Dicas de Roteiro

31/01/2012

Vendendo Uma História Sem Ser Um Roteirista

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:01
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Este artigo também é do roteirista John August:

Vendendo Ideias

Pergunta: Como milhões de outros americanos por aí, eu tenho o que meus pares consideram algumas ótimas ideias para filmes, baseadas em alguns personagens de desenho animado conhecidos. É um filme de ação de grande orçamento com atores, grande quantidade de efeitos especiais e uma reviravolta extremamente inteligente. Eu não sou capaz de escrever a coisa sozinho, mas posso participar de seu desenvolvimento. Qual curso de ação você recomenda? Existe um grupo de roteiristas competentes esperando por pessoas com ideias nas quais se basear? O que eu posso fazer para vender o meu conceito e ter outros desenvolvendo a história?

– Paul Threatt

Resposta: Nós geralmente não publicamos sobrenomes, mas “Paul Threatt” parece tão cosmicamente calculado para o sucesso, que quem iria resistir? Se eu fosse você, eis o que faria:

  1. Mesmo não sendo um escritor, faça o melhor trabalho que puder anotando as ideias, apenas em forma de prosa. Registre estes tratamentos no Sindicato dos Escritores. Tenha em mente que isto na verdade é muito pouca proteção, já que você não possui o direito de nenhum dos personagens registrados nos quais a sua ideia se baseia. Mas este empreendimento todo é um risco maluco, de forma que mesmo a fração de uma porcentagem de prudência vale alguma coisa.
  2. Mude-se para Los Angeles.
  3. Arranje um emprego em um dos seguintes lugares: uma grande agência, um grande estúdio, uma poderosa firma de gestão, ou para um cineasta de sucesso (produtor, roteirista ou diretor). Isto não é fácil, mas não é impossível. Comece na sala de correspondências, ou como um estagiário. Aprenda tudo o que você puder. Descubra quem são os melhores escritores.
  4. Trabalhe muito duro para que seja promovido a alguns degraus acima. Isto pode envolver trocar de empresa várias vezes.
  5. Neste momento, e não antes, apresente a melhor de todas as suas ideias para o seu patrão, ou outra pessoa poderosa com quem você tenha feito amizade ao longo do caminho. Então procure o cineasta que possa realizá-lo, e o estúdio que controla os direitos.

Se tudo funcionar perfeitamente, você pode ter um filme em produção em menos de cinco anos. O que é muito tempo, com certeza, mas na média do andamento da terra do cinema.

Esta situação toda pode soar forçada, mas é essencialmente o que tem acontecido por décadas. Quase todo mundo que vem a Hollywood tem uma ou duas ótimas ideias das quais estão convencidos que deveriam ser feitas. E, felizmente, notavelmente, eles estão certos. Boa sorte.

Selling Ideas

Boa escrita pra você!

Tenho a História, Mas Não Sou Capaz de Escrever

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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O texto de hoje foi tirado do site do roteirista John August:

Socorro

Pergunta: É possível vender uma “história”, “tratamento”, ou “argumento” em vez do roteiro completo? Eu vejo o tempo todo nos filmes créditos separados de história & roteiro. Eu tenho algumas ótimas ideias, mas nenhuma habilidade de escrever roteiros, e acredito que elas dariam grandes filmes. O que eu posso fazer?

– Edward Brock

Resposta: Os créditos de “história” e “roteiro” que você vê nos filmes na verdade são determinados pelo Sindicato dos Escritores após o filme estar terminado, e não significam necessariamente que uma pessoa escreveu um tratamento e outra escreveu o roteiro. Muitas vezes, a pessoa que recebe o crédito da história na verdade escreveu o roteiro, mas um escritor posterior mudou tanta coisa que apenas a essência da história permaneceu, reduzindo o crédito desta forma. Para registro, “Escrito Por” significa que o escritor recebeu tanto o crédito de “história” quanto o de “roteiro”. As regras são tão complicadas e controversas, que recomendo que você nem pense nisso, a menos que seja sortudo o suficiente de ter um filme de estúdio produzido.)

Em Hollywood, uma pessoa com uma ótima ideia e nenhum talento para a escrita é chamado de produtor. Ou executivo de estúdio. Ou empacotador do Ralphs [N.T.: Cadeia de supermercados do sul da Califórnia].

Eu estou sendo irônico, mas é a verdade. Tratamentos ou apresentações orais de ideias por não-escritores raramente vão a lugar algum. O que pode acontecer, e de fato acontece, é uma pessoa com uma ótima ideia fazer parceria com um escritor de verdade e, ou (a) eles decidem trabalhar nisso juntos, ou (b) de alguma forma, a pessoa convence uma terceira parte a pagar o escritor para escrevê-la. É assim que os estúdios desenvolvem filmes internos, e como um monte de produtores atua.

Meu conselho? Encontre um escritor. Se houver um escritor conhecido que seja perfeito para isso, procure-o através do agente dele. Ou encontre alguém que tenha escrito um roteiro realmente bom, talvez alguém saído de um curso de roteiro, e convença-o a fazer isso. Não vai ser fácil, mas é assim que se faz.

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Boa escrita pra você! =)

30/01/2012

Videoclipe – Argumento de Welcome To The Jungle – Guns N’ Roses

Filed under: Roteiro,Som — valeriaolivetti @ 08:00
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Voltando aos videoclipes, hoje temos a tradução do argumento do videoclipe da música dos Guns N’ Roses, Welcome To The Jungle, escrito e dirigido por Nigel Dick.

GUNS N’ ROSES – Welcome To The Jungle [Bem-vindo à Selva]
Filme do Dick nº 171

Escrito em: 10/7/1987

O GUNS N’ ROSES irá executar o número no palco do Whiskey. Nós filmaremos os close-ups da banda durante o dia e daí deixaremos entrar um público normal naquela noite, e os filmaremos durante seu show ao vivo. Eles tocarão a música talvez duas ou três vezes durante o show. Provavelmente haverá a necessidade de uma iluminação extra para o show no palco, além da que eles têm no Whiskey, mas não estamos falando de equipamentos de iluminação pesados etc. Nós gostaríamos de ter acesso a uma pequena grua.

O CONCEITO: (Para ser intercalado com a performance):

PARTE UM

Axel (o vocalista) salta de um ônibus de viagem em Hollywood, à noite. Ele acaba de chegar na cidade, completo com mala e violão. (Para ser rodado em locação no dia 2).

PARTE DOIS

Axel caminha até uma loja de televisores e olha a vitrine. (Externa noturna – dia 2).

PARTE TRÊS

POV [ponto de vista] de Axel da vitrine da loja de televisores. Há uma série de aparelhos de TV, todos mostrando variadas cenas de violência, distúrbios civis, propaganda contemporânea etc. Estes fragmentos de filmagem precisariam ser obtidos da biblioteca. Os anúncios de TV podem ser qualquer coisa dos últimos 5 anos, mas não precisam mostrar tomadas de embalagens ou nomes de produtos. Todos os televisores devem ser diferentes. Gostaria de sugerir que construamos esta vitrine num set de filmagens. (Para ser rodado em um estúdio no dia 2).

PARTE QUATRO

Axel está num quarto de um hotel decadente com uma garota. Eles estão assistindo vários aparelhos de TV. Mais uma vez, as telas estão repletas de imagens violentas. Entre essas imagens devemos incluir o Manson, o Perseguidor Noturno e outras figuras-“chave”. Gostaria de sugerir que este quarto seja construído num set de filmagens. (Para ser rodado em um estúdio no dia 2).

PARTE CINCO

Axel está agora amarrado em uma grande cadeira numa sala clínica. Ele veste uma camisa de força e tem a cabeça presa numa cinta. Ele é forçado a assistir a uma série de modernos monitores de TV de alta tecnologia. (Estes não são os monitores que vimos anteriormente). Mais uma vez, as imagens na tela são de violência. Eventualmente Axel grita, aterrorizado. Gostaria de sugerir que esta sala seja construída em um set de filmagens. (Para ser rodado em um estúdio no dia 2).

PARTE SEIS

Reprise da Parte Três. Vemos o rosto de Axel gritando em todas as telas de TV da vitrine da loja. (Atenção: Esta é a primeira vez que todas as telas de TV estão mostrando a mesma imagem simultaneamente).

PARTE SETE

Reprise da Parte Dois. Axel está de pé em frente à vitrine da loja de televisores. Ele vê a si mesmo gritando na TV, dá de ombros e se afasta.

FIM

Acho que eu não sabia como soletrar o nome de Axl corretamente – eu não conhecia a banda quando escrevi isto. O tratamento basicamente foi entregue a mim por Alan Niven pelo telefone, e eu o coloquei em ordem e digitei, que é a maneira como Alan e eu trabalhamos; eu acho que é por isso que digitei a expressão figuras-“chave” do jeito que fiz. É interessante notar a fascinação inicial de Axl por Manson, antes mesmo do lançamento do primeiro álbum.

GunsNRoses

Boa escrita pra você hoje! =)

29/01/2012

Os Panteras de Smallville – Um Conto de Dois Ícones

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este é mais um artigo da revista Written BySummer (Verão) 2011, do WGA, páginas 14 a 17. A matéria é de autoria dos roteiristas Miles Millar e Alfred Gough, retratados abaixo (esta foto também foi retirada da mesma matéria):

Miles MillarAlfred Gough

Miles Millar (à esquerda) e Alfred Gough têm sido parceiros de escrita desde os anos 1990.

Uma dúzia de paparazzi estavam descaradamente acampados nas varandas dos apartamentos do outro lado da rua. Eles brandiam suas câmeras como assassinos, e não havia absolutamente nada que pudéssemos fazer quanto a isso. Eles estavam esperando pela tomada das três lindas mulheres que estavam prestes a sair do edifício Art Deco do lado oposto – o prédio que tínhamos temporariamente transformado na Agência de Detetives Towsend. Era o dia sete de nosso piloto de As Panteras. Tínhamos fechado uma parte da famosa Ocean Drive de Miami para rodar a parte final de nossa sequência de abertura principal.

Na “ação”, as portas artisticamente talhadas se abriram e as nossas três panteras surgiram para a luz beijada pelo sol. Elas eram uma visão em branco, um trio de combate ao crime com frescor feminino, caminhando em câmera lenta. Multidões de curiosos ficaram boquiabertas de trás das barricadas, enquanto os botões automáticos de disparo de fotos dos paparazzi zuniam.

Rachael Taylor-Minka Kelly-Annie Ilonzeh

“Corta.” As panteras se retiraram para dentro, enquanto nós nos afundávamos em nossas cadeiras para nos informarmos com nossos solitários BlackBerries. Casualmente, nós clicamos para abrir um e-mail de um executivo da TV Warner Bros.: “O último dia de produção de Smallville, obrigado pelas memórias, pessoal.” Isso foi como ouvir que um colega do ensino médio tinha morrido – um com quem você saía na adolescência, mas que tinha acabado perdendo contato. Não era segredo nenhum que esta seria a última temporada do programa, mas a notícia chegou como uma surpresa pungente. Os personagens e o mundo que tínhamos trazido à vida por uma década estavam prestes a ser silenciados para sempre. O exército de pessoas que prepararam o programa com esmero iria agora se dispersar, e outra produção se mudaria para a abandonada fábrica canadense de iogurte que Smallville tinha chamado de lar.

Nós dirigimos Smallville por sete anos. Nós conduzimos com sucesso o programa através de três mudanças de regime da rede de TV, cinco mudanças de horário, e até sobrevivemos ao cancelamento da WB. Nós nunca consideramos a nossa sobrevivência como certa. E nunca imaginamos que o programa que criamos poderia durar 10 temporadas. Nós nos desligamos dos nossos deveres diários de comando do programa três anos atrás. Logo após a greve ter terminado. Após 152 episódios, pareceu o momento certo de navegar por águas criativas diferentes. Nós supomos que tínhamos contado todas as histórias que queríamos contar.

O MELHOR DE AMBOS OS MUNDOS

Nós partimos para Nashville para produzir o longa de Hannah Montana para a Disney, e colocar a nossa energia na construção da nossa nascente companhia de produção. Nós conseguimos passar um tempo com nossas famílias, jogar tênis nos finais de semana, e viver existências civilizadas de não-diretores de programa. A nossa agente de TV ainda ligava e balançava à nossa frente projetos e acordos em potencial, mas estávamos relutantes em entrar novamente nas águas traiçoeiras de desenvolvimentos para a TV. Quando ela ligou e disse que a TV Sony queria que repaginássemos As Panteras, ficamos hesitantes.

Tendo revisado a mitologia do Super-Homem em Smallville, nós não queríamos tentar a sorte duas vezes lidando com outra franquia adorada. Também sentíamos que seríamos cúmplices no fomento do “buraco negro da originalidade” atualmente girando sobre Hollywood. Agora, mais do que nunca, os estúdios não estão dispostos a girar a roleta criativa por meio de novas ideias. Ainda assim, os horários das TVs também são cemitérios de refilmagens fracassadas.

Foi só quando ambas as nossas esposas disseram que não deveríamos tocar nisso, que decidimos dar uma segunda olhada. Em suas mentes, nós não tínhamos nada que ficar mexendo com uma franquia que significou tanto para elas enquanto cresciam. Suas reações e devoção às Panteras nos surpreendeu, mas também nos fez pensar. Gostávamos do desafio de criar algo que fosse à altura do original e que pudesse inspirar uma nova geração. O fato de que este era um put pilot [N.T.: Piloto que a rede de TV concordou em exibir. Se ele não for ao ar, a rede deverá pagar substanciais sanções monetárias ao estúdio, o que costuma garantir que a TV exibirá o piloto.] também não era ruim. O projeto era nosso para fodermos com ele. Nós engolimos em seco e dissemos que faríamos. A nossa agente pôs um acordo no lugar tão rápido que nos deixou perplexos.

Em nossas mentes, escrever um piloto é sempre mais assustador do que escrever um longa. Um piloto tem de fornecer a base para uma série que tem o potencial de ser exibida por anos. O mundo, os personagens, e a “franquia”, todos têm de ser completamente formados e engendrados em um pequeno roteiro de 60 páginas. O fato de tanto Smallville quanto As Panteras serem ícones, amplifica o desafio. É uma benção em termos de publicidade, mas uma maldição, porque, a menos que supere as expectativas do público, você estará condenado. Eles vão se sintonizar para assistir você fracassar. Reconhecimento de nome pode lhe comprar uma grande estreia, mas um piloto é totalmente sobre procurar convencer o público a voltar para o episódio dois.

Pode parecer que o sucesso de Smallville era uma coisa certa. Mas, na época, os céticos superavam em número os crentes, numa relação de 10 para 1. O mundo ainda não tinha sido inundado por uma tsunami de filmes com temas de super-heróis. Isto foi antes que a gigantesca máquina de fazer franquias da Marvel tivesse invadido os cinemas multiplex. O público em geral não estava familiarizado com todos os detalhes dos X-Men, do Homem de Ferro, ou do Homem-Aranha. Batman – O Cavaleiro das Trevas, como imaginado por Christopher Nolan e David Goyer, ainda não tinha surgido. Super-heróis eram para nerds e crianças viciadas em desenhos animados.

Muita coisa mudou em 10 anos. Hollywood agora venera os geeks de revistas em quadrinhos, e a Comic-Con anual de San Diego tornou-se uma peregrinação religiosa, tanto para as estrelas quanto para os executivos. A “erudição” de revistas em quadrinho originais é tratada com a reverência de um texto religioso. Nós brincamos que se quiséssemos desenvolver Smallville hoje, seríamos chutados por cima da torre d’água da Warner Bros. Naquela época, o Super-Homem era considerado brega e chato por muitos. Lois e Clark tinha sido cancelado algumas temporadas antes, e um projeto de longa estava estagnando no inferno do desenvolvimento.

Hoje, a Warner Bros. tem um “comitê criativo” que guarda o seu cofre de propriedades de revistas em quadrinhos, e que nunca teria nos permitido “revisar” a mitologia do Super-Homem. Não teria havido nenhuma chuva de meteoritos de Criptonita caindo sobre Smallville; Jonathan e Martha Kent teriam sido aposentados cheios de rugas, e Lex Luthor certamente não teria sido o melhor amigo de Clark.

BOM DIA, PANTERAS

De muitas maneiras, As Panteras foi mais fácil de repaginar do que Smallville, porque é um programa de procedimentos detetivescos. As Panteras solucionam casos a cada semana. Se este programa tivesse uma chance de atrair um novo público, teríamos que agitar as coisas. Em primeiro lugar, queríamos que o programa tivesse pé no chão. Sem acrobacias de mau gosto ou piscadelas para a câmera. Sem ninguém pendurado em fios ou ação ao estilo Hong Kong. Nós demos a cada uma de nossas Panteras passados criminosos e conjuntos distintos de habilidades. Nós criamos uma mitologia para o seu misterioso patrão, Charlie Towsend. A última grande mudança foi a locação: Nós transplantamos a Agência Towsend da Robertson Boulevard para a Ocean Drive. Miami parecia muito mais contemporânea, glamorosa e perigosa do que Beverly Hills.

Em ambos os projetos, tivemos a boa sorte de colaborar com dois dos melhores diretores de pilotos do ramo. David Nutter trouxe o mundo de Smallville à vida. Ele foi meticuloso na preparação e nos ajudou a acrescentar alguns toques inspirados ao roteiro. Foi um piloto imensamente ambicioso, e inovou em termos de efeitos visuais televisivos. Nós aprendemos muito trabalhando com David. Antes de Smallville, tivemos dois pilotos produzidos – BlackJaq e The Strip – mas este foi o primeiro em que nós afirmamos plenamente a nossa visão como criadores. Nós nos inserimos em todos os aspectos da produção e não deixamos nenhum detalhe ao acaso. Daquela vez, nós merecemos as nossas insígnias de diretores do programa.

Marcos Siega dirigiu As Panteras. Nós éramos fãs de seu trabalho no piloto de Diários do Vampiro. Sentíamos que ele traria um grande estilo visual, mas que também iria capturar o tom do programa que queríamos criar. O único problema: ele não estava disponível. Nós nos reunimos com alguns diretores de longas, mas finalmente assumimos o risco e decidimos esperar por Marcos, torcendo para que o piloto ao qual ele estava ligado morresse nos refugos dos pilotos. A aposta recompensou. Em todas as fases do processo, ele provou-se ser o diretor mais inclusivo com quem já trabalhamos, uma estrela do rock total.

É claro que a dura realidade é que não importa o quão grande é o seu roteiro, ou quem o está dirigindo – a escolha do elenco é o elemento decisivo de todo grande programa de TV. Estrague isso e você está engessado. Isso é provavelmente 10 por cento de bom gosto e 90 por cento de pura sorte e momento propício. A coisa pela qual nós sempre procuramos é “doçura”. Assistir televisão é uma experiência tão íntima, que sempre nos perguntamos: Nós convidaríamos este ator para nossos lares uma vez por semana?

Tivemos a sorte, com ambos os pilotos, de começar cedo a nossa caçada aos atores. Tivemos que começar três meses antes do frenesi de abastecimento de janeiro, quando 85 pilotos competem pelo mesmo e limitado poço de talentos. Em Smallville, nós conduzimos uma busca em âmbito nacional pelos personagens icônicos de Clark Kent e Lana Lang. Nós assistimos centenas de fitas de VHS e descobrimos Tom Welling e Kristen Kruek. Lex Luthor provou-se ser mais difícil de encontrar. Nós lutamos contra a rede de TV, que queria um Lex latino. Cinco dias antes de começarmos a gravar, Michael Rosenbaum veio e nos surpreendeu. Ele tinha feito um teste três meses antes, mas estava gripado na época e se saiu mal.

Andar nos saltos altos da Farrah Fawcett e da Drew Barrymore é uma coisa difícil. O desafio de escolher o elenco de As Panteras era encontrar três mulheres que fossem sucessoras dignas das Panteras do passado. Todo mundo queria que as Panteras fossem “mulheres, não garotas.” Nós selecionamos duas de nosso trio, Annie Illonzeh e Rachael Taylor, mas daí batemos num muro.

Nós provavelmente vimos todas as atrizes entre as idades de 25 e 30 anos em ambas as costas. Então conhecemos Minka Kelly. Nós dois sentimos que ela seria uma Pantera perfeita, sendo que o único problema era que ela não era certa para nenhuma das Panteras do nosso roteiro final. Com o consentimento do estúdio, nós desmembramos o roteiro e fizemos uma reescrita de cima a baixo e adaptamos um papel para Minka. Foi um risco calculado, mas ela tinha todas as qualidades que queríamos.

Nós tínhamos as nossas Panteras.

Nós suportamos noites de temperatura abaixo de zero na zona rural de Vancouver gravando Smallville, e estávamos mais do que felizes de trocar as nossas botas Gore Tex e as jaquetas tipo boneco da Michelin por bermudas e camisetas em As Panteras. Quanto aos pilotos, ambos tiveram longas gravações: 21 dias para Smallville e 17 para As Panteras.

Michelin-man Jaqueta tipo Michelin Man

Agora, enquanto escrevemos isto, estamos passando longos dias e noites tentando freneticamente cortar 60 horas de gravações para uns 42 minutos de acelerar o coração e causar desmaios.

O cronograma em velocidade de dobra da pós-produção parece ter ficado ainda mais curto desde Smallville.

Se As Panteras tiver sorte o suficiente para conseguir um pedido de série [e conseguiu], nós enfrentaremos o longo e quente verão antes da estreia: os problemas iniciais de produção, as sessões intermináveis de análise da história, e as chicotadas contundentes dos críticos de TV da nação, até os espectadores finalmente entregarem seus vereditos e nós descobrirmos se, de alguma forma, capturamos relâmpagos em uma garrafa duas vezes. Dadas as estatísticas de sobrevivência dos novos programas de TV, as chances são diminutas… mas nós vivemos na esperança.

Durante a greve dos roteiristas, havia uma atmosfera de otimismo de que a indústria poderia usar este momento traumático para mudar. A insanidade da temporada de pilotos poderia finalmente ser melhorada. Se os últimos cinco meses nos ensinaram algo, é que isso está pior do que nunca. Prazos mais apertados, mais anotações críticas, e mais camadas de burocracia. Fazer um piloto continua sendo um teste de resistência à base de Advil e Red Bull. É a coisa mais próxima que a nossa indústria tem de uma prova de Ironman. Agora que nós terminamos, não podemos esperar para fazer isso de novo no próximo ano.

As Panteras

Boa escrita pra você hoje!

28/01/2012

O Grande Paradoxo da Criatividade

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:01
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O artigo de hoje é de autoria do roteirista, professor e consultor de roteiros David Trottier, e foi tirado de seu site, Keep Writing:

Escher

Quando o meu professor de escrita criativa da faculdade me perguntou sobre o meu ensaio desleixado, eu expliquei-me em termos claros: “Eu sou um escritor. Portanto, eu devo ser completamente livre para criar.” Isso soou razoável na época, e talvez você concorde comigo agora. Afinal de contas, o “lado direito do cérebro” – o artista interior – opera no máximo de criatividade quando o “lado esquerdo do cérebro” – o crítico interior – está de outra forma ocupado ou relaxado. Portanto, é apenas lógico que nós, escritores, sejamos mais criativos quando nenhuma limitação ou restrição é imposta sobre a nossa escrita. Certo?

Bem… não necessariamente.

O grande paradoxo é este: Restrições cultivam a criatividade.

É verdade que o seu artista interior pode ficar frustrado pelas intromissões de seu crítico interior, mas parâmetros externos são justamente o desafio que o seu lado direito do cérebro aprecia. Parâmetros impostos podem ser inspiradores!

Uma Lição de Hitchcock

Psicose é considerado um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, e ainda assim há apenas dois atos de violência no filme inteiro. Alfred Hitchcock e o roteirista Joseph Stefano não tiveram permissão de mostrar nudez, nem podiam mostrar uma faca penetrando realmente num corpo. Tripas e sangue tampouco eram permitidos. Na agora famosa cena do chuveiro, a nudez é implícita, e a faca é justaposta ao corpo, mas nunca é visto ela entrando no corpo. O chocolate Hershey rodopiando ralo abaixo me aterrorizou quando criança. Em uma palavra, Hitchcock e Stefano foram forçados a ser criativos na forma como escreveram e rodaram aquela cena. As limitações ajudaram a criar um clássico. Hoje, existem poucas ou nenhuma restrição aos filmes do gênero de terror, e o que nós geralmente temos? Mais e mais sangue e tripas, com pouca criatividade. A arte não tem avançado.

Certamente é possível ser criativo sem restrições. Você já experimentou isso em sua própria escrita. Aquele fluxo criativo sagrado que lhe transporta para o Nirvana do Escritor. Mas as limitações podem ser úteis, também, e até divertidas. Enquanto escrevo, eu estou curtindo o desafio de aparar este artigo para até 800 palavras. Ao fazer isso, eu me encontro refinando a minha pequena obra, para que eu me conecte melhor com você (eu espero).

Bloqueios Como Pontes

Você já se sentiu bloqueado um momento ou outro pela cogitação de restrições editoriais? Talvez as limitações lhe lembrem um pai ou mãe excessivamente crítico, ou uma desagradável figura de autoridade do passado, mas eles podem lhe inspirar, se você abandonar a sua reação de resistência inicial. Com um pouco de reflexão, o bloqueio que você sente torna-se uma autêntica ponte para uma escrita melhor.

Muitas das grandes músicas do passado foram encomendadas; o compositor não iniciava o projeto e estava confinado às formas musicais da época. Até o hip-hop e o rap aderem a alguma forma ou formato. Tudo o que é artístico tem dois componentes – forma e conteúdo. A criatividade resulta de como você trabalha o conteúdo dentro das restrições daquela forma. Sim, e às vezes o escritor transcende essa forma. Dickens escreveu Um Conto de Natal como uma série de jornal que mais tarde tornou-se o livro clássico.

Talvez a forma de escrita mais restritiva seja o soneto. Ainda assim, algumas das poesias mais lindas do mundo aparecem em forma de soneto. Eu lembro da dor e da alegria de escrever um poema em pentâmetro iâmbico. O meu professor de escrita criativa da faculdade me mandou escrever algo digno do grande poeta e escritor William Wordsworth. Levei 14 horas para escrever 14 linhas, mas eu sou um escritor melhor por isso. Além do mais, três revistas me pagaram para publicá-lo. E, mesmo não sendo digno de Wordsworth, ele foi ótimo para Trottier.

Diversão Com Uma Camisa de Força

Anos atrás, uma produtora de cinema independente pagou-me uma quantia irrisória para escrever um roteiro de longa-metragem. Ela me deu uma lista de doze parâmetros, inclusive uma batida de carros com dois veículos, uma queimadura (ou seja, tinha que ser ateado fogo em um personagem), e a limitação de apenas uma locação externa. Eu me senti tão limitado. Foi só depois de eu ter me estapeado no rosto algumas vezes e aceitado os parâmetros dela que o processo de escrita tornou-se tanto um desafio quanto uma alegria.

Michelangelo via a si mesmo, antes de tudo, como um escultor. Quando o Papa Júlio II encarregou-o de decorar a Capela Sistina com afrescos, ele não estava inicialmente interessado ou inspirado. E, no entanto, ele mudou sua atitude, e o resultado é considerado uma das maiores obras de arte do mundo.

Você quer melhorar a sua criatividade? Desenvolva e incentive o seu artista interior, e abrace as restrições como se fossem um amigo de confiança. Esta nova atitude pode lhe libertar para ser o melhor escritor que você pode ser.

Este artigo foi tirado, em parte, de uma seção do The Freelance Writer’s Bible.

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Boa escrita pra você hoje! =)

É Arriscado Escrever Em Especulação Algo Em Domínio Público?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Eis mais um texto do roteirista John August sobre adaptação, para fecharmos a série sobre este assunto:

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Ultimamente eu tenho adaptado romances e contos que estão em domínio público, e estou preocupado de que algum produtor para quem eu envie uma carta de consulta possa simplesmente esquecer de mim e contratar uma outra pessoa para adaptar o mesmo romance depois da minha carta de consulta colocar em sua cabeça que aquilo daria um bom filme.

Agora, eu sei que roubar ideias raramente acontece e que não há nada que eu possa fazer para proteger os meus direitos com uma história de domínio público, mas se um produtor para quem eu enviar uma carta de consulta decidir adaptar o mesmo romance que eu adaptei sem usar o meu roteiro, bem, então o meu roteiro está praticamente anulado, certo?

Basicamente, eu estava curioso para saber se você acha que eu deveria parar de me preocupar e tentar vender essas adaptações, ou eu devo focar em tentar vender os outros dois roteiros que escrevi (que são baseados em histórias verdadeiras das quais eu detenho os direitos) e, a seguir, sacar as minhas adaptações logo que eu forjar uma relação de trabalho com um produtor?

– Rob
Ohio

Seria chato se um produtor, ao ler a sua carta de consulta (ou ouvir a apresentação de sua ideia), decidisse sair correndo e usar o mesmo material de domínio público como base para o roteiro de um escritor diferente? Sim.

Isso é provável? Na verdade, não.

Digamos que você escreveu uma adaptação de algum trabalho menos conhecido de Christopher Marlowe. Digamos, "Dido, A Rainha de Cartago". É improvável que o produtor saiba alguma coisa sobre a história, por isso, se a sua apresentação (ou carta de consulta) for interessante o suficiente para ele querer saber mais, ele vai ler o seu roteiro. A essa altura, você já teve sucesso em fazer um produtor ler o seu material, e esse é o objetivo principal das apresentações e cartas de consultas neste estágio de sua carreira.

Claro, você espera que ele o ame e queira produzi-lo. Mas tudo isso depende da reação dele à sua escrita. Se ele gostar de sua escrita, e gostar da ideia, você é ouro. Se ele não gostar de sua escrita, a perda é dele.1

De qualquer maneira, eu acho improvável que o seu roteiro de repente acenda um interesse em uma propriedade literária por muito tempo ignorada. Tenho certeza de que há casos em que isso aconteceu, mas parecem exceções, e não a regra. Assim, se o melhor roteiro que você tem disponível é uma adaptação de uma peça de domínio público, com certeza mostre-o para as pessoas ao redor.

1 Como um lembrete, eu presumo que todo mundo que escreve uma pergunta aqui seja um roteirista fantástico. Este é um postulado absurdo, mas me permite dormir melhor à noite.

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Boa escrita pra você!

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