Dicas de Roteiro

06/09/2011

Dez Sugestões Para Escrever Uma História

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 17:00
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Hoje temos um representante brasileiro em nossas dicas! Smiley de boca aberta O autor, Rynaldo Papoy, é um escritor colega nosso (e também frequentador deste blog Gargalhando) que generosamente disponibilizou este texto bacana, pertinente e divertido que reproduzimos abaixo:

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1 – Toda história tem começo, meio e fim. Ou seja, a introdução (como a história começa), o desenrolar e o desfecho ou conclusão. Evite introdução da introdução, enchimentos de linguiça e conclusão da conclusão.

2 – Toda história ocorre num determinado local e numa determinada data.

3 – Todos os personagens devem ser basicamente descritos e deve-se estabelecer a importância deles na história.

4 – Deixe os diálogos para o cinema ou o teatro. Na literatura, a descrição da ação é mais funcional.

Por exemplo, no lugar de…

"- Oi. – eu disse, sorrindo.

– Oi. – ela respondeu, feliz."

Você pode dizer simplesmente "cumprimentamo-nos alegremente".

O diálogo, muitas vezes, como no texto acima, deixa o texto brega e cansativo, enquanto a descrição demonstra a habilidade do escritor e deixa para o leitor a possibilidade de imaginar a cena a seu bel-prazer.

5 – Evite cenas inúteis, como:

"Acordei, espreguicei-me, coloquei meus óculos, vesti a sandália, dirigi-me ao banheiro, fiz xixi, escovei os dentes, tomei um café, vesti a cueca, a calça, a camisa, o paletó, as meias e os sapatos, apaguei as luzes, fechei a porta, desci o elevador, entrei no meu carro, dei a partida e saí do prédio".

Muitos escritores descrevem minuciosamente o dia-a-dia dos personagens, mas isso é que chamo de "encher linguiça".

Mas também não seja tão lacônico:

"Manhã. Ponto de ônibus. Sol. Suor. Ônibus. Centro da cidade. Assalto. Tiros. Sangue. Pronto Socorro. B.O. Telefonema. Ônibus. Casa. Cama".

E deixe a filosofia de quinta categoria para os filmes alemães de quinta categoria…

"Olhando-na, no metrô, tive vontade de perguntar se ela sabia quem ela era. Para quê tinha vindo ao mundo. Qual seu lugar e seu papel na existência. Será que ela sabia que era um verdadeiro ser humano? Que sua vida não era só trabalhar e trabalhar e trabalhar mas sim, eu digo, sim, ela era uma pessoa importante para o planeta Terra! E afinal, o que aquela camiseta com a frase ‘100% Paraíba’ queria dizer?"

6 – Não repita termos…

"Eu disse a ela que eu gostava dela e ela me respondeu que ela também gostava de mim".

7 – Não abuse de termos difíceis, como "Intrujava como um aplacóforo dilatante". Ou metáforas banais, como "envelhecia no ponto de ônibus, esperando a rainha da beleza passar". Metáforas são para poetas (dos bons).

Termos estrangeiros são um pecado mortal…

"Chamei minha mother e pedi meu breakfast. Enquanto estivesse com minha leg esquerda broken, continuaria boring. – Merci. – falei a minha mãe, ainda una bela mujer, apesar da idade".

8 – Cuidado com clichês hollywoodianos.

"Nas minhas viagens entre Sertãozinho e Pirapora do Bom Jesus, nunca esquecia minha Glock 9mm".

Se o caminhoneiro tem uma Glock explique porquê.

9 – Surpreenda o leitor sempre. Não deixe que ele saiba o que vai acontecer na página seguinte ou no final.

10 – Não antecipe a emoção do leitor.

"O canalha do estuprador, absurdamente, fez outra vítima, coitada!  E todos no pobre bairro ficaram muito revoltados. Não era para menos! Mais um estupro! Brincadeira? Pena que no Brasil não exista pena de morte para acabar com esses miseráveis!"

Escreva simplesmente: "Na segunda-feira, à noite, ocorreu outro estupro". O leitor que forme sua própria emoção e avaliação moral.

Enfim, faça o feijão-com-arroz. Para fugir do feijão-com-arroz, só sendo gênio. Há poucos no mundo.

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Visite os blogs do autor Rynaldo Papoy para conhecer mais de seu trabalho:

http://roteiroshq.blogspot.com
http://zumbisilva.blogspot.com [contos]

E boa escrita pra você hoje! =)

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8 Comentários

  1. Amei. Muito obrigado mesmo por postar meu texto. Beijão!

    Comentário por Rynaldo Papoy — 06/09/2011 @ 17:11

    • Que bom que gostou, Rynaldo. 😀 E sou eu que agradeço pelo texto bacana! :mrgreen:

      Um beijo grande,
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 07/09/2011 @ 13:29

  2. Depois de colocar na minha cabeça que descrições devem ser específicas e apenas do que for necessário para um roteiro, pensar em escrever um romance com informações mais elaboradas e muitas vezes apresentando as emoções das personagens parece uma missão um tanto quanto difícil.

    Ótimo texto, btw (aqui ainda posso utilizar termos estrangeiros, certo? XD)

    Comentário por Fernando — 06/09/2011 @ 20:06

    • Oi, Fernando! 😀

      Sim, pode usar termos estrangeiros à vontade aqui. Rsrs!

      E eu sinto exatamente a mesma coisa. Já me disseram para desistir de escrever roteiros e ir escrever um livro, mas quando eu digo que são coisas totalmente diferentes, o pessoal fica me olhando como se eu estivesse louca ou falando grego. A maioria acha que escrever é botar palavras no papel, e pronto. “Conta uma história aí!” Ai, se fosse assim tão simples! Acho que podemos até escrever bons livros algum dia, mas teremos que reaprender a escrever histórias, mudar totalmente nossa abordagem e estilo, e essa seria uma desprogramação, para não dizer dolorosa, um tanto desconfortável. Não é algo que eu esteja disposta a fazer no momento não! Rs!

      Obrigadão, Fernando, pela visita, adorooo! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 07/09/2011 @ 13:40

  3. Olá, Valéria. Estou de volta!
    Eu estou com uma dúvida. Eu sei que Buffy the Vampire Slayer (série) foi baseado originalmente em um filme, mas eu queria saber quais são os perigos de basear um filme em uma série, ou vice-versa. Há algum perigo? Como se basea ? Porque acho que não é só pegar uma história de um filme.

    Um grande abraço.
    Igor.

    Comentário por Igor — 06/09/2011 @ 23:57

    • Oi, Igor, bem-vindo de volta! 😀

      Na verdade, Buffy foi um caso especial. O mesmo roteirista do filme foi o roteirista da série, Joss Whedon, e este foi o melhor exemplo de como os roteiristas (americanos, pelo menos) têm muito mais poder na TV do que no cinema. Whedon achou a adaptação para o cinema uma droga e foi para a TV tentar mostrar o tipo de suspense, terror e humor mais afiado que ele tinha em mente, longe daquela bobagem do longa-metragem. A série foi um sucesso e nos mostrou um novo estilo de narração de histórias. As histórias, os personagens, eram todos mais para a televisão, ali eles tiveram tempo de se desenvolverem, e envolverem o espectador.

      Para adaptar um filme para a TV é necessário pegar a ideia básica, os personagens e criar muito mais coisa para preencher o tempo de tela de um seriado. Vide a animação de Guerra nas Estrelas: Star Wars – Clone Wars. Tem muito mais histórias e personagens do que os filmes originais que o inspiraram. E para transformar uma série em filme é o desafio oposto: pegar os personagens principais já conhecidos e contar uma história interessante em apenas duas horas, condensando apenas os elementos mais interessantes e fundamentais neste tempo (sem querer contar tudo o que a série contou, longe disso).

      Pois é, Igor, se já é uma batalha escrever histórias originais, adaptações então… Quanto mais conhecidas forem, mais os fãs reclamarão da falta de fidelidade ao original (até porque fidelidade total neste caso é impossível — mas vai tentar explicar isso pro povo! Rs!). De qualquer forma, ainda estou devendo alguns textos sobre seriados (eu não esqueci!) e vou só terminar as séries que estou traduzindo agora, para voltar a eles em seguida. Pegando bem o estilo de escrita para a TV, adaptar não será muito mais difícil do que qualquer outro roteiro original.

      Um beijo grande, Igor, valeu mesmo pela visita! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 07/09/2011 @ 14:13

  4. Surpreender o leitor e não antecipar a emoção são as melhores dicas.
    Olha, depois de tanta coisa postada aqui, estou pensando seriamente em fazer um cartaz com uma compilação de dicas e prender à parede de meu quarto, para que nunca saiam da minha visualização…
    Obrigado pelos posts. :mrgreen:

    Comentário por Milton G. Machado — 07/09/2011 @ 20:33

    • Sabe que eu também estava pensando o que fazer pra lembrar de tantas dicas? Tá difícil, haja parede pra tanta coisa! Rsrs!

      E não há de quê, Milton, é sempre um prazer ter esta troca, eu ganho muito mais do que ofereço, pode acreditar! 😀

      Um beijo grande!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 08/09/2011 @ 11:02


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