Dicas de Roteiro

16/11/2011

Defina os Personagens Com Verbos, Não Com Adjetivos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 23:00
Tags:

Este artigo, escrito por V. Prasad, foi tirado do site The Script Lab:

adjetivos

A coisa que você sempre tem que lembrar sobre escrita de roteiros é que você está escrevendo para três coisas: uma câmera, um microfone e os atores.

Uma vez que o financiamento esteja arranjado, o elenco do roteiro tenha sido escolhido e a equipe tenha preparado a primeira tomada, fazer um filme se resume a atores fazendo e dizendo coisas que o diretor de fotografia e o homem do som (ou mulher) possam gravar.

A diferença entre um romancista e um roteirista é que um roteirista deve contar sua história só com verbos e substantivos. Porque essas são coisas que você consegue colocar na tela. Essas são coisas que conseguimos ver.

O roteirista nunca deveria escrever: "A casa está uma bagunça." Isso é escrita de má qualidade. Porque não podemos ver isso. Em vez disso, o roteirista deve mostrar a roupa suja no chão e as embalagens vazias de comida chinesa tombadas na mesa de centro. O truque é usar adereços e objetos cenográficos (substantivos) para transmitir a "bagunça".

O mesmo vale para personagens. O público baseia a sua primeira impressão nas coisas que vê. Como o personagem se parece? O que ele/ela está vestindo? Como o seu apartamento e escritório parecem? E assim por diante.

Mas isso não para por aí. Se fosse assim, nós só conseguiríamos conhecer esses personagens superficialmente. Os substantivos nos ajudam a capturar o que está na superfície. Mas, como nós ultrapassamos isso para chegar a quem os personagens são por baixo, em seu âmago?

Tudo se resume a duas questões: (1) O que este personagem quer? e (2) Como ele se compromete a conseguir isso?

O que um personagem está tentando alcançar (sua meta) exprime quem ele é e o que ele valoriza na vida. Mas, tão importante quanto isso são as medidas que ele tomará para obtê-la.

Pegue esta situação comum nos filmes: Um vilão tem uma arma apontada para o herói, com a intenção de matá-lo. O objetivo do herói é, obviamente, permanecer vivo. O que ele decide fazer quanto a isso?

Ele poderia atacar o vilão. Ele poderia negociar com ele. Ele poderia distraí-lo e fugir. Ele poderia implorar por sua vida. Observe os diferentes verbos e como eles evocam personagens totalmente diferentes.

Muitos livros sobre interpretação têm listas de verbos ativos para os diretores e atores usarem ao analisar um roteiro (eu recomendo o Directing Actors [Dirigindo Atores], de Judith Weston).

Mantenha essas listas perto de você enquanto escreve. Na hora em que você encarar uma nova cena, pense sobre o que os seus personagens querem e quais ações (verbos) eles tomarão para obtê-lo.

Eles vão seduzir? Se humilhar? Lisonjear? Ameaçar? Todas essas são coisas que um ator pode fazer, que podem ser capturadas na tela. E elas vão nos dizer tudo o que precisamos saber sobre quem são os personagens bem lá no fundo.

verbo

Boa escrita pra você hoje!

Anúncios

10 Comentários

  1. Bem, a autora do artigo sugere que nao se escreva; “a casa esta uma bagunca” afirmando que isto e uma escrita de ma qualidade porque não podemos ver isso e sugerindo mostrar a roupa suja no chão e as embalagens vazias de comida chinesa tombadas na mesa de centro. O truque é usar adereços e objetos cenográficos (substantivos) para transmitir a “bagunça”, certo?

    Errado. Voce substitui uma escrita de ma qualidade por outra igualmente de ma qualidade, pois voce usa uma descricao exagerada e seu roteiro peca por falta de estilo. Um exemplo tirado de outro artigo ilustra o problema:

    Exemplo de Descrição Excessiva:

    A academia estava cheia de embalagens de comida, resto de cachorros-quente e tacos, roupas de ginásticas e outros detritos. Parecia que ningúem a tinha limpado em mais de um mês. Estava realmente uma bagunça.

    De um certo modo, isto seguiu a sugestao da autora, mas num roteiro como o de Rocky isto ficou:

    ” A academia parecia uma lata de lixo virada pelo avesso”.

    Como se ve, o exemplo de Rocky tem estilo, concisao, nao tem lista de aderecos nem objetos cenograficos porque e para isto que a equipe de filmagem tem um nucleo de cenografia – para criar o cenario a partir dos “insights” visuais..

    O roteiro tem de impressionar o leitor de roteiro e o faz com uma linguagem visual economica. Uma linguagem relaxada, monotona, obvia, detalhista, nao e exatamente o que impressiona.

    Nenhuma equipe cenografica vai sair para procurar um restaurante chines para obter embalagens vazias e nem meter uma mesa no centro so porque seu roteiro especificou isto, a menos que comida chinesa e mesa redonda seja elementos essenciais de sua historia. E se nao fazem parte da historia, nao devem estar escritos.

    O mesmo vale para roupas de atores. O que conta hoje e uma descricao sumaria de carater do personagem, e nao se ele e alto, baixo, gordo, magro e se veste mini-saia ou short, de bolinha ou xadrez. A menos que um destes elementos consiga traduzir o carater e seja essencial (isto e, se faz diferenca para a historia que seja assim e nao assado)

    Cheers

    Regia Mendonca

    Comentário por Regia Mendonca — 17/11/2011 @ 20:27

    • Olá, Regia, como vai?

      Você tem razão quanto a este detalhe, o autor foi infeliz ao utilizar este exemplo. Que, aliás, não tem nada a ver com o tema do artigo, não é mesmo? Eu também acho a linguagem econômica e elegante infinitamente melhor, mas achei importante este texto pela observação dele de se utilizar verbos no lugar de adjetivos (o contrário é um erro comum que muitos cometem, frequentemente criando situações “infilmáveis”). Aliás, por falar em erros, já li roteiros de filmes famosos que também cometiam este erro de detalhar o cenário, mas não posso afirmar se os roteiristas escreveram desse jeito originalmente, já que a maioria dos roteiros disponíveis na internet e em livros são roteiros de filmagem, reescritos pelo diretor, já prevendo como as cenas serão feitas. Roteiros originais escritos pelos próprios diretores, então, nem se fala, os caras já sabem que vão filmar, então escrevem como querem (se bobear, eles apenas usam um software para não saírem da formatação, e só!). Roteiros de especulação é que são bem mais complicados (e rígidos).

      Valeu pela correção e atenção, Regia, é importante que todo mundo fique ligado como você, a arte do roteirismo é muito complexa e fluida, onde cada um diz uma coisa diferente. É importante a gente ficar alerta e usar o nosso bom senso e bom gosto para aplicar apenas o que for melhor para nossa escrita.

      Um grande abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 18/11/2011 @ 11:51

  2. Boa noite. Há muito tempo sou fã do blog e já deixei comentários aqui. Mas, dessa vez, vou pedir um favor. Já procurei bastante em vários sites e blogs a maneira de se escrever uma cena que se passa uma parte numa calçada de uma rua e depois os personagens entram em um carro e continuam a conversar. Estou na dúvida de como formatar o cabeçalho. Por favor, ajude-me. E, mais uma vez, parabéns pelas postagens.

    Att. Reginaldo Lima
    Caicó/RN

    Comentário por Reginaldo Lima — 17/11/2011 @ 22:12

    • Reginaldo. Aqui esta a resposta para sua duvida:

      EXT – CALCADA – DIA (ou noite)

      Perere, perere, perere, fulano e cicrano fazem isto ou aquilo.

      FULANO
      Bla Bla Bla

      CICRANO
      Bla Bla Bla

      ( Aqui continua todas as acoes e dialogos travados enquanto eles estao na calcada). Se eles estao andando e chegam ate um carro, ou se eles ja estao parados proximo ao carro, enfim, seus detalhes tecnicos ate que finalmente eles estao para entrar no carro. Opcoes: Voce pode fazer uma cena continua (em que a camera nao deixa de filmar e os acompanha enquanto entram no carro), ou voce pode fazer uma cena interrompida (em que a camera recomeca a filmar quando eles ja estao no carro).

      Opcao 1: a camera os acompanha

      INT. CARRO – DIA (ou noite) – CONTINUOUS

      Eles entram no carro. (Aqui pode se especificar: Fulano abre a porta, entra e senta na direcao, Beltrano entra no banco de passageiro, etc.)

      FULANO
      Bla Bla Bla

      CICRANO
      Bla Bla Bla

      INT. CARRO – DIA – TRAVELING

      Se voce quer diferenciar as falas de quando o carro estava parado e agora quando esta em movimento. Um carro em movimento, ganha um INT. e o variante TRAVELING. Se voce nao quer ter dois momentos (carro parado e carro em movimento) voce pode incluir tudo sob o cabecalho INT. CARRO – DIA – TRAVELING.

      Opcao 2: a camera os reencontra ja dentro do carro

      INT. CARRO – DIA (ou noite) (MOMENTOS MAIS TARDE) – se o carro esta parado

      ou

      INT. CARRO – DIA (ou noite) (MOMENTOS MAIS TARDE) – TRAVELING – se o carro esta em movimento (ou se nao quer ter dois momentos de carro parado e em movimento, como expliqueia antes, inclua tudo no cabecalho do TRAVELING)

      Se nao conseguiu entender, mande-me um e-mail que lhe explico melhor. Pode ate mandar a cena que refaco os cabecalhos para voce.

      Cheers

      Regia Mendonca(scriptandfilm@yahoo.com)

      Comentário por Regia Mendonca — 18/11/2011 @ 08:08

    • Oi, Reginaldo, como vai?

      Em primeiro lugar, muito obrigada, eu sei que você tem nos acompanhado sempre, e isso me deixa muito feliz! 😀

      A Regia já deixou uma resposta bem completa e caprichada pra você aqui, então eu vou só dar mais um exemplo simples e curtinho. Como você está falando de uma cena contínua, poderia também utilizar um sub-cabeçalho na hora do carro.

      EXT. – RUA – DIA

      Ana e Pedro correm pela calçada, esbarrando nas pessoas que vêm em direção contrária.

      (Diálogos)

      Pedro se aproxima de um carro e entra nele, abrindo a porta para Ana, que entra rapidamente.

      (Diálogos)

      NO CARRO (ou DENTRO DO CARRO)

      Pedro dá a partida e sai cantando pneus. Ana tem dificuldades de ajustar seu cinto de segurança com os solavancos do carro. [ou: Os dois ficam de tocaia observando discretamente a movimentação da entrada do hotel no outro lado da rua.]

      (Diálogos)

      e por aí vai.

      Deste modo você diz o que acontece na parte da ação, diminuindo o número de cabeçalhos. Se acontecer algo na rua, então você pode usar um outro sub-cabeçalho (NA RUA, ou NA ESTRADA), para mostrar que eles quase atropelaram um tamanduá, por exemplo, e logo voltar para (DENTRO DO CARRO).

      É isso, Reginaldo, espero ter ajudado um pouquinho. O estilo que você escolher vai depender do seu gosto e do que você está tentando comunicar, se for muito grande a cena dentro do carro, vale a pena fazer um cabeçalho novo.

      Um grande abraço!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 18/11/2011 @ 12:16

      • Agradeço pela informação, Valéria. Realmente ajudou. A cena dentro do carro é um pouquinho longa. Depois ainda continua fora do carro, de volta à calçada. Se você se interessar posso enviar pra você também e fazer ajustes necessários.

        Obrigado pela atenção.

        Reginaldo Lima

        Comentário por Reginaldo Lima — 18/11/2011 @ 12:25

  3. Bom dia, Régia.

    Informações muito valiosas. Mas mesmo assim, tenho algumas dúvidas em relação a essa minha cena específica do roteiro que é um pouco mais complexa. Então, vou enviar a cena para que você me ajude nessa formatação. Vou fazer apenas algumas adaptações, sem diálogos, e enviarei.

    Desde já fico grato.

    Att.
    Reginaldo Lima (reginaldo.limabbc@hotmail.com)
    Caicó-RN

    Comentário por Reginaldo Lima — 18/11/2011 @ 12:21

  4. Valeria

    Eu mantive por uns anos um site politico que eu mesma criava em dreamweaver (ja nem sei mais abrir o programa) e imagino que blog e bem mais conveniente de manter. Acontece que para o fim a que se propoe, tem de ser site mesmo e certamente nao sera simples nem barato, e o que eu procuro e o pontape inicial ou o segundo par de maos.. Eu nao encontro NADA no Brasil que se dedique a roteiristas de longa-metragem de ficcao, aqueles que iniciam seu primeiro roteiro e nao sabem nem chegar a 120 paginas, muito menos poli-las e nao tem ninguem que mete a colher aqui e ali e nem tem onde deixar os firstdrafts para alguem meter a colher.. Pouquissimos concursos, de trozentos em trozentos anos, sempre fechados quando voce quer inscrever um trabalho. Acabei de ver o da Eletrobras que premiara PRODUCAO. Escolas que se dedicam a cinema DOCUMENTAL, grupos que fazem curtas cada vez mais curtos, roteiristas querendo um emprego em equipes de novelas… sem querer criticar a ninguem, mas o cinema de longa-metragem no Brasil vai ficar restrito as quatro duzias de roteiristas que ja produzem seu material e nao se FORMA novos roteiristas “em massa”. As desculpas sao velhas, para que roteiristas se depois nao vai filmar os longa mesmos, ne? Como em qualquer ciencia e arte, ou voce tem o trabalho de formentacao ou voce nao tem criacao de talentos. O sujeito que domina a tecnica de execucao de um roteiro de longa-metragem e como o chef de cozinha internacional que e competente ate mesmo quando vai cozinhar a galinha para a familia no fim de semana. Ou temos isto em lingua portuguesa ou vamos ficar confinados a facebook e twitter e blogs. Andei relendo posts de uma comunidade de roteiros do orkut e e infima a participacao ativa de pessoas que buscam produzir roteiros de longa-metragem. O StoryTouch foi lancado e nao so e todo em ingles – ai ai, para disputar com finaldraft e luta de David – como nao vi nenhuma comunidade empenhada em torno. Enfim. Quando postei meu anuncio no seu blog oferecendo scriptdoctoring gratuito, recebi alguns e–mails de uns roteiristas perdidos aqui e ali pelo Brasil e este ano tentei transmitir meus parcos conhecimentos a alguns deles. Nao sou muito chegada a tutorial. Gosto mesmo e de ensinar na pratica, Ver o que voce escreveu e mostrar como poderia ter escrito diferente. Reescrever para voce e nao esperar credito por meus palpites. Receber de volta: “credo, nao gostei e nao tem nada a ver” . Ver o nivel que se encontra quem comecou escrever roteiros ontem, quem ja esta com o pe na estrada, todos precisando igualmente de empurroes, e claro. Como sou uma so, seria muito mais efetivo que ao inves de eu sozinha apontando a virgula equivocada de um autor, houvesse muitos, como grupo de auto-ajuda/ajuda-mutua. Por exemplo, eu postei umas primeiras paginas de um roteiro meu no forum da celtx e entre asneiras e besteiras, apareceu um ou dois elementos preciosos que me ajudam a corrigir ainda que um verbo de uma cena e isto ja valeu um mes de reescrita. Eu pego roteiros de individuos, as vezes historias sem pe nem cabeca e em cinco minutos posto uma critica que as vezes cai como luva: o sujeito ve a luz no fim da estrada e repensa todo o trabalho. Outras vezes o autor diz: “nao entendi nem o que voce quis dizer!” E gratificante ajudar porque acredito que sao os olhos de outros que conseguem quebrar o circulo vicioso que nossos roteiros entram quando se confinam a nos mesmos ou a nossos amigos que nao gostam nem de ler romance policial. Aproveito que hoje estou desabafando – to falando pra caral** e deixa lembrar outra coisa antes de cair minha ficha e eu me dar conta que e hora de calar: poxa, vi o Agnaldo Silva dizendo que ia dar do bolso 100 mil para criar concurso… mil reais no bolso de 100 “calouros” frutificariam mais, pois a quantidade de pessoas que estao com seus roteiros entre a primeira cena e a ultima (faltando todas as intermediarias!) e enorme e estes roteiristas so precisam de alguem dizer: toma aqui cem reais e vai escrever seu roteiro, pois o que mais dificulta o aprendizagem de roteiro no Brasil e o total isolamento que um se encontra no dia que decide gostar de roteiros de longa-metragem. Outra pena e que o Silva ta no ramo de novelas (eu acho um O so de pensar numa escaleta e na prolixia dos dialogos de teledramaturgia onde subtexto e luxo e on-the-nose e regra, sem contar a baixissima qualidade de interpretacao, ja que quase todo personagem e constuido por estereotipacao sem mencionar que a nova geracao de atores brasileiros esta muito mais para passarela do que para rugas de expressao!!!!!)
    Obrigada pelas dicas do seu mano. Vou sonhar com este site onde so vai dar roteirista de longa, do iniciante ao reiniciante.Os outros roteiristas no maximo vao ter um cantinho pra links… hehehe. Quica sera como meus filmes de longa. Nao saem do papel!!!!!!

    Mais prolixo que este meu post, so mesmo os dialogos das novelas que desdenhei!!!!!

    Comentário por Regia Mendonca — 20/11/2011 @ 13:02


RSS feed for comments on this post.

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: