Dicas de Roteiro

28/10/2011

As 10 Melhores Voice-Overs em Filmes – Parte 3

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 11:11
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Continuamos aqui com a tradução do artigo de Ally Sinyard, tirado do site The Script Lab. Nota: Há SPOILERS dos filmes citados.

taxi-driver

6. Taxi Driver (1976)

Travis (V.O.): Eles são todos animais, de qualquer modo. Todos os animais saem à noite: Putas, depravadas, pederastas, drag queens, michês, drogados, viciados, doentes, mercenários. (pausa curta) Algum dia, uma chuva de verdade virá e lavará toda esta escória pra fora das ruas.

Travis Bickle (Robert De Niro) é um daqueles personagens icônicos que lhe assombram por um longo tempo depois de sua primeira experiência assistindo–o. Tanto suas palavras quanto ações são deliberadamente ambíguas, fazendo-nos questionar o que exatamente é "bondade". A voice-over pode não esclarecer tudo, mas é certamente muito bem usada em Taxi Driver. Contado em forma de anotações de diário desconexas, é importante reconhecer que Bickle não está realmente conversando com o seu público, ele está falando consigo mesmo, e não temos escolha a não ser ouvir e tentar buscar algum tipo de entendimento. No começo, ele fala com autoridade e verdade, e nós acreditamos nele e nos identificamos com ele. Todavia, uma vez que as rachaduras começam a aparecer, nós começamos questioná-lo. São essas as divagações de um homem perturbado, ou ele está apenas dizendo o que o resto do mundo não se atreve a dizer?

5. Adaptação (2002)

Charlie Kaufman (V.O.): Eu sou patético, eu sou um perdedor…

Robert McKee: Então, qual é a essência da escrita?

Charlie Kaufman (V.O.): Eu falhei, eu estou em pânico. Eu me vendi, eu não valho nada, eu… Que diabos eu estou fazendo aqui? Que diabos eu estou fazendo aqui? Foda-se. É a minha fraqueza, a minha derradeira falta de convicção que me traz aqui. Respostas fáceis usadas para arranjar um atalho para o próprio sucesso. E aqui estou eu, porque o meu salto no poço abismal – esse não é apenas um risco que alguém corre ao tentar algo novo? Eu deveria sair daqui agora. Eu vou começar de novo. Eu preciso encarar este projeto de frente e…

Robert McKee: …e Deus os ajude se vocês usarem voice-over em seu trabalho, meus amigos. Deus os ajude. Isso é escrita flácida, desleixada. Qualquer idiota pode escrever uma narração em voice-over para explicar os pensamentos de um personagem.

Adaptação é um filme escrito por Charlie Kaufman, sobre Charlie Kaufman (Nicholas Cage), escrevendo uma adaptação de um romance para o cinema. E o filme contém cenas de ambos os processos de escrita de Charlie no momento da adaptação, bem como o próprio filme adaptado… ou algo assim. De qualquer forma, você pode concluir que é tudo muito metalinguagem e que vai haver alguns momentos metalinguísticos auto-reflexivos. A voice-over é usada desta forma. No ponto onde McKee discorre sobre como "qualquer idiota" pode usar voice-over, a voice-over de Charlie desaparece do filme até que finalmente Charlie declara que não se importa mais, que "isso parece certo". O ego é triunfante! Como todos sabemos, escrever pode ser um processo muito solitário e, por vezes, frustrante. Escutar os pensamentos e as ansiedades de Charlie torna-o empático e simpático, sem ser demasiado avassalante. Eu me senti confortável sabendo que não sou a única a ocasionalmente encarar uma tela em branco, refletindo sobre muffins.

Adaptação - Pensando em muffins

4. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

Alvy Singer (V.O.): Depois disso, ficou muito tarde, e nós dois tínhamos que ir, mas foi ótimo ver Annie novamente. Eu… Eu percebi que pessoa fantástica ela era, e… e como era divertido apenas conhecê-la; e Eu… Eu, eu pensei naquela velha piada, sabe, o, este… esse cara vai ao psiquiatra e diz: "Doutor, ãhn, o meu irmão está maluco; ele pensa que é uma galinha." E, ãhn, o médico diz: "Bem, por que você não o interna?" O cara diz: "Eu faria isso, mas eu preciso dos ovos." Bem, eu suponho que essa seja a forma como me sinto agora sobre relacionamentos; você sabe, eles são totalmente irracionais, e loucos e absurdos, e… mas, ãhn, acho que continuamos passando por isso, porque, ãhn, a maioria de nós… precisa dos ovos.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é um divertido e brincalhão, mas notável, comentário sobre relacionamentos, e todo executado através de uma infinidade de dispositivos de narração de histórias. Nós temos um pouco de quebra da quarta parede, personagens entrando nos flashbacks uns dos outros, telas divididas, legendas que contradizem o diálogo, assim como a voice-over. Quer se trate de Alvy Singer (Woody Allen) e Annie (Diane Keaton) discutindo uma cena que estamos assistindo com eles, ou Alvy preenchendo uma lacuna no tempo, isso certamente conecta a plateia, fazendo você se sentir intimamente envolvido, como um participante ativo no filme . E é isso o que Woody quer. Isso só serve para fazer você simpatizar ainda mais com seu personagem, não importa o quão patético, e levemente irritante, ele seja.

Woody Allen no set do filme Annie Hall

Boa escrita pra você hoje!

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2 Comentários

  1. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é um clássico impagável, maravilhoso. Woody Allen soube fazer um voice-over como poucos nesse filme. Eu, como um fã dele, de seus roteiros, de seus filmes, concordo e fico muito feliz com essa escolha da autora.

    Comentário por Paulo Henrique — 03/11/2011 @ 17:41

    • Legal! E essa foto é dele dirigindo o filme, na época mesmo. Como você comentou no outro post, é legal a gente dirigir alguns (ou até todos) os nossos roteiros, para que os filmes resultantes sejam fiéis à nossa visão. Neste sentido, Woody Allen é um exemplo e uma inspiração para todos os aspirantes a roteiristas-diretores.

      Valeu pela contribuição, Paulo Henrique! 😀

      Comentário por valeriaolivetti — 04/11/2011 @ 21:39


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