Dicas de Roteiro

08/10/2011

Atuar e Escrever

Filed under: Atuação,Roteiro — valeriaolivetti @ 13:25
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Este artigo foi escrito pelo roteirista Scott Myers para o seu blog Go Into The Story. Este é o primeiro de uma série de sete artigos que abordam a relação da escrita com a interpretação. Nós alternaremos esta série com as outras que já estamos publicando.

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Em uma recente aula de roteirismo online, eu tive esta troca com um par de alunos:

Autor: Scott Myers
Data: quarta-feira, 3 de fevereiro, 2010
Assunto: Palestra 1

Linha de discussão para perguntas e comentários sobre a Palestra 1, começando com algumas perguntas de mim para vocês:

*Você já pensou alguma vez sobre os aspectos dualistas (o Mundo Externo e o Mundo Interno) do universo de um roteiro?

*Todos nós provavelmente já ouvimos falar de subtexto em comparação com o diálogo. Mas e sobre a intenção vinculada à ação? Não é verdade que, às vezes, um personagem faz algo mas a sua ação reflete uma intenção diferente?

Esta é uma daquelas dinâmicas – Externa e Interna – que eu acredito que um escritor precise levar consigo sempre que for abordar a escrita de uma cena. Isso afeta todos os aspectos do processo de escrita de cenas. Por exemplo, quando há um ponto na cena relacionado com a trama, quase sempre há um ponto relacionado, mas diferente, em termos da vida emocional da cena (o que eu chamo de Linha Temática).

Observe que estudaremos estas ideias com muito mais profundidade nos próximos dias, mas eu estou curioso de como serão as suas reações iniciais.

Então, esta resposta:

Autor: James Tichenor
Data: quarta-feira, 3 de fevereiro, 2010
Assunto: RE: Palestra 1

Eu passei alguns anos tendo aulas de interpretação, e ação e intenção são conceitos fundamentais ensinados durante a análise do roteiro. Não apenas em ações visuais do que os atores fazem, mas os modos como os atores mostram os personagens se esforçando para conseguirem o que querem numa base cena-a-cena.

Eu fui ensinado que um personagem irá querer alguma coisa de outro personagem. A forma como ele a obtém, o curso que ele toma, são as ações, as intenções, que se encontram no subtexto das falas que eles dizem uns aos outros.

Se um personagem quer que outro personagem lhe dê 10 dólares, ele então talvez coaja, implore, peça, exija, convença o personagem (o outro ator), e estas serão as ações que vivem por trás das falas.

Isto torna-se o subtexto da cena, a interação momento-a-momento conforme o personagem luta pelo que quer.

A beleza disso é que cada ator fará escolhas ligeiramente diferentes. O que eles querem pode ser o mesmo (quanto mais claro estiver na escrita, mais claro será para o ator interpretar), mas a maneira que cada ator escolhe de conseguir isso vai ser ligeira ou radicalmente diferente.

Acha que essas ações e intenções são exatamente as mesmas sobre as quais você escreveu, Scott? Eu acho que seria importante para o escritor ter algumas ideias do que pensarão que as ações poderiam ser, mas a melhor escrita estará aberta o suficiente para permitir a interpretação criativa dos seus colaboradores, né?

A minha resposta:

James, você está no caminho certo. E seus comentários são um dos motivos pelos quais eu insisto com os meus alunos para terem aulas de teatro.

Eu ensino um conceito fundamental em minhas aulas de roteiro: "Personagem = Função". Isso soa reducionista para a maioria dos alunos no começo. Mas do ponto de vista da atuação, isso realmente tem a ver com aprofundar-se num personagem e descobrir o que há em sua essência. Uma vez que você saiba isso e tudo o mais com que o personagem esteja brincando ‘lá em cima’ (Mundo Externo), você terá um domínio sobre o personagem.

É como aquela anedota do Robert Towne, falando sobre as aulas de teatro que ele teve muito tempo atrás, com Jack Nicholson. O professor definiu o enredo: "Ok, Jack, você precisa transar com esta garota. Mas eu quero que você a seduza apenas falando sobre querer um copo de leite".

Lá vamos nós: Querer / Precisar. Apenas dada essa orientação, você dá ao ator todo um mundo de possibilidades sobre como abordar sua tarefa, mas, igualmente importante, você forneceu-lhe uma base, uma compreensão de alguns aspectos-chave de seu personagem.

O subtexto desta discussão sobre ação e intenção é levantar uma questão: Por que fazemos o que fazemos? E isso é claro no modo de pensar de um ator ao tentar apreender a essência central de um personagem.

Em relação ao seu último ponto: Eu acredito que um escritor trafegue no mundo de seus personagens e passe a conhecê-los da melhor maneira que podem. Mas quando os atores já foram contratados e o diretor saiu para fazer o filme, os atores "encontram" os personagens em seus próprios planos de conexão. Esperançosamente, o escritor penetrou tão profundamente nos personagens e transmitiu a sua essência para o papel de tal modo que um ator registra isso, e então segue o seu próprio instinto criativo para elevar aquele personagem a um outro nível completo de existência.

Mas esse é um ideal.

O importante é que com essa ideia de ação e intenção, os escritores possam abordar os seus personagens de uma forma honesta e franca – e ao fazerem isso, se conectem com seus personagens de um jeito que os atores também irão.

Então, este post da antiga leitora do blog Go Into The Story, Shea Vitartis:

Autor: Scott Myers
Data: quarta-feira, 3 de fevereiro, 2010
Assunto: Atores, ações e intenções

“O importante é que com essa ideia de ação e intenção, os escritores possam abordar os seus personagens de uma forma honesta e franca – e ao fazerem isso, se conectem com seus personagens de um jeito que os atores também irão.”

Scott, você está incorporando o Shakespeare? Ou as grandes mentes pensam da mesma forma.

Como Shakespeare aconselharia aos atores:

“Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto.”

Aqui está o monólogo inteiro (É incrível):

[N.T.: A tradução do trecho da peça Hamlet, de William Shakespeare, foi tirada do Site do Escritor.]

HAMLET

HAMLET: Peço uma coisa, falem essas falas como eu as pronunciei, língua ágil, bem claro; se é pra berrar as palavras, como fazem tantos de nossos atores, eu chamo o pregoeiro público pra dizer minhas frases. E nem serrem o ar com a mão, o tempo todo (Faz gestos no ar com as mãos.); moderação em tudo; pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – o que engrandece a ação. Ah, me dói na alma ouvir um desses latagões robustos, de peruca enorme, estraçalhando uma paixão até fazê-la em trapos, arrebentando os tímpanos dos basbaques que, de modo geral, só apreciam berros e pantomimas sem qualquer sentido. A vontade é mandar açoitar esse indivíduo, mais tirânico do que Termagante, mais heroico do que Herodes. Evitem isso, por favor.

Mas também nada de contenção exagerada; teu discernimento deve te orientar. Ajusta o gesto à palavra, a palavra ao gesto, com o cuidado de não perder a simplicidade natural. Pois tudo que é forçado deturpa o intuito da representação, cuja finalidade, em sua origem e agora, era, e é, exibir um espelho à natureza; mostrar à virtude sua própria expressão; ao ridículo sua própria imagem e a cada época e geração sua forma e efígie. Ora, se isso é exagerado, ou então mal concluído, por mais que faça rir ao ignorante só pode causar tédio ao exigente; cuja opinião deve pesar mais no teu conceito do que uma plateia inteira de patetas. Ah, eu tenho visto atores – e elogiados até! e muito elogiados! – que, pra não usar termos profanos, eu diria que não tem nem voz nem jeito de cristãos, ou de pagãos – sequer de homens! Berram, ou gaguejam de tal forma, que eu fico pensando se não foram feitos – e malfeitos! – por algum aprendiz da natureza, tão abominável é a maneira com que imitam a humanidade!

Então corrija tudo! E não permita que os jograis falem mais do que lhes foi indicado. Pois alguns deles costumam dar risadas pra fazer rir também uns tantos espectadores idiotas; ainda que, no mesmo momento, algum ponto básico da peça esteja merecendo a atenção geral. Isso é indigno e revela uma ambição lamentável por parte do imbecil que usa esse recurso. Vai te aprontar.

Isso me deu uma ideia. Não seria útil discutir o seguinte tópico neste blog: O que o ofício da interpretação pode ensinar os escritores sobre o ofício da escrita.
Hoje lançaremos uma série de 5 partes sobre este assunto. Todos vocês que são atores ou que tiveram aulas de teatro, eu estou especialmente esperançoso que vocês se envolvam e deem suas opiniões nos comentários de hoje e do resto da semana.

Vejo você mais tarde hoje!

*Comentários do post original:

Erin disse:

Quando eu comecei a escrever e dirigir (tenha em mente que isso foi em vídeo e eu ainda era criança) eu estava sempre atuando em meus filmes, porque eu sabia que pelo menos eu iria aparecer naquele dia, então não me preocupava com o fato do ator principal não estar lá.

Eventualmente eu pensei que seria bom fazer um curso de teatro na faculdade da comunidade local para compreender o processo dos atores e como escrever para eles. Isto acabou me desviando por alguns anos numa busca e amor absoluto pela interpretação que, por sua vez, me tornou muito mais consciente do que estou escrevendo.

Alguém tem de dizer estas falas.
Alguém tem de transmitir essas emoções.
Alguém tem que trazer à vida as minhas palavras.

Como eu posso escrever isso da forma mais clara, concisa e, mais importante, divertida possível?

Bianca disse:
 
Eu sou uma atriz/roteirista e no último ano e meio fui fazer um curso de estudo de cena. Eu tenho de dizer honestamente que realmente recomendo os escritores a terem aulas de teatro (ou mesmo aulas de improvisação! Essas também são úteis, especialmente quando se tenta criar personagens).
 
Na minha turma de teatro, sempre nos disseram que o roteiro que nos foi dado é um projeto, um guia. Como atores, nós pegamos o que o escritor nos dá (o enredo, as palavras) e descobrimos a HISTÓRIA por trás disso tudo. As palavras são o domínio do escritor, os sentimentos são o do ator. Após a leitura do roteiro, precisamos encontrar o que está por trás de todas estas palavras.
 
Como atriz, eu tenho que descobrir qual é o objetivo da minha personagem. O que é que eu quero e como vou conseguir isso dessa outra pessoa? E eu concordo com a resposta do James de que cada ator irá interpretar um personagem de forma diferente. Haverá diferentes escolhas sendo feitas porque cada ator é diferente. Não existem dois atores que possam duplicar o mesmo desempenho.
 
Antes de começar o meu curso de teatro, eu estava basicamente apenas escrevendo palavras, e eu achava que tinha algo. Mas depois de fazer estas cenas no meu curso de estudo de cena, a minha abordagem em relação à escrita mudou. Para cada personagem que eu escrevo, estou sempre pensando no que essa pessoa realmente quer e o quão desesperadamente ela precisa obter isso. Personagens estão sempre em dificuldades – o que eu preciso escrever para ser capaz de mostrar isso? E assim, você acaba escrevendo uma série de êxitos e fracassos para esses personagens.
 
Também estou constantemente me perguntando "Por quê?" – Por que ela é desse jeito, por que ele está fazendo isso com ela etc. No coração de cada personagem, eu aprendi que eles quase sempre são movidos pelo medo de alguma coisa. E geralmente é o medo de não ser amado, ou de estar sozinho (se é uma história de amor/o amor como objetivo).
 
Basicamente, a lição mais importante que eu aprendi no curso de teatro é que cada personagem tem um objetivo que está lutando para alcançar. Uma vez que você descubra isso, os outros detalhes como a intenção e os obstáculos surgirão.
Scott disse:
 
@Erin e Bianca: Este é precisamente o tipo de resposta que eu estava esperando que a série desta semana fosse gerar. Quaisquer outras reações que vocês tiverem sobre a série de posts, eu agradeço os seus comentários.

mascaras-gregas Boa escrita e até amanhã!

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