Dicas de Roteiro

26/08/2011

Flashbacks!

Filed under: Roteiro — valeriaolivetti @ 19:15
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O artigo de hoje é do roteirista William C. Martell, tirado do site dele, Script Secrets:

flashback!

O problema é que um roteiro é como um tubarão – ele tem que estar movendo-se para frente ou morre. Quando você pensa sobre flashbacks em filmes, o que eles fazem é mover a história adiante… e não preencher um pouco do passado. O flashback em CÃES DE ALUGUEL é um bom exemplo – o Sr. Laranja está sangrando no chão após o roubo dar errado… todos ao redor dele, os outros assaltantes estão apontando armas uns para os outros e acusando-se mutuamente de informar a polícia – como a polícia chegou lá tão rápido? Agora temos o flashback do Sr. Laranja… ele é um policial disfarçado. Agora, nós podemos estar voltando no tempo, mas o Sr. Laranja ser um policial disfarçado AGRAVA O CONFLITO – eles vão matá-lo se descobrirem! Ele não pode correr, ele levou um tiro. Assim, cada pedaço daquele flashback move a história adiante –estamos descobrindo mais e mais informações que tornam a situação presente muito pior. O flashback move a história adiante – não está preenchendo um buraco do enredo.

A Vida de David Gale

A VIDA DE DAVID GALE é um exemplo clássico de como NÃO usar flashbacks. Uma repórter jovem e ambiciosa (Kate Winslet) consegue uma entrevista com David Gale (Kevin Spacey), um professor universitário e ativista anti-pena de morte, que será executado no final da semana. A ela será dada uma entrevista em cada um dos três últimos dias de sua vida. Winslet e as entrevistas tornam-se desculpas para flashbacks dos acontecimentos que levaram à condenação de Gale. Os dois primeiros flashbacks referem-se à vida de Gale como um professor universitário… como ele teve um caso com uma aluna que lhe custou o seu emprego e o seu casamento. Como ele caiu no alcoolismo. Como ele não conseguiu manter nem mesmo os mais simples empregos. Como ele perdeu quase todos os seus amigos e acabou como um bêbado sem-teto.

Ok – alguns de vocês podem estar se perguntando o que isso tem a ver com estar no corredor da morte. E essa é uma boa pergunta. O primeiro problema é que estes dois flashbacks não têm nada a ver com a história de um homem no corredor da morte. Embora estes eventos proporcionem uma desculpa para a razão de um júri condenar um homem inteligente e articulado por assassinato quando não há quase nenhuma evidência – os flashbacks são chatos e não mudam a história ATUAL em nada. No final de cada flashback Gale ainda está no corredor da morte e nós não aprendemos nada que possa ajudar no seu caso. Você pensaria que um cara com apenas três dias de vida iria direto ao ponto! Como os flashbacks não têm impacto nenhum sobre os acontecimentos presentes, eles são inúteis. Eles não movem a história para a frente, eles apenas desperdiçam o nosso tempo. Nós passamos a conhecer quem David Gale é… mas é a história de vida de um professor universitário que estraga a sua vida. Não é a história mais emocionante do mundo. Os primeiros dois terços são como sentar-se ao lado de alguém em uma longa viagem de avião que insiste em contar-lhe sobre sua vida em Topeka. Quem se importa?

O terceiro flashback é aquele com todo o material da história. É aqui onde nós finalmente chegamos ao assassinato e à condenação por homicídio. Mas, apesar de Winslet chegar a vasculhar uma casa e encontrar uma fita de vídeo, e correr por toda a cidade para tentar suspender a execução por causa da nova evidência… o curso da história não muda realmente. A situação no final do terceiro flashback é EXATAMENTE IGUAL à situação no início do filme… tornando todos os flashbacks (e o próprio filme) sem sentido. Os flashbacks não mudam a história de nenhuma maneira – eles não nos dão qualquer informação que não poderíamos ter adivinhado a partir da premissa em si (muitas pessoas adivinharam), e dois dos flashbacks são apenas para matar o tempo. Um flashback precisa MOVER A HISTÓRIA ADIANTE. Um flashback precisa MUDAR a situação presente. Estes flashbacks só desperdiçaram o nosso tempo.

Os roteiros são contados no presente do indicativo, portanto as histórias contadas nos roteiros geralmente ocorrem no presente – nós vemos a história se desenrolar conforme ela está acontecendo. Flashbacks não são sobre o passado, eles são sobre a história do tempo presente. Se eles não mudam a história do tempo presente, eles estão, provavelmente, ou tampando um buraco no enredo ou são alguma forma de “Reviravolta no Enredo de Novela de TV Americana”.

HISTÓRIA PREGRESSA?

Ei, mas e se esse flashback fornecer uma história pregressa crucial? Bem, onde você coloca a sua história pregressa vai depender de onde ela move a história para a frente –isso pode significar que ela é a cena de abertura! Ou pode aumentar o conflito se você guardar essa informação e revelá-la mais tarde.

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Se você tem 7 histórias pregressas diferentes que são de fato matéria de origem e, portanto, precisam ser estabelecidas antes que a história comece… você está em apuros. Digamos que a sua história seja sobre 7 pessoas que foram ferradas por George Lucas enquanto ele galgou seu caminho até o topo, e que decidem se unir e matá-lo na pré-estreia do filme de animação CLONE WARS. O problema é que você precisa estabelecer as suas motivações antes que a história comece, pois a revelação de que o Personagem nº 3 foi o editor que disse que "R2-D2 seria um grande nome para um robô!" não aumenta o conflito em nada. Então você tem que começar com estas 7 histórias… e cada uma terá de estabelecer a relação entre o personagem e Lucas, de modo que a facada-nas-costas-a-caminho-do-topo seja uma traição real. Isso não é como os trechos que temos em O COMBOIO DO MEDO, que só precisam nos mostrar por que aqueles caras estão quebrados na América do Sul… cada uma dessas coisas de Lucas é a sua própria história. Então, o início do seu roteiro vai ser de 7 histórias que precisam ser contadas antes que você possa chegar à história VERDADEIRA – matar George Lucas. Se cada uma destas histórias forem cortadas para 12 minutos – e vai ser difícil estabelecer o vínculo de amizade e o modo como ela é traída em tão pouco tempo – você tem 84 minutos antes mesmo de poder chegar à história verdadeira! Se você for um maldito gênio e conseguir que essa história de amizade e traição tenha até 5 minutos cada, você ainda está com 35 minutos de matéria de origem antes mesmo da história começar! Assim, uma história como esta está mais adequada para um formato onde você possa gastar mais tempo com a história de origem – como um romance.

O Comboio do Medo

O problema em usar um flashback apenas para revelar o passado é que ele está só tapando um buraco do enredo – é “reboco de roteiro”. Se precisamos conhecer este pedaço de história pregressa a fim de entender a história do tempo presente, mas essa história pregressa tem zero impacto sobre a história do tempo presente – isso é o clássico tapar buraco de enredo. Você precisa estabelecer qualquer história pregressa que seja exigida muito mais cedo – o Ato I é o Ato de Apresentação. Geralmente você quer plantar estas informações o mais cedo possível, e talvez até mesmo usar a "regra de três" e reapresentar as informações uma segunda vez em algum lugar da história para que o público simplesmente conheça-as, sem fazer grande rebuliço sobre isso… e usar qualquer "revelação", já que a terceira vez é que rompe o padrão. Quando você apresenta informações – em um flashback, logo antes daquilo se tornar importante para a história, parece que você está inventando enquanto avança (e não num bom sentido), e a história parece falsa. Você quer que a história pareça como se estivesse se desenrolando naturalmente… e não que o escritor teve que voltar e acrescentar um trecho para que ela fizesse sentido.

Coisas que aconteceram no passado, antes da sua história começar, só são importantes se elas causam impacto na história atual – se mudam a história atual. Usar flashbacks como "reviravoltas de novela americana" – onde uma pequena informação chocante sobre o passado de um personagem é revelada e que não muda a história atual em nada também é uma perda de tempo. Claro, isso pode dar um susto no público – mas assim como aquelas reviravoltas no enredo de uma novela de TV americana ("Ele… era… o meu… namorado!") eles acabam por ser bobos e exagerados, porque não têm nenhum significado real. A história continua a mesma. Se essa informação mudar a direção da história do tempo presente, tudo bem – mas se for apenas informação revelada que não importa… ela não importa.

FLASHBACKS MOVEM A HISTÓRIA PARA A FRENTE – ELES NÃO VOLTAM & TAPAM BURACOS DO ENREDO.

ENQUADRADO!

Pacto de Sangue

Um roteiro é contado no presente do indicativo e é sobre coisas que estão acontecendo agora… mas existe uma ótima pequena "trapaça" chamada de "dispositivo de enquadramento", que é frequentemente usada em filmes que podem começar um pouco lentos. Dois grandes exemplos são PACTO DE SANGUE e CREPÚSCULO DOS DEUSES – ambos começam pelo final e então fazem um "flashback" para o começo. O negócio sobre esta técnica é que, após aquela cena inicial, o resto do filme acontece numa forma de tempo presente… onde o conflito da história está. Em PACTO DE SANGUE, o protagonista Walter Neff está sangrando até a morte e liga o seu ditafone para gravar a sua confissão… e depois todo o resto do filme é o que o trouxe a este ponto no tempo. Assim, mesmo que tecnicamente seja um flashback, é o desdobramento da história em um período de tempo. Não há flashbacks dentro desse flashback. CREPÚSCULO DOS DEUSES abre com o protagonista morto – flutuando em uma piscina, enquanto os paparazzi tiram fotos suas… e então nós voltamos em flashback para como ele veio a ser morto. Mas, uma vez que voltamos ao passado, ficamos no passado. O modo como estas histórias funcionam é que, eventualmente, nós atravessamos a história até chegarmos àquele ponto onde começamos (o fim) e então temos um pequeno trecho da história (ou não, no caso de CREPÚSCULO DOS DEUSES). Estes não são realmente flashbacks, porque eles contam a história toda. Só para lançar um outro exemplo, o ATÉ A VISTA, QUERIDA abre com Marlowe sendo interrogado pela polícia – olhos com bandagens e cego. Muitas pessoas foram assassinadas e a polícia acha que ele pode ser o responsável. Então, conforme Marlowe "confessa", nós voltamos ao começo da história e ela é contada naquela versão do "presente" até chegarmos à delegacia de polícia nessa versão do "tempo presente" – a nossa história fez a volta completa para o começo! Então temos aquele minuto ou dois de "rabicho" no final. Como os dois filmes de Billy Wilder, este é um flashback apenas tecnicamente, já que apenas 1% da história se passa no presente. Os outros 99% ocorrem no mesmo período de tempo, conforme a história se desenrola como qualquer outra história se desenrolaria. Geralmente isto é feito quando uma história começa lenta, para dar uma pista para a plateia de que há coisas interessantes por vir, e/ou construir um mistério (como o Marlowe ficou cego?). Esta é uma grande técnica para a caixa de ferramentas.

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Eu suspeito de que esta pode ser a ideia por trás dos flashbacks em DAVID GALE, exceto que o problema com que eles se depararam foi que nada acontece nos dois primeiros flashbacks – os dois primeiros terços do filme – então eles tiveram que voltar para o elemento do Corredor da Morte para nos lembrar por que devemos nos importar. Mas o problema é que nada acontece durante dois terços do desgraçado do filme, e nenhuma quantidade de flashback artificial vai torná-lo mais interessante. Este é um problema de história que não pode ser resolvido com a técnica de "enquadramento". Se você observar os dois filmes de Billy Wilder e o ATÉ A VISTA, QUERIDA, uma vez que passamos o "quadro" inicial de abertura, a história realmente começa – muitas coisas interessantes acontecem. O problema com DAVID GALE é que quando temos flashback, nada acontece. Nada acontece por dois terços do filme! É todo o tipo de história pregressa chata. Compare isto com o ATÉ A VISTA, QUERIDA, onde há uma arma e uma ameaça no momento em que voltamos em flashback… ou com o PACTO DE SANGUE, onde vamos diretamente para Neff e Phyllis se encontrando e flertando e falando sobre a política de um seguro de vida para o marido que ela não ama mais… ou com o CREPÚSCULO DOS DEUSES, que tem o nosso protagonista correndo dos caras de reintegração de posse de propriedade que estão atrás de seu carro porque ele é um roteirista falido. E mesmo depois que voltamos para a história, não há escassez de conflito e emoção. O problema com DAVID GALE é que nada acontece até o último terço (ou menos) da história, então aqueles dois flashbacks iniciais são apenas para matar o tempo. Esta é uma história com sérios problemas de estrutura, e esses não podem ser resolvidos com um dispositivo de enquadramento.

murder_my_sweet

 

Quando você usa um dispositivo de enquadramento, o conflito vivo e ativo naquele "passado" – uma vez que voltamos e nos envolvemos na história, nós ficamos lá e lidamos com aquele conflito até que ele esteja resolvido. O problema com DAVID GALE é que mesmo quando voltávamos para o "passado", não havia conflito… o único conflito na história é que ele está no corredor da morte. Portanto, o flashback é apenas expositivo, e não só não muda o conflito do presente momento… como não há conflito no passado também! O único conflito na história é a execução – e esse é um conflito morto. Ele não pode ser mudado. Você quer encontrar um conflito que esteja ativo e vivo, e não morto. Toda vez que você tem um conflito onde a resolução está gravada na pedra, ele está morto, Jim. Se cada um dos flashbacks em DAVID GALE estivesse cheio de conflitos e reviravoltas e coisas acontecendo, o filme teria funcionado. Em vez disso, toda vez que saíamos de um flashback… estávamos no mesmo lugar exato e nenhuma coisa tinha mudado.

E a história parece parada e morta.

LISTA DE CHECAGEM DE SEU ROTEIRO:

  • Qual é o impacto de seu flashback na história do tempo presente?
  • O flashback aumenta o conflito, ou apenas dá informações?

Um roteiro é como um tubarão – a história deve estar sempre movendo-se para frente… mesmo quando é um flashback.

ARKive image GES070610 - Blue shark

Boa escrita pra você hoje! =)

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3 Comentários

  1. Olá! Valéria, uma duvida! Se eu começo uma história com Flashback!
    Tenho que colocar Flashback Para?

    Att Douglas Cavalcante

    Comentário por Douglas Cavalcante — 29/08/2011 @ 22:55

    • Oi, Douglas!

      Não, porque isso não é um flashback. O flashback é uma volta ao passado. Para voltar ao passado precisamos mostrar antes cenas no presente.

      Neste caso você está seguindo a ordem correta, começando pelo passado e depois seguindo para o presente. Você deve colocar no cabeçalho, por exemplo:

      EXT. ESTÁDIO DE FUTEBOL – DIA (1998)

      e quando ir para o presente, fazer o mesmo:

      INT. SALA DE ESTAR – DIA (2011)

      Então saberemos que o tempo passou. É até mais simples do que flashback!

      Um abração, Douglas, espero ter explicado direito! :mrgreen:
      Valéria Olivetti

      Comentário por valeriaolivetti — 30/08/2011 @ 08:37


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