Dicas de Roteiro

15/09/2011

Filme Está Com Tudo

Filed under: Direção,Fotografia — valeriaolivetti @ 08:00
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Atendendo a um pedido, hoje eu estou traduzindo este artigo tirado do site da revista Movie Maker, de autoria de Bob Fisher. Note que ele foi originalmente publicado em 30 de novembro de 2009, portanto a opinião desses cineastas pode ter mudado, já que a tecnologia vem avançando a passos largos.

Guillermo Navarro

Por que os 10 maiores cinegrafistas do mundo ainda não acreditam na revolução digital

Leonard Shelby viu-se incapaz de dormir, atormentado por lembranças que ele nunca vai ter, aterrorizado com um futuro que ele iria, eventualmente, esquecer. O luar cobria as paredes do apartamento com um tom de melancolia que só as pessoas mais mal-assombradas podem realmente entender. A luz estava forte apenas o suficiente para Leonard folhear algumas fotografias, rezando que alguma imagem de uma memória pudesse ser recordada. Ainda assim, no fundo, ele sabia que eventualmente esqueceria; aquela tonalidade assustadora de azul, brilhando do lado de fora daquelas paredes, nunca tinha sido mais poética.

Felizmente, o cineasta Christopher Nolan e o seu diretor de fotografia de confiança, Wally Pfister, decidiram permanecerem fiéis à tradição, quando rodaram o suspense de 2000, Amnésia, em filme de 35mm de alta qualidade. Se Nolan tivesse sucumbido à nova onda de vídeo digital se espalhando até mesmo entre os mais ardentes tradicionalistas, os espectadores teriam se defrontado com uma silhueta de Leonard tropeçando no escuro, olhando profundamente Polaroides que eles apenas desejariam poder enxergar.

"O filme tem uma enorme gama de latitude de exposição [N.T.: Latitude: Quantidade possível de super ou subexposição sem alteração significativa da qualidade da imagem], o que nos dá flexibilidade criativa infinita", diz Pfister, que atualmente está colaborando com Nolan em A Origem, seu sexto empreendimento em conjunto. "Eu posso subexpor o filme três pontos [N.T.: Unidade de exposição. Uma alteração de um único ponto equivale a duplicar ou reduzir à metade a quantidade de luz que alcança o filme ou o sensor de imagem. A distância entre os ajustes-padrão de abertura (f/5,6, f/8 etc.) é um ponto completo. Fonte: O Novo Manual de Fotografia, de John Hedgecoe] e superexpô-lo cinco pontos dentro do mesmo quadro. Isso me permite registrar detalhes nas luzes mais brilhantes e nas sombras mais escuras – da forma como o olho humano as vê. Isso simplesmente não é possível em nenhum formato de vídeo."

"A gama de cores que você pode gravar com as melhores câmeras digitais também é uma piada quando colocadas frente a frente com o negativo 35mm", continua Pfister. "Por que alguém iria substituir um sistema de captura de imagem comprovado por uma tecnologia imensamente inferior está além da minha compreensão." Os seguintes nove Diretores de Fotografia concordam.

JOHN LEONETTI, ASC [American Society of Cinematographers] tem cerca de 30 créditos de direção de fotografia, mas cada projeto é uma nova aventura. Recentemente, ele completou a produção de seu primeiro filme em 3-D, Piranha 3-D, de Alexandre Aja, que foi produzido com uma única câmera em formato anamórfico de 35mm.

"Nós rodamos em filme por razões práticas e estéticas", diz Leonetti. "Houve apenas uma cena noturna; o resto eram principalmente exteriores diurnos filmados no Lago Havasu, no Arizona. Nós antecipamos temperaturas tão elevadas quanto 43 graus Celsius, o que teria causado problemas com câmeras eletrônicas; e uma plataforma de duas câmeras digitais 3-D teria limitado a nossa capacidade de manobra… Temos que nos lembrar que cinema é uma forma de arte, bem como um negócio, e nunca devemos comprometer a nossa capacidade de contar histórias."

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Plataforma de duas câmeras digitais 3-D

Invictus, uma dramatização da história real de como Nelson Mandela usou os jogos da Copa Mundial de Rugby de 1995 na África do Sul para reunir o povo de sua nação anteriormente dividida, marca a oitava colaboração entre Clint Eastwood e TOM STERN, ASC.

"Eu escutei a visão de Clint dos personagens e emoções, e escolhi a pintura certa para a minha paleta", diz Stern. "Cerca de metade das cenas são de ação de rugby não roteirizadas, filmadas em luz disponível. Steve Campanelli, o meu operador [de câmera], perseguiu a ação ou com uma câmera de mão ou com uma Steadicam. Filme nos deu a latitude que precisávamos para passar das sombras escuras à brilhante luz solar em um piscar de olhos."

JOHN FLINN, III, ASC, cresceu na indústria, já que seu avô e seu pai foram os executivos de estúdio. Flinn tem desempenhado várias funções, incluindo a de dublê, ator e diretor, além de rodar mais de 150 episódios de televisão narrativa e mais de uma dúzia de filmes para a TV. Ele ganhou sete indicações ao Emmy. O empreendimento mais recente de Flinn é a série "Saving Grace", que é produzida em formato de filme Super 16.

"Há algo em relação à química da película que ajuda a criar uma ilusão de fantasia", diz Flinn. "Eu sou transportado para um mundo imaginário, quando estou assistindo filme projetado em uma tela de cinema. É o mesmo sentimento que eu tinha quando meus pais liam contos de fadas para mim quando eu era criança. As imagens digitais têm uma espécie de realidade na-sua-cara, como assistir a um noticiário de televisão ao vivo. Não é o mesmo sentimento."

Cerca de 20 longas foram baseados em Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle, mas a última versão é a primeira colaboração entre o diretor Guy Ritchie e PHILIPPE ROUSSELOT, ASC, AFC [Association Française des directeurs de la photographie Cinématographique].

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Lâmpadas a gás de Londres

"Nós produzimos o filme no formato Super 1,85, porque queremos que o público veja as alturas dos edifícios que estavam a quilômetros de distância em segundo plano", diz Rousselot, que ganhou um Oscar por Nada É Para Sempre, e indicações adicionais por Henry & June e Esperança e Glória. "Durante os anos de 1870, Londres era iluminada com lâmpadas a gás e luzes de arco nas torres altas, o que criava um brilho azul desagradável. Não havia nenhum jeito prático de iluminar essas cenas, mas o filme nos deu a flexibilidade de filmar de dia como se fosse noite, sem comprometer a aparência. Nós demos os toques finais nessas cenas durante a regulagem de DI (Digital Intermediate) [N.T.: Finalização digital], tornando o céu mais escuro, transformando o sol em lua e brincando com os tons de nuvens e os reflexos no rio."

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Lâmpadas a Arco Voltaico

PETRA KORNER é uma estrela em ascensão na galáxia de diretores de fotografia. Ela ganhou cinco créditos em filmes nos últimos dois anos, incluindo sua colaboração com Wes Craven em A Sétima Alma. Ela foi a ganhadora do Women in Film Kodak Vision Award for Cinematography [Mulheres em Filme – Prêmio Visão Kodak de Direção de Fotografia] de 2009.

"Filme e vídeo são veículos diferentes", afirma Korner. "Vídeo é eletrônico ao invés de orgânico. Não é preciso o olho de um diretor de fotografia para ver isso. Filme é muito melhor em captar pontos altamente iluminados e reproduzir verdadeiros tons de preto. É nossa responsabilidade dizer aos produtores, diretores e à próxima geração que tudo o que eles têm de fazer é olhar os dois veículos lado a lado e tomar decisões bem informadas."

CALEB DESCHANEL, ASC, ganhou indicações ao Oscar por Os Eleitos, Um Homem Fora de Série, Voando Para Casa, O Patriota e A Paixão de Cristo. Ele compartilhou seus pensamentos sobre o filme em comparação com o vídeo, e sobre a nova geração de filmes KODAK VISION3 em particular, depois de colaborar com Nick Cassavetes em Uma Prova de Amor, no início deste ano.

"Eu amo a película modelo 5219 (500T)", diz Deschanel. "Ela capta mais detalhes das sombras e das áreas altamente iluminadas, e lhe dá muito mais margem de manobra para tomar decisões sobre o que o público vê e não vê. Houve momentos no filme onde queríamos que as coisas parecessem idílicas e fizessem o público pensar: ‘A vida não é grandiosa?’"

MICHAEL GOI, ASC, presidente da American Society of Cinematographers, colaborou com o veterano escritor Dan Gordon, que fez uma manobra rara no leme de Esperando Maria.

"Esta é uma história extremamente emocional", explica Goi. "O roteiro de Dan e o elenco maravilhoso merecem o visual quente de fantasia que só o filme transmite. Eu sugeri produzir Esperando Maria no formato Techniscope 2-perf [N.T.: Sistemas de câmera 2-perf usam somente duas perfurações por frame em películas de 35mm (ao invés das quatro usuais), o que dá uma proporção perto da de 2.39:1, usada em impressões anamórficas.] do qual Sergio Leone foi pioneiro na Itália há 40 anos. Isso tornou o filme de 35mm uma opção acessível para este projeto de baixíssimo orçamento."

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"Os Parques Nacionais: A Melhor Ideia da América" ​​é a 17ª vez em que BUDDY SQUIRES colaborou com Ken Burns em um documentário. Squires caminhou através de 57 parques nacionais com Burns, filmando com película em climas imprevisíveis, variando de neve e tempestades a brilhantes dias ensolarados. Em sua mochila, ele carregava a sua fiel câmera Aaton XTR, três objetivas, um tripé e um abundante estoque de filmes Super 16.

"Filme deu a latitude que precisávamos para gravar a natureza em seu melhor", diz Squires. "Isso foi importante, porque há uma pureza nos acidentes da natureza que você nunca poderia planejar. Um dia eu estava filmando um rio de lava fluindo de um vulcão e caindo de um penhasco no mar, quando notei que os raios do sol poente estavam dançando ao largo da rocha líquida vermelha e quente. Foi uma exibição primitiva de fogos de artifício criados pela natureza. Eu imediatamente virei a câmera para isso. As cores, os tons e as texturas que gravamos são a segunda melhor coisa depois de estar lá. O filme é um veículo comprovado de arquivo, e nós estávamos gravando a história sendo feita."

GUILLERMO NAVARRO, ASC, AMC [Sociedad Mexicana de Autores de Fotografía Cinematográfica], também salienta a importância da qualidade superior de arquivamento do filme. Ele tem cerca de 30 créditos em filmes de língua espanhola e inglesa e ganhou um Oscar por O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro.

"Nós sabemos sobre a história porque os nossos antepassados ​​esculpiram hieróglifos na Pedra de Roseta, esculpiram estátuas, escreveram histórias em pergaminho e inventaram a imprensa de Gutenberg", diz Navarro. "O filme é a Pedra de Roseta de nosso tempo. Nós temos a obrigação moral de preservar nossos filmes para as gerações futuras." MM

Para obter mais opiniões de outros grandes diretores de fotografia abordando o filme em comparação com a questão digital, visite a seção "Filme. Sem Comprometer a Qualidade." do site www.kodak.com/go/motion. [Este link parece não estar mais ativo. Procure em http://motion.kodak.com/motion/Products/Customer_Testimonials/index.htm]

woodstock film fest day 4

Boa filmagem pra você hoje! =)

1 Comentário

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