Dicas de Roteiro

29/10/2011

As 10 Melhores Voice-Overs em Filmes – Parte 4

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 10:49
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Esta é a última parte do artigo de Ally Sinyard, tirado do site The Script Lab. Atenção:SPOILERS dos filmes citados.

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3. Laranja Mecânica (1971)

Alex (V.O.): Havia eu, ou seja, Alex, e meus três companheiros, ou seja, Pete, Georgie e Dim, e nós sentamos no Korova Milkbar tentando descobrir o que fazer à noite. O Milkbar Korova vendia leite-plus, leite mais vellocet ou synthemesc ou drencrom, que é o que estávamos bebendo. Isso te deixa afiado e te torna pronto para um pouco da velha ultra-violência.

Em Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, adaptado do romance de Anthony Burgess, nós nos encontramos simpatizando com um cara muito, muito ruim: um ladrão, um estuprador, um assassino… cheio de ultra-violência. Como podemos fazer isso? Será que é porque nós sempre sentimos a necessidade de nos conectarmos com os nossos protagonistas? Eu suponho que, se não tivéssemos no mínimo empatia, não nos importaríamos com o que aconteceria com eles. E se nós não nos importamos, porque iríamos querer continuar assistindo? Claro, Alex (Malcolm McDowell) é um psicopata, mas ele também é inteligente, charmoso e espirituoso; você não pode evitar de ser atraído por ele, especialmente quando ele se torna vítima do equivalente pavloviano de Burgess do clássico condicionamento de Pavlov – ser transformado em um "bom menino", ou, mais precisamente, em uma máquina que não é mais capaz de escolha moral.

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2. Os Suspeitos (1995)

Verbal (V.O.): Nova Iorque. – seis semanas atrás. Um caminhão carregado com peças de armas foi roubado fora dos limites do Queens. O motorista não viu ninguém, mas alguém pisou na bola. Ele ouviu uma voz. Às vezes, isso é tudo o que você precisa.

Nunca confie num aleijado. Ou melhor, não acredite em tudo o que você ouve! Quando Verbal entrou no carro, eu pulei da minha cadeira e gritei: "Me pegaram!", como eu frequentemente gosto de fingir que sou uma espécie de artista de vaudeville da velha guarda. Os Suspeitos me faz pensar sobre a relação entre cinema/público de hoje. Nós raramente somos inspirados a realmente interagir com o que está acontecendo. De muitas maneiras, os espectadores tornaram-se zumbis, olhando fixamente a tela brilhante e acreditando em tudo que ouvem e veem; e eu não os culpo – eu culpo os cineastas que não desafiam o público, por não encontrarem formas interessantes de nos fazer participantes ativos. Mas o que é tão brilhante em relação a Os Suspeitos é que mesmo estando envolvidos, nós ainda não vemos aquilo vindo. Sentimo-nos tão tolos quanto o policial. Deixamos que as convenções genéricas ganhassem de nós. Vocês sabem que apenas sentaram lá e não suspeitaram do velho e doce aleijado. Seus tolos! Mas vocês poderiam ter previsto isso? Ele realmente conta uma história muito boa! Me engane, Johnny!

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1. Um Sonho de Liberdade (1994)

Red (V.O.): A primeira noite é a mais difícil, sem dúvida quanto a isso. Eles fazem você entrar marchando, nu como no dia em que você nasceu, a pele queimando e meio cego por aquela merda de despiolhamento que eles jogam em você, e quando eles te colocam naquela cela… e aquelas grades se fecham… é aí que você sabe que é para valer. Uma vida inteira acabada num piscar de olhos. Nada resta além de todo o tempo do mundo para pensar nisso.

A narração em voice-over de Um Sonho de Liberdade é um clássico tal, que Morgan Freeman atingiu um tipo de status divinal e lendário como narrador. É que tem algo a ver com a sua voz… tão reconfortante… mmm… de qualquer forma, se este filme não tivesse narração em voice-over, teria sido quase impossível espremer mais de duas décadas de detalhes importantes em um filme. Devido aos grandes saltos no tempo, as lacunas precisam ser preenchidas, e é aí que a voice-over vem a calhar. Há também um monte de detalhes da vida na prisão que um "peixe" novo teria de aprender ao longo do tempo. E nós não temos esse tipo de tempo à nossa disposição como público, então isso ajuda a nos ensinar rapidamente sobre as regras da vida na prisão, o que é ser um "peixe novo", e como acessar o contrabando etc. Um Sonho de Liberdade trata de incluir esta narração em voice-over sem que ela pareça excessivamente intrusiva, e, claramente, isso foi cuidadosamente construído. Escolher Red (Freeman) no lugar de Andy Dufresne (Tim Robbins) para narrar também foi uma boa sacada, já que permite Dufresne cuidar de seus assuntos, todo estoico e misterioso, sem revelar muito. E além disso, é claro, há a voz de Morgan Freeman. Suspiro.

April 26, 2005
Warner Brothers Independent
Morgan Freeman Voice Over
Photo by Alex Berliner©Berliner Studio/BEImages
All Rights Reserved

Boa escrita pra você hoje! =D

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4 Comentários

  1. Eu sabia que laranja mecânica estaria nesta lista.
    Mas é impossível listar certas coisas sem cometer
    algumas injustiças, pelo menos no que diz respeito
    à ordem dos filmes. Eu colocaria o Rock’nrolla do
    Guy Ritchie nessa lista, já que ela se responsabiliza
    por 90% do ritmo no início do filme.

    Valeu pela postagem!

    Comentário por Fábio — 01/11/2011 @ 19:39

    • Oi, Fábio, que bom que você gostou! Você tem razão, no post original tinha gente reclamando por a autora ter deixado de fora O Poderoso Chefão. É bem difícil fazer uma lista dessas que seja perfeita. Mas eu gostei da sua dica, não assisti esse filme do Guy Ritchie, fiquei curiosa, agora eu já estou com ele na minha lista de “filmes pra ver logo” :mrgreen: . Valeu, Fábio! Um abraço grande e obrigadão pela dica! =)

      Comentário por valeriaolivetti — 03/11/2011 @ 09:17

  2. Excelentes escolhas da autora. É lógico que, em todo tipo de listas acabarão ficando de fora filmes maravilhosos. Isso demonstra que temos inúmeros filmes bons aí para nos inspirar. Eu, particularmente, gostei bastante das escolhas dela. Ao mesmo tempo, O Poderoso Chefão poderia fazer parte dessa lista também. Enfim, a autora fez ótimas escolhas e você também. Mais um excelente post.

    Abração, Valéria!

    Comentário por Paulo Henrique — 03/11/2011 @ 17:34

    • Obrigadão, Paulo Henrique! =)

      E é por isso que é legal a gente ler muitos roteiros, porque dá pra pescar estruturas bem (ou mal) usadas por outros roteiristas, e tentar aplicá-las também de formas diferentes e emocionantes em nossas histórias.

      Abração! 😀

      Comentário por valeriaolivetti — 04/11/2011 @ 21:35


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