Dicas de Roteiro

08/01/2012

“Dragon Tattoo”: Por Que Tantas Refilmagens de Longas Estrangeiros Lutam Para Prevalecer

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Complementando o post de ontem, aqui vai mais um artigo tirado do site do jornal Los Angeles Times. O texto, de autoria de Steven Zeitchik, foi publicado originalmente em 27/dezembro/2011:

The Girl with the Dragon Tattoo

No papel, a ideia de um The Girl with the Dragon Tattoo [Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres] em idioma inglês fazia muito sentido. Pegue um livro que já vendeu 30 milhões de cópias ao redor do mundo, explore um conceito que já se provou cinematograficamente bem-sucedido (por meio de uma trilogia sueca) e adicione grandes estrelas e um grande cineasta. Um arrasa-quarteirão é certo de se seguir.

Neste fim de semana passado, no entanto, o The Girl with the Dragon Tattoo de David Fincher mostrou que a premissa era apenas um pouquinho falha. Apesar da presença de Daniel Craig e das façanhas apresentadas em inglês, o filme arrecadou até 19,4 milhões de dólares no fim de semana do feriado de quatro dias, bom o suficiente apenas para o quarto lugar na corrida das bilheterias do fim de semana.

A ideia por trás de produzir uma nova versão era tornar a saga de Mikael Blomqvist e Lisbeth Salander acessível a um público muito mais amplo. Mas a soma total dificilmente foi formidável quando se considera o número de cópias dos livros que foi vendido nos EUA. Se o filme atraísse, digamos, mesmo que 40% das pessoas que compraram o primeiro romance de Stieg Larsson, Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, e nem uma única pessoa mais, ele ainda teria feito mais dinheiro.

Os números vão subir, é claro; desde segunda-feira, "Dragon Tattoo" já obteve US$ 27 milhões nos EUA ao longo dos seis dias da semana de Natal. Mas para um lançamento com tanta publicidade e tanto reconhecimento de marca, esse número não pressagia nada de muito bom para as futuras semanas, ou para uma sequência.

O Estúdio Sony, compreensivelmente, aponta a forte concorrência, um longo tempo de exibição e uma classificação R [N.T.: Menores de 17 anos só podem entrar acompanhados de um dos pais ou de um responsável.] como inibidores para o sucesso do filme. Esses podem ser fatores, mas a verdade é que "Dragon Tattoo" não precisa considerar tais culpados específicos.

Muitas das obras, repletas de estrelas de Hollywood, baseadas em sucessos de língua estrangeira têm sido fiascos. No últimos anos, você pode enumerar filmes tão diversos como o drama de guerra Brothers (uma refilmagem de um longa dinamarquês) e a comédia de amizade Um Jantar Para Idiotas (uma versão de Steve Carell de um filme francês) como fracassos comerciais e de crítica.

Mesmo filmes que atraíram elogios – e "Dragon Tattoo" atraiu, apesar de algumas críticas céticas, como esta de Kenneth Turan, do L.A. Times – não persuadiram muitas pessoas a vê-los. Deixe-me Entrar, que, como "Tattoo", refilmou um sucesso cult sueco, e No Limite da Mentira, que adaptou um título israelense, foram ambos moderadamente assistidos. (Os Infiltrados, de Martin Scorsese, uma refilmagem do suspense de Hong Kong Conflitos Internos, é uma notável exceção).

Nenhuma simples teoria explica por que tantas refilmagens de filmes estrangeiros fracassam, embora os especialistas vão notar que uma sensibilidade estrangeira pode se perder na tradução. E, a despeito disso, muitos espectadores terão a sensação de que o novo filme não é muito novo (mesmo que relativamente alguns poucos tenham assistido de fato o original).

E tudo isto aponta para uma verdade: A ideia de adaptar uma fascinante história estrangeira e dar-lhe um brilho hollywoodiano não funciona tão bem quanto seus patrocinadores podem pensar. É uma lição valiosa, visto que outras refilmagens – tais como as novas versões do longa argentino vencedor do Oscar O Segredo dos Seus Olhos e a versão de Ben Affleck do suspense francês Ne Le Dis à Personne – estão sendo produzidas.

No momento em que "Dragon Tattoo" estava sendo lançado neste fim de semana, a Sony deu o passo incomum de mandar um e-mail aos jornalistas com as críticas favoráveis ​​da mídia sueca. Para quem pensava que Hollywood estava insensivelmente mexendo com um original, a mensagem parecia ser: Eis o que o berço do tal original teve a dizer.

Como o jornal Dagens Nyether, que, como o e-mail informou, julgou o longa de Fincher "um filme luxuoso e venoso que, de longe, supera a versão sueca." Como aqueles que têm feito novas versões de longas estrangeiros de sucesso foram descobrindo, porém, elogios como esse não importam muito neste país.

Sala de cinema vazia

Boa escrita pra você hoje!

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4 Comentários

  1. É notável que a cultura orgulhosa dos Estados Unidos não permite que as pessoas de lá vejam algo que vem de fora com bons olhos.
    Ninguém chega a ser manipulado, é claro, mas essa cultura faz com que a grande maioria subestime tudo o que é estrangeiro, mesmo
    tendo uma repaginada americana. Sem falar que uma tradução literária perfeita é quase impossível.

    Eu sou fã do David Fincher desde o comecinho da carreira dele, mas só sendo um mestre do porte do Scorcese pra alcançar o sucesso
    com uma trama internacional nos Estados Unidos.

    Boa postagem!

    Comentário por Fábio Cabral — 08/01/2012 @ 17:58

    • Oi, Fábio!

      Tem isso que você disse, talvez haja mesmo um preconceito de tudo o que vem de fora, principalmente europeu e latino-americano, acredito eu. O Scorcese superou isso talvez por ter escolhido um filme de suspense com mais ação, ou o preconceito contra refilmagens de obras asiáticas não seja tão forte, já que tem muita gente fã de animes japoneses e doramas coreanos. Sem contar os próprios filmes orientais, claro — o Tarantino, por exemplo, é um que fez sucesso bebendo direto desta fonte, sem nenhum disfarce. O “Matrix” dos irmãos Wachowski tem sequências inteiras tiradas de um longa de animação japonês de ficção científica. Talvez a receita esteja aí, no gênero dos filmes. Como os longas europeus e latino-americanos são mais dramáticos e intimistas (até mesmo os de terror e suspense parecem assim), talvez os americanos não gostem por este motivo, eles estão mais na onda da ação e da fantasia.

      A questão é: Quem descobrir o segredo de como fazer sucesso após sucesso em Hollywood estará podre de rico em dois tempos. É um desafio e tanto, para todos nós.

      Um abração, Fábio, e mil desculpas pela demora na resposta, meu relógio está andando mais rápido do que eu tenho conseguido acompanhar!
      Valeu pela visita e pela mensagem, gostei muito! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 11/01/2012 @ 11:27

      • “A questão é: Quem descobrir o segredo de como fazer sucesso após sucesso em Hollywood estará podre de rico em dois tempos. É um desafio e tanto, para todos nós.”

        Valéria, acho que a questão seja essa mesmo. Versões hollywoodianas de filmes estrangeiros não são simplesmente para “adequar” ao gosto do americano, ou porque aquele povo não gosta de legendas. Há toda uma questão de indústria aí: uma grande mercado que precisa ser alimentado, grandes investidores, grandes estúdios. Essa máquina está em busca de histórias que gerem boa bilheteria. Só isso. Se adaptar um filme de terror japonês deu certo, essa fórmula será repetida “n” vezes até se esgotar. Se um filme 3d fez uma bilheteria astronômica, vamos fazer tudo em 3d.

        Isso não é bom, nem ruim. É a característica daquele mercado que, em exceção o underground, é pautado por números. Os filmes devem se pagar, de preferência dar muito lucro.

        Concordo contigo quando diz que os longas europeus são mais dramáticos e intimistas. O público americano parece ser mais atraído por filmes com mais movimento, ação física e efeitos visuais.

        Comentário por Inteligivel — 13/01/2012 @ 22:16

        • É exatamente isso o que muitos roteiristas e diretores brasileiros ainda não se deram conta: Hollywood dominou o mundo porque funciona como uma empresa. E toda empresa deve ter lucro. E o lucro gera mais lucro, quando bem investido e administrado. Afora a televisão brasileira, que já percebeu isso há um bom tempo, só recentemente o cinema tem começado a se adequar a esta realidade. Não é necessário deixar a parte artística de lado. O desafio maior é fazer como os diretores de estúdio de Hollywood dos anos 1930-1950. Eles amavam a sétima arte tanto quanto eram bons administradores do negócio. Hoje em dia eles foram substituídos por executivos que não sabem nadica de nada de cinema, e que só conseguem ver números em sua frente. É possível unir a arte e o negócio, mas até para isso é preciso encontrar gente talentosa.

          Um abração, Leonardo, e uma excelente semana pra você! =)
          Valéria Olivetti

          Comentário por valeriaolivetti — 15/01/2012 @ 11:00


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