Dicas de Roteiro

06/01/2012

Charlie Kaufman: Por Que Escrevi “Quero Ser John Malkovich”

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este texto foi sugerido por outro de nossos colegas (você também pode fazer pedidos de tradução, basta mandar o link do artigo para o nosso e-mail dicasderoteiro@gmail.com ou simplesmente fazer um comentário em qualquer post. Essas sugestões bacanas enriquecem o nosso blog e são sempre bem-vindas!). A autoria deste artigo é do roteirista e produtor Charlie Kaufman, e foi tirado do site do jornal The Guardian:

Quero Ser John Malkovich

O roteirista cult revive o seu grande começo profissional – e dá algumas dicas de escrita

Meu primeiro trabalho como escritor foi em um programa de TV chamado Get a Life. O programa era principalmente no estilo de seus criadores, Chris Elliott e Adam Resnick, que haviam trabalhado no programa de David Letterman. Os roteiros de Adam eram a melhor coisa de Get a Life – e todos nós tentávamos escrever no estilo dele. Era esse o trabalho.

Eu fiquei frustrado com os resultados, mas me ocorreu que não havia solução, já que meu trabalho era tentar imitar o estilo de outra pessoa. A solução óbvia era encontrar uma situação em que eu estivesse sendo eu, e não outra pessoa. O maior obstáculo para isto é a sua crença profundamente arraigada de que “você” não é interessante.

Logo que consegui o trabalho, eu não conseguia falar na sala de redação. Eu estava trabalhando numa sitcom e não conseguia falar. Não era como se eu optasse por não falar, ou eu não falasse – eu não conseguia abrir a minha boca. Nenhuma palavra saía. E isso se prolongou por seis semanas. Eu pensei que ia ser demitido e, provavelmente, deveria ter sido.

Eu escrevi Quero Ser John Malkovich enquanto estava esperando pela [nova] temporada de contratação [de sitcoms]. A minha ideia era que eu iria escrever um roteiro e usá-lo para arranjar trabalho. Eu tive essa ideia de que alguém encontra um portal na cabeça de alguém, e eu tive uma outra ideia de uma pessoa que tem uma história sobre alguém tendo um caso com uma colega de trabalho. E nenhuma delas estava indo a lugar nenhum, então eu simplesmente decidi combiná-las.

Ele teve uma resposta muito positiva. Eu comecei a ficar um pouco conhecido. As pessoas iriam lê-lo e me dizer como ele era engraçado, me convidar para reuniões, me dizer que ninguém jamais iria fazer o filme. Eu tive talvez 15 reuniões como essa, de modo que eu realmente não estava esperando que ele fosse feito. Então ele chegou às mãos de Spike Jonze, e ele estava em posição de conseguir fazer um filme. Eu realmente não esperava que fosse qualquer coisa. Eu acho que nem o Spike. Lembro-me do filme indo para o Festival de Cinema de Veneza, que foi a primeira exposição que ele teve. Eu não fui convidado, mas eles foram: Spike e Cameron Diaz e Catherine Keener. Eu só recebi um telefonema dizendo que ele era essa coisa grande, e então todos aqueles artigos foram escritos sobre ele. Foi emocionante.

Contar histórias é inerentemente perigoso. Reflita sobre um evento traumático da sua vida. Pense em como você o vivenciou. Agora pense em como você o contou a alguém um ano depois. Agora pense em como você o contou pela centésima vez. Não é a mesma coisa. A maioria das pessoas acha que a perspectiva é uma coisa boa: você pode descobrir arcos de personagens, pode aplicar uma moral, você pode contá-la com entendimento e contexto. Mas esta perspectiva é uma deturpação: é uma reconstrução com sentido, e como tal tem pouca semelhança com o evento.

A outra coisa que acontece é o ajuste. Você descobre que parte da história funciona, qual parte embelezar, do que se desfazer. Você a molda. O seu objetivo é ser divertido. Isto é verdade para uma história contada em um jantar entre amigos, e é verdade para histórias contadas por meio de filmes. Não deixe ninguém lhe dizer o que uma história é, o que ela deve incluir. Como um experimento, escreva uma não-história. Ela terá a chance de ser diferente.

Eu vou lhe contar esta pequena história. Há algo inerentemente cinematográfico sobre isso. Eu corro em meu bairro, e um dia eu passei correndo por esse cara correndo na direção contrária: um cara mais velho, um cara grande tipo Hulk. Ele estava se esforçando, ofegando e bufando. Eu estava descendo uma pequena colina e ele estava subindo. Então, ele passa por mim e diz: “Bem, claro, é tudo ladeira abaixo desse jeito.” [N.T.: “Well, sure, it’s all downhill that way.” Isso é um trocadilho: “downhill” (ladeira abaixo), como em português, também significa que as coisas estão indo de mal a pior, e “that way” tanto pode ser “desse modo” quanto “nesse caminho”.] Eu amei essa piada. Fizemos uma conexão. Então, ficou na minha cabeça que este é um cara legal, e ele é meu amigo agora.

Algumas semanas mais tarde, eu estou passando por ele de novo, e pensando: “Ali está o cara que é legal.” Quando passamos um pelo outro, ele diz: “Bem, claro, é tudo ladeira abaixo desse jeito.” Então eu penso: “Ah, tudo bem. Ele tem um repertório. Eu não sou tão especial assim. Ele provavelmente disse isso a outras pessoas, talvez ele não se lembre de mim… mas tudo bem.” Eu ri, mas desta vez o meu riso foi um pouco forçado.

Então eu passei por ele outra vez, e ele disse isso de novo. E desta vez ele estava descendo e eu estava subindo a ladeira, então nem fez muito sentido. E eu comecei a me sentir mal quanto a isso, porque estou vergonhado por ele e acho que talvez haja algo de errado com ele. E daí isso simplesmente continua acontecendo. Eu provavelmente já ouvi isso mais sete ou oito vezes. Eu comecei a evitá-lo.

Eu gosto da ideia de que a história muda com o tempo, mesmo que nada tenha mudado do lado de fora. O que mudou está tudo na minha cabeça e tem a ver com uma percepção por parte do meu personagem. E a história só pode ser contada de uma forma particular. Ela não pode ser contada em uma pintura. O ponto é: é muito importante que o que você faz seja específico para o meio para o qual você o está fazendo, e que você utilize o que é específico em relação a esse meio para fazer o trabalho. E se você não puder pensar em por que ele deveria ser feito dessa maneira, então ele não precisa ser feito.

• Este é um resumo editado de uma palestra dada por Charlie Kaufman para o Bafta e o BFI. A série completa está em bafta.org/screenwriters.

• A manchete e a submanchete foram alteradas em 04 de outubro para refletir com maior precisão o que é dito no artigo. A manchete original era “Charlie Kaufman: Como escrever uma história” e a submanchete era “Seu objetivo é entreter. Se funciona, funciona, diz o cineasta cult”.

Charlie Kaufman

Eu baixei todas as transcrições completas desta série de palestras, e estão na fila para tradução. São sete roteiristas, com quinze a dezenove páginas cada palestra, então sairão em (muitas!) partes.

Boa escrita pra você hoje! =)

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4 Comentários

  1. Oi!Sou eu de novo,Rebecca! Eu gostaria muito que você me ajudasse!Então,eu quero escrever a minha série,mais tem que ser de comédia,mais eu não acho muito engraçado o que eu escrevo!Me ajuda!Da onde eu tiro esse senso de comédia dentro de mim?Sou ótima em dramas,mais a série tem que ser de comédia adolescente,por favor,me ajuda! Beijos

    P.S: Seu blog é perfeito!!Nunca se esqueça disso!

    Comentário por Rebecca — 07/01/2012 @ 03:29

    • Oi, Rebecca!

      Em primeiro lugar, obrigada!! Eu sei que o blog está longe de ser perfeito, mas fico muito feliz por você estar gostando dele, isso já me faz ganhar o dia! 😀

      Quanto à sua dúvida, bem, já temos um monte de posts sobre como escrever comédia, e vários na fila que sairão em breve, mas extrair senso de comédia de alguém é algo meio difícil. E por que você TEM que escrever uma comédia adolescente e não um drama? Não é melhor fazer um drama excelente e emocionante do que uma comédia morna e mediana? Use o seu talento, não fique seguindo modismos ou o que você acha que vai fazer sucesso. O próprio Charlie Kaufman deu o exemplo dele aqui neste mesmo post, e olha que os filmes dele são meio doidões, e ninguém acreditava de jeito nenhum que aquilo fosse virar filme. Mas ele seguiu em frente com coragem e hoje é um dos roteiristas mais (re)conhecidos do mundo. Por que não dar uma chance de botar pra fora o que você tem de melhor, ao invés de ficar cavucando dolorosamente dentro de si pra encontrar algumas pepitas de algo que você não está realmente interessada?

      Mas, seja como for, daqui pra frente teremos toda semana um post sobre comédia, é só terminar essas séries de artigos que saem todo começo de mês, que aí entraremos no esquema semanal que eu expliquei no post do dia 1º/01/12. Ainda teremos textos muito bacanas sobre o assunto, é só aguardar. Boa sorte, Rebecca, tomara que você encontre a sua “voz” e se realize através de sua escrita. O público agradece! 😀

      Um beijo, e um ótimo final de semana pra você! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 07/01/2012 @ 10:57

  2. Obrigado pela tradução Valéria, sabia que não seria em vão lhe indicar. Seu empenho segue ímpar dentre os que se debruçam sobre roteiro cinematográfico na internet no Brasil, Obrigado mesmo.
    Sigamos.

    Comentário por joaocamposnunes — 18/01/2012 @ 09:22

    • Não há de quê, João, sou eu que agradeço! 😀

      Fique à vontade pra mandar outros, eu adorei a dica. Ah, e a partir do mês que vem teremos a tradução completa das palestras, uma por mês, começando com o Kaufman. Espero que goste!

      Obrigada pela dica e pela força, João. Que 2012 seja cheio de alegrias e sucesso pra você!

      Um grande abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 19/01/2012 @ 13:26


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