Dicas de Roteiro

08/09/2011

“Dez Regras Para Escrever Ficção”: Elmore Leonard

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 08:00
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Esta é a lista de dicas original (na verdade, o resumo de um livro) que inspirou todas as outras que temos publicado, tiradas do jornal britânico The Guardian:

Elmore Leonard's 10 Rules of Writing_cover

1. Nunca comece um livro com o clima. Se for apenas para criar uma atmosfera, e não uma reação de um personagem ao tempo, você não deve continuar por muito tempo. O leitor vai ficar inclinado a folhear em frente à procura de pessoas. Existem exceções. Se acontecer de você ser Barry Lopez, que tem mais maneiras do que um esquimó para descrever gelo e neve em seu livro Arctic Dreams, você pode fazer todos os relatórios de tempo que quiser.

2. Evite prólogos: eles podem ser irritantes, especialmente um prólogo após uma introdução que vem depois de um prefácio. Mas estes são normalmente encontrados em não- ficção. Um prólogo de um romance é uma história pregressa, e você pode jogá-la em qualquer lugar que você quiser. Há um prólogo em Sweet Thursday, de John Steinbeck, mas tudo bem, porque um personagem do livro defende o ponto a que as minhas regras se referem. Ele diz: "Eu gosto de muitos diálogos em um livro e não gosto de que ninguém me diga como o cara que está falando se parece. Eu quero descobrir como ele é pelo jeito que ele fala."

3. Nunca use um verbo além de "disse" para transmitir o diálogo. A linha de diálogo pertence ao personagem; o verbo é o escritor metendo o seu o nariz. Mas "disse" é muito menos invasivo do que "resmungou", "engasgou", "advertiu", "mentiu". Uma vez, eu notei Mary McCarthy terminando uma linha de diálogo com "ela asseverou" e tive que parar de ler e ir ao dicionário.

4. Nunca use um advérbio para modificar o verbo "disse"… ele admoestou gravemente. Usar um advérbio assim (ou de quase qualquer outra maneira) é um pecado mortal. O escritor está agora expondo a si mesmo a sério, usando uma palavra que distrai e que pode interromper o ritmo da troca. Eu tenho uma personagem em um dos meus livros que conta como ela costumava escrever romances históricos "cheio de estupro e advérbios".

5. Mantenha os seus pontos de exclamação sob controle. Você não tem permissão de usar mais de dois ou três a cada 100 mil palavras de prosa. Se você tem o dom de brincar com exclamações como o Tom Wolfe faz, você pode jogá-las lá aos punhados.

6. Nunca use as palavras "de repente" ou "o mundo desabou". Esta regra não exige uma explicação. Eu tenho notado que os escritores que usam "de repente" tendem a exercer menos controle na aplicação dos pontos de exclamação.

7. Use dialeto regional, interiorano, com moderação. Depois de começar a soletrar foneticamente as palavras dos diálogos e de encher a página com apóstrofos, você não será capaz de parar. Observe a forma como Annie Proulx capta o sabor das vozes do Wyoming em seu livro de contos Curto Alcance. [N.T.: Apóstrofo, segundo o dicionário Houaiss: sinal diacrítico freq. em forma de vírgula voltada para a esquerda, mas tb. reto, que, alceado a um nível superior ao das letras minúsculas, serve para indicar a supressão de letra(s) e som(ns) (como, p.ex., mãe-d’água, Vozes d’África etc.)].

8. Evite descrições detalhadas dos personagens, o que Steinbeck dominou. Em "Colinas Parecendo Elefantes Brancos", de Ernest Hemingway, como o "americano e a menina com ele" se parecem? "Ela tinha tirado o seu chapéu e colocado-o sobre a mesa." Essa é a única referência a uma descrição física na história.

9. Não entre em grandes detalhes descrevendo lugares e coisas, a menos que você seja Margaret Atwood e possa pintar cenas com a linguagem. Você não quer descrições que levem a ação, o fluxo da história, a uma paralisação.

10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular. Pense no que você pula ao ler um romance: parágrafos grossos de prosa que pode-se ver que tem palavras demais neles.

A minha regra mais importante é aquela que resume as 10: se soar como escrita, eu reescrevo.

Elmore Leonard's 10 Rules of Writing

Boa escrita pra você hoje! =)

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2 Comentários

  1. Desculpe, tradutor, mas ao procurar no Houaiss a definicao para apostrofos, voce esqueceu de esclarecer que os apostrofos a que o autor estava se referindo sao os apostrofos comumente utilizados na lingua inglesa escrita para reproduzir o som das palavras de dialetos, quase sempre modos de falar que suspendem letras em relacao ao ingles formal. Em Portugues Brasileiro dificilmente tal situacao ocorreria, porque nao costumamos usar apostrofos para reproduzir nossos coloquialismos.
    A regra 3 e 4 nao devem ser levada a risca quando se escreve roteiros, porque um roteiro limitado a “disse” e um roteiro pobre. Em roteiros, ao contrario, devemos procurar verbos que conferem significados a acao: “resmungou”, “engasgou”, “advertiu”, “mentiu”, “asseverou” e’ muito mais intenso que “disse”. Em roteiros cinematograficos, se escrever: “Ele engasgou” e’ melhor que escrever: “ele tossiu e engoliu as palavras ao dize-las”. A mesma coisa vale para adverbios. Se eles ilustram uma acao e dao conteudo as mesmas, melhor usa-los. O mesmo nao se pode dizer das locucoes adverbiais ou de verbos acrescidos de adverbios modificadores, que “alogam” o roteiro. Se voce pode “correr” nao deve escrever “ele anda velozmente” em roteiros.
    A regra 8 aplica-se parcialmente a roteiros. Embora nao queremos descricoes exageradas dos personagens, idade e duas ou tres caracteristicas fisicas acompanham sempre o NOME em maiuscula na primeira vez que o personagem aparece num roteiro.
    E por fim em roteiros temos muitos pontos de exclamacao, geralmente dentro dos dialogos, pois nestes ou se usa ponto final, ou reticencias, ou ponto de interrogacao ou ponto de exclamacao.
    Cheers

    Comentário por Regia Leila — 09/09/2011 @ 04:40

    • Oi, Regia Leila!

      Muito legais as suas observações, obrigada pela bela contribuição!

      Um abração,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 09/09/2011 @ 10:19


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