Dicas de Roteiro

06/11/2011

O Que É Mais Importante: O Personagem Ou A História?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:12
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Oi, pessoal, desculpe pelo sumiço – semana super-lotada! Mas hoje estamos de volta com este artigo escrito pelo roteirista, romancista, guru de roteirismo e professor de roteiro da UCLA, Richard Walter, e tirado do site da Writers Store:

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Não parece que um novo livro de roteiro é publicado a cada 20 minutos?

A culpa que eu carrego nisso não é pequena, já que o meu terceiro volume sobrecarregou as prateleiras das livrarias no ano passado. O que me sobrou para escrever agora, exceto um livro sobre escrever livros de roteiro?

Minha amiga de longa data, a bela Viki King, autora do atemporal How to Write a Movie in 21 Days [Como Escrever um Filme em 21 dias] (Eu perguntei a ela: ‘Por que deve levar tanto tempo?’) me disse que os escritores desse tipo de livros na verdade não competem uns com os outros. Os escritores não compram um ou outro, mas vários desses livros.

A este respeito, os livros de roteiros não são diferentes de livros de receitas.

Talvez tudo o que nós, gurus de histórias, realmente estamos fazendo é contribuir para o bloqueio do escritor. Escritores, em vez de escrever seus roteiros, leem nossos livros sobre como escrever roteiros.

A grande maioria desses livros, de Field a Ackerman, a Hunter, a McKee e além, concordam que o aspecto mais fundamental de um roteiro é a sua história. Na verdade, o mais antigo trabalho teórico a tratar de narrativas dramáticas, o Arte Poética de Aristóteles, afirma inequivocamente que o personagem é importante também, é claro, mas antes de tudo vem a história.

Outro amigo, Andy Norton, escreveu um livro esplêndido chamado Writing the Character-Centered Screenplay [Escrevendo o Roteiro Centrado no Personagem]. Com todo o respeito devido a Andy, eu me refiro ao roteiro centrado no personagem simplesmente como "O Bom Roteiro". Todas as grandes narrativas dramáticas não tratam de personagens dignos que habitam histórias habilmente trabalhadas? Até os próprios títulos de tantos clássicos do teatro e do cinema são meramente o nome do protagonista: Édipo Rei, Medéia, Júlio César, Macbeth, O Poderoso Chefão, Patton, Bonnie e Clyde.

O erro cometido por muitos escritores e especialistas, igualmente, me parece, é tratar personagens e história como se fossem empreendimentos separados.

O que é um personagem, afinal, além da soma total de ações que ele realiza e do diálogo que fala dentro do contexto da história? Como eu já observei em algum outro lugar, certamente o personagem mais rico, mais examinado de toda a literatura dramática de língua inglesa tem de ser Hamlet. Você lembra como o dramaturgo o descreve no personae dramatis [N.T.: Latim: "pessoas ou personagens do drama"] na capa da peça? Três palavras: Príncipe da Dinamarca.

Não há nenhuma menção a "melancolia".

Então, de onde é que esse cara Hamlet vem? Claramente, ele emerge das ações que ele realiza e das frases que ele fala; em outras palavras, da história.

Eu tenho comparecido a conferências sobre escrita onde os colegas sugerem exercícios de escrita onde os escritores criam biografias de personagens antes de iniciar seus roteiros. Eles são incentivados a "realmente conhecer seus personagens". Que tipo de barra de chocolate ela comeria? Que tipo de árvore ele seria? Qual, entre as Sete Maravilhas do Mundo, ela seria?

Quando ouço comentários como esses, eu educadamente balanço a cabeça no que poderia ser tomado como concordância.

Eu acredito, no entanto, que é bem ao contrário, que criar biografias de personagem não é para escritores de verdade, mas para diletantes. Eu acredito que fazer isso é, na verdade, contraproducente. Criar personagens dessa maneira é sugerir que eles têm vida e significado fora do contexto da história.

Ao invés de conhecer bem seus personagens antes de começar, eu acredito que os escritores estão bem servidos ao não criar seus personagens tanto quanto descobri-los, ou seja, des-cobri-los, removendo a cobertura que esconde os personagens que já estão, em certo sentido, ali. Renuncie a quaisquer noções preconcebidas quanto à natureza de seus personagens e fique aberto às surpresas que irão surgir a partir da narrativa. Se eles não conseguem surpreender o próprio escritor, como irão surpreender qualquer público?

Um brilhante e subvalorizado livro de roteiro, escrito pelo falecido Millard Kaufman, é o Plots and Characters [Enredos e Personagens]. Observe a palavra do título que vem em primeiro lugar. Kaufman prega um dos princípios mais profundos que eu já ouvi sobre narrativas, não só dramáticas, mas também de vida: não é o personagem que define a ação, mas o contrário.

É por isso que os escritores são, a meu ver, melhor aconselhados a desistir de noções anteriores relativas a seus personagens e a permitir que eles tomem forma conforme a história avança. Pois, no final das contas, o personagem é a história e a história é o personagem.

Richard Walter

Boas histórias pra você hoje! =)

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10 Comentários

  1. Interessante. Também acredito que a história acaba por construir o personagem. Quando estou escrevendo ou simplesmente formulando cenas, todas as funções que o personagem adquire estão contidas dentro do contexto da história. Eu não me interessaria em escolher uma data de aniversário para ele a não ser que essa data tivesse alguma importância no enredo. Acho mais divertido conhecer o personagem conforme vou observando suas ações durante a escrita, até porque é desse modo que ele pode me surpreender.

    Comentário por Luiz Fernando Teodosio — 06/11/2011 @ 11:39

    • Olá, Luiz Fernando, seja bem-vindo! 😀

      Tem toda razão. Quando comecei a escrever, seguindo esses gurus de roteirismo, eu tentava fazer uma biografia completa dos personagens (pelo menos dos principais), mas isso é mesmo um convite ao bloqueio de escritor — ou a gente fica completando uma biografia que não vai dar em nada, ou melhora a nossa história. O que eu faço hoje é escrever apenas as características principais da personalidade e as motivações do personagem. E devo encontrar meios de expressar essas coisas na história. E só. Nada de saber a cor favorita do personagem, qual colégio estudou ou qual foi o nome da primeira namorada dele (só se, como você falou, isso for importante no enredo). É um alívio não precisar fazer isso! Rsrs! :mrgreen:

      Um abraço grande, Luiz Fernando, obrigada pela visita! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 09/11/2011 @ 09:32

  2. Valéria, bom dia e ótimo domingo!

    Concordo em genero, número e graus de interpretação com relação aos personagens e a história.

    Confirmo que ela é mais importante, porque os personagens surgem e interagem quando existe a história e não ao contrário. Vários personagens, concebidos em separado, sem história, permanecerá assim, separados e não fazendo absolutamente nada.

    Eu acredito que a história faz os personagens interagirem, de acordo com cada personalidade e mesmo ela, pode se modificar, em parte, ao acompanhar a narrativa, surpreendendo, inclusive, o autor. E assim ser fará uma ótima história. Você sonha com ela, traduz em miúdos na cabeça e, quando escreve, o danado do personagem em vez de ir para a esquerda, vira a esquina e desaparece, simplesmente. E volta no último capítulo dizendo que foi comprar jornal – cigarro está fora de moda – e só matou dois desses que fizeram parte da narrativa. Ele não foi culpado, não é não, foi acidente. Só que o policial investigador já foi embora para casa e ele fica livre, por enquanto.
    Se tratar de trilogia, e sumir de novo, o autor o pega em flagrante delito no último capítulo do terceiro livro.
    – Agora chega, seu malandro, está em cana. E você sente e sofre ao ver as algemas em volta do pulso. Por pouco não escapou para o quarto livro.

    Viu só, que história para explicar uma história sem pé nem cabeça? Viva a história e os meliantes, escondidos e, também preferencia total, malvados.

    Abraços!

    Comentário por Cilas Medi — 06/11/2011 @ 12:51

    • Oi, Cilas, bom dia e ótima quarta-feira! Rsrs! :mrgreen: Desculpe o atraso, tenho andado num corre-corre danado, mas espero conseguir me organizar nos próximos dias.

      😆 😆 Esses personagens fujões e desobedientes… são ótimos! 😀 E a gente ficar brincando de gato e rato com eles é que é divertido. :mrgreen:

      Foi muito divertida a sua descrição, explicou direitinho como são as coisas e ainda me fez rir à beça. Rsrs! Amei!

      Um abração, Cilas, continue sempre assim, com essa sua verve e perspicácia. Adorei o comentário! 😀
      Muito sucesso pra você! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 09/11/2011 @ 09:43

  3. Nossa quanta metaliguagem!
    Uma postagem, retirada de um artigo de um roteirista e escritor,
    falando sobre roteirismo e livros relacionados, que poderia muito bem já ser conteudo de um livro de roteirismo. kkkk
    É uma trabalheira enorme essa coisa de biografar os personagens, antes mesmo de começar a estória.
    Muito necessária essa postagem, valeu mesmo!

    Abraço!

    Comentário por Fábio — 06/11/2011 @ 13:53

    • Oi, Fábio! 😀

      Que bom que você gostou! Finalmente alguém fala na lata que esse troço é pra diletantes! Quanto tempo e energia a gente perde seguindo gurus que não praticam o que ensinam, é fogo.

      E boa observação, é muita metalinguagem. Rsrs! Eu também adorei quando ele disse que agora só restava ele escrever um livro sobre como escrever livros sobre como escrever roteiros! 😆 E o pior é que eu aposto que ele seria publicado! :mrgreen:

      Para finalizar, de nada, Fábio, é sempre um prazer ajudar. Obrigadão pela visita, gostei muito! =D
      Um abraço grande!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 09/11/2011 @ 09:53

  4. Por favor,se vc fez algum post falando sobre escrever uma série de comédia manda o link pra mim! Ou falando apenas de série e de comédia,bjs!

    Comentário por Rebecca Keslem Sousa Ferreira — 09/11/2011 @ 02:36

  5. Oi menina Valéria, tudo bem?

    É verdade o tema no meu ver é bastante polêmico porque cada um (assim) como eu tem uma visão particular sobre o assunto. Contudo, fico dividida com relação ao autor em determinados aspectos mais concordo que ficar seguindo (ao pé da letra) esses manuais que só servem para nos dar uma noção é bobagem, mesmo porque na prática acaba saindo de outro jeito.Ou seja, é total perda de tempo.

    Mais vou ressaltar um interessante do ponto do autor que vai contra a uma recente experiência….

    “Criar biografias de personagem não é para escritores de verdade, mas para diletantes. Eu acredito que fazer isso é, na verdade, contraproducente. Criar personagens dessa maneira é sugerir que eles têm vida e significado fora do contexto da história”.

    Esse é um dos pontos que – infelizmente – discordo do autor. Acredito ser muito válido você desenvolver seus personagens,utilizando sempre os elementos necessários e sempre de acordo com o contexto da história. É lógica.

    No meu caso, por exemplo, em um recente roteiro de filmagem que escrevi, eu tinha uma noção da ideia, sabia o que queria porque me baseava no trabalho de pesquisa que fiz, porém, não tinha ideia de onde começar. Era um horror!! Cansada desse dilema, parei, pensei “bom se não posso começar pela ideia, então, espero que o personagem possa me dar uma direção.” E deu. Pelas referências deles, eu pude organizar melhor a ideia e por assim começar o roteiro. No fim ambos se tornaram um único elemento. Porém, não posso negar que o personagem acabou por construir o roteiro, a história. E neste caso o “criar biografias” foi importante!

    Enfim, as situações mudam e assim como Einstein diria “tudo é relativo”. Ou seja, é assim que o mundo roteirístico funciona! rsrsrs

    Bjs e tenha uma ÓTEMA quinta-feira!!!

    Saúde e sucesso!! 😉

    PS: Não desaparece, hein? rsrs

    Comentário por Marcia Fr. — 09/11/2011 @ 23:57

    • Oi, Marcia, como vai? Por aqui, tá tudo joinha! :mrgreen:

      Ótima a sua observação. O que você fez foi muito legal, encontrou uma saída para o bloqueio e chegou ao resultado almejado. Você está certa, não existe apenas um caminho, a gente não pode ficar engessado num modo de pensar limitado. Mas eu não acredito que o autor quisesse dizer que não devemos criar nossos personagens detalhadamente, fazer até uma certa biografia antes.

      O problema, na verdade, são as informações inúteis que muitas vezes não só não ajudam como atrapalham. Eu não sei se você já viu, mas tem uns sites com listas enooooormes de perguntas (muitas absurdas) pra gente fazer para nossos personagens. Se não vai importar para a minha história o fato do personagem gostar ou não de lavar louça, de ele dormir do lado direito ou esquerdo da cama e de qual pé de sapato ele costuma calçar primeiro (ou se dá laço ou nó), acho uma perda de tempo gastar a “mufa” nisso. Exceto se algum desses detalhes aparentemente insignificantes contribuísse para a história ou para a sua personalidade de alguma forma. Sei lá, o cara ficou traumatizado por ser sacaneado quando criança porque não conseguia dar laços nos sapatos e isso se tornou uma característica marcante dele, só dar nós no lugar dos laços, até que um dia ele tem que fazer um laço ou morrer (Eita clichê!!! Rsrs!!!), neste caso, isso acabaria entrando na história.

      Quando crio meus personagens, eu traço mais um perfil psicológico do que uma biografia. Se ele é rabugento no trabalho, mas um doce em casa; se ela tem complexos, medos e rancores; se tem segredos ou manias; se mentem com frequência — tudo o que puder ajudar para vê-los como seres reais. Mas criar uma vida completa para ele, desde que nasceu, com os nomes dos pais, dos avós, dos tios e primos, quantas namoradas ele teve, de qual ele gostou mais, em quais bairros morou, quantos amigos já teve e ainda tem, qual o salário de seu primeiro emprego (e do atual) e coisas assim, já é um filme por si só! Imagina fazer isso com todos os personagens do filme! A gente vai levar mais tempo nas biografias do que no próprio roteiro! Rs! :mrgreen: Acredite, eu já tentei!! Rsrs! Nem imagina quanto tempo e pesquisa foram desperdiçados!

      Por isso que eu gostei muito do seu comentário, a gente deve fazer coisas que nos ajudem a desbloquear, como você fez, e evitar as coisas que nos bloqueiem. Se responder a essas listas enooormes que eu citei, ao contrário de mim, ajuda alguém a escrever, deve-se mais é usar e abusar delas! Tudo para chegar ao grande objetivo de ter o roteiro finalizado! 😀

      Um beijo grande, Marcia, obrigadão por sua contribuição, muita saúde e sucesso e um ÓTEMO dia procê também! =D

      PS: Eu tô com o sono meio atrasado, tentando conciliar a correria da vida com o blog, mas prometo não sumir! :mrgreen:

      Comentário por valeriaolivetti — 10/11/2011 @ 10:46


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