Dicas de Roteiro

25/10/2011

Criando Personagens Complexos: Conflito Interior

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 22:26
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O artigo de hoje foi escrito por V. Prasad e tirado do site The Script Lab:

Philip Seymour Hoffman_Capote

Há duas perguntas que falam sobre quem um personagem é em sua essência:

1. O que ele quer?

2. Como é que ele decide conseguir isso?

Estas duas coisas orientam as ações de um personagem. E, nos dramas, são as ações que nos dizem quem uma pessoa é.

Se você quiser criar um personagem complexo, deve criar um conflito interno no âmago de seu personagem. Isso significa criar um conflito naquilo que um personagem quer, ou na abordagem que ele/ela vai escolher para conseguir aquilo.

Um personagem que está em desacordo sobre o que quer, tem duas metas que irão entrar em conflito direto dentro da história. Frequentemente, este é um conflito entre o que o personagem quer no início e o que o personagem percebe que necessita ao longo do caminho. Em Se Meu Apartamento Falasse, C.C. Baxter (Jack Lemmon) está dividido entre o desejo de subir de posto em sua companhia e seu amor pela amante de seu chefe. Ele pode ter um ou outro, mas não pode ter ambos. Claramente, seus dois objetivos não combinam.

O personagem não tem necessariamente de fazer a escolha certa no final. Em Capote, Truman Capote (Philip Seymour Hoffman) está dividido entre o seu primeiro objetivo (1) escrever A Sangue Frio, o livro de não-ficção centrado em torno do assassinato de uma família de quatro pessoas em Holcomb, Kansas, que viria a ser sua maior obra, e (2) a sua compaixão crescente e o desejo de querer ajudar os prisioneiros acusados ​​dos assassinatos. Entretanto, estes dois objetivos se opõem um ao outro conforme Capote reconhece que seus sentimentos pelos prisioneiros entram em conflito profundo com a necessidade de desfecho de seu livro, o que só uma execução proporcionaria. Eventualmente, ele chega à conclusão de que não pode fazer as duas coisas, então ele deve escolher.

Se os personagens não estão em conflito em relação ao que querem, eles ainda podem estar conflitantes em relação a como obtê-lo. Em Os Intocáveis, Elliot Ness (Kevin Costner) quer trazer Al Capone (Robert De Niro) à justiça, mas ele está dividido entre a sua crença em viver pela letra da lei e a ideia de que às vezes você tem que quebrar a lei para defender a justiça.

Criar um forte conflito interno entre o que um personagem quer ou como ele consegue o que quer é uma das maneiras mais eficazes de criar um personagem complexo.

Kevin-Costner-Os-Intocáveis

Boa escrita pra você!

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10 Comentários

  1. Ótima postagem!

    Só tenho uma dúvida, me fiz as perguntas com relação a um persogem de um roteiro que estou escrevendo,
    e cheguei a conclusão de que uma pergunta implica na outra.

    O como ele vai conseguir suas metas interfere no seu interesse por elas. Levando pro roteirismo em geral, isso pode atrapalhar
    no aprofundamento de um personagem ?

    Obrigado Valéia.

    Comentário por Fábio — 26/10/2011 @ 00:27

    • Oi, Fábio! =)

      Bem, isso vai depender da trama que você está criando, é difícil julgar sem maiores detalhes. Mas digamos que o seu personagem se mova apenas para alcançar seu objetivo de um determinado modo, ou seja, do jeito dele, e se ele conseguir a mesma coisa de uma forma diferente, isso irá decepcioná-lo e ele não se sentirá realizado (ter alguém ajudando-o a superar uma dificuldade e/ou desafio pessoal que ele queria resolver sozinho, por exemplo). Se isso acontecer, você deve prestar atenção para não deixar furos no seu enredo. Deixe claro quais são os objetivos do seu personagem e se ele é rígido para alcançá-lo, ou se se adapta para procurar outros meios. Se ele é ético em suas ações ou se vende a própria mãe para conquistar o que deseja. Quando você explica os motivos e as motivações e o modo de agir do personagem, isso só vai enriquecer a história, desde que não se peque na falta de lógica, tentando forçar uma situação que ele jamais enfrentaria daquela maneira.

      É isso, Fábio, não sei se era realmente isso o que você estava se referindo, mas espero ter ajudado um pouco.
      Um abração!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/10/2011 @ 11:51

      • Ajudou muito, eu ainda não tinha colocado as coisas dessa forma.
        O conflito entre o que e o como ele quer estavam deixando ele em desacordo com a própria filosofia.
        Vou tentar reescrever com um pouco mais de clareza.

        Muito obrigado Valéria.

        Comentário por Fábio — 27/10/2011 @ 19:37

        • De nada, Fábio. Disponha! Fico feliz por ter ajudado! Ótima reescrita pra você! =D

          Comentário por valeriaolivetti — 28/10/2011 @ 08:39

  2. Oi Valéria
    Adoro seu blog e já acompanho ele há algum tempo, mas acho que nunca comentei aqui.
    Eu tava lendo algumas postagens antigas sobre gêneros como o Thriller, e gostaria de saber se você tem ou conhece algum artigo sobre Histórias Fantásticas, fantasia épica, tipo O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia ou As Crônicas de Gelo e Fogo?

    Obrigado, um abraço!

    Comentário por Lucas — 26/10/2011 @ 01:08

    • Oi, Lucas, seja bem-vindo! =)

      Obrigada, fico muito feliz de ter a sua companhia aqui! 😀

      Eu tenho vários textos sobre fantasia, mas são todos sobre como escrever romances de fantasia. Na verdade, todos estes que você citou (e outros que também fizeram sucesso nos cinemas ultimamente, como Harry Potter e Percy Jackson) são adaptações de livros. Já que é assim, eu vou traduzir alguns desses e postar aqui em breve. Tem até uns específicos sobre fantasia épica. Espero que você goste.

      Tem também um livro sobre este assunto (em inglês) que está na minha lista de compras futuras. Eu não posso garantir se é bom, mas já li boas críticas sobre ele: Writing the Fantasy Film: Heroes and Journeys in Alternate Realities (Escrevendo o Filme de Fantasia: Heróis e Jornadas em Realidades Alternativas).

      Só aguarde uns dias, Lucas, que tem uns outros pedidos de posts na fila, mas não vai demorar, prometo.
      Um abração!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 26/10/2011 @ 12:03

      • Muito obrigado, Valéria! 🙂

        Ficarei no aguardo.

        Comentário por Lucas — 27/10/2011 @ 18:40

  3. Oi Valéria!
    Para mim o personagem faz muita diferença não somente porque ele é um elemento importante para história mais pela possibilidade de se destacar sobre a história.

    Vejo muito filmes com ideias mutos simples mais com personagens BEM desenvolvidos. O que torna os dois elementos (história + personagens) extremamente ricos!

    Genial o artigo!!

    Bjs ;D

    Comentário por Marcia Fr. — 26/10/2011 @ 22:45

    • Oi, Marcia! 😀 😀

      Sabe, o que você disse me lembrou de um artigo sobre o que é mais importante, o personagem ou a história. É uma discussão muito interessante, e você me inspirou a botá-lo na pasta de prioridades de tradução agora! Rsrs! Gostei muito da sua observação, na semana que vem deve sair este texto, acho que você vai gostar.

      Um beijo grande, Marcia, e obrigadão por sua contribuição! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/10/2011 @ 08:45

  4. Oi Valéria!!
    Sem dúvida é uma boa discussão. Principalmente porque nos preocupamos tanto em construir boas histórias que esquecemos por completo os personagens!!

    Fico feliz de ter contribuído no assunto para a próxima postagem. Tenho certeza que vou adorar. rsrs \\o

    Bjs Valéria e tenha um ótimo domingo!!

    Comentário por Marcia Fr. — 30/10/2011 @ 01:33


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