Dicas de Roteiro

27/09/2011

Meus Erros Preferidos

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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O artigo de hoje é do roteirista, autor e consultor de roteiros Dave Trottier, e foi tirado de seu site, Keep Writing:

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Eu li um zilhão roteiros durante os últimos anos, e os seguintes são os meus dez clichês e deslizes gritantes favoritos. Evite estes erros em seu roteiro, ou lide com eles de uma forma criativa.

1. A primeira cena do roteiro é um sonho, após o que o personagem se senta ereto em sua cama. Isto é tão clichê que o Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3 abre com ele. Confira no YouTube. É lógico que se isso já era um clichê naquela altura, certamente é um agora. Entretanto, a sua abordagem criativa a ele pode ser simplesmente certa para o seu filme.

2. A última cena do roteiro nos diz que tudo era apenas um sonho. Sim, eu vi O Mágico de Oz, mas os leitores não resmungavam depois de lerem o roteiro de O Mágico de Oz. Seja tão inteligente quanto um espantalho e espante esta tática.

3. Não reconhecer os pontos fortes do seu roteiro. Você já ouviu a expressão Mostrar é melhor do que contar. Eu gostaria de acrescentar um corolário a isso: Reconheça os momentos cinematográficos.

Por exemplo, eu acabei de ler uma cena de quatro páginas de diálogos, onde os personagens discutiam o que tinham feito e o que iam fazer. Aquelas quatro páginas foram seguidas pelo seguinte parágrafo:

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Fascinante, não é? De alguma forma, eu acho que o leitor gostaria de ver mais detalhes da ação deste momento cinematográfico e ouvir um pouco menos de diálogo sobre tudo o que está acontecendo e vai acontecer. No mínimo, nós gostaríamos de saber quem matou Martinelli. Como isso foi feito? Como a ação se desenvolveu? E Martinelli foi morto por causa de uma garrafa de suco de maçã?

4. Descrições de coisas que não podem aparecer na tela do cinema. Por exemplo:

mãe idosa

Os pensamentos, os sentimentos, as percepções e a agitação interior de John não são capazes de aparecer na tela do cinema simplesmente por descrevê-los como ação. No lugar disso, você deveria descrever as ações, os gestos, as expressões faciais e os sons que ajudam a comunicar ao leitor o que está acontecendo dentro de John.

5. Escrever em excesso tanto o diálogo quanto a descrição. Imagine o vilão apontando uma arma na cabeça de uma refém, enquanto o mocinho aponta a sua arma para o vilão.

arma apontada

Não há espaço para subtexto no discurso acima. O seguinte funciona melhor:

Dirty Harry

Aqui está um exemplo de descrição excessiva:

descrição academia

A "revisão" abaixo foi tirada diretamente do roteiro de Rocky.

descrição academia2

Menos é mais.

6. Exposição óbvia.

lipoaspiração

…E assim por diante. Deixe a exposição emergir naturalmente nas conversas… a menos que você esteja escrevendo uma óbvia comédia.

Exposição óbvia inclui narração em off que acrescente pouco ao que já vemos na tela do cinema; também inclui flashbacks que interrompam a dinâmica do filme. Como orientação geral (o que significa que pode haver exceções), não nos conte sobre o passado até que nos preocupemos com o presente.

7. O personagem central é um escritor tentando entrar no ramo e que tem êxito no final, ao vender a história que acabamos de assistir na tela do cinema. É de fato uma ideia inteligente. Eu mesmo tive esta ideia uma vez, assim como milhares de outros roteiristas.

Outro clichê favorito de enredo é este: A família de Sue é morta e agora Sue tem de encontrar o assassino para provar a sua inocência/vingar a sua família. Se esta é a sua ideia, acrescente uma reviravolta diferente a ela ou execute-a de uma maneira original e atraente.

8. Cabeçalhos de cena no roteiro que são confusos. Por exemplo, nenhum local é identificado no seguinte cabeçalho de cena:

cabeçalho de cena

Outro problema são os cabeçalhos secundários que surgem do nada. Por exemplo, note como o cabeçalho secundário abaixo não segue logicamente o cabeçalho de cena principal:

pântano

Como pode um banheiro ser parte de um pântano, e como passamos de uma tomada externa para uma interna? Certifique-se de compreender os cabeçalhos de cena principais e os secundários, e como eles são usados.

Finalmente, eu vejo com frequência descrição demais nos cabeçalhos de cena. Por exemplo:

noite de ventania

Isso, na verdade, deveria ser escrito da seguinte forma:

lua pálida

Guarde a descrição para a parte de descrição do seu roteiro.

9. O personagem principal é "rusticamente bonito." Se o seu personagem é rusticamente bonito, deixe-o provar isso com suas ações rústicas. [N.T.: Em português, a palavra “rústico” também pode designar uma aparência, além de um comportamento. No original, o termo escolhido pelo autor referia-se mais a uma atitude.]

10. Este último exemplo de clichê é de uma carta consulta: "Suzie confronta os seus demônios."

Deve haver um monte de demônios por aí, porque eles são constantemente confrontados em cartas de consulta. E as cartas de consulta não são o único lugar. Ao escrever esta confissão pessoal, eu tentei confrontar os meus próprios demônios. Mas, oh, os pesadelos continuam…

rusticamente bonito

Continue escrevendo… e faça isso com um toque criativo.

dragao2

Boa escrita pra você hoje! =D

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8 Comentários

  1. Ola, olha eu aqui novamente (rsrsr)
    Bom, o erro de numero 1 é um dos melhores, confesso que alguns dos roteiros que li, inclusive de uma amiga americana, começam com um sonho e ,com cara de sono, a pessoa se senta ereto em sua cama. Geralmente filmes de ação / policial tem este início, e todos os que li eram do gênero. Estou livre deste pequeno erro, não dá pra colocar alguém recém acordado, sentado em sua cama, rodeado de zumbis no meio da floresta, seria loucura total (rsrsrs )
    Estou aqui estudando os outros erros, talvez eu tenha escorregado em algum. Mais uma vez, obrigada pela postagem esclarecedora, esta sendo de muita ajuda para mim.

    Obg, boa tarde .

    Ariane Mevi

    Comentário por Ariane Mevi — 27/09/2011 @ 16:24

    • Oi, Ariane! 😀

      Rs! Nossa, terrível existir tanto roteiro com este clichê! Mas ter alguém acordando de um sonho totalmente diferente e descobrir que está numa floresta rodeado de zumbis seria fenomenal! Rsrs! É bem o que o cara falou, se a gente for usar o clichê, que seja de forma original. Seria uma loucura mesmo, mas no bom sentido, quem não se surpreenderia com uma situação dessas? :mrgreen: 😆

      Um beijo grande e obrigadão novamente pela força, Ariane! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/09/2011 @ 08:22

  2. Boa tarde Valéria, tudo bem?
    Eu gostaria muito de saber como temos que descrever o movimento das câmeras dentro do roteiro e quando, em uma cena, temos que usar duas câmeras, uma em um personagem e uma no outro personagem.
    Agradeceria muito se pudesse tirar esta minha dúvida. Parabens pelo maravilhoso site.

    Comentário por Eduardo Meny — 27/09/2011 @ 17:50

    • Oi, Eduardo, seja bem-vindo!

      Em primeiro lugar, obrigada pela visita e pelo apoio, fico muito feliz que você esteja gostando! 😀

      Quanto à sua dúvida, na verdade é um erro o roteirista fazer qualquer citação a posicionamento de câmera ou relacionado à parte técnica da cinematografia. A única coisa com que você tem que se preocupar é em contar bem a sua história, seguindo a formatação correta, com começo-meio-fim claros e definidos. Tudo o que for de fotografia, som, cenografia, figurino e direção a gente deve deixar para os outros profissionais que filmarão o roteiro. De fato, nem mesmo o diretor põe o movimento ou o número de câmeras no roteiro de filmagem. Geralmente, na fase de pré-produção, o diretor se reúne com o diretor de fotografia e decidem juntos como filmarão cada cena, frequentemente fazendo desenhos, plantas-baixas do cenário, decidindo como será a iluminação e a posição das câmeras, a movimentação dos atores (sendo que tudo isso pode mudar radicalmente na hora da filmagem, de acordo com a locação escolhida). Para ajudar a visualizar melhor, leia alguns roteiros de filmes e/ou séries. Você pode encontrar vários no maravilhoso site do Fernando Marés, Roteiro de Cinema.

      Um grande abraço, Eduardo, boa sorte e sucesso!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/09/2011 @ 08:37

  3. Olá! Faz o proximo post falando sobre roteiros de série.Séries da Disney,esses roteiros de comédias,as táticas para conquistar a disney pelo o roteiro e tal! Por favor! Amo seu blog!Nunca vi um tão bom assim! Bjs!

    Comentário por Lorena — 28/09/2011 @ 11:01

    • Puxa, Lorena, obrigada, fico super feliz mesmo que esteja gostando tanto assim! 😀

      Por coincidência, estou finalizando um longo post sobre formatação de séries de TV para essa semana ainda, acho que vai ajudar bastante a tirar suas dúvidas. Mas, quanto a escrever especificamente para a Disney, como disse antes, eles aceitam apenas roteiros de especulação de seriados já existentes para seu concurso, então você deve procurar um exemplar original da série que você escolheu para servir de modelo para a sua escrita. A Disney/ABC tem uma política de não aceitar roteiros não-solicitados, portanto eles não recebem roteiros diretamente do roteirista e/ou seu agente (a não ser sejam indicados por terceiros), é mais jogo tentar entrar através do concurso anual deles (onde os ganhadores ficarão um ano aprendendo a escrever especificamente para a Disney). Eis a tradução do que está escrito no site da rede ABC:

      “Quais são as diretrizes da ABC para submissões não-solicitadas de ideias ou conceitos de histórias?
      Infelizmente, a política da ABC e da Walt Disney Company há muito estabeleceu não permitir que a rede aceite para revisão ou consideração quaisquer ideias, sugestões ou materiais criativos não-solicitados por nós ou nossas subsidiárias. Nossa intenção é evitar mal-entendidos quando os projetos são criados internamente, o que pode ser semelhante às apresentações feitas a nós de fora da empresa. Achamos que você vai concordar que essa política é do melhor interesse de todos.”

      É isso, Lorena, espero ter ajudado! Aguarde mais um pouquinho que o texto sobre TV já está saindo. 🙂
      Beijos!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 28/09/2011 @ 11:45

  4. Olá, Valéria!

    Enfim, sabe o que eu mais vejo nas séries de TV ? Erros. As vezes, tento deixá-los de lado, mas não consigo.

    Erros como estes. Em todo o tipo de roteiro existem erros, mas em séries de TV vejo erro com histórias. Isto deveria estar ai como um erro, não é ? Eles fazem algo não lógico, exemplo, um carinha pede a outra em casamento só para afastá-la enquanto está de caso com a outra, mas ele diz que a ama e que ainda quer ficar com ela, mas eles desenvolvem isto de uma forma infantil.

    Ou pior, as vezes personagens somem repentinamente como se fosse um truque, e nunca mais são citados..

    Isto é um meio que absurdo, não sou profissional, mas vejo que certos erros até mesmo com histórias ficam chatos de ser mostrados. Eu já vi erros de roteirismos em relação a séries.

    Tipo: Uma jovem está no banheiro tramando contra a melhor amiga, colocando os remédios anti-depressivo da melhor amiga (ou ex) na bolsa, e amiga vê, parada na porta, mas finge que não vê e só vemos que ela percebe isto dois episódios depois. Como disse, as vezes, tenho que dizer que erros como lógica de fatos ou histórias, é meio que absurdo.

    Erros existem sim, mas roteiristas de TV que já se encontram na quarta temporada isto é um absurdo.

    Enfim, é só a minha visão sobre isto.

    Um abraço, Valéria, e desculpe meu desabafo.
    Até mais, querida.
    Atenciosamente, Igor.

    Comentário por Igor — 28/09/2011 @ 21:15

    • Oi, Igor! :mrgreen:

      Que isso, não precisa se desculpar de modo algum! Eu também fico revoltada com essas verdadeiras crateras nas histórias de séries e filmes. Na verdade, eu acho pior isso em filmes do que em séries. Porque os filmes têm mais tempo para serem produzidos, geralmente tem menos roteiristas dando pitaco, e aqueles erros poderiam ter sido corrigidos em qualquer momento durante os dois anos em que ele foi produzido (que é o tempo médio para ir da pré à pós-produção).

      Já os seriados têm uma dúzia de roteiristas diferentes e é uma correria danada, às vezes tendo de reescrever tudo e inventar reviravoltas do nada porque a audiência está caindo. E quando acontece isso da história ignorar detalhes importantes, geralmente a culpa é do roteirista-chefe, que não está acompanhando o desenrolar dos detalhes plantados. Nisso o Joss Whedon sempre foi bom, ele plantava uma informação no começo da temporada, ia soltando uns detalhes de vez em quando (que a gente não entendia do que se tratava), mas depois fechava e amarrava tudinho com lógica no final. Isso demonstrava um excelente planejamento e uma atenção imensa aos detalhes que é muito raro, não é à toa que o cara virou “mestre” de muita gente neste ramo.

      Um abração, Igor, e fique sempre à vontade para desabafar e exprimir suas opiniões sempre que quiser, esse espaço é todo seu! 😀
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 29/09/2011 @ 09:30


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