Dicas de Roteiro

21/09/2011

Os Erros Mais Graves de Roteirismo

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Este artigo é de um dos gurus do roteirismo, o autor e professor universitário de roteirismo Charles Deemer, e foi tirado do site Screenwriter’s Utopia:

Os erros mais graves de roteirismo

Agora que a minha turma da universidade terminou, com uma nova para começar em janeiro, eu tenho uma folga durante a qual pensar, como sempre faço, sobre o que posso fazer para ajudar os alunos a evitarem os erros mais comuns e graves do roteirismo. Semestre após semestre, ano após ano, eu continuo vendo os mesmos erros, especialmente bem no início, antes dos alunos começarem a entender como a escrita de roteiros é diferente de todas as outras formas narrativas. Aqui está, então, a minha lista dos erros mais comuns, em nenhuma ordem particular.

Retórica de Ficção. Muitos dos meus alunos vêm de uma prática de ficção – e isto se nota imediatamente. Eles escrevem em excesso em todos os níveis. Eles descrevem em demasia. Suas estruturas de frases são complexas demais. Seus parágrafos são muito longos, dando ao roteiro uma grande densidade de texto e a aparência de um documento literário. Aqui estão algumas diretrizes para evitar a retórica da ficção:

  • Escreva apenas frases simples. Lembra-se do que é um período composto? Certo, um período com uma oração subordinada. Evite-os feito praga! Eles diminuem a velocidade de uma leitura rápida e todos os roteiros são lidos rapidamente, até mesmo só com um passar de olhos, antes de serem lidos com atenção. Frases diretas e simples. Não tenha medo de usar fragmentos de frases. Finja que está no segundo ciclo do ensino fundamental.
  • Escreva parágrafos curtos. Cada parágrafo não deve tomar mais do que quatro ou cinco linhas da página antes de você dar um espaço duplo e começar um novo. Isto deixa o roteiro acessível, tornando-o vertical, tornando-o mais fácil de ler. Se há um assunto novo, um novo foco, inicie um novo parágrafo. Embora você não possa "dirigir o filme" em um roteiro de especulação, você pode fazer isso, de certa forma, através do seu espaçamento de parágrafos. Faça de cada parágrafo uma nova tomada.
  • Descrição demais. Você não é o figurinista. Toda vez que você descrever uma peça de roupa ou algo em um quarto, qualquer coisa, pergunte-se: isto é essencial ou é opcional? O casaco vermelho da Mary é necessário? Se o casaco for azul, isso muda a sua personagem ou a história desmorona? Livre-se dos opcionais, permitindo que os seus colaboradores tomem as decisões, e conserve o essencial.

Diálogo expositivo. Em geral, o diálogo é uma maneira desajeitada de comunicar fatos e números. É preciso perícia para levar isso a cabo. Até chegar a este nível de habilidade, evite fazê-lo. Encontre outras formas de relatar informações essenciais, de preferência visualmente.

Conversa mole. O problema da maioria dos diálogo em roteiros de iniciantes, porém, é que, com demasia, eles não vão a lugar nenhum. São realistas, sim, mas a vida se move muito mais lentamente do que o faz uma história bem trabalhada. Novamente, o teste final é a eliminação: se você remover esta fala de diálogo, o que acontece? O roteiro e a história desmoronam numa incompreensível linguagem sem nexo? Um traço essencial do personagem é perdido? Se nada acontecer, então por que ela está lá? Como na escrita descritiva, mantenha o seu diálogo enxuto. Permutas de diálogo que são curtas e rápidas atuam muito melhor, em geral, do que permutas prolixas.

Foco pobre. Quem é o seu personagem principal, qual é a sua meta, e o que o está impedindo de alcançá-la com sucesso? Estas são as perguntas imediatas que precisamos que estejam respondidas para compreendermos a sua história. Você precisa falar sobre elas, melhor mais cedo do que mais tarde. Foco pobre sobre o personagem principal é um erro comum que eu vejo. Mantenha o seu protagonista na tela, tanto quanto possível – até mesmo duas ou três páginas fora da tela podem ser o suficiente para jogar o foco da história de lado. Grude no personagem principal feito cola.

Nas minhas aulas, eu tento fazer os alunos solucionarem os desafios retóricos do roteirismo (escrita de ficção, diálogos lentos) o mais rapidamente possível, para que eles possam se concentrar nas questões da história, como o foco. Roteirismo, de fato, é mais sobre narração de histórias do que sobre a escrita como a costumamos imaginar. No entanto, as questões retóricas ocupam alguns alunos pela maior parte do semestre, como se eles tivessem dificuldades em aceitar que o roteirismo não é escrita literária. Algumas pessoas têm observado uma tendência na escrita de roteiros rumo a uma maior qualidade literária (o roteiro de As Horas vem à mente), mas é preciso lembrar que estes exemplos são escritos por escritores estabelecidos. A condição do roteirista de especulação é diferente e muito mais competitiva. Para ser lido em tal ambiente exige-se uma atenção especial para a economia, de modo que a sua história seja facilmente descoberta e compreendida.

Roteirismo é a única forma de escrita sobre a qual pode-se dizer: Não deixe a sua escrita ficar no caminho da sua história. Mantenha-a simples. Mantenha-a clara. Mantenha-a em foco.

Charles Deemer

Au-au! 😄

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8 Comentários

  1. Oi, gostaria de agradecer pois o artigo me foi útil ! Obrigado, e parabéns pelo blog ! 😉

    Comentário por Alessandra.B.Rodrigues — 21/09/2011 @ 08:10

    • Oi, Alessandra, fico muito feliz que tenha sido útil! Não há de quê! E obrigada você, pela visita e pela força! =)

      Um abraço grande,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/09/2011 @ 22:20

  2. Ola, boa noite. Me chamo Ariane.
    Estou me aventurando no ramo de roteiros e como muitas outras pessoas, iniciantes como eu, sempre rola muitas duvidas, seu site é de muita ajuda, eu adoro estar sempre por aqui, lendo, relendo e aprendendo. Eu tenho uma duvida e gostaria de compartilha-la com você. Bom , á duvida é a seguinte: Temos que incluir no roteiro que iremos enviar para os produtores ou produtoras os diálogos de cada personagem ou só a história do filme, claro, incluindo personagens, cenários e outros detalhes. Desde já agradeço muito se tirar essa minha dúvida. Tenha uma boa noite.

    Comentário por jordanmadleybrasilevi — 21/09/2011 @ 20:44

    • Oi, Ariane! =)

      Que bom ter sempre a sua companhia por aqui, e que o blog esteja sendo útil, isso me alegra muito! 😀

      Em jargão de roteirismo, o que você deseja saber é se deve enviar o seu roteiro final ou apenas o argumento para os produtores. Bom, eu soube que as empresas produtoras têm aceitado somente as sinopses e os argumentos das histórias, juntamente com o currículo dos roteiristas. Algumas pedem que isso seja enviado apenas pelos empresários ou agentes dos roteiristas. Elas devem estar sobrecarregadas de solicitações para fecharem as portas assim. Para saber como mandar uma carta de solicitação, leia a nossa série “A Bíblia do Roteirista” (em várias partes), que tem bastante dicas sobre isso. Você pode encontrar esta série no nosso Índice de Posts no final desta coluna à direita do blog (os posts foram publicados entre novembro e dezembro de 2010), ou procurando pelo título no campo de pesquisa.

      Um grande abraço, Ariane, boa sorte e muito sucesso!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/09/2011 @ 22:34

  3. Curti!
    Muito bom!!

    Comentário por Brrrrrn — 21/09/2011 @ 21:24

    • Oi, Brrrrrn, que bom que gostou! Obrigadão pela força! 😀 Um beijo grande e sucesso!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 21/09/2011 @ 22:18

  4. Descrever um personagem é um erro? =P

    Comentário por Douglas Cavalcante — 23/09/2011 @ 12:29

    • Ah, mas é importante, sim, descrever bem um personagem. Creio que o que ele quis dizer é que devemos deixar o trabalho do figurinista para o figurinista, o do cenógrafo para o cenógrafo, e assim por diante. Se um objeto for importante para o personagem, por exemplo, o chapéu do Indiana Jones, do qual ele nunca se separa (e que foi um presente), isso deve entrar no roteiro pois ajuda a definir a personalidade e os sentimentos daquele indivíduo; mas caso aquele chapéu não faça falta nem diferença nenhuma, então não há necessidade de gastar espaço descrevendo-o.

      Um abração, Douglas! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 25/09/2011 @ 08:29


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