Dicas de Roteiro

12/01/2012

Longas de Emoção

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Oi, pessoal! Eu resolvi passar a traduzir este site como estou fazendo com o Wordplayer, da dica número 1 em diante, em ordem (apesar de já ter postado aqui a tradução de algumas de forma aleatória; se quiser encontrá-las, basta procurar “Martell” no campo de pesquisa ao lado). Então esta é a dica nº 1 do site Script Secrets, do roteirista William C. Martell. O título original deste artigo (Emotion Pictures) é um trocadilho entre “motion pictures”= filmes de longa-metragem e “emotion”= emoção. Optei por esta adaptação aproximada para o português.

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"Eu pensava que drama era quando os atores choravam. Mas drama é quando o público chora." – Frank Capra

O meu amigo John Hill (CONTRATADO PARA MATAR) chama os filmes de longas de EMOÇÃO porque as pessoas vão ao cinema para ter experiências emocionais. Elas querem sentir. Em nossas vidas diárias nós normalmente temos que conter nossas emoções – os filmes nos dão a chance de botar todas aquelas emoções para fora. Nosso trabalho como escritores é proporcionar ao público uma experiência emocional, seja medo por causa de um filme de terror, tristeza por causa de uma tragédia, romance por causa de uma história de amor, alegria e risadas por causa de uma comédia, animação por causa de um filme de ação. Nosso trabalho é criar essas emoções no público através de nossos roteiros.

CONTRATADO PARA MATAR

Imagine três engrenagens: a primeira engrenagem move a segunda engrenagem que move a terceira. O roteirista é a primeira engrenagem, e nós usamos os nossos roteiros (segunda engrenagem) para mover o público (terceira engrenagem). Nós estamos tentando comover o público emocionalmente. Para fazê-los rir ou chorar ou sentar na beira de seus assentos ou cobrir os olhos com medo. Cada parte de nosso roteiro deve ser projetada para criar uma resposta emocional na plateia. Nós estamos no negócio de cinema de EMOÇÃO. Emoções são deliciosas.

Sem emoções nós acabaremos é com um daqueles chatos filmes de ciência do colégio, onde o narrador desanimado fala tediosamente sem parar. Aquelas coisas me botam para dormir. Você quer que o seu roteiro tenha essência, animação, faíscas. Grandes dramas, grandes emoções… mova aquela engrenagem do público tanto quanto você puder. Quando tudo dá errado em nossas vidas, não podemos simplesmente desabar e chorar, mesmo se quisermos. Não podemos gritar com o nosso chefe ou começar a cantar de repente ou professar amor eterno àquela gostosona da contabilidade. Temos que manter o controle emocional, por isso precisamos de uma válvula de escape – um lugar seguro para rir e chorar e ter medo e se vingar… e esse lugar é a sala de cinema. Uma das principais razões pelas quais as pessoas vão ao cinema é para se emocionar…

E é nosso trabalho fornecer essas emoções.

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PEDRA DE ESTIMAÇÃO OU CACHORRO DE ESTIMAÇÃO?

Um filme (e qualquer forma de narração de histórias) é comunicação. Nós nos esforçamos para fazer o público se importar com o personagem, com a história se desenrolando, e SENTIR as emoções que os personagens sentem. Eu acredito que esse seja o principal critério ao se julgar um filme – ele me fez SENTIR? Eu estava emocionalmente envolvido com os personagens e suas lutas? Se um filme fracassa em me envolver, ele pode muitas atuações maravilhosas e/ou belas imagens, mas isso não é nada mais do que pornografia. Atuação pornô ou direção de fotografia pornô. Não é diferente de um filme de ação que é apenas um grande saco de cenas com dublês. Se eu não estou emocionalmente envolvido, o filme fracassou em um nível básico.

Um roteiro é como ter um animal de estimação. Quando eu era criança, eu tinha um cachorro, e aquele cachorro era o meu melhor amigo. Quando eu chegava da escola, ele estava me esperando no quintal dos fundos com um rabo abanando e uma bola de tênis babada. Ele sempre saltava para cima e lambia o meu rosto em saudação. Nós brincávamos e fazíamos caminhadas juntos, e quando eu andava na minha bicicleta, ele corria atrás de mim. Só olhar para o meu cachorro já me fazia sorrir. A maioria de vocês provavelmente já teve um animal de estimação em algum momento de sua vida, por isso tire um minuto para pensar sobre o seu relacionamento com seu animal de estimação…

Agora imagine que ele fosse uma pedra de estimação. Uma bela pedra, mas ainda assim uma pedra. Fria, sem emoção, morta. Imagine brincar no parque com a sua pedra. Imagine os sentimentos calorosos que surgem só de olhar para a sua pedra. Hmmm… sem sentimento nenhum, você diz? Por que isso? Você ainda é você, então por que um animal de estimação vivo mexe com as suas emoções, mas uma pedra o deixa frio?

Porque a pedra só fica lá, parada.

Você não quer escrever um roteiro que só fique lá, parado. Você quer que o seu roteiro seja vivo e excitante e emocional. Você quer que o seu roteiro tenha uma cauda abanando e pule no colo do público. Você quer criar roteiros que ativamente tragam emoções para o público. Claro, o público tem emoções, mas uma *pedra* não vai fazê-los sentir essas emoções.

IMPORTA-SE SE EU SENTIR ISSO?

O primeiro passo na criação de um roteiro emocional é perguntar qual emoção você quer que o público sinta com a sua história. Parece uma pergunta simples, mas você ficaria surpreso com quantas pessoas nunca pensaram no elemento emocional de suas histórias – e essa é a parte mais importante! Elas conhecem a história e os personagens, mas nunca pensaram em que tipo de experiência emocional a sua história poderia fornecer. O que estamos buscando é uma experiência emocional específica – não algumas emoções vagas ou todas as emoções sob o sol. O seu roteiro pode até nos fazer rir e chorar, mas vai fazer uma coisa mais do que a outra. Shakespeare escreveu comédias e tragédias, e, apesar do discurso de Shylock em O MERCADOR DE VENEZA ser sério e dramático, o resto da peça é uma comédia de travestismo. Embora Rosencranz e Guildenstern sejam brincalhões e engraçados em HAMLET, o resto da peça é uma história criminal tensa com um final trágico. Então descubra qual é a emoção primária que a sua história está explorando – você quer que o público ria? Você quer que eles chorem? Você quer que eles sintam medo ou tristeza ou arrependimento ou euforia ou animação ou…?

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Uma vez que você saiba qual é a emoção primária, olhe a história geral (especialmente o final) e certifique-se de que a sua história está trabalhando para produzir aquelas emoções na plateia. Agora olhe cada cena de seu roteiro – ela são emocionais? Reescreva as cenas para um impacto emocional máximo. Dê ao público uma verdadeira malhação emocional! Queremos realmente mover aquela "engrenagem do público" e fazê-los gargalhar ou chorar ou gritar de medo ou alegria. Usando nosso roteiros e nossas habilidades de escrita, queremos fazer o leitor sentir alguma coisa.

Não importa se o personagem chora… mas se pudermos fazer um leitor chorar com a nossa escrita, podemos acabar fazendo uma venda!

Como você faz o leitor sentir? Continue por perto! Muitas das dicas aqui apresentam métodos para criar uma história emocional, cenas emocionais, e uma resposta emocional no leitor e no público de cinema. Nosso objetivo é fazer com que as pessoas sintam. Olhe para cada cena do seu roteiro: O que você quer que o público sinta?

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Boa escrita pra você hoje! =)

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6 Comentários

  1. Olá. Gostaria de dar parabéns pelo blog – que é muito bom e tem me ajudado muito e aposto que a muitas outras pessoas também.
    Eu gostaria de saber uma coisa, eu nem sei se você já não respondeu isso ou se é uma pergunta ignorante e estranha demais: Como se faz para se tornar roteirista? (Não é só escrever bem, certo?)
    Me responda, por favor.
    Obrigada

    Comentário por Anna — 12/01/2012 @ 17:19

    • Oi, Anna, seja bem-vinda!

      Obrigada, Anna, fico feliz de saber que o blog tem te ajudado! 😀

      Não se preocupe, que essa é uma dúvida perfeitamente natural. Escrever bem já é meio caminho andado (ou mais!). O resto é criatividade, formatação e as dicas que a gente dá aqui no blog. Para a criatividade, eu recomendo muita leitura (de ficção e não-ficção, incluindo jornais e revistas) e assistir a muitos filmes e seriados. Para saber o básico do ofício, inclusive formatação e como começar (e terminar) um roteiro, eu sempre recomendo o livro do Syd Field, Roteiro – Fundamentos do Roteirismo, que foi o que mais me ajudou quando eu comecei. O livro do Robert McKee, Story – Substância, Estrutura, Estilo, é um excelente complemento. Existem vários outros, mas estes dois são fundamentais para qualquer principiante.

      E, para a parte mais difícil, que é vender o roteiro ou conseguir um emprego numa TV, bem, temos um post que pode ajudar um pouquinho: https://dicasderoteiro.com/2010/05/05/como-comecar-uma-carreira-de-roteirista-no-brasil/

      De resto, continue lendo os posts, temos muita coisa legal planejada para os próximos dias, semanas e meses (!!!) que vai ajudar e esclarecer muita coisa sobre este ramo.
      Um abração, Anna, obrigada pela visita, e muito sucesso pra você!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 12/01/2012 @ 17:40

  2. Excelente post, Valéria!

    Você tá cada dia melhor.

    Filme é emoção. Filmes são sonhos. É isso que nós fazemos. É isso que nos encanta e por isso que escolhemos ser roteiristas. Ou fomos escolhidos para isso. Quando temos a idéia de um filme, e sabemos onde queremos chegar com ele, queremos passar uma emoção, a mesma que sentimos ao criá-lo. Assim como a criação de uma idéia, e consequentemente um roteiro pronto, nos proporciona uma emoção. Muito mais queremos (ou devemos querer) provocar emoções no público. Mas, uma emoção específica. E isso é a primeira coisa que sabemos ao criar a idéia: o que queremos provocar no espectador. Embora muitas vezes não consigamos identificar essa emoção.

    É isso Valéria!!!!!

    É tudo emoção! A vida é emoção!

    Muitas e boas emoções em sua vida.

    Beijos!!!!!

    Comentário por Paulo Henrique — 13/01/2012 @ 14:06

    • Oi, Paulo Henrique!

      Obrigada!! Nossa, agora fui às alturas (mas já estou de volta, não se preocupe! Rsrs!). Fico super feliz que você esteja gostando do blog. Na verdade eu tenho ralado o dobro do normal para colocar textos mais longos (e algumas vezes mais complexos de traduzir) aqui. Mas eu me “formei” com estes textos, e assumi um compromisso de transmiti-los todos a vocês, porque eles é que farão a diferença, mostrando todos os aspectos do negócio, desde como escrever até como é o dia-a-dia do trabalho em Hollywood. Informação é algo muito valioso em nosso ramo, se você está munido com isso, já está um passo à frente de muita gente. E temos muito talento por aqui que não pode ser desperdiçado, por isso a minha vontade grande de fazer o trabalho que tenho feito no blog. Eu também sei que muita gente prefere os textos curtinhos e desanima de ler os mais longos, mas são eles que passam mais informação.

      Que todos nós possamos escrever com muita emoção (para que nossos leitores/espectadores a sintam também) e com técnica, para que não percamos esta emoção por não saber transmiti-la.

      Um abração, Paulo Henrique, e obrigadão pela força! Valeu mesmo! 😀 Uma ótima semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/01/2012 @ 10:30

  3. Chegando agora no blog e já estou gostando, não sou roteirista, mas gosto de causar emoções nas pessoas. Abraço e sucesso.

    Comentário por Adailson Alcãntara da Silva — 10/02/2012 @ 11:18

    • Oi, Adailson, seja bem-vindo! 😀

      Fico feliz que você esteja gostando do blog, espero que de algum modo ele sirva para você tocar o coração das pessoas! Um abração, obrigada pela visita, e muito sucesso pra você também! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 13/02/2012 @ 10:48


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