Dicas de Roteiro

19/01/2012

Bloqueio de Escritor

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este é o artigo nº 2 do site Script Secrets do roteirista William C. Martell:

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OK, você está trabalhando em seu roteiro e dá de cara com um muro de tijolos. Não importa o que faça, você parece não ser capaz de contorná-lo. Você está bloqueado. O que você deve fazer? Arquivar o roteiro e começar outra coisa? Esperar por inspiração?

Inspiração? Isso é para não-profissionais! Profissionais não precisam de inspiração – nós temos prazos! Mas e se você não tem um produtor nos bastidores esperando impacientemente que você termine o seu roteiro? Ou, e se você tem um prazo… e ainda está bloqueado?

* * *

Quando estou emperrado, eu olho a cena na qual estou trabalhando e me pergunto:

  1. Qual é o propósito da cena?
  2. Quais são os fragmentos de informação que esta cena deve comunicar ao público?
  3. O que o protagonista (ou antagonista) quer nesta cena?
  4. O que os impede de conseguir o que querem? Qual é a adversidade?

* * *

Responda essas questões, crie outras e responda-as, e então coloque todas essas respostas onde a cena deveria estar. Talvez até escreva uma porcaria de versão descuidada da cena baseado naquelas respostas. É só um tapa-buraco, não a cena real. Daí, pule para a cena seguinte e faça uma tentativa. Talvez a próxima cena seja mais fácil.

O motivo de responder a todas essas perguntas e colocá-las na página? Você tem uma ideia muito aproximada do que a cena precisa ser – isso lhe dá algo com o que brincar mais tarde. Quem sabe, talvez, as respostas liguem o seu cérebro no tranco? Não se preocupe se isso não acontecer, porém; apenas passe para a próxima cena.

Você também pode tentar escrever uma cena sem sentido – qualquer que seja a cena na qual você esteja emperrado, agora ela tem que ser sobre uma debandada de burros. Escreva a cena de forma boba. Às vezes isso alivia a pressão e faz o cérebro trabalhar novamente.

PESSOAL & MECÂNICO

Mas o problema pode ser que você já tenha a parte técnica do roteirismo sob controle, mas perdeu a parte pessoal no processo. Escrever um roteiro é como fazer malabarismos com motosserras – às vezes você tem duas serras rodando no ar e tem dificuldade de incluir a terceira (ou acha que fazer malabarismos com duas motosserras provavelmente é bom o suficiente para conseguir entrar no programa JIMMY KIMMEL LIVE, já que eles arranjam convidados de terceira categoria de qualquer modo). Mas você precisa tornar-se confiante com as duas serras para então acrescentar um terceira.

Um dos maiores motivos pelos quais as pessoas se esgotam nos roteiros é que elas não têm nenhuma força propulsora, nenhuma conexão emocional com a história. É tecnicamente perfeito – o argumento é estruturalmente sólido – mas é mecânico. Uma vez que você tenha essa parte técnica sob controle, precisa procurar pelas razões pessoais e emocionais pelas quais você está escrevendo o roteiro. Como esta história sobre o sobrevivente de uma invasão alienígena à procura de outros sobreviventes entre os escombros de Nelsonville, Ohio, é a SUA história PESSOAL?

Isso significa que você tem que entrar em contato consigo mesmo (andar por aí, fingindo estar falando ao celular em público não conta). Você precisa cavar dentro de si e cavar dentro da história, e descobrir qual grande problema emocional seu esta história passada nas ruínas de Nelsonville, Ohio, está REALMENTE explorando. Dessa forma, você está conectado à sua história e não pode abandoná-la – ela é uma parte de você. Abandonar o roteiro seria como abandonar o seu braço esquerdo (o que pode combinar com a analogia do malabarismo com motosserras). Se você estiver emocionalmente ligado a um roteiro, não só o roteiro terá uma história melhor, como será quase impossível engavetá-lo (embora ele possa tornar-se tão emocionalmente doloroso que você pode querer fazer isso).

Tudo isto pode soar estranho – mas é como bons roteiros são escritos – o escritor encontra a interação entre uma história extremamente pessoal, a técnica de escrever um roteiro e as exigências do entretenimento popular.

Se estou escrevendo sobre um sobrevivente humano à procura de outros – eu estou escrevendo sobre ser solitário. Se meu roteiro tem alienígenas ainda zanzando por Nelsonville à procura de humanos, eu estou solitário e me sentindo alienado pela sociedade (os alienígenas são simbólicos). Se topo com um grupo de humanos que decide que eu sou tão alto que sou uma ameaça (os alienígenas nos encontrarão) (eu tenho 1,95 m de altura), e o grupo me rejeita… você pode acrescentar traição a essa mistura. Esta história boba pode ser toda sobre qualquer situação emocional pela qual eu esteja passando agora mesmo! E é isso o que vai me manter escrevendo o roteiro até o final – é uma terapia barata. Eu vou trabalhando os meus problemas pessoais conforme escrevo o roteiro. É um ambiente seguro para trabalhar esses problemas, porque ninguém jamais suspeitará de que a Líder Alienígena é a minha ex-namorada.

Todos os meus roteiros são sobre MIM, e têm toda a parte técnica, e eles são frequentemente sobre a busca por navios afundados, ou equipes SEAL da Marinha capturadas atrás das linhas inimigas, ou caçadores de vampiros que não conseguem mais confiar, ou vítimas de crimes que estão reencarnadas e à procura de vingança (você consegue uma nova oportunidade de vida e a arruína por carregar todo o ódio do passado).

Talvez você precise encontrar a SI MESMO em seus roteiros. O primeiro roteiro foi pessoal, então eles tornaram-se mecânicos, agora você tem que adicionar o lado pessoal de volta à mistura.

PESSOAL DEMAIS

Às vezes, o motivo pelo qual você tem bloqueio de escritor é porque o roteiro é pessoal DEMAIS. Ele pode estar lidando com uma questão ou evento com o qual você não está confortável de lidar ainda. Talvez o seu protagonista tenha que lidar com o fim de um relacionamento na história – e você ainda está tendo problemas devido ao fim de um relacionamento. A história está próxima demais para confortar – e você evita escrever porque está evitando essa dor pessoal. Este é um dos motivos por que eu sempre sugiro escrever sobre invasões alienígenas em Nelsonville, Ohio, ao invés de escrever sobre algum cara em Nelsonville que acabou de romper com sua namorada. Ao basear a sua história num mundo de fantasia, você pode ser mais emocionalmente honesto – não vai precisar proteger-se, porque a história é sobre alienígenas.

Mas às vezes nós experimentamos o bloqueio de escritor por causa de coisas que estão acontecendo em nossa vida pessoal que nada têm a ver com os nossos roteiros. Frequentemente, o bloqueio de escritor é um sintoma de depressão ou ansiedade em nossa vida diária. Como escritores, nós usamos a NÓS MESMOS como nossas ferramentas, portanto, quando as coisas dão errado na vida real, isso pode arruinar a escrita também. Esta é a coisa mais difícil de se lidar, porque mesmo após você perceber: “Ei! O motivo pelo qual eu tenho bloqueio de escritor é porque eu peguei a minha mulher na cama com o meu melhor amigo!”, isso não resolve o problema. Se você está lutando com sérios problemas pessoais, será difícil encontrar a energia para escrever. Problemas financeiros, problemas de relacionamento, problemas de saúde, problemas familiares – coisas desse tipo levam tempo para superar. Mas às vezes você pode encontrar uma cena que combine com o seu humor, e escrever isso — use quaisquer que sejam os seus problemas pessoais para estimular a sua escrita.

Você também pode usar a escrita como uma fuga de seus problemas pessoais. É para onde você vai sair em férias de fantasia, bem longe de todos os problemas com os quais pode estar lutando na vida real, e entrar num mundo de aventura e romance. Eu acho que foi assim que a maioria de nós começou a escrever quando era criança – precisávamos de uma fuga das pressões da vida, e inventávamos histórias. Embora seja mais difícil de nos iludirmos com a fantasia quando adultos, essa ainda é uma ótima ferramenta para fugir do bloqueio de escritor causado por problemas pessoais da vida real. Se você é um super-herói na página, não tem que lidar com as questões que o assombram na vida real… ou talvez você possa até fazê-las desaparecer no papel.

Não importa o quê – sempre termine os seus roteiros, mesmo se achar que eles são uma droga. Você pode reescrever um roteiro que seja uma droga, mas ainda estará eternamente preso escrevendo um roteiro que não está terminado.

Algum dia você estará mergulhando no fundo do mar, ou prestes a vencer uma corrida NASCAR, ou na cama com uma famosa modelo de lingeries, e BAM!, a solução para aquele problema do roteiro vai surgir em sua cabeça. Você vai saber o que está errado com o roteiro e como fazê-lo deixar de ser uma droga. Mas se não for um roteiro terminado, ou ele será trabalho demais, ou você não estará pensando nele, em primeiro lugar.

Faça o que fizer, não espere por inspiração. Você perderá o impulso. Encontre um modo de mourejar através das partes duras e continue seguindo até terminar. Ninguém disse que escrever roteiros ia ser fácil!

blog-block-7

Eu não tenho bloqueio de escritor,

eu só… ãhnn, ok… me dê um segundo aqui… hmmmm…

Boa escrita pra você hoje!

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