleixado, eu expliquei-me em termos claros: “Eu sou um escritor. Portanto, eu devo ser completamente livre para criar.” Isso soou razoável na época, e talvez você concorde comigo agora. Afinal de contas, o “lado direito do cérebro” – o artista interior – opera no máximo de criatividade quando o “lado esquerdo do cérebro” – o crítico interior – está de outra forma ocupado ou relaxado. Portanto, é apenas lógico que nós, escritores, sejamos mais criativos quando nenhuma limitação ou restrição é imposta sobre a nossa escrita. Certo?

Bem… não necessariamente.

O grande paradoxo é este: Restrições cultivam a criatividade.

É verdade que o seu artista interior pode ficar frustrado pelas intromissões de seu crítico interior, mas parâmetros externos são justamente o desafio que o seu lado direito do cérebro aprecia. Parâmetros impostos podem ser inspiradores!

Uma Lição de Hitchcock

Psicose é considerado um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, e ainda assim há apenas dois atos de violência no filme inteiro. Alfred Hitchcock e o roteirista Joseph Stefano não tiveram permissão de mostrar nudez, nem podiam mostrar uma faca penetrando realmente num corpo. Tripas e sangue tampouco eram permitidos. Na agora famosa cena do chuveiro, a nudez é implícita, e a faca é justaposta ao corpo, mas nunca é visto ela entrando no corpo. O chocolate Hershey rodopiando ralo abaixo me aterrorizou quando criança. Em uma palavra, Hitchcock e Stefano foram forçados a ser criativos na forma como escreveram e rodaram aquela cena. As limitações ajudaram a criar um clássico. Hoje, existem poucas ou nenhuma restrição aos filmes do gênero de terror, e o que nós geralmente temos? Mais e mais sangue e tripas, com pouca criatividade. A arte não tem avançado.

Certamente é possível ser criativo sem restrições. Você já experimentou isso em sua própria escrita. Aquele fluxo criativo sagrado que lhe transporta para o Nirvana do Escritor. Mas as limitações podem ser úteis, também, e até divertidas. Enquanto escrevo, eu estou curtindo o desafio de aparar este artigo para até 800 palavras. Ao fazer isso, eu me encontro refinando a minha pequena obra, para que eu me conecte melhor com você (eu espero).

Bloqueios Como Pontes

Você já se sentiu bloqueado um momento ou outro pela cogitação de restrições editoriais? Talvez as limitações lhe lembrem um pai ou mãe excessivamente crítico, ou uma desagradável figura de autoridade do passado, mas eles podem lhe inspirar, se você abandonar a sua reação de resistência inicial. Com um pouco de reflexão, o bloqueio que você sente torna-se uma autêntica ponte para uma escrita melhor.

Muitas das grandes músicas do passado foram encomendadas; o compositor não iniciava o projeto e estava confinado às formas musicais da época. Até o hip-hop e o rap aderem a alguma forma ou formato. Tudo o que é artístico tem dois componentes – forma e conteúdo. A criatividade resulta de como você trabalha o conteúdo dentro das restrições daquela forma. Sim, e às vezes o escritor transcende essa forma. Dickens escreveu Um Conto de Natal como uma série de jornal que mais tarde tornou-se o livro clássico.

Talvez a forma de escrita mais restritiva seja o soneto. Ainda assim, algumas das poesias mais lindas do mundo aparecem em forma de soneto. Eu lembro da dor e da alegria de escrever um poema em pentâmetro iâmbico. O meu professor de escrita criativa da faculdade me mandou escrever algo digno do grande poeta e escritor William Wordsworth. Levei 14 horas para escrever 14 linhas, mas eu sou um escritor melhor por isso. Além do mais, três revistas me pagaram para publicá-lo. E, mesmo não sendo digno de Wordsworth, ele foi ótimo para Trottier.

Diversão Com Uma Camisa de Força

Anos atrás, uma produtora de cinema independente pagou-me uma quantia irrisória para escrever um roteiro de longa-metragem. Ela me deu uma lista de doze parâmetros, inclusive uma batida de carros com dois veículos, uma queimadura (ou seja, tinha que ser ateado fogo em um personagem), e a limitação de apenas uma locação externa. Eu me senti tão limitado. Foi só depois de eu ter me estapeado no rosto algumas vezes e aceitado os parâmetros dela que o processo de escrita tornou-se tanto um desafio quanto uma alegria.

Michelangelo via a si mesmo, antes de tudo, como um escultor. Quando o Papa Júlio II encarregou-o de decorar a Capela Sistina com afrescos, ele não estava inicialmente interessado ou inspirado. E, no entanto, ele mudou sua atitude, e o resultado é considerado uma das maiores obras de arte do mundo.

Você quer melhorar a sua criatividade? Desenvolva e incentive o seu artista interior, e abrace as restrições como se fossem um amigo de confiança. Esta nova atitude pode lhe libertar para ser o melhor escritor que você pode ser.

Este artigo foi tirado, em parte, de uma seção do The Freelance Writer’s Bible.

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Boa escrita pra você hoje! =)

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É Arriscado Escrever Em Especulação Algo Em Domínio Público?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Eis mais um texto do roteirista John August sobre adaptação, para fecharmos a série sobre este assunto:

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Ultimamente eu tenho adaptado romances e contos que estão em domínio público, e estou preocupado de que algum produtor para quem eu envie uma carta de consulta possa simplesmente esquecer de mim e contratar uma outra pessoa para adaptar o mesmo romance depois da minha carta de consulta colocar em sua cabeça que aquilo daria um bom filme.

Agora, eu sei que roubar ideias raramente acontece e que não há nada que eu possa fazer para proteger os meus direitos com uma história de domínio público, mas se um produtor para quem eu enviar uma carta de consulta decidir adaptar o mesmo romance que eu adaptei sem usar o meu roteiro, bem, então o meu roteiro está praticamente anulado, certo?

Basicamente, eu estava curioso para saber se você acha que eu deveria parar de me preocupar e tentar vender essas adaptações, ou eu devo focar em tentar vender os outros dois roteiros que escrevi (que são baseados em histórias verdadeiras das quais eu detenho os direitos) e, a seguir, sacar as minhas adaptações logo que eu forjar uma relação de trabalho com um produtor?

– Rob
Ohio

Seria chato se um produtor, ao ler a sua carta de consulta (ou ouvir a apresentação de sua ideia), decidisse sair correndo e usar o mesmo material de domínio público como base para o roteiro de um escritor diferente? Sim.

Isso é provável? Na verdade, não.

Digamos que você escreveu uma adaptação de algum trabalho menos conhecido de Christopher Marlowe. Digamos, "Dido, A Rainha de Cartago". É improvável que o produtor saiba alguma coisa sobre a história, por isso, se a sua apresentação (ou carta de consulta) for interessante o suficiente para ele querer saber mais, ele vai ler o seu roteiro. A essa altura, você já teve sucesso em fazer um produtor ler o seu material, e esse é o objetivo principal das apresentações e cartas de consultas neste estágio de sua carreira.

Claro, você espera que ele o ame e queira produzi-lo. Mas tudo isso depende da reação dele à sua escrita. Se ele gostar de sua escrita, e gostar da ideia, você é ouro. Se ele não gostar de sua escrita, a perda é dele.1

De qualquer maneira, eu acho improvável que o seu roteiro de repente acenda um interesse em uma propriedade literária por muito tempo ignorada. Tenho certeza de que há casos em que isso aconteceu, mas parecem exceções, e não a regra. Assim, se o melhor roteiro que você tem disponível é uma adaptação de uma peça de domínio público, com certeza mostre-o para as pessoas ao redor.

1 Como um lembrete, eu presumo que todo mundo que escreve uma pergunta aqui seja um roteirista fantástico. Este é um postulado absurdo, mas me permite dormir melhor à noite.

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Boa escrita pra você!

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