Dicas de Roteiro

23/01/2012

Não Há Nenhum Mago: Como a Fantasia Épica Falhou Conosco

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
Tags: , ,

Seguindo com nossa série, aqui vai mais um artigo do site Epic-Fantasy:

O Mago Merlin

Fantasia épica não é literatura escapista para ser lida só por diversão. É uma forma séria de literatura que aborda as grandes questões da vida dos personagens (daí o épico). E desta forma ela nos ajuda a entender a nós mesmos e nos ajuda a olhar as grandes questões de nossas próprias vidas. Mas a fantasia épica usa uma ferramenta especial para ajudar o herói a encontrar seu caminho através da escuridão de seus desafios; e esta ferramenta não existe para nós e é aí onde a fantasia épica falha.

Não São os Dragões ou os Mundos de Fantasia

O fato de que existem dragões ou bestas sobrenaturais na fantasia épica não diminui a relevância da história. Esta é uma metáfora adequada porque todos nós enfrentamos bestas e dragões em nossas vidas. E não são os mundos de fantasia repletos de cenários, idiomas e criaturas estranhos, porque se você der um passo atrás e olhar para o mundo em que vivemos, pode ver que ele também é preenchido com cenários, idiomas e criaturas estranhos.

Os Passos Que Todo Herói Deve Dar

Joseph Campbell descreveu os passos com os quais um herói deve se comprometer em sua obra O Herói de Mil Faces, e estes passos se mantiveram inalterados ao longo dos séculos de escrita de fantasia épica.

Se você não está familiarizado com a obra de Joseph Campbell, ainda assim vai reconhecer as etapas que um herói atravessa. O primeiro passo é a chamada à ação, em que um homem jovem comum é chamado a aceitar uma missão. O segundo passo é a recusa deste chamado. O jovem não consegue acreditar que isto é algo que ele tem que fazer, então recusa. "Eu não posso fazer isto. Eu sou apenas uma pessoa comum." É claro que ele logo retira o que disse e aceita o desafio, e avança através de outras das etapas obrigatórias. Estas etapas são muito reconhecíveis como o formato padrão da fantasia épica, e você até pode vê-las em muitos filmes.

Todas estas etapas que um herói atravessa são muito relevantes para nós como seres humanos, exceto por uma.

Em algum ponto no início de sua jornada, o herói da nossa fantasia épica se encontra com um mentor que tem uma compreensão mais profunda do mundo e dos desafios que o nosso herói enfrentará em breve. Este mentor é, com muita frequência, um mago que possui poderes e habilidades incomuns, e ele transmite a sua sabedoria para o nosso jovem herói e usa sua mágica para limpar o caminho para ele. Mas é aqui que a fantasia épica toma um rumo para longe da realidade que vivemos. Em nosso mundo não há nenhum mago sabe-tudo. Todo mundo neste grande globo azul é tão sem noção quanto todo o resto, e todos nós estamos apenas tropeçando em uma caverna, olhando sombras na parede. Nisto é onde a fantasia épica falha. Não há nenhum mago sabe-tudo para nos guiar através desta epopeia que estamos todos vivendo.

=========================

Boa escrita pra você hoje! =)

Anúncios

4 Comentários

  1. Se o mago é o mentor que sabe tudo e que abre todas as portas, então a história é mal-feita.
    Merlin não abre todas as portas para Artur e nem Gandalf o faz para Bilbo ou Frodo.
    Se alguém faz assim, está construindo a história do jeito errado.
    Se um mentor sabe-tudo abre as portas para o herói, então ele não vai seguir os passos descritos por Campbell.

    Comentário por Fuzzee — 23/01/2012 @ 17:42

    • Oi, Fuzzee!

      Se o mago abrisse todas as portas e fizesse tudo pelo herói, realmente a história seria muito mal-feita. Afinal de contas, o herói seria ele, o outro personagem poderia ser descartado sem nenhum problema. Mas não acho que tenha sido isso o que o autor quis dizer. No início da jornada (e grife-se “início”, porque depois o mentor segue o seu rumo e deixa o herói por conta própria) o herói encontra um mestre/mago que lhe mostra o caminho, lhe mostra o que é preciso fazer e, o mais importante em minha opinião, ele acredita no mocinho, tem fé no potencial dele de tornar-se um herói, quando nem o próprio acredita em si. Além disso, ele passa algum conhecimento para seu pupilo, para que este tenha armas para enfrentar o inimigo (vide Obi Wan Kenobi e Yoda na trilogia original de Guerra Nas Estrelas).

      O autor diz que isso não existe na vida real. Talvez um mago sabe-tudo não exista realmente, mas existem muitos mestres que nos mostram o caminho e algumas vezes colocam muita fé em nosso potencial. Aliás, essa seria a tarefa dos pais ideais, mas infelizmente não é o que costuma ocorrer, já que existem tantos pais boicotadores, competitivos, invejosos, indiferentes etc. por aí. Às vezes os professores também fazem este papel. Só que, no final das contas, quem tem que ralar e enfrentar os perigos sozinho é mesmo o herói (ou nós, no caso).

      Um abraço, Fuzzee, obrigada pela visita!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 24/01/2012 @ 10:59

      • Concordo com você Valéria. Na nossa vida encontramos vários mestres, que nos mostram o caminho. Isso vai desde os pais, avós, professores e tantas outras pessoas que fazem parte das nossas vidas. E você, Valéria, é o nosso mago sabe-tudo, a nossa fada, que clareia um pouco o nosso caminho como roteiristas, com suas dicas, seus posts neste maravilhoso blog.

        Beijos!!!!!

        Comentário por Paulo Henrique — 24/01/2012 @ 17:17

        • Nossa, estou tão longe de ser um mago sabe-tudo quanto de uma fada! Aqui eu sou uma mera aprendiz, estamos caminhando juntos, e juntos aprendendo. Só quero passar o pouco que aprendi e, em troca, eu aprendo e me emociono e me divirto muito com vocês. Isso é o que realmente vale.

          Obrigada pela força, Paulo Henrique! Fico feliz por estar sendo um pouquinho útil nessa estrada para realizar o sonho de escrever roteiros profissionalmente. Chegaremos lá!
          Um abração!
          Valéria Olivetti

          Comentário por valeriaolivetti — 25/01/2012 @ 20:45


RSS feed for comments on this post.

%d blogueiros gostam disto: