Dicas de Roteiro

28/09/2011

Para Quem Você Está Escrevendo?

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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O artigo de hoje é um complemento ao de ontem, e também foi escrito por David Trottier e tirado do site Keep Writing:

Roteirista

Em um artigo de uma edição anterior do meu boletim eletrônico, um outro escritor desafiou a minha noção de escrita enxuta de descrição. O exemplo de descrição enxuta que eu usei foi tirada do roteiro de especulação de Rocky. Ela dizia o seguinte:

descrição academia2

Eu gosto dela porque diz muito com poucas palavras, e um leitor é capaz de facilmente visualizá-la. Ele preferiu a versão seguinte (abaixo) porque ajudaria mais os atores, o diretor, o cenógrafo e o diretor de arte. "Afinal de contas", ele disse, "é para quem nós estamos escrevendo." Ela contém mais detalhes, apesar de não ser tão legível.

descrição academia

Um princípio fundamental está em questão aqui. A menos que você esteja sendo pago antecipadamente para escrever, você não está escrevendo para o diretor ou o cenógrafo, nem mesmo para os atores. Você está escrevendo o seu roteiro de especulação para um leitor, ou seja, um analista de história profissional, um agente ou um produtor. Todos aqueles detalhes extras poderão ser adicionados ao roteiro de filmagem.

É importante usar uma linguagem concreta e fornecer detalhes específicos, mas escolha apenas aqueles detalhes que ajudem o leitor a visualizar a ação. A essência da escrita de especulação é dizer o máximo possível com o mínimo de palavras possível.

Ao escrever a descrição, tente usar verbos específicos para descrever as ações, sem depender de advérbios, e escolha substantivos específicos, sem usar adjetivos. Estou dizendo que adjetivos e advérbios devem ser evitados?

Não, eu estou dizendo que você deve se concentrar em verbos e substantivos primeiro. Você não vai precisar usar tantos adjetivos e advérbios se usar substantivos específicos e concretos, e verbos.

Por exemplo, aqui está uma frase que contém um advérbio e um par de adjetivos: Ele está andando lentamente para o grande barco amarelo. Repare que os adjetivos e o advérbio oferecem pouca ajuda, porque o verbo e o substantivo não são específicos, em primeiro lugar.

Agora, aqui está a mesma frase, usando um verbo específico e ativo e um substantivo concreto: Ele cambaleia para o iate.

Como eu uso uma linguagem concreta e específica, não preciso de advérbio e de adjetivo, pelo menos neste caso em particular. E observe como o verbo cambaleou caracteriza o meu personagem melhor do que o verbo mais fraco caminhou. Finalmente, você vê que o verbo ativo cambaleia é mais forte do que a forma passiva está cambaleando? [N.T.: em português, um gerúndio – não confundir com voz passiva.] Linguagem específica pode ajudá-lo a trazer personagens e ação à vida.

Mesmo quando você usa substantivos concretos e verbos, ainda pode ver a necessidade de adjetivos concretos e advérbios. Na frase a seguir, eu uso um par de adjetivos para esclarecimento visual: Ela desliza para o bangalô de tijolos cor-de-rosa. Deste modo, o meu ponto verdadeiro é este: Use uma linguagem visual e concreta na sua descrição narrativa. Adjetivos e advérbios são palavras de apoio, por isso certifique-se primeiro de que os seus verbos e substantivos sejam fortes, e então procure por palavras de apoio, se você precisar delas.

O grande e saudoso Paddy Cheyvsky (Marty, Rede de Intrigas) disse uma vez: "Eu tenho duas regras. Em primeiro lugar, corte toda a sabedoria; então, elimine todos os adjetivos."

Eu não acho que ele quis dizer que de fato repassava o roteiro e omitia todos os adjetivos; eu acredito que ele estava se referindo à linguagem enxuta, concreta e específica. O "cortar toda a sabedoria" faz alusão à tendência de alguns escritores a soar enfadonho e didático, ou a exagerar seu tema, ou a escrever diálogo pretensioso e antinatural.

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Boa escrita pra você hoje! =)

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