Dicas de Roteiro

22/01/2012

Entrevista Com o Roteirista Dan Harmon

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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O texto de hoje foi tirado da revista Written By (do WGAw) – Summer (Verão) 2011 – páginas 12/13/56/57. Artigo escrito por Lisa Rosen:

Dan Harmon Community Panel Comic Con(1) Dan Harmon Community Panel Comic Con 2011(2)

EQUILIBRANDO O ORÇAMENTO ENTRE OS GÊNEROS

Sendo homem, e sendo essa a minha primeira experiência montando uma equipe, a última coisa que eu quero é que me digam que uma percentagem dos escritores deve ser o que quer que seja. Tudo o que eu quero é encontrar talentos. É verdade que tudo deveria ser uma meritocracia. O problema é que você está vivendo num sistema que, por uma ou outra razão, é desproporcional.

É assim que eu me sinto em relação ao negócio da diversidade. Dois anos atrás, eu teria dito: “Por que o WGA está fazendo boletins sobre esta coisa, quando deveríamos estar focados em quem é o melhor escritor?” E agora, dois anos comandando um programa, escolhendo o quadro de funcionários temporada após temporada, pilhas e pilhas de roteiros escritos por pessoas brancas privilegiadas – eu estou tendo este desejo em mim de correr para todas as escolas primárias da cidade e reunir todas as crianças negras e dizer: “Vocês podem ser escritores. Claramente, alguém disse a vocês que esse não é o caso. Ou alguém disse isso aos seus pais. Mas eu estou dizendo para vocês serem escritores, para que isso melhore em 20 anos.” Porque algo está errado aqui. Isso não é justo.

Então, foi uma ótima coisa, embora ligeiramente irritante no começo, a [ex-executiva da NBC] Angela Bromstad sugerir que uma alta porcentagem da equipe fosse feminina. Havia um monte de escritoras que eu estava lendo àquela altura que eram boas o suficiente. Eu decidi que isto não era realmente um grande problema. Eu acho que ocorreu de, talvez, uma decisão em dez ter sido tipo: OK, eu vou escolher esta pessoa no lugar daquela outra precisamente por causa da ordem. Isso deu a sensação de uma aquiescência fundamental de princípios.

Mas, dois anos depois, os escritores homens de Community, que têm este pedigree em escrita de comédia televisiva a partir de salas dominadas por homens, todos eles estão elogiando ter uma equipe balanceada. É importante ter um equilíbrio naquelas conversas [de história]. Todo mundo meio que fica se confraternizando e falando sobre aqueles personagens. Metade de nossos personagens são mulheres. Isso acabou sendo ótimo. Então essa foi uma descoberta acidental interessante.

– Dan Harmon

Dan Harmon Community Panel Comic Con 2011 Dan Harmon Community Panel Comic Con 2011(3) 

O LOUCO PARA AQUI

Dan Harmon Cria Mais de uma ‘Comunidade’ [Community]

Community começou como uma relativamente convencional sitcom de uma-câmera. Um advogado bonito e tratante que mentiu sobre seu diploma é forçado a frequentar a Greendale Community College [Universidade Comunitária Greendale] a fim de obter os créditos necessários. Uma vez lá, ele cria um grupo de estudo repleto de amáveis excêntricos.

Mas em algum lugar da primeira temporada, o programa desviou-se em direção ao bizarro e nunca retornou. Olhando o currículo do criador Dan Harmon, é uma surpresa que ele tenha levado tanto tempo para chegar à bizarrice.

“Eu era o garoto que estava destinado a ser o cara assustador no canto de todas as festas, pelo resto de minha vida”, diz Harmon, sentado à mesa de conferência da sala dos escritores de Community. “Daí, Bob Orvis, do Comedy Sportz Milwaukee veio visitar o nosso colégio.” Orvis descreveu a improvisação como o veículo do escritor. Harmon logo se descobriu no palco com o grupo, sendo tratado como um igual entre profissionais. “Este foi o maior ponto de virada da minha vida.”

Ele conheceu o escritor/ator performático Rob Schrab e começou a trabalhar no livro em quadrinhos de Schrab, Scud: The Disposable Assassin [Scud: O Assassino Descartável], que foi comprado em opção pela companhia produtora de Oliver Stone. Achando que tinham conseguido entrar em Hollywood, os dois tornaram-se parceiros de escrita e mudaram-se para Los Angeles.

Ao saberem que outra pessoa seria contratada para adaptar Scud, eles decidiram que era hora de aprender como escrever um roteiro de cinema. Eles estudaram o manual do Syd Field, escreveram um roteiro de especulação, arranjaram um agente, e logo conheceram a companhia produtora de Robert Zemeckis. Eles apresentaram oralmente 10 ideias, a última das quais foi: “A casa é um monstro.” (O longa resultante, A Casa Monstro, foi indicado pra um Oscar de melhor longa de animação.) Os telefones tocavam sem parar, as reuniões sucediam-se, e um acordo com Ben Stiller e a ABC levou a Heat Vision and Jack, um projeto televisivo hilariantemente demente que Harmon e Schrab escreveram durante o fim-de-semana do Halloween de 1999. Nele, um astronauta chega perto demais do Sol, fervendo seu cérebro até ele virar o homem mais inteligente da Terra. Enquanto isso, seu melhor amigo se funde com sua motocicleta. Harmon chama isso de “a experiência criativa mais alegre que eu jamais terei de novo na minha vida inteira.”

Do Alto Para Baixo

Infelizmente, isso precipitou o seu período mais terrível. A Fox recusou-se a pegar o piloto (ainda se pode assisti-lo online), e o telefone ficou silencioso. O programa experimental tornou-se um conto de advertência para outros jovens escritores, um dos quais contou a Harmon que ele foi avisado em uma reunião para não pensar muito longe de fora da caixa porque “nós não queremos que isso vire um Heat Vision and Jack.”

Uma séria crise de depressão, isolamento, e até acumulação compulsiva se seguiu, para ser quebrada pela revolução digital de 2001. Harmon e Schrab começaram a fazer curta-metragens e a desafiar amigos a fazerem o mesmo. Os festivais de cinema mensais resultantes, agora conhecidos como Channel 101, continuam até hoje. O público vota em seus pilotos de séries favoritos, e cada “vencedor” consegue mais um episódio. Durante a pausa prolongada de trabalhos remunerados de Harmon, “eu desenvolvi muitos músculos criativos, inclusive destilando os monomitos de Joseph Campbell em um processo de oito passos tipo fórmula.” Harmon o ofereceu como um tutorial grátis para escritores bloqueados e o utiliza em Community.

Seu trabalho no Channel 101 eventualmente o levou a um bico desenvolvendo o The Sarah Silverman Show com a estrela titular do programa. Harmon não durou muito lá. “Sarah colou a coisa deste modo: Ela queria ser a única pessoa louca da sala.” Mas os telefones tinham voltado a tocar, e em uma reunião disseram a ele que a NBC queria trabalhar com ele. “Eu nunca pensei que ouviria aquelas palavras próximas ao meu nome”, ele diz, ainda soando um pouco aturdido.

Esta era a chance de criar um programa que apelasse para uma amplo faixa de espectadores, e ele entrou de cabeça. Ele sabia que isso exigiria começar com a experiência pessoal, não com uma ideia inteligente.” Então ele voltou ao seu tempo na Glendale Community College alguns anos antes, onde ele formou um grupo de estudo com pessoas que, de outra maneira, ele jamais teria conhecido. Logo ele estava rolando a lista de telefones de seu celular à procura de ideias para personagens. O sessentão Pierce foi tirado do pai de uma ex-namorada. E o malandro advogado Jeff é baseado em Harmon, o babaca que aprende como se importar com as outras pessoas.

Em sua escolha de equipe da primeira temporada, ele observa, “[A ex-executiva da NBC] Angela Bromstad formalmente, mas despreocupadamente, sugeriu que seria legal ter uma proporção entre os gêneros num programa que declarava ser para todos e sobre todos.” Ele levou isso a efeito relutantemente: Agora aproximadamente a metade de sua equipe de escritores é feminina. “Como um chauvinista inveterado, eu estou animado de comunicar que as mulheres são absolutamente iguais, se não melhores, que os homens como escritoras de comédia, em um ambiente de equipe. E todos os escritores homens estão felizes de dizer isso.” Conforme escritores vêm e vão, Harmon está comprometido a manter o equilíbrio entre os gêneros.

Em dois anos ele passou de alguém que se perguntava por que o WGA tinha boletins sobre diversidade a alguém decidindo como melhorar o quociente em seu programa. “Ter este grande poder em mãos lhe transforma num ativista social”, ele postula. “Você percebe que não vivemos numa meritocracia. Não há igualitarismo; é necessário que haja medidas proativas tomadas para equilibrar esta coisa toda.”

O esforço estendeu-se para o elenco também, ele explica, “para ter certeza de que este programa sobre uma faculdade comunitária acabasse parecendo autêntico.”

Me Chame de Louco

Mas uma coisa engraçada aconteceu a caminho do objetivo final. Não muito tempo depois do programa ter começado, Harmon percebeu que seu próprio trabalho não parecia autêntico. “Era só eu vestindo o meu melhor traje de domingo e indo à igreja e tentando fazer isto direito”, ele diz. “Eu não estava tentando enganar ninguém. Eu estava tentando enganar a mim mesmo, suponho. Tentando arranjar uma casa e crescer. Isso começou a ficar muito mais estranho porque não estava necessariamente me mantendo vivo continuar passando a impressão de ser outro roteirista de TV. E os meus momentos mais brilhantes eram aqueles em que eu estava mais sob a mira do revólver – e eu era mais eu mesmo.”

Então, após alguns episódios bem normais sobre os personagens e suas travessuras, os enredos ficaram mais selvagens, assim como o humor. “Modern Warfare” [Guerra Moderna], um episódio sobre uma luta de paintball pela faculdade inteira, foi rodada como um filme de ação apocalíptico, repleto de homenagens a tudo, de Fervura Máxima a Scarface.

Lá pelo final da primeira temporada, o programa tinha índices miseráveis de audiência, mas conseguiu entrar num monte de listas de 10 Melhores. E Harmon tinha começado a aprender a comandar uma sala de escritores. “Na primeira temporada, eu levava todos os roteiros para casa por dois dias e trabalhava neles vestindo meus pijamas, e ninguém sabia o que estava acontecendo”, ele reconhece. “Nós estávamos vivendo e morrendo pela minha capacidade de fazer serão sozinho a noite toda, e se eu tivesse uma noite fraca, nós teríamos um par de piadas fracas no roteiro. Eu tive de aprender a parar de ser tão pretensioso e a confiar naquelas pessoas que eram pagas para me ajudar. E foi aí que o programa ficou realmente bom.”

Nesta temporada foi visto um programa com pseudo-clipes [de retrospectiva], onde cada clipe era na verdade inventado. “Eu queria fazer isso há uma eternidade”, ele confidencia. “Tradicionalmente, esses episódios são utilizados para dar aos escritores uma semana de folga, mas nós o usamos para nos torturarmos.”

O episódio “Critical Film Studies” [Estudos Críticos de Cinema] – quase impossível de descrever para qualquer um que não tenha visto o filme Meu Jantar Com André (e até para aqueles que o viram) – envolve um monólogo de um minuto de duração de dar nó no cérebro, que vira o personagem Abed, um tipo que parece ter Síndrome de Asperger, ao avesso. Conforme isso acontece, ele fez o mesmo a Harmon.

“Isso teve de representar o fundo do poço das pressões sob as quais eu me coloquei por ser autodestrutivamente e compulsivamente ambicioso sobre o formato de sitcom”, relata Harmon. Páginas estavam sendo entregues ao diretor no dia em que eram filmadas. “Eu estava seriamente dizendo: ‘Eu não posso mais fazer isto, este episódio está terrível, eu arruinei este programa com a minha estúpida esperteza. Eu estou alienando o público, e o programa pode de fato estar no ar e todo mundo pode ter um emprego se eu apenas não trabalhasse nisso tanto assim.

A única pessoa a ouvir o seu discurso de auto-aversão foi a escritora mais jovem de sua equipe, Megan Ganz. “Ela me disse: ‘Se você parar de trabalhar no programa, eu vou me mudar de volta para Kalamazoo, Michigan.’ E eu comecei a chorar.” Ainda tocado pelo momento, Harmon começa a chorar de novo ao recontá-lo. “Isso era tudo o que eu precisava ouvir. Isso é tudo o que importa.”

Quase tudo. Conforme o programa ia ao ar, ele começou a receber respostas positivas em seu Twitter (um vício que ele alude como o “Riacho de Narciso”), o que o fez chorar mais uma vez. “E não posso acreditar neste público. Não importa o quão pequeno ele seja, eu não posso acreditar no quão inabaláveis eles são.”

Os fãs continuaram a ser mexidos, mas não agitados, pelo episódio de férias feito em animação de massinha, “Abed’s Uncontrollable Christmas” [O Natal Incontrolável de Abed]. E o brilhantemente concebido ataque de zumbis do programa de Halloween, “Epidemiology” [Epidemiologia] – levou um mês para os escritores criarem uma razão plausível para Greendale ficar infecciosa e mordente. Porque, por mais high concept as histórias possam parecer, elas são totalmente fundamentadas na realidade do programa.

Todavia, Harmon não quer programas que se destaquem pela excelência. Ou melhor, ele quer que a excelência se encaixe neles. “Esse se parece demais com um programa de esquetes para algumas pessoas”, ressalta. “Aquele cordão de pérolas que eu quis criar às vezes pode parecer um chão cheio de bolinhas de gude, e as pessoas estão escorregando nele.”

Então a resposta é tornar a bizarrice acessível. Não obstante os índices de audiência dolorosamente baixos do programa (mais recentemente, 1.5, de acordo com Harmon), ele foi escolhido para uma terceira temporada, e Harmon tem grandes metas para o outono [N.T.: Época de estreias de novas temporadas nos EUA.]. “Na terceira temporada, eu quero tentar de algum modo aumentar o desafio de quebrar essa diferença: Como eu posso manter essa licença criativa enquanto faço disso algo que pareça tão consistente e estável quanto The Office ou Cheers.”

Ou Heat Vision e M*A*S*H.

Dan Harmon Community Panel Comic Con(4)

Boa escrita pra você hoje! =D

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2 Comentários

  1. “Durante a pausa prolongada de trabalhos remunerados de Harmon, “eu desenvolvi muitos músculos criativos, inclusive destilando os mono-mitos de Joseph Campbell em um processo de oito passos tipo fórmula.” Harmon o ofereceu como um tutorial grátis para escritores bloqueados e o utiliza em Community.”

    Por favor, nos passe isso, se tiver como! =)

    Comentário por jack — 24/01/2012 @ 02:47

    • Oi, Jack! Pode deixar que depois de amanhã (dia 26/01) postaremos este texto. Obrigada pela visita! =)

      Comentário por valeriaolivetti — 24/01/2012 @ 10:37


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