Dicas de Roteiro

31/08/2011

Escreva Agora

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 13:53
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O artigo de hoje é de autoria do roteirista Danny Stack e foi tirado de seu blog, Scriptwriting in the UK:

Danny-Stack

Ninguém lhe pediu para ser um escritor. Ninguém se importa se você escreve ou não. Você pode receber incentivos e conselhos de familiares e mentores, com certeza, mas a decisão de seguir a vida literária só pode ser encontrada em um lugar. Felizmente, a escrita pode ser perseguida como um hobby, ou como um curso noturno, ou durante a pausa para o almoço. Portanto, se o seu desejo emocional básico de se expressar no papel pode ser alcançado e satisfeito enquanto ainda ganha R$ 4.500 por mês no escritório, então você encontrou um feliz equilíbrio entre as responsabilidades de rotina e os impulsos criativos que existem em sua personalidade. Mas se você tem uma necessidade mais profunda de escrever e pensar, muito possivelmente, você poderia ganhar a vida com isso, então precisa seriamente considerar empurrar-se a tentar ser bem sucedido como um profissional.

Esta não é uma escolha fácil. E a vida tem o péssimo hábito de ficar no caminho de seus melhores planos. Relacionamentos, dinheiro, saúde, crianças; as distrações e demandas diárias da condição humana. O esforço necessário para ser bem sucedido como um escritor profissional, de qualquer natureza, é enorme. Exige determinação constante; um desejo incansável de ter sucesso, uma crença inerente em si mesmo e em seu talento. E um pouquinho de sorte. É fisicamente e mentalmente desgastante. Isso desafia você em uma base diária. Porque você só tem a si mesmo em quem confiar. E você só tem a si mesmo a quem culpar. Tudo isso são motivos de crítica à sua decisão de desistir de seu trabalho, e quase tudo o mais, para que você possa escrever.

Seis anos atrás, eu desisti do meu trabalho diário. Eu sempre soube que queria escrever, e me sentia bastante confiante de que eu tinha o talento básico para fazê-lo. Trabalhar na mídia me deu a oportunidade de satisfazer a minha sensibilidade criativa sem realmente ter de me desafiar a criar o hábito de minha própria escrita. Mas isso me incomodava e eu sabia que tinha de fazer uma mudança. Mesmo quando eu desisti do meu trabalho no Channel 4, eu escolhi ‘editor de roteiros’ ou ‘desenvolvimento’ como o provável título do meu novo cargo. No meu primeiro ano sendo autônomo, o medo de não ganhar nenhum dinheiro e a minha insegurança básica de me tornar um escritor se estabeleceu. Como resultado, eu fiz bicos em dois programas de TV e editei roteiros de algumas animações curtas para o Channel 4. Eu percebi que tinha de abraçar plenamente a minha escolha se fosse algum dia realizar o meu sonho. Deste modo, a escrita tornou-se o foco.

A competição, no entanto, é ao mesmo tempo enorme e feroz. Há uma série de escritores talentosos por aí sendo rejeitados todos os dias. Para me dar uma chance, eu adotei a abordagem de Keyser Soze: "ele mostrou a esses homens de vontade, o que vontade realmente era." Eu ia fazer o que a maioria dos aspirantes a escritor não estavam preparados para fazer (seja lá o que fosse isso). Eu ia me jogar no processo com tanta disciplina, determinação e bom senso que as minhas chances de sucesso iriam imediatamente disparar só porque saí da cama de manhã. O meu trabalho no Channel 4 tinha me exposto ao fato de que um monte de roteiros estava mal escrito e os escritores estavam cometendo erros comuns. Eu decidi que precisava saber mais e descobri o que era que tinha de fazer que a maioria dos aspirantes a escritores não faziam. Eu tive que ler roteiros. Muitos deles.

Passaram-se seis anos. Meu Deus. Cinco, se você levar em conta aquele primeiro ano de distração em programas de TV. Dizem que leva 10 anos para se ter sucesso como escritor, mas eu estou indo bem. Tem sido uma viagem tão emocional, e continua a sê-lo. Dias ruins, dias de desespero, dias bons, dias ótimos. A primeira coisa que você pode esperar quando avança sozinho é que o telefone não vai tocar. E a tentação de assistir a vídeos e ligar o Playstation (e chamar isso de pesquisa) irá oprimi-lo. Mas você é um escritor agora, então você tem de escrever, e ser pago por isso ou, pelo menos, ser reconhecido.

Eu chorei feito um bebê quando fui pré-selecionado para um prêmio. Pré-selecionado. Eu nem tinha ganhado ainda (eu de fato o ganhei, eventualmente, você deve ter me visto então), mas a carta chegou em um momento especialmente vulnerável, e eu desmoronei. A minha primeira encomenda para a TV; urros de prazer, correndo ao redor do apartamento feito um doido (quando eu vi que o chão da cozinha precisava de uma esfregação, então eu fiz isso – o glamour muda rápido feito um interruptor). As dúvidas e inseguranças ainda existem, mas o meu conhecimento e experiência crescem. Eu tenho que fazer isso. Eu não sei o que mais eu poderia fazer agora. Eu leio roteiros e ensino roteirismo para ajudar a pagar as contas, mas este ano eu tenho sido capaz de diminuir ambos conforme o meu capacho torna-se um ponto habitual de pouso de cheques. Certamente, não há sensação melhor…

Começar a escrever

Boa escrita pra você hoje! =)

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13 Comentários

  1. Adorei essa parte: ‎”Ninguém lhe pediu para ser um escritor. Ninguém se importa se você escreve ou não. […] Mas se você tem uma necessidade mais profunda de escrever e pensar, muito possivelmente, você poderia ganhar a vida com isso, então precisa seriamente considerar empurrar-se a tentar ser bem sucedido como um profissional.”

    O texto também me fez pensar sobre como muitos escritores se sentem intimidados e diminuídos pelo o talento dos outros. Mas é tudo uma questão de ponto de vista. Ao invés de olhar para a “concorrência” com receio, é preciso aprender a olhar com admiração.

    Obrigado por mais um texto bacana! 🙂

    Diego

    Comentário por Diego — 31/08/2011 @ 16:39

  2. Obrigada por disponibilizar este texto!!!

    Comentário por Fau Ferreira — 31/08/2011 @ 16:44

  3. Certamente Danny Stack!… Beijão Valéria!

    Comentário por januária — 01/09/2011 @ 11:24

  4. Oi, Diego, Fau e Januária!

    Que bom que vocês gostaram! Espero que este texto incentive vocês a se dedicarem de corpo e alma à paixão pela escrita, que isso com certeza vai render muitos e incríveis frutos num futuro bem próximo. Eu estou aqui na torcida!

    Um beijo grande, e obrigadão pela visita! =D
    Valéria Olivetti

    Comentário por valeriaolivetti — 01/09/2011 @ 13:00

  5. Para quem quer ser roteirista tem que mergulhar de cabeça mesmo. Tem que gostar de escrever e ter paciência, pois nada vai acontecer de uma hora pra outra. São muitos momentos de dúvida, vontade de jogar tudo pro alto. Mas, se é o que você gosta de fazer tem que continuar tentando. Com certeza os momentos de sucesso e alegria trarão uma felicidade de intensidade muito maior.

    Valéria, uma perguntinha: você sabe quantos e quais filmes existem sobre roteirista. Ou seja, com um personagem que exerça ou sonhe em exercer esta nobre profissão?

    Isso, se você souber, seria um bom assunto para um post no blog. Lógico, se já não tiver sido feito.

    Abraços.

    Comentário por Paulo Henrique — 01/09/2011 @ 13:19

    • Oi, Paulo Henrique!

      Essa ideia para um post é super bacana, mas infelizmente eu não lembro de nenhum filme sobre roteiristas além do famoso Adaptação, com Nicolas Cage. Sobre escritor, eu lembro de O Escritor Fantasma, com o Ewan McGregor e de A Janela Secreta, com o Johnny Depp. Eu tenho certeza de que já assisti vários filmes com escritores e roteiristas, mas agora só me lembro desses. Ah, tem também O Jogador, que fala um pouco sobre roteiristas, mas do ponto de vista de um produtor. E é só. No entanto, aqui fica o convite para quem quiser acrescentar mais títulos: é só comentar! Aí, quem sabe, teremos filmes suficientes pra fazer um post sobre o assunto, né?

      Um abração, Paulo Henrique, e muito obrigada pela sugestão! =)
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 01/09/2011 @ 18:54

  6. Oi Valéria!

    Realmente é muito pequeno o número de filmes sobre roteiristas. Mas, após uma pequena pesquisa, achei alguns:

    Crepúsculo dos Deuses (EUA, 1950) Drama. Dir. Billy Wilder
    No Silêncio da Noite (EUA, 1950) Drama. Dir. Nicholas Ray
    Asas de Águia (EUA, 1957) Drama. Dir. John Ford
    Quando Paris Alucina (EUA, 1964) Comédia Romântica. Dir. Richard Quine
    Memórias (EUA, 1980) Comédia. Dir. Woody Allen
    A Musa (EUA, 1999) Comédia. Dir. Albert Brooks
    Parece, mas não é (EUA, 1999) Comédia. Dir. Jeff Franklin
    Cine Majestic (EUA, 2001) Drama. Dir. Frank Darabont
    Passaporte para a Vida (França, 2002) Drama. Dir. Bertrand Tavernier
    Luzes, Câmera, Ação! (EUA, 2004) Comédia. Dir. Jeff Nathanson
    Um Sonho Dentro de um Sonho (EUA, 2007) Drama. Dir. Anthony Hopkins
    Paranóicos (Argentina, 2008) Comédia. Dir. Gabriel Medina
    Estranhos Normais (Itália, 2010) Comédia. Dir. Gabriele Salvatores
    Tudo Ficará Bem (Dinamarca, Suécia e França, 2010) Drama/suspense. Dir. Christoffer Boe

    Bom! Alguns desses filmes me parecem muito interessantes.

    Um grande abraço.

    Comentário por Paulo Henrique — 02/09/2011 @ 14:40

    • Oi, Paulo Henrique! 😀

      Muito bacana a lista, você fez uma boa pesquisa. Desses, eu acho que só assisti o Crepúsculo dos Deuses. Já copiei essa lista pra procurar e assistir todos eles, que agora eu fiquei curiosa! :mrgreen:

      Valeu pela dica, gostei mesmo!

      Um abração!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/09/2011 @ 09:57

  7. De nada e sucesso para nós, Valéria! Sugestão para post: Como escrever para atores notáveis. Sugiro,
    Bette Davis, que tal?!

    Comentário por januária — 02/09/2011 @ 17:16

    • Oi, Januária! =)

      Mas o objetivo de todo roteiro é exatamente ser escrito para atores notáveis! A gente não pode se nivelar pelo menor denominador comum, mesmo que os atores que terminem fazendo nosso filme/seriado/novela sejam terríveis. O problema é a gente escrever para atores terríveis e o roteiro acabar nas mãos de atores incríveis. Ao lerem o roteiro, eles não vão querer fazê-lo de jeito nenhum! Então o ideal é a gente sempre dar o melhor de si para fazer uma história que possa ser interpretada pelo elenco de nossos sonhos. Se ela será ou não, isso não vai depender de nós, e a nossa parte nós já fizemos! :mrgreen:

      Um beijo grande!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 03/09/2011 @ 10:04

      • Tem razão Valéria! Nós que temos a proposta de escrever, devemos considerar os imprevistos, é uma loteria o ser humano é uma loteria, devemos jogar a chave para aquele determinado ator saber melhor fazer com ela! Cabe a nós criar o fator intrigante para atrair quem se vê desafiado no papel que lhe é apresentado, sendo não necessariamente aquele ator que imaginamos fazer o papel!… Beijão Valéria!

        Comentário por januária — 04/09/2011 @ 16:05

  8. Maravilhoso esse texto!!
    Super incentivador!!

    Sempre nos surpreendendo, hein Valéria??

    Bjs!!

    Sucesso para todos nós! 😉

    Comentário por Marcia Fr. — 14/09/2011 @ 14:39

    • Puxa, Marcia, assim eu fico até vermelha! 😳 :mrgreen:

      Me alegra demais que este texto tenha te incentivado, esse é o meu maior pagamento! 😀

      Um beijo grande!
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 15/09/2011 @ 09:10


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