Dicas de Roteiro

24/10/2011

Perguntas Que Os Escritores Frequentemente Fazem Aos Diretores

Filed under: Direção,Roteiro — valeriaolivetti @ 16:00
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O artigo de hoje foi tirado do site da Writers Store, e é de autoria das diretoras, produtoras, roteiristas e autoras (ufa!) Bethany Rooney e Mary Lou Belli:

Diretor de cinema sentado em sua cadeira

Pergunta: Eu consigo "ver" o filme na minha cabeça enquanto o escrevo. Por que o diretor não consegue vê-lo também?

Resposta: Você já ouviu falar da "visão do diretor"? O diretor CONSEGUE ver o filme antes de um único quadro ser rodado, mas como ele ou ela é um indivíduo único, assim como você, não há nenhum jeito de que sua visão possa ser a mesma. Cada um de nós entra num projeto com uma história pessoal e um ponto de vista sobre o mundo que define a nossa ética, nossos julgamentos e nossas ações… e, portanto, nossas escolhas. Então você tem que torcer para que um maravilhoso diretor de visão seja contratado para dirigir o seu roteiro. E se o seu azul for marinho e o do diretor for turquesa, você pode escolher abraçar essa escolha divergente ou resistir a ela. Como esse é um meio de comunicação colaborativo, nós sempre votamos a favor de abraçar. Isso torna o set de filmagem mais feliz, os relacionamentos mais criativos e o produto final melhor. Se o azul marinho for crucialmente importante para você, seja específico em seu roteiro. Se o diretor ainda escolher turquesa, esteja aberto a considerar se, de fato, aquela foi uma escolha melhor. Se você não puder abraçá-la, escreva um livro na próxima vez.

Pergunta: Eu absolutamente amo o diretor do meu episódio, e adoro a forma como ele ficou. Mas, por minha vida, eu não consigo descobrir exatamente o que ele fez para torná-lo bom.

Resposta: O trabalho de um escritor é bem (com o perdão do trocadilho) preto no branco: há uma folha de papel em branco, e o escritor deve preenchê-la com as palavras que originam a história. O trabalho do diretor é muito mais efêmero, e a menos que você estivesse com aquele diretor 24 horas por dia, 7 dias por semana, é difícil determinar tudo o que ele fez. Isso ajuda a lembrar, porém, que o diretor originou, aprovou, ou encaixou cada simples elemento dentro do quadro. Cada objeto, cada cor, cada movimento, cada performance. O diretor pode fazer algo tão pequeno quanto inclinar o chapéu de uma atriz, ou tão grande quanto contratar aquela atriz em primeiro lugar. O diretor pode pedir apenas a sugestão de uma lágrima no olho, ou exigir uma enxurrada de efeitos visuais que destrói uma cidade. Ele pode optar por filmar o clímax em um close-up dolorosamente simples, ou empregar uma grua technocrane, um coordenador de dublês, efeitos especiais, e mil figurantes. O trabalho exige visão e a liderança necessária para executar o roteiro, esculpindo os esforços de todo o elenco e equipe enquanto permanece dentro do prazo e do orçamento. É extremamente complexo, mas frequentemente executado em pequeninas decisões e momentos, tornando difícil de apontar para o quê "exatamente" o diretor fez. É realmente o acúmulo de uma miríade de decisões certas que se juntam para fazer um bom produto final.

Pergunta: Sempre que eu faço uma observação no set, o diretor revira os olhos quando acha que não estou olhando. Eu estou furioso com isso. Mas é difícil criar caso por algo aparentemente tão insignificante. O que eu posso fazer?

Resposta: Podemos pensar em algumas razões pelas quais isto esteja acontecendo.

  1. O diretor está inseguro, ainda mais por suas observações.
  2. O diretor está desconsiderando o roteiro, e adaptando-o para caber na visão dele.
  3. Suas observações são relativas ao seu ego, e não sobre o roteiro.
  4. Você está fazendo isso em excesso no set, sendo obsessivo a respeito da adesão dos atores a cada vírgula.

Em suma, vocês dois não estão em sintonia. Vocês não são parceiros criativos. Vocês não se olham olho no olho. (Há provavelmente clichês mais semelhantes aqui, mas vamos nos abster.) Vocês precisam sentar e tentar resolver isso. Não seja acusador. Comece com algo como: "Eu não acho que estamos trabalhando bem juntos no set. Como eu posso ajudar?" Lembre-se, enquanto o diretor sabe que tudo começa com um bom roteiro, ele está na linha de fogo agora, tentando fazer o melhor filme que pode. Não o ajuda, ou à produção, ter tensão constante. Tente tirar os seus sentimentos feridos do caminho e seguir o curso mais positivo e diplomático, pelo bem da sua história. Se isso for totalmente culpa do diretor (veja nº 1 ou 2), você pode, ou ir embora, ou amar ele/ela mais. Essa é realmente a única coisa que vai superar a insegurança e dissolver esta dança passiva/agressiva que vocês dois estão fazendo.

Pergunta: Eu tinha um certo ator/pessoa em mente quando escrevi o papel. Devo compartilhar isso com o diretor?

Resposta: Você certamente deve! Esteja ou não um ator disponível para desempenhar um papel que foi escrito com ele em mente, há uma riqueza de conhecimento que vem para o diretor ao saber dessa informação. Isso também pode se tornar uma base para uma conversa colaborativa entre você e o diretor ou a pessoa que está escolhendo o elenco do programa. O diretor pode querer saber se você está procurando pelas características físicas (alto, musculoso, bonito) ou pela essência do personagem (formidável, dominante, sexy). Estes detalhes, e a sua escolha de escrever o personagem dessa forma, são as peças do quebra-cabeça que o diretor junta para definir a história que ele vai contar. Isso também informa ao diretor sobre a história daquele personagem. Personagens são como pessoas; eles vêm com bagagem, necessidades, frustrações, realizações e sonhos. É o trabalho do diretor encontrar uma pessoa dinâmica e verdadeira para cada e todo papel que aparece na tela.

Pergunta: Eu escrevi uma cena que se passa na cozinha, mas a diretora mudou-a para a sala de jantar. Por que ela faria isso?

Resposta: Um diretor toma inúmeras decisões que afetam uma produção. Ele equilibra o peso de contar a história com a responsabilidade de conduzir a produção dentro do prazo e do orçamento. Se o diretor escolhe mudar alguma coisa, você deve saber que a decisão não é arbitrária. Ele prioriza onde serão as "cenas de dinheiro" e pode ter que ajustar outro detalhe a fim de espremer dinheiro do orçamento para colocar onde ele terá maior importância para contar a história bem. Isto pode não ser somente uma locação, pode ser um figurino ou objeto cenográfico que você tinha em mente ao escrever detalhes em seu roteiro. Tente observar as escolhas do diretor com um novo olhar e ver se a mudança é importante para o todo.

Pergunta: Eu quero estar no set durante as filmagens. Isto é um problema?

Resposta: Às vezes sim, às vezes não. E isso depende de quando. O diretor deve, em primeiro lugar, criar um ambiente seguro em que os atores arriscam-se a fazer seu trabalho. Aparecem atores de todas as formas e tamanhos, com diferentes conjuntos de habilidades, medos e formas de trabalhar. O diretor tem um trabalho enorme de ser o facilitador, o moldador, o terapeuta, para cada ator individualmente e para todos eles como um todo, enquanto, ao mesmo tempo, é um contador de histórias e um árbitro de bom gosto. Existem certas pessoas que devem estar presentes durante um primeiro bloco de ensaio, a fim de fazer a produção seguir sem sobressaltos. Estas são o Assistente de Direção, o Diretor de Fotografia, o Cenógrafo, e o Supervisor de Roteiro. Isso já são cinco pessoas, incluindo o Diretor, que o ator sente que estão julgando-o em sua maior vulnerabilidade. O diretor deve, no final das contas, proteger esta vulnerabilidade, que é de onde surge a performance única, e muitas vezes sutil, de um ator. Uma vez que a equipe toda esteja presente, isso torna-se novamente uma situação de julgamento. Se a sua presença no set coloca qualquer pressão indevida sobre os atores, é dever do diretor lidar com isso. A vantagem é que muitas vezes os atores ADORAM ter um escritor no set, sabendo que se surgir uma ideia que pode melhorar a cena, o escritor está lá para fazer um ajuste imediato. Eles também adoram o calor que sentem de uma outra entidade de apoio como você, que gosta do que eles estão fazendo.

bethany-rooney mary-lou-belli

Boa escrita pra você hoje! =)

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9 Comentários

  1. Ahhh… Eu quero estar no set de filmagens… Será que um dia eu chego lá? Life is a bitch!

    Comentário por Fernando — 24/10/2011 @ 18:06

    • 😆 EU TAMBÉM, EU TAMBÉM QUERO!! Rsrs!

      Sabe, do pouco que pude participar de sets de filmagem, deu pra ver que fazer um filme é algo super cansativo, mas SUPER LEGAL!!! Só assistir já é bacana, mas bom mesmo é fazer parte da equipe, nem que seja como “caboman” (ou “cabowoman”, no meu caso). É por isso que, apesar de adorar escrever, acho que ficarei frustrada se não rodar uns filminhos aqui e ali. Nem que sejam curtas. E acho que isso vale pra você também. Por isso que é bom já ir estudando fotografia, edição, direção, som e produção, acho que se você já está com essa vontade agora, depois que sentir o gostinho… tá frito! Rsrs! Você nunca mais será o mesmo. Meu pai costumava dizer que a “mosca azul do Cinema” havia me picado (desde quando mosca pica?) e eu não tinha mais cura. Acho que essa mosca tá rondando a sua casa há um tempão, viu? Rs! Deve haver um hospício, quero dizer, sanatório (é mais politicamente correto) por aí que se pareça com um estúdio de cinema completo e equipado, pra gente se internar nele, né? Se bobear, tem vários (e já lotados!). :mrgreen: É, life is a bitch indeed!!

      Tomara que a gente se esbarre por aí em um sanatório, quero dizer, estúdio, num dia desses, Fernando! Vai ser divertido! 😀

      Um beijo grande! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 25/10/2011 @ 10:45

      • Mas Valéria, vou te levar pra trabalhar comigo quando minha série entrar em produção, viu? Só quero ver se o trabalho vai sair com nós dois juntos na mesma sala. HAHAHAHAHAHHAHA Não sei se vai aceitar, claro. Só mais um sonho pra minha lista.

        Eu realmente espero que a gente se esbarre por aí pra trocar algumas figurinhas sobre essa vida de faz de conta.

        Ah, sonhos… Às vezes parecem tão distantes, e às vezes tão perto e fáceis de realizar. Ai, ai.

        Comentário por Fernando — 27/10/2011 @ 22:39

        • 😆 😆 É verdade, das duas, uma: Ou a gente não vai conseguir trabalhar ou vai trabalhar magnificamente bem! :mrgreen:

          Ah, e não desista nem subestime os sonhos, é disso que o universo inteiro é feito! =) 😉 Um beijo grande! 😀

          Comentário por valeriaolivetti — 28/10/2011 @ 08:25

  2. Excelentes dicas… >.< rs Nossa, posso me colocar no lugar dos escritores e ter ideia do que eles sentem tendo um diretor que faz certas mudanças em sua obra! Mas a partir do momento que entramos num set de filmagens temos que deixar nosso ego do lado de fora, como diz nosso querido Carlos Saldanha. Não há nada que não possa ser resolvido com uma boa conversa, não é mesmo? É necessário pensar em conjunto, pelo bem da obra. *-*

    Comentário por Mariane — 26/10/2011 @ 13:43

    • Olá, Mariane, seja bem-vinda! 😀

      Valeu, fico feliz que tenha gostado!

      O que é interessante no cinema é que cada um contribui com um pouco de sua inteligência, talento e criatividade para criar uma arte coletiva. Quando tudo conspira a favor, o resultado é uma obra-prima onde todas as peças se encaixam com perfeição, como numa bela sinfonia. O problema é quando tem uma ou mais peças (ou notas) fora do lugar. Aí o escritor fica nervoso e ansioso com aquela “desafinação”, mas a esta altura já não há muito o que ele possa fazer. Brigar e espernear só vai piorar as coisas. Mas você tem razão, nunca custa a gente ter uma conversa calma com os colegas, pra ver se ajuda um pouco. O pior é quando tudo está correndo bem e NÓS estragamos o clima com a nossa presença. Aí, não tem santo que ajude! Rs! :mrgreen:

      Um abraço, Mariane, e obrigadão pela visita! =D
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/10/2011 @ 08:37

      • Valéria, virei sua fã =P

        Comentário por Mariane — 28/10/2011 @ 17:22

  3. Oi Valéria!!!!!

    Eu penso seriamente em fazer um curso de direção também, futuramente, para poder ter a certeza de que tudo que eu ralei para fazer realmente vá para as telas do cinema. Mas, para quem gosta e quer viver do cinema assim como nós queremos, é interessante fazer cursos de direção e de tudo que tenha um poquinho a ver com cinema. Isso com certeza nos ajudará a entender um pouco mais desse nosso mundo. Porque com certeza não é legal você escrever algo que julga importante e, quando for ver o filme não encontrar aquilo. Mas, independente disso, é preciso ter uma sintonia entre roteirista e diretor para o bem do filme. Sem disputa de egos.

    Abraços, Valéria!!!!!

    Comentário por Paulo Henrique — 03/11/2011 @ 18:00

    • Oi, Paulo Henrique! 😀

      Tem toda razão. E, como você disse, é mesmo importante fazer o curso de direção de cinema. Se a gente conseguir dirigir nossas próprias histórias, melhor ainda, mas só de ter o conhecimento deste ofício, já ajuda muito no nosso, com certeza. E é bom conseguir se colocar um pouco no lugar do diretor, saber que às vezes ele é obrigado a encontrar opções diferentes e disponíveis pra adaptar aquilo que imaginamos. De resto, é torcer e rezar pra não pegar um diretor picareta pra trabalhar com a gente! Pé de pato, mangalô, três vezes! Isola!! :mrgreen:

      Abração! =D

      Comentário por valeriaolivetti — 04/11/2011 @ 22:00


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